gravidez
Para nascer na hora certa
Em meio à promessa de um novo exame capaz de calcular com maior precisão o risco de um parto prematuro, SAÚDE! revela o que já está ao nosso alcance para ajudar um bebê a vir ao mundo no tempo ideal
Diogo Sponchiato
Revista Saúde – 11/2009
Uma das utopias dos obstetras é descobrir um jeito extremamente eficaz de predizer se a criança deixará o ventre materno antes do momento esperado. Esse sonho, compartilhado pelos futuros pais, instiga os cientistas a investigar métodos mais aptos a profetizar o término exato da gravidez e acertar em cheio a data do nascimento.
Com essa informação em mãos, seria possível acompanhar a gestação com cautela e, quando necessário, dispor de medidas terapêuticas com o objetivo de postergar a chegada do pequeno. Isso porque os especialistas estão cansados de saber que o fruto de um parto precoce, aquele que se antecipa à 37a semana, costuma sofrer para ingressar no mundo pós-barriga. "A prematuridade é a principal causa de morte e complicações dos recém-nascidos", afirma o obstetra Roberto Bittar, do Hospital das Clínicas de São Paulo.
Nesse cenário, a ideia de pesquisadores sediados em Gotemburgo, na Suécia, foi analisar um painel de proteí-nas encontradas no colo do útero e no líquido amniótico que acusam se a gestação se encerrará antes dos nove meses. Em um trabalho publicado no periódico do Colégio Americano de Obstetrícia e Ginecologia, eles mostraram, após avaliar 89 mulheres, que o teste de rastreamento dessas substâncias teria uma eficiência de 90%. Quando o resultado é positivo, há razões suficientes para os especialistas interferirem para segurar os eventuais bebês apressados.
A identificação desses marcadores de risco abre caminho a um exame ainda mais preciso para o pré-natal. Talvez nem todas as gestantes necessitem se submeter a ele um dia - que seja útil apenas às pacientes de risco. "Tudo vai depender do custo/benefício", opina o obstetra Tenílson Amaral Oliveira, do Hospital Israelita Albert Einstein, na capital paulista. A vantagem seria apontar com maior precisão, entre aquelas em pretenso trabalho de parto, quem, de fato, vai dar à luz mais cedo.
Já na Inglaterra, cientistas do Imperial College London desvendaram uma proteína-chave no desenrolar desse quadro. Eles notaram que a substância comanda um processo inflamatório responsável por contrações anormais do útero. E conseguiram brecar, em laboratório, as reações disparadas por ela. Até que o mesmo resultado se concretize no corpo feminino, há alguns anos pela frente. O desafio não é pequeno devido à complexidade do assunto. "Ainda estamos longe de saber tudo o que está relacionado ao trabalho de parto prematuro", diz Bittar.
Embora a maioria dos partos prematuros seja espontânea, uma parcela é induzida pelos próprios especialistas. "Em 25% dos casos o médico opta por interromper a gestação antes dos nove meses", estima Bittar. "É uma prematuridade terapêutica, porque o objetivo, aí, é salvar a vida da criança", justifica o obstetra Soubhi Kahhale, do Hospital e Maternidade São Luiz, em São Paulo.
O procedimento, também adotado se a gravidez oferece perigo à mãe, entra em cena quando uma doença materna impõe sofrimento ao pequeno. "A hipertensão, por exemplo, dificulta o fluxo sanguíneo para o feto, diminuindo o fornecimento de oxigênio e nutrientes e oferecendo até ameaça de morte", explica o obstetra Olimpio Barbosa de Moraes Filho, da Universidade de Pernambuco.
Por isso, é imprescindível escoltar a gestação e suspeitar do que interfere em seu desfecho precoce - espontâneo ou não. Afora o acompanhamento clínico, hoje existem dois exames que visualizam o adiantamento da cegonha. Esses métodos costumam ser preconizados, a partir da 22a semana, a gestantes de risco, que já tiveram partos prematuros ou com dores e contrações intensas. O primeiro se vale de um ultrassom para medir o colo do útero. "Quanto menor o tamanho, maior a chance de um parto prematuro", resume Tenílson Oliveira.
