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pós vazamento de petróleo

'Não está tudo bem', diz biólogo que estuda Golfo do México

Gabriela Loureiro - Veja - 26/04/2011

O desastre do Golfo do México, que completa um ano nesta quarta-feira, não é o primeiro derramamento catastrófico de petróleo dos Estados Unidos. Em 1989, o navio Exxon Valdez, da petrolífera Esso, chocou-se na praia de Prince William, no Alaska, e derramou 41 milhões de litros de óleo em uma área de vida selvagem. Desde então, cientistas americanos estudam como a vida marinha se adapta a esses desastres. Um dos mais importantes é o biólogo Charles Fisher, professor da Universidade da Pensilvânia, que vem realizando expedições ao Golfo do México para estudar a vida no fundo do mar depois da explosão da plataforma Deepwater Horizon, da British Petroleum, que derramou 779 milhões de litros. Ele tem observado transformações em recifes de corais brancos que nunca havia visto antes e, contrariando os colegas mais otimistas, afirma que a recuperação da vida no fundo do mar não é tão promissora.

Nas suas últimas expedições, o senhor viu corais mortos cobertos por uma substância marrom. Qual é a relação entre o derramamento de petróleo no golfo e a morte dos corais? 
A relação óbvia é o lugar onde encontramos esses corais, a 11 quilômetros do local da explosão da plataforma. Ainda não sabemos que substância marrom é essa, mas sabemos que é tóxica e está matando os corais. A proximidade do lugar ao desastre, a profundidade do local, a clara evidência de impacto e a singularidade do que observamos sugerem que o impacto está ligado à exposição dessa colônia de corais ao petróleo, ao produto usado para neutralizar o petróleo, à falta de oxigênio ou alguma combinação desses fatores resultantes do desastre.

Recentemente, o senhor disse que não vê sinais de recuperação dos corais. Ainda não é possível prever uma melhora? 
Não. Na última expedição que eu fiz, em março, verifiquei que os corais ainda não iniciaram o processo de recuperação. Não dá para prever quando eles vão voltar ao normal.

Existe algo que os cientistas possam fazer para ajudar nessa recuperação? 
No fundo do mar, não há nada que possamos fazer que possa mudar os efeitos. Simplesmente vai levar tempo. Temos que ser pacientes.

Além dos corais, qual é a situação do restante da vida marinha na região? 
Depende do local em que você examina, e da profundidade. Em alguns lugares a situação parece perfeitamente estável, como se nada tivesse acontecido, e, em outros, vemos devastação. Quanto mais próximo do local da explosão e mais fundo você vai, maiores são os danos. Alguns cientistas dizem que a vida marinha do Golfo do México voltou ao normal. Isso é parcialmente verdade, por que alguns lugares realmente apresentam uma ótima recuperação, mas não é em todo lugar que vemos isso. Ou seja, com certeza ainda não podemos dizer que tudo está recuperado e que tudo está bem.

De que forma o petróleo está afetando a vida marinha? 
O petróleo é tóxico. Então os animais podem ser intoxicados ou sofrer danos internos por ingerir petróleo. Além disso, partes do corpo que eles usam para comer, caçar, respirar ou se locomover podem ser envolvidas pela substância, que tem uma consistência pesada, e eles podem ficar presos. E existem as consequências resultantes desses danos. Por exemplo, a morte de muitos animais de uma mesma espécie afeta a cadeia alimentar.

A ciência aprendeu alguma lição com o desastre do Exxon Valdez, de 1989, que seja útil desta vez?
São dois casos muito diferentes. Eu acho que no acidente do Golfo nós tivemos sorte, porque o tempo colaborou, estava quente, a água estava mais morna... Foi sorte, poderia ter sido bem pior. Acho que veremos um curso diferente de acontecimentos desta vez.

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