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Sem Polícia Ambiental, caçadores têm até acampamento em Parque Estadual de Ilhabela

Redação - Brasil Post - 08/10/2014

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[box-leia]A caça está liberada no Parque Estadual de Ilhabela. Pelo menos é o que acreditam grupos de infratores que vêm atuando livremente na região. Uma rede de ranchos de caça foi recentemente desbaratada por guarda-parques em tocas situadas a mais de mil metros de altitude, no coração de Ilhabela. E há pouco mais de dois meses, na casa de um funcionário da Prefeitura Municipal, a Polícia Militar apreendeu armas, apetrechos de caça e um freezer recheado com carne de animais silvestres, segundo revelou o jornal Imprensa Livre

O Parque Estadual de Ilhabela (PEIb) não recebe grande atenção do governo estadual paulista. Uma bonita sede no centro histórico da cidade e a recuperação da estrada que leva a Castelhanos podem sugerir o contrário. Mas o Plano de Gestão e Manejo do PEIb, que daria força legal para a direção do parque trabalhar na sua preservação, está engavetado há anos no Conselho Estadual do Meio Ambiente. E a falta de uma base da Polícia Ambiental em Ilhabela, que tem quase 90% de sua área demarcada como unidade de conservação, deixa seu parque à mercê de grupos que promovem o "turismo de caça" no município. 

Isso é ainda mais grave porque os guarda-parques não têm poder de polícia. Proibidos de portar armas, pouco podem fazer para combater os caçadores. O descaso do governo também pode ser visto na falta de estrutura para o trabalho desses funcionários. Uma visita à sede operacional do parque, longe do badalado centro histórico de Ilhabela, comprova que, dos 4 veículos que possui, apenas um funciona. Apresentado no site da Secretaria do Meio Ambiente do Estado como um parque-arquipélago com 12 ilhas, a unidade de conservação administrada pela Fundação Florestal, com 27 mil hectares de área, não possui sequer um bote para seu patrulhamento marítimo. 

RANCHOS DE CAÇA NA FLORESTA
A rede de ranchos de caça foi desbaratada em tocas próximas à Trilha do Estevão, que liga a Estrada de Castelhanos à comunidade do Bonete. Neles foram encontrados diversos cartuchos de munição, colchões, roupas, panelas e sacos de dormir. As revelações foram feitas durante Reunião da Câmara Técnica de Educação Ambiental do Parque Estadual de Ilhabela, que é aberta ao público . 

"Cansamos de flagrar armadilhas aqui. Algumas ficam a poucos metros das trilhas. O comandante da Polícia Ambiental diz que não há caça em Ilhabela, mas todos sabemos que existe", afirmou um dos guarda-parques -que ao perceber a presença da reportagem do Brasil Post na plateia, pediu para não ser identificado. A operação foi baseada em denúncias de moradores e organizada de maneira voluntária, pelos próprios guarda-parques, no final de julho. 

"A sofisticação e a quantidade de equipamentos encontrados indica que os caçadores são pessoas de posses, ou que são profissionais remunerados", afirmou outro guarda-parque. Questionada pela reportagem do Brasil Post, a assessoria de imprensa da Fundação Florestal afirmou que "foi elaborado um Auto de Constatação de Infração Ambiental, que foi encaminhado à Polícia Ambiental". A ocorrência foi registrada no Batalhão da Polícia Ambiental de São Sebastião - que precisa pegar a balsa para chegar à Ilha e apurar qualquer denúncia de crime ambiental no município vizinho. 

Perguntada sobre a demora na aprovação do Plano de Gestão e Manejo do parque, a Fundação Florestal responde politicamente: "As Unidades de Conservação que contam com Plano de Manejo têm maior possibilidade de captação de recursos e estabelecimento de parcerias, o que poderia vir a fortalecer o Programa de Proteção do PEIb". 

O mesmo acontece quando questionamos o fato de que, no estacionamento da administração do PEIb, existem três veículos quebrados, e apenas um funcionando: "A Unidade possui quatro veículos que passam por manutenções de rotina, e pode ocorrer de mais de um veículo demandar manutenção ao mesmo tempo. Para este ano, há previsão de mais um veículo para o Parque Estadual Ilha Anchieta (sic)". 

Para cuidar de uma área de mais de 27 mil hectares, na Ilha de São Sebastião e em várias ilhas menores, o Parque Estadual de Ilhabela conta com apenas 6 funcionários administrativos e 5 guarda-parques. Como não podem andar armados, o que é prerrogativa da Polícia Ambiental, só Deus sabe o que aconteceria caso entrassem em confronto direto com os caçadores. 

A gravidade da situação levou o Instituto Ilhabela Sustentável, uma ONG local, a criar um abaixo-assinado cobrando do governador Geraldo Alckmin a implantação de um pelotão de Polícia Militar Ambiental no Município. Segundo documento elaborado por órgãos do próprio governo paulista, Ilhabela é uma das regiões com maior número de autos de infração ambiental no Estado. 

FAUNA AMEAÇADA NA GELADEIRA
Como revelou reportagem do jornal Imprensa Livre, armas, cartuchos, apetrechos de caça e seis quilos de carne de caça foram encontrados na residência do secretário de Serviços Municipais Urbanos de Ilhabela, Valdir Veríssimo. O boletim de ocorrência número 1842/2014 registrou o porte ilegal de arma de fogo e a morte de espécimes da fauna silvestre. 

Laudo da Fundação Animália, elaborado a pedido da polícia, comprovou tratarem-se de animais silvestres, alguns ameaçados de extinção. O exame das carcaças de exemplares de Jacu e Cotia, revela ainda como os animais foram mortos: "Notar a proximidade dos orifícios de penetração, mostrando que a roseta de projéteis não havia se espalhado significativamente, reforçando a hipótese de curta distância de tiro; esta situação é praticamente impossível em mata, devido ao comportamento arisco do animal, que não se deixa aproximar - o que implica a utilização de ceva, em que o animal é atraído com alimentos a curta distância de plataforma onde o caçador se esconde; a trajetória inclinada do tiro, de cima para baixo, também reforça a hipótese". 

Questionada sobre mais esse fato, a Fundação Florestal respondeu que "o Parque Estadual de Ilhabela tomou conhecimento do fato e está prestando todo o apoio necessário aos órgãos envolvidos".

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