E o segundo é a dosagem de fibronectina, uma proteína coletada na vagina que indica a probabilidade de um nascimento ser capaz de furar o calendário. Normalmente, esse dedo-duro fica colado à membrana que recobre o feto. "Quando ela começa a desgrudar por causa das contrações, a fibronectina se desprende em direção à vagina", explica Oliveira. "Se o resultado do teste for negativo, a chance de a paciente ter parto prematuro é menor que 1%", conta Bittar. O problema é a situação inversa. "O exame resulta em muitos falsos positivos. Metade das mulheres com uma resposta afirmativa não enfrentará um parto antes da hora", reconhece Tenílson. Ainda assim, por precaução, a presença da tal proteína sugere um cuidado redobrado com a grávida, que, se preciso, deve ser hospitalizada (veja quadro à direita).
Outra medida revolucionária na prevenção do parto precoce foi introduzida por uma equipe do Hospital das Clínicas paulistano há seis anos. Ela provou que o uso de progesterona natural, o hormônio que mantém a gestação, é uma estratégia segura e eficiente para prolongar a estada do bebê no útero. "A progesterona reduz em 50% o risco de prematuridade em mulheres com histórico do problema", diz Bittar, que orientou os estudos. Ela deve ser aplicada diariamente na forma de uma cápsula introduzida na vagina. "Utilizado entre a 16a e a 36a semanas de gestação, o hormônio diminui as contrações do útero e é um anti-inflamatório local."
Quando há fortes indícios de que o novo integrante da família chegará com antecedência, os médicos também lançam mão de recursos que visam ao menos adiar em até algumas semanas o fim da gravidez. "Hoje há drogas inibidoras de contração sem os efeitos colaterais do passado", diz Kahhale. Sem falar em tratamentos que garantem o melhor desenvolvimento da criança. Tanto esforço faz sentido. "A melhor UTI neonatal é o ventre materno, desde que, é claro, ele não esteja prejudicando o bebê", sentencia Kahhale.
MONITORAMENTO TOTAL
Há gestações cujos meses finais merecem ser acompanhados de perto - de preferência dentro do hospital. Isso acontece em situações de risco para a mãe ou para a criança. Não à toa, algumas maternidades já dispõem de unidades semi-intensivas voltadas às grávidas que ameaçam entrar em trabalho de parto mais cedo. "A paciente é monitorada em um quarto, de onde controlamos as contrações do seu útero e a frequência cardíaca do feto", diz Soubhi Kahhale. Tamanha assistência pretende dar um final feliz à gravidez, mesmo que o pequeno nasça antes do tempo. "Graças à tecnologia recente, o índice de sucesso dos prematuros é altíssimo", afirma Alberto D’Auria.
O QUE APRESSA O PARTO?
Só metade dos nascimentos prematuros tem motivo conhecido
- Infecções
Ataques de micróbios resultam em um processo inflamatório que faz o útero se contrair demais em momentos indesejados. As infecções urinárias e genitais são as mais críticas
- Gravidez de gêmeos
Quando há mais de uma criança dentro do ventre, é quase certo que a gestação acabará antes dos nove meses. Isso porque o útero não suporta por tanto tempo o peso da dupla ou do trio...
- Útero incompetente
É a chamada insuficiência istmocervical. O problema acontece quando esse órgão dilata mais do que deveria e não consegue segurar o feto.
- Doenças crônicas da mãe
As campeãs de risco são a hipertensão e o diabete. Na maioria das vezes, exigem que o obstetra antecipe o parto para evitar danos ao bebê.
AO ALCANCE DAS MÃES
Medidas para aumentar as chances de o pequeno nascer dentro do prazo
Planejar é preciso
"É essencial programar a gravidez para identificar os fatores de risco da prematuridade", avisa Roberto Bittar. As consultas devem começar antes da concepção.
Distância do cigarro
A fumaça prejudica a placenta, a estrutura que abriga o feto, contribuindo para que ele saia antes do tempo normal.
Nada de infecções
Não importa o foco do problema, se é a boca ou o trato urinário - ele tem de ser flagrado e remediado. "Nas infecções, há liberação de substâncias inflamatórias que podem desencadear contrações uterinas", explica Olimpio Filho.
Exercício seguro
A futura mãe deve pegar leve e ser orientada por um educador físico. "Recomendamos natação, hidroginástica e caminhada", diz Bittar.
Sem muito estresse
A tensão favorece contrações inoportunas e precisa ser balanceada com repouso. "Ele é fundamental para poupar o gasto de energia da mãe, sobrando mais para o bebê", diz o obstetra Alberto D’Auria, do Hospital Pro-Matre, em São Paulo.
