Notcias
combate ao sobrepeso

Por um ambiente mais leve

Mariana Amaro - Voc S/A - 01/08/2013

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[box-leia]A farmacutica americana CVS levantou polmica quando, em maro, anunciou que cobraria multa de 50 dlares por ms dos funcionrios que se recusassem a fornecer informaes pessoais como peso, ndice de massa corporal e nvel de glicose no sangue.

A exigncia faz parte de um projeto da companhia de cortar custos com sade, que devem passar de 12.000 dlares por empregado neste ano. No Brasil, a legislao trabalhista no permitiria descontos assim, mas o caso da CVS joga luz sobre um dos assuntos mais quentes para as empresas atualmente: os custos de sade com o empregado.

Por que isso lhe diz respeito? Porque as empresas vo manter em seus quadros os funcionrios saudveis. Estudos cientficos mostram que eles so mais produtivos, e o departamento financeiro sabe que eles custam menos para a empresa.

Hoje, a assistncia mdica o segundo maior gasto da rea de recursos humanos, atrs somente da folha de pagamentos. De acordo com um levantamento do Instituto de Estudos de Sade Suplementar, os gastos com planos de sade no pas devero passar de 80 bilhes de reais at 2030, 35% mais do que em 2010.

E no apenas o envelhecimento da populao que empurra o valor para a estratosfera mas tambm o nmero de doentes crnicos (fumantes, pessoas com diabetes, hipertenso, obesidade, entre outros), que representam de 15% a 20% do quadro de empregados e consomem cerca de 80% do oramento de sade das empresas.

Para tentar fechar a torneira, o investimento em preveno aumentou. Mas no depende s do RH. De acordo com uma pesquisa feita pela operadora de sade Omint com 15 mil executivos brasileiros, 95,5% deles no mantm alimentao equilibrada, 44% so sedentrios e 31,7% sofrem com estresse.

Um reflexo direto desses dados aparece na circunferncia abdominal dos executivos: 38,6% esto acima do peso. Mas h tambm boas notcias. No estudo, 37,7% dos entrevistados planejavam incluir atividades fsicas na rotina e outros 44%, ainda que no tenham tomado nenhuma atitude, afirmaram que pensam bastante no assunto.

Como da inteno para a prtica h um abismo, s 26% dos avaliados adotaram um cardpio mais saudvel recentemente.

INVESTIMENTO POLPUDO
Segundo a pesquisa Global HR Barometer 2013, da consultoria Michael Page, as empresas em operao no Brasil investiram mais em programas de sade e bem-estar do que a mdia global 47%, ante 42%. A Aon, por exemplo, lanou o programa Aon Saudvel, que oferece aos funcionrios orientao nutricional, aulas de ioga dentro da companhia e organiza grupos de caminhada, corrida e trilha.

"O investimento pequeno perto do que ganhamos em produtividade e economizamos com custos mdicos", diz Mrcia Loureno, diretora de RH. "Depois dos incentivos, uma pessoa perdeu 30 quilos e muitas outras melhoraram o condicionamento. Esto at dormindo melhor", afirma Mrcia.

O Grupo Algar, de tecnologia e servios, foi mais longe e atrelou os cuidados com a sade ao bnus. Para receber o valor integral, 297 executivos passam por avaliaes clnicas peridicas e tm metas estabelecidas. No ano passado, 15 no cumpriram o plano e tiveram 10% de desconto no bnus.

A Natura optou por premiar os empregados. Os 120 funcionrios inscritos no programa Tempo Sade passaram por exames e receberam metas individuais de alimentao e exerccios, que podem ser cumpridas com a ajuda do Clube Natura, que fica na sede da companhia, em Cajamar, So Paulo.

O local equipado com academia, piscina, sala para aula de pilates e dana e bicicletas. No restaurante da empresa, a fritura foi abolida; os legumes e as verduras so orgnicos.

Ao fim do semestre, quem alcana a meta ou a ultrapassa ganha prmios, que vo de produtos a uma viagem para o Nordeste. Desde o incio do programa, o IMC mdio dos inscritos caiu de 26 para 25,1 e a proporo de gordura corporal passou de 21% para 18%.

SEM VIDA PESSOAL
Longe de ser uma abordagem paternalista, a preocupao das empresas com a sade tem origem na constatao de que, em muitos casos, o sobrepeso e as doenas crnicas dele decorrentes so provocados pelo estresse do trabalho. Foi o que percebeu a publicitria Erlana Castro, de So Paulo.

