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Química internacional

Fábio de Castro - Agência Fapesp - 16/08/2011

Teve início nesta segunda-feira (15/08) a programação da Escola São Paulo de Ciência Avançada em Química, realizada na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) no âmbito da Escola São Paulo de Ciência Avançada (ESPCA), modalidade de apoio da FAPESP.

Reunindo uma centena de estudantes de pós-graduação, sendo 50 deles estrangeiros, e 20 dos principais especialistas do mundo em áreas como química medicinal, síntese orgânica e produtos naturais - quatro deles laureados com o Prêmio Nobel -, o evento é coordenado por Vanderlan Bolzani, professora da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e membro da coordenação do programa BIOTA-FAPESP.

De acordo com Ronaldo Pilli, pró-reitor de Pesquisa da Unicamp e membro do comitê científico da escola, o evento dá aos jovens pós-graduandos a chance de conhecer de perto o trabalho de alguns dos principais cientistas da atualidade, além de entrar em contato diário com eles, conhecer mais sobre sua trajetória profissional, saber o que os levou a abraçar a carreira acadêmica e como surgiram as ideias que garantiram o reconhecimento mundial a eles.

"Para quem está no início de sua trajetória acadêmica, isso é um marco. É algo que irá durar a vida inteira e deverá estimular esses jovens estudantes a se animarem em busca de objetivos maiores em suas vidas profissionais", disse à Agência FAPESP.

Além disso, segundo Pilli, o evento deverá mostrar aos estudantes estrangeiros e de outros estados todo o potencial que São Paulo oferece para desenvolver pesquisa de alta qualidade.

"Nossos visitantes estão realmente surpresos com o bom nível dos trabalhos e com as condições dos laboratórios e da infraestrutura que as universidades oferecem aos seus pesquisadores", disse.

Segundo ele, trata-se também uma maneira de reforçar o quadro de pesquisadores qualificados no Estado de São Paulo. "Queremos mostrar que o estado oferece ótimas oportunidades, com apoio da FAPESP e das agências federais. Estamos em um momento bastante promissor para que consigamos atrair pessoal do exterior, até mesmo em virtude das condições da economia mundial", destacou.

Pilli afirma que atrair estudantes estrangeiros é fundamental para fortalecer a ciência brasileira. "Só uma ciência internacionalizada pode ter excelência. Por outro lado, a ciência de altíssimo nível também precisa ser multidisciplinar. A escolha dos temas da ESPCA levou isso em conta", disse. O subtítulo da ESPCA de Química é: "Produtos naturais, química medicinal e síntese orgânica - Soluções integradas para o mundo de amanhã".

A área de produtos naturais no Brasil, segundo ele, é um dos setores de destaque no cenário internacional. "O país tem a maior biodiversidade do planeta, ainda pouco explorada e que poderá nos levar a dar, no futuro, contribuições significativas em termos mundiais. Para isso será preciso nos apropriarmos de maneira inteligente desses recursos", disse.

A química medicinal, dedicada ao desenvolvimento de novos fármacos, é uma área pujante no Brasil, segundo ele. Mais da metade dos fármacos hoje no mercado são provenientes de produtos naturais ou inspirados neles, de acordo com Pilli.

"Por outro lado, a síntese orgânica se ocupa de desenvolver processos para a produção em escala de qualquer coisa que seja de interesse da tecnologia. Pouquíssimas vezes a natureza nos oferece algo de alto valor agregado e de grande importância para a sociedade em quantidade suficiente para suprir a demanda. Se uma molécula nova leva a um novo fármaco, é preciso dar um jeito de produzi-la em grande escala e a síntese orgânica está aí para isso", afirmou.

De acordo com Glaucius Oliva, presidente do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e também membro do comitê científico da escola, o evento traz aos jovens brasileiros e estrangeiros a oportunidade de interações a longo prazo com grupos do exterior.

"Essa iniciativa da FAPESP de criar esse ciclo de escolas de ciência avançada é fantástica, por reunir jovens cientistas talentosos do Brasil e do exterior a alguns dos principais cientistas de sua área. Não vejo maneira melhor de promover a internacionalização da ciência e gerar pesquisa de impacto", afirmou.

Segundo Oliva, o contato com os cientistas consagrados também é importante para desmistificar a ciência como algo inatingível. "Os estudantes precisam ver que é preciso ter ousadia. E é o que eles viram na palestra da Ada Yonath, por exemplo", disse Oliva, referindo-se à cientista israelense que ganhou o Prêmio Nobel da Química em 2009 pela descoberta da estrutura molecular dos ribossomos.

"Yonath começou a pensar em cristalizar um ribossomo para encontrar sua estrutura quase 30 anos atrás. Durante 20 anos, não obteve nenhum resultado positivo. A chance de ela ter desistido no primeiro ano era enorme. Os recursos eram limitados. Não havia apoio, porque ninguém acreditava que seria possível fazer o que ela fez", afirmou.

Segundo ele, enquanto os cientistas sofriam para resolver, com cristalografia, estruturas de proteínas de 20 ou 30 quilodaltons, Yonath conseguiu resolver a estrutura dos ribossomos, de 2,5 milhões de daltons.

"É fundamental poder mostrar a esses jovens esse exemplo de tenacidade em ciência, para que eles percebam o que é ser persistente em busca de um sonho", afirmou.

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