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Bebês prematuros, cuidados especiais
Som para prematuros
Uma das utopias dos obstetras é descobrir um jeito extremamente eficaz de predizer se a criança deixará o ventre materno antes do momento esperado. Esse sonho, compartilhado pelos futuros pais, instiga os cientistas a investigar métodos mais aptos a profetizar o término exato da gravidez e acertar em cheio a data do nascimento.
Com essa informação em mãos, seria possível acompanhar a gestação com cautela e, quando necessário, dispor de medidas terapêuticas com o objetivo de postergar a chegada do pequeno. Isso porque os especialistas estão cansados de saber que o fruto de um parto precoce, aquele que se antecipa à 37a semana, costuma sofrer para ingressar no mundo pós-barriga. "A prematuridade é a principal causa de morte e complicações dos recém-nascidos", afirma o obstetra Roberto Bittar, do Hospital das Clínicas de São Paulo.
Nesse cenário, a ideia de pesquisadores sediados em Gotemburgo, na Suécia, foi analisar um painel de proteí-nas encontradas no colo do útero e no líquido amniótico que acusam se a gestação se encerrará antes dos nove meses. Em um trabalho publicado no periódico do Colégio Americano de Obstetrícia e Ginecologia, eles mostraram, após avaliar 89 mulheres, que o teste de rastreamento dessas substâncias teria uma eficiência de 90%. Quando o resultado é positivo, há razões suficientes para os especialistas interferirem para segurar os eventuais bebês apressados.
A identificação desses marcadores de risco abre caminho a um exame ainda mais preciso para o pré-natal. Talvez nem todas as gestantes necessitem se submeter a ele um dia - que seja útil apenas às pacientes de risco. "Tudo vai depender do custo/benefício", opina o obstetra Tenílson Amaral Oliveira, do Hospital Israelita Albert Einstein, na capital paulista. A vantagem seria apontar com maior precisão, entre aquelas em pretenso trabalho de parto, quem, de fato, vai dar à luz mais cedo.
Já na Inglaterra, cientistas do Imperial College London desvendaram uma proteína-chave no desenrolar desse quadro. Eles notaram que a substância comanda um processo inflamatório responsável por contrações anormais do útero. E conseguiram brecar, em laboratório, as reações disparadas por ela. Até que o mesmo resultado se concretize no corpo feminino, há alguns anos pela frente. O desafio não é pequeno devido à complexidade do assunto. "Ainda estamos longe de saber tudo o que está relacionado ao trabalho de parto prematuro", diz Bittar.
Embora a maioria dos partos prematuros seja espontânea, uma parcela é induzida pelos próprios especialistas. "Em 25% dos casos o médico opta por interromper a gestação antes dos nove meses", estima Bittar. "É uma prematuridade terapêutica, porque o objetivo, aí, é salvar a vida da criança", justifica o obstetra Soubhi Kahhale, do Hospital e Maternidade São Luiz, em São Paulo.
O procedimento, também adotado se a gravidez oferece perigo à mãe, entra em cena quando uma doença materna impõe sofrimento ao pequeno. "A hipertensão, por exemplo, dificulta o fluxo sanguíneo para o feto, diminuindo o fornecimento de oxigênio e nutrientes e oferecendo até ameaça de morte", explica o obstetra Olimpio Barbosa de Moraes Filho, da Universidade de Pernambuco.
Por isso, é imprescindível escoltar a gestação e suspeitar do que interfere em seu desfecho precoce - espontâneo ou não. Afora o acompanhamento clínico, hoje existem dois exames que visualizam o adiantamento da cegonha. Esses métodos costumam ser preconizados, a partir da 22a semana, a gestantes de risco, que já tiveram partos prematuros ou com dores e contrações intensas. O primeiro se vale de um ultrassom para medir o colo do útero. "Quanto menor o tamanho, maior a chance de um parto prematuro", resume Tenílson Oliveira.