Ex-diretora de publicidade da Fiat para a Europa, com passagens pelas maiores agncias do Brasil, ficava at 15 horas por dia no escritrio e varava madrugadas entre cigarros e sanduches.

"Amava meu trabalho e s vivia para ele. Eu me impunha essa carga." Workaholic, perdeu a conta de quantos aniversrios, Natais e festas de famlia inclusive o casamento dos irmos deixou de participar por achar que no podia se afastar nem por um fim de semana. Nem o namorado aguentou a carga de trabalho que ela se impunha. "Achei at melhor. Namorado, para mim, tinha virado distrao."

Erlana s percebeu que havia algo errado quando passou a sentir dores no corpo. Foi ao mdico e descobriu que estava com sndrome de Hashimoto, problema que afeta o funcionamento correto da glndula tireoide. "Cheguei aos 37 anos fumando 30 cigarros por dia, pesando 126 quilos, com a tireoide parada, tomando antidepressivos e hipertensa", afirma Erlana.

O diagnstico preocupante foi o momento da virada: ou ela mudava seus hbitos ou, segundo o mdico, morreria em alguns anos. Erlana teve de tomar uma deciso radical: pediu demisso porque o tratamento demandaria tempo e dedicao. Depois de uma dezena de consultas mdicas, resolveu fazer a cirurgia baritrica.

Perdeu quase 50 quilos e tambm deixou o cigarro, num processo que levou um ano e meio e contou com a ajuda de uma psicanalista. Hoje, aos 41 anos, lamenta no ter priorizado seus relacionamentos.

"Nem imaginava ter filhos, porque no queria nada que me tirasse do foco. meu grande arrependimento", afirma. Mas ela comemora a vitria contra a balana, o novo namoro e uma relao bem mais saudvel com o trabalho. "Estou superfeliz."

LIDERANA INSPIRADORA
"Qualidade de vida um assunto que est na pauta de todo mundo de recursos humanos", diz Amrico Figueiredo, de 53 anos, vice-presidente global de RH da Nextel. Em vez de apenas propor polticas em prol da sade, o VP de RH foi mais longe e deu ele mesmo um exemplo de mudana de estilo de vida aos empregados.

H trs anos, saiu dos 102 quilos para os atuais 81 em dois meses fazendo reeducao alimentar. Fiquei assustado depois de descobrir que estava com uma capa de gordura no fgado. Meus joelhos e costas doam, e eu no tinha energia para nada.

Com a ajuda de uma nutricionista, trocou carboidratos e doces por castanhas e frutas, que devem ser consumidas de trs em trs horas, e comeou a fazer 40 minutos de bicicleta ergomtrica trs vezes por semana. O esforo foi recompensado com uma agradvel surpresa.

Fui fazer exames para entrar em uma escola de pilotos, um hobby, e descobri que estava com o colesterol de um adolescente, afirma. A mudana na silhueta do VP acabou inspirando outras pessoas na empresa. Estou em uma posio clara de liderana e muita gente veio me perguntar da dieta. Alguns at j comearam a seguir o exemplo.

Ainda que no trabalhe com gesto de pessoas, o empresrio Guilherme Falchi, de 29 anos, tambm quis dar o exemplo. Ele decidiu emagrecer quando fundou a Expresso Nutri, empresa que vende opes saudveis de lanches dentro de outras companhias. No dava para eu chegar gordo e feliz, com um bombom no bolso, querendo vender um estilo de vida saudvel. Ningum acreditaria, diz.

A motivao fez com que ele mudasse a alimentao, parasse de inventar desculpas para no ir academia e voltasse a praticar squash. Em seis meses, ele perdeu 24 quilos e pde fazer, em sua opinio, uma das melhores coisas do mundo: renovar o guarda-roupa, porque tudo que ele tinha ficou enorme.

O sono e o humor melhoraram, a disposio voltou e, hoje, ele se sente apto a vender seu estilo de vida para qualquer um. Para mim, qualidade de vida no opcional, afirma.

Alimentao e exerccios so uma questo de sobrevivncia. De fato, estudos da Universidade Harvard apontam que mais de 90% dos casos de diabetes, 80% dos casos de doenas coronarianas e 70% dos derrames podem ser prevenidos com um estilo de vida saudvel.

Empresas e profissionais que ainda no entenderam isso e no adotaram uma atitude preventiva vo perder dinheiro ou pagar essa conta da pior maneira com a prpria sade.

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