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Ciência e arte nas férias

Mônica Pileggi - Agência Fapesp - 07/07/2011

Uma carta publicada na revista Nature, em 23 de junho, por Laura Sterian Ward e Lucas Leite Cunha, do Departamento de Clínica Médica da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), chamou a atenção para um programa que, desde 2003, promove a inclusão social de alunos do ensino médio de escolas públicas de Campinas. Trata-se do Ciência & Arte nas Férias, que este ano realizou sua nona edição.

No texto, os autores ressaltam a semelhança entre os públicos do programa da Unicamp e do 1.000 Scientists in 1.000 days, iniciativa da revista Scientific American na qual pesquisadores visitam escolas para falar sobre seu dia a dia nos laboratórios, como uma forma de aproximação entre os jovens e a ciência.

No Ciência & Arte nas Férias ocorre o inverso. Durante o mês de janeiro, 120 alunos do ensino médio de escolas públicas de Campinas (SP) participam de atividades nos laboratórios da Unicamp.

"A ação permite desmistificar a ideia de que apenas aqueles aprovados no vestibular podem utilizar os recursos de uma universidade pública", disse o professor Ronaldo Aloise Pilli, pró-reitor de Pesquisa da Unicamp, à Agência FAPESP.

Desde a primeira edição, o programa já recebeu 923 jovens com idade entre 15 e 17 anos. O número de laboratórios participantes subiu dos 37 iniciais para os 76 nas últimas férias escolares.

Para a seleção dos alunos, a Pró-Reitoria de Pesquisa da Unicamp atua em conjunto com as Diretorias Regionais de Ensino Leste e Oeste de Campinas, vinculadas à Secretaria da Educação do Estado de São Paulo, responsáveis pela coordenação das escolas da região. O processo de escolha se dá por meio de uma avaliação de desempenho dos alunos, realizada pela própria escola, além de uma redação, cujo tema é determinado pela Unicamp.

Na universidade, a seleção dos laboratórios ocorre por meio de editais internos destinados aos docentes interessados em receber esses estudantes. "Dependendo da proposta, temos cerca de 60 projetos que atendem entre um e quatro alunos cada. As áreas mais procuradas geralmente são engenharias e biomédicas", disse Pilli.

Para cobrir os custos com materiais, o pró-reitor destaca o apoio da FAPESP, na forma de aditivos aos pesquisadores com projetos apoiados pela Fundação. Aos docentes sem apoio da FAPESP, o recurso é proveniente do Fundo de Apoio ao Ensino, à Pesquisa e à Extensão (Faepex) da Unicamp.

Além dos experimentos em laboratórios, os alunos realizam oficinas culturais, organizadas pelo Instituto de Artes da Unicamp. "Dos cinco dias da semana, um é reservado para as atividades em grupo, onde eles participam de oficinas de cerâmica, de pintura e teatro. Os estudantes também visitam museus de ciências e de anatomia. É um componente artístico importante no programa e que atrai muitos jovens", disse Pilli.

PROGRAMAS RESSALTAM TALENTOS
"Ao término das quatro semanas, os alunos são incentivados a apresentar o que aprenderam ao longo do programa. Para isso, durante a cerimônia de encerramento ocorre uma espécie de congresso interno, no qual a exposição é feita em formato de pôster", explicou Ward.

Após esse período, muitos alunos mostram interesse por outro programa da universidade - o de bolsas de Iniciação Científica Júnior -, voltado para o mesmo público-alvo, porém com duração de 12 meses. Por conta da demanda, Pilli conta que o número de vagas subiu de 180 para 300 na última seleção.

Para os alunos de escolas públicas que acabam de concluir o ensino médio, Pilli destaca o Programa de Formação Interdisciplinar Superior (ProFIS), lançado este ano pela Pró-Reitoria de Graduação

"O Profis ofereceu 120 vagas aos alunos das escolas do ensino público de Campinas com base apenas nas notas do Enem, excluindo o vestibular. Do total admitido por esse sistema, 25% dos alunos participaram do Ciência & Arte nas Férias ou do programa de Iniciação Científica Júnior", ressaltou.

"Com esses programas, percebemos que talento não é exclusivo de classes econômicas mais abastadas. Ao descobrir o papel da universidade, que é gerar e difundir conhecimento, esses jovens passam a enxergar possibilidades de um futuro melhor e acredito ser esse o grande mérito dessas iniciativas", disse Pilli.

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