E o segundo é a dosagem de fibronectina, uma proteína coletada na vagina que indica a probabilidade de um nascimento ser capaz de furar o calendário. Normalmente, esse dedo-duro fica colado à membrana que recobre o feto. "Quando ela começa a desgrudar por causa das contrações, a fibronectina se desprende em direção à vagina", explica Oliveira. "Se o resultado do teste for negativo, a chance de a paciente ter parto prematuro é menor que 1%", conta Bittar. O problema é a situação inversa. "O exame resulta em muitos falsos positivos. Metade das mulheres com uma resposta afirmativa não enfrentará um parto antes da hora", reconhece Tenílson. Ainda assim, por precaução, a presença da tal proteína sugere um cuidado redobrado com a grávida, que, se preciso, deve ser hospitalizada (veja quadro à direita).
Outra medida revolucionária na prevenção do parto precoce foi introduzida por uma equipe do Hospital das Clínicas paulistano há seis anos. Ela provou que o uso de progesterona natural, o hormônio que mantém a gestação, é uma estratégia segura e eficiente para prolongar a estada do bebê no útero. "A progesterona reduz em 50% o risco de prematuridade em mulheres com histórico do problema", diz Bittar, que orientou os estudos. Ela deve ser aplicada diariamente na forma de uma cápsula introduzida na vagina. "Utilizado entre a 16a e a 36a semanas de gestação, o hormônio diminui as contrações do útero e é um anti-inflamatório local."
Quando há fortes indícios de que o novo integrante da família chegará com antecedência, os médicos também lançam mão de recursos que visam ao menos adiar em até algumas semanas o fim da gravidez. "Hoje há drogas inibidoras de contração sem os efeitos colaterais do passado", diz Kahhale. Sem falar em tratamentos que garantem o melhor desenvolvimento da criança. Tanto esforço faz sentido. "A melhor UTI neonatal é o ventre materno, desde que, é claro, ele não esteja prejudicando o bebê", sentencia Kahhale.
MONITORAMENTO TOTAL
Há gestações cujos meses finais merecem ser acompanhados de perto - de preferência dentro do hospital. Isso acontece em situações de risco para a mãe ou para a criança. Não à toa, algumas maternidades já dispõem de unidades semi-intensivas voltadas às grávidas que ameaçam entrar em trabalho de parto mais cedo. "A paciente é monitorada em um quarto, de onde controlamos as contrações do seu útero e a frequência cardíaca do feto", diz Soubhi Kahhale. Tamanha assistência pretende dar um final feliz à gravidez, mesmo que o pequeno nasça antes do tempo. "Graças à tecnologia recente, o índice de sucesso dos prematuros é altíssimo", afirma Alberto D’Auria.
O QUE APRESSA O PARTO?
Só metade dos nascimentos prematuros tem motivo conhecido
- Infecções
Ataques de micróbios resultam em um processo inflamatório que faz o útero se contrair demais em momentos indesejados. As infecções urinárias e genitais são as mais críticas
- Gravidez de gêmeos
Quando há mais de uma criança dentro do ventre, é quase certo que a gestação acabará antes dos nove meses. Isso porque o útero não suporta por tanto tempo o peso da dupla ou do trio...
- Útero incompetente
É a chamada insuficiência istmocervical. O problema acontece quando esse órgão dilata mais do que deveria e não consegue segurar o feto.
- Doenças crônicas da mãe
As campeãs de risco são a hipertensão e o diabete. Na maioria das vezes, exigem que o obstetra antecipe o parto para evitar danos ao bebê.
AO ALCANCE DAS MÃES
Medidas para aumentar as chances de o pequeno nascer dentro do prazo
Planejar é preciso
"É essencial programar a gravidez para identificar os fatores de risco da prematuridade", avisa Roberto Bittar. As consultas devem começar antes da concepção.
Distância do cigarro
A fumaça prejudica a placenta, a estrutura que abriga o feto, contribuindo para que ele saia antes do tempo normal.
Nada de infecções
Não importa o foco do problema, se é a boca ou o trato urinário - ele tem de ser flagrado e remediado. "Nas infecções, há liberação de substâncias inflamatórias que podem desencadear contrações uterinas", explica Olimpio Filho.
Exercício seguro
A futura mãe deve pegar leve e ser orientada por um educador físico. "Recomendamos natação, hidroginástica e caminhada", diz Bittar.
Sem muito estresse
A tensão favorece contrações inoportunas e precisa ser balanceada com repouso. "Ele é fundamental para poupar o gasto de energia da mãe, sobrando mais para o bebê", diz o obstetra Alberto D’Auria, do Hospital Pro-Matre, em São Paulo.
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