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Paris poluída: como o ar da cidade luz virou uma sopa tóxica

Vanessa Barbosa - Exame.com - 19/03/2014

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[box-leia]Quem tem carro em Paris só vai poder tirá-lo da garagem dia sim, dia não. A medida emergencial para combater a poluição era para durar um total de cinco dias. Mas o rodízio, adotado nesta segunda-feira, deve ser suspenso até a meia-noite local, apontam informações mais recentes da imprensa francesa.

A mudança às pressas na agenda é justificada, pela pasta ambiental francesa, por uma “clara tendência de melhora na qualidade do ar”.  Para críticos do governo, a suspensão da medida tem a ver com a impopularidade crescente da restrição entre os próprios franceses, em pleno ano eleitoral.

Não só isso. Na esteira dos debates sobre a poluição, começou a ganhar força nos jornais uma polêmica antiga – os subsídios ao diesel. O momento não poderia ser mais oportuno. Mesmo ações de combate adotadas pelo governo tornaram-se alvo de críticas.

Na última sexta-feira, o tradicional jornal francês Le Monde criticou o plano de transporte gratuito, implementado neste fim de semana, como “ tímido” e logo colocou o dedo na ferida.

O atraso na tomada de decisão, disse o periódico “é reflexo de 20 anos de inércia da França, que recai sobre todos... e do lobby da indústria automotiva, que abrange motorista, sistema operacional, fabricantes de veículos movidos a diesel, que tem sufocado o debate sobre a legislação”.

DIESEL: DA SALVAÇÃO À POLUIÇÃO
A ofensiva não é gratuita. Paris é mais propensa à poluição do que outras capitais europeias por causa dos subsídios ao diesel, que produz sete vezes mais poluentes nocivos à saúde do que a gasolina.

Em verdade, a França vive uma história de amor com o diesel que vem de longa data. Uma reportagem do site Huffington Post traça as raízes da poluição francêsa às políticas de estímulo econômico rural do pós-guerra implementadas pelo governo.

As medidas buscavam incentivar a recuperação do campo (cerca de metade da população francesa vivia na zona rural na época), tornando o diesel para máquinas agrícolas e caminhões mais barato. Impostos e taxas sobre combustível foram reduzidos e continuam a ser facilitados ainda hoje. Para se ter uma ideia, a redução de impostos sobre o diesel custou à economia francesa quase 8 bilhões de euros em 2011 (cerca de 26 bilhões de reais).

Naturalmente, isso gera um efeito dramático sobre o mercado de automóveis no país. Em 2011, carros a diesel representaram 70% das vendas de automóveis por lá. Numa cidade onde 60% da frota de carro é movida a esse combustível, não é de causar suspresa o quadro explosivo que resulta da combinação entre as emissões locais do transporte e um clima que impede a dissipação de poluentes.

Após uma semana de dias muito ensolarados e noites frias, muito do ar da França – e não apenas de Paris – tornou-se uma espécie de sopa tóxica. A mudança brusca de temperatura exacerbou o problema, criando uma bolha que impede que o ar poluído seja dissipado.

Combalida, a atmosfera parisiense conseguiu eclipsar até mesmo o arpocalipse chinês, roubando as manchetes mundiais, ainda que por um único dia. Na última sexta-feira, os níveis de poluentes em suspensão da cidade superaram aos da capital chinesa, Pequim.

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