transformação
As dinâmicas estruturais do planeta
Estamos enfrentando desafios estruturais. E não se tratam de exercícios acadêmicos abstratos, mas do futuro de todos nós.
Por Ladislau Dowbor*
04/2007
[img01] Não podemos mais dizer que não sabemos o que está acontecendo. O mundo está ficando mais informado. Estivemos sempre habituados a olhar para a conjuntura, o curto prazo que nos informa sobre as taxas de câmbio ou de juros, ou as últimas variações da inflação. Uma coisa é olhar o PIB para saber se a máquina econômica está andando mais ou menos rápido. Outra coisa é sabermos para onde vamos.
A grande verdade é que estamos enfrentando desafios estruturais, o que os americanos chamam de mega-trends e os franceses de tendances lourdes, cuja inércia ultrapassa, em décadas, qualquer medida que se tome agora. Não se trata de exercícios acadêmicos abstratos. Trata-se do futuro de todos nós. Os dados primários dos principais estudos internacionais não nos deixam mais dúvidas:
- The Inequality Predicament, ONU: No curto prazo, discutimos sobre se a desigualdade tem piorado ou melhorado. Em termos estruturais, a renda per capita dos 20 países mais pobres passou, entre 1960-1962 e 2000-2002, de 212 para 267 dólares, um aumento de 26%. Mas o mesmo dado para os 20 países mais ricos mostra que passaram de 11.417 para 32.339 dólares no mesmo período, um aumento de 183%. Considerando que esta dinâmica está se agravando, num mundo cada vez mais apertado e conectado, que futuro isto prepara?
- The Global Distribution of Household Wealth, ONU: A distribuição da riqueza domiciliar acumulada mostra que os 2% mais ricos detêm mais da metade da riqueza, e os 50% mais pobres menos de 1%. A lógica é simples: os ricos compram carros, casas, terras, ações, enquanto os pobres compram arroz e feijão, quando podem. O business as usual nos leva ao desastre.
- Painel Integovernamental sobre Mudanças Climáticas: o Relatório de 2007 foi chamado de relatório das certezas, pois afastou todos os argumentos que podiam ainda ser sujeitos a questionamentos. "O aquecimento do sistema climático é inequívoco, como se tornou agora evidente pelas observações do aumento das temperaturas médias globais do ar e dos oceanos, o derretimento generalizado de neve e gelo, e a elevação global do nível médio do mar". Os dados popularizados por Al Gore estão bem confirmados.
- Stern Review: ao avaliar os impactos econômicos do aquecimento global, o relatório Stern mostra que cada ano de adiamento das medidas necessárias aumenta radicalmente os custos no médio e longo prazo. Mas os mecanismos econômicos tradicionais privilegiam os interesses de curto prazo. "A mudança climática representa um singular desafio para a ciência econômica: trata-se da maior e mais ampla falência do mercado já vista". Nicholas Stern foi economista chefe do Banco Mundial.
A lista é longa, envolvendo o esgotamento dos principais aquíferos, liquidação da vida nos mares, erosão dos solos, redução da biodiversidade e assim por diante. O nosso desafio hoje é claro: encontrar os mecanismos institucionais e organizacionais para começar a reverter o que um autor resumiu de maneira singela: a slow motion catastrophe. A responsabilidade é de todos.
Ladislau Dowbor é economista e professor da PUC-SP. http://dowbor.org
[img01] Não podemos mais dizer que não sabemos o que está acontecendo. O mundo está ficando mais informado. Estivemos sempre habituados a olhar para a conjuntura, o curto prazo que nos informa sobre as taxas de câmbio ou de juros, ou as últimas variações da inflação. Uma coisa é olhar o PIB para saber se a máquina econômica está andando mais ou menos rápido. Outra coisa é sabermos para onde vamos.
A grande verdade é que estamos enfrentando desafios estruturais, o que os americanos chamam de mega-trends e os franceses de tendances lourdes, cuja inércia ultrapassa, em décadas, qualquer medida que se tome agora. Não se trata de exercícios acadêmicos abstratos. Trata-se do futuro de todos nós. Os dados primários dos principais estudos internacionais não nos deixam mais dúvidas:
- The Inequality Predicament, ONU: No curto prazo, discutimos sobre se a desigualdade tem piorado ou melhorado. Em termos estruturais, a renda per capita dos 20 países mais pobres passou, entre 1960-1962 e 2000-2002, de 212 para 267 dólares, um aumento de 26%. Mas o mesmo dado para os 20 países mais ricos mostra que passaram de 11.417 para 32.339 dólares no mesmo período, um aumento de 183%. Considerando que esta dinâmica está se agravando, num mundo cada vez mais apertado e conectado, que futuro isto prepara?
- The Global Distribution of Household Wealth, ONU: A distribuição da riqueza domiciliar acumulada mostra que os 2% mais ricos detêm mais da metade da riqueza, e os 50% mais pobres menos de 1%. A lógica é simples: os ricos compram carros, casas, terras, ações, enquanto os pobres compram arroz e feijão, quando podem. O business as usual nos leva ao desastre.
- Painel Integovernamental sobre Mudanças Climáticas: o Relatório de 2007 foi chamado de relatório das certezas, pois afastou todos os argumentos que podiam ainda ser sujeitos a questionamentos. "O aquecimento do sistema climático é inequívoco, como se tornou agora evidente pelas observações do aumento das temperaturas médias globais do ar e dos oceanos, o derretimento generalizado de neve e gelo, e a elevação global do nível médio do mar". Os dados popularizados por Al Gore estão bem confirmados.
- Stern Review: ao avaliar os impactos econômicos do aquecimento global, o relatório Stern mostra que cada ano de adiamento das medidas necessárias aumenta radicalmente os custos no médio e longo prazo. Mas os mecanismos econômicos tradicionais privilegiam os interesses de curto prazo. "A mudança climática representa um singular desafio para a ciência econômica: trata-se da maior e mais ampla falência do mercado já vista". Nicholas Stern foi economista chefe do Banco Mundial.
A lista é longa, envolvendo o esgotamento dos principais aquíferos, liquidação da vida nos mares, erosão dos solos, redução da biodiversidade e assim por diante. O nosso desafio hoje é claro: encontrar os mecanismos institucionais e organizacionais para começar a reverter o que um autor resumiu de maneira singela: a slow motion catastrophe. A responsabilidade é de todos.
Ladislau Dowbor é economista e professor da PUC-SP. http://dowbor.org