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ameaçado de extinção

Fuleco vira espetáculo enquanto tatu real agoniza

Vanessa Barbosa - Exame.com - 27/06/2014

[img1][box-leia]Aos 14 anos, ele tem viajado o Brasil inteiro e, como todo adolescente, adora atualizar seu perfil no Facebook, que tem mais de 1 milhão de curtidas. É presença fácil nas Fan Fest da Fifa, já tirou foto com Ronaldo Fenômeno e fez tours com Jérôme Valcke, secretário geral da entidade máxima do futebol mundial. Fuleco, o mascote da Copa do Mundo, leva uma vida espetacular.

Longe dos holofotes, o Fuleco da vida real - uma das duas espécies de tatu-bola do Brasil que inspirou a criação do personagem comercial - agoniza.

O título de embaixador do evento poderia mudar o destino do pequeno e fazer a Copa "brasileira" entrar para a história como a primeira a salvar um animal da extinção.

Mas o placar dessa partida parece ser outro.

Até o final do ano, a espécie passará de "vulnerável" para "criticamente ameaçada", último nível antes de entrar em processo de extinção da natureza, segundo a Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza e dos Recursos Naturais (IUCN).

"É mais uma grande mancha no currículo do país", diz o biólogo Rodrigo Castro, secretário-executivo da Associação Caatinga, organização não governamental que, em 2012, lançou a candidatura do tatu-bola a mascote.

Segundo ele, a contribuição da Fifa para a conservação do animal tem se revelado pífia. Foram mais de 16 meses de discussão sobre formas diferentes do tatu-bola se beneficiar com o sucesso da imagem do Fuleco.

Surgiram propostas diferentes de como a entidade poderia ajudar, como atrelar parte das vendas dos bonecos para a conservação do mamífero. Na loja online oficial da Fifa, o preço do boneco do Fuleco varia de R$ 32,90 a R$ 179,90.

"Outro jeito era usar o Fuleco para informar as pessoas sobre sua condição de risco ou destinar partes dos recursos da utilização da imagem do mascote em camisetas, bonés e outros produtos, mas nada ocorreu", conta Rodrigo.

Depois de meses de negociação e um período de silêncio, às vésperas da abertura do evento, neste mês, veio a primeira proposta concreta da Fifa, uma doação de US$ 300 mil dólares. A Ong recusou a investida, por considerá-la insuficiente para executar com eficiência o Plano de Conservação do tatu-bola.

Para fazer diferença na luta de conservação, seria necessário pelo menos 15% (US$ 1,4 milhão) do valor total do projeto, que tem duração de 10 anos, segundo o biólogo.

A negociação continua de pé. "Nós esperamos que ao término do evento, a Fifa faça um balanço da Copa e avalie quanto o Fuleco e a Copa renderam e o que o tatu-bola merece por isso. Quem está por trás do Fuleco é uma espécie real e agonizante que precisa de ajuda", defende.

Hoje, o projeto conta apenas com uma doação de R$ 100 mil da empresa Continental Pneus, uma das patrocinadoras da Copa.

Procurada pela reportagem, a Fifa explicou, através do seu Departamento de Imprensa, que esses recursos recusados pela Ong serão destinados a um projeto diferente relacionado a mudanças climáticas no país.

Disse ainda saber "que cada organização que trabalha para uma causa social ou ambiental válida precisa levantar fundos e conscientizar a população para a sua causa e nós reconhecemos a importância de tal esforço e o empenho da sociedade civil para resolver os problemas mais urgentes da atualidade".

E acrescentou: "Não é possível (e não pode ser esperado) que a FIFA apoie todos eles. Através de nossas iniciativas de sustentabilidade, temos acordos de cooperação bem sucedidos com centenas de ONGs em mais de 80 países, tornando o nosso programa de responsabilidade social bastante único e exemplar mesmo além do mundo dos esportes, com investimentos de cerca de 1% do total das receitas da FIFA".

Na mesma resposta, a Fifa reforça que a sua mensagem com foco ambiental se dá através das plataformas digitais do Fuleco, no site oficial da entidade, no Facebook e no Twitter.

Um dos pedidos da Associação Caatinga era que as mídias oficiais veiculassem informações sobre o projeto de conservação, o que não ocorreu.

Nos perfis do mascote é mais fácil encontrar posts sobre as Fan Fest e os resultados dos jogos do que mensagens de conscientização.

O ANIMAL POR TRÁS DA FICÇÃO
Em mais uma investida para salvar a espécie de extinção, a Ong lançou recentemente a campanha "Eu Protejo o Tatu-bola", em parceria com a TNC (The Nature Conservancy) e IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza).

O projeto tem várias frentes: pesquisa científica para gerar conhecimento atualizado sobre o comportamento e distribuição da espécie; criação de áreas protegidas e recuperação de áreas degradadas; conscientização através de ações de educação ambiental e divulgação das ações e resultados do projeto.

Além de só ser encontrado no Brasil, nosso mascote é a menor e menos conhecida das espécies de tatu do país. E não se sabe quantos são e nem onde estão seus indivíduos.

Sabe-se, no entanto, que a distribuição da população se restringe à Caatinga e ao Cerrado, regiões onde as ameaças crescem em proporção inversa a do conhecimento sobre a espécie. Segundo maior bioma da América do Sul, depois da Amazônia, o Cerrado já perdeu mais da metade de sua área, e a Caatinga, mais de 60% da cobertura original.

Tanto que hoje, segundo Castro, as maiores ameaças à espécie são o desmatamento, a expansão da agricultura e pecuária.

Mas, durante muito tempo, a caça foi o principal vilão. Quando se sente ameaçado, o animal tem a habilidade de se enrolar e assumir a forma de uma bola, protegendo as partes moles do corpo no interior da carapaça rígida, o que justifica o nome de tatu-bola.

Essa peculiaridade é um escudo poderoso contra predadores da natureza, mas que torna o animal uma presa fácil para os humanos.

Se nada for feito para a conservação da espécie, em até 50 anos, o tatu-bola poderá estar extinto da natureza.

Um vídeo disponível no You Tube mostra o tatu assumindo a forma de bola ao ser encontrado por um grupo de pessoas. As imagens estão em baixa qualidade:

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