vai mal
A quantas anda o saneamento?
Pesquisa da Trata Brasil em parceria com a Fundação Getúlio Vargas avalia os impactos sociais do quadro de saneamento no Brasil. Apesar do avanço entre 2006 e 2007, são despejados no ambiente, diariamente, 5,4 bilhões de litros de esgoto sem qualquer tratamento, comprometendo a saúde pública
Manoella Oliveira
Planeta Sustentável - 06/07/2009
A concentração de pessoas em pequenas áreas - 85% dos brasileiros estão na cidade e, destes, 31% nas metrópoles - como acontece no país, causa problemas muito conhecidos, como o trânsito caótico e aumento da violência. Mas uma das vantagens dessa distribuição seria o tratamento de esgoto adequado, por proporcionar economia de escala, de escopo e de rede.
Essa é a opinião do professor Marcelo Neri, chefe do Centro de Políticas Sociais da FGV – Fundação Getúlio Vargas e coordenador do estudo que analisou a oferta e a qualidade desse serviço em nível nacional, Trata Brasil: Impactos Sociais na falta de Saneamento nas maiores cidades brasileiras. “Devia ser relativamente barato ofertar esgoto nessas condições, mas estamos vivendo no século 21, como se estivéssemos no século 19”.
Na realidade, a prestação do serviço não é satisfatória. Dados da pesquisa, que analisou o saneamento nas 79 maiores cidades do país de 2003 a 2007, mostram que a taxa de cobertura de rede geral de esgoto do país é de 49,44%. Nas escolas, a situação é ainda pior: o índice é de 39,27%, de acordo com dados de 2007 do Censo Escolar, variando entre os 9,24% de Porto Velho, em Rondônia, aos 100% de Franca e de Santos, em São Paulo.
A pesquisa indica também que o principal motivo de falta escolar, cerca de 70%, em todas as faixas etárias, são as doenças. Muitas delas têm sua origem na falta de saneamento. Outro dado que afeta diretamente as crianças aponta que a chance de uma criança entre zero e seis anos morrer é 22% (número estatisticamente alto) maior nas residências onde não há cobertura de esgoto. Os meninos correm ainda mais riscos por ficarem mais expostos do que as meninas, culturalmente mais induzidas a ficar dentro de casa.
Por isso, o estudo defende que, assim como há políticas de provisão de merenda escolar, é preciso que haja uma espécie de “bolsa saneamento”, que funcionaria como uma estratégia para aliviar os impactos na saúde.
A performance econômica e a renda familiar também são afetados por esse problema. Quem não tem acesso a esse item tem chance 12% maior de se ausentar no trabalho.
“Para cada um real investido em saneamento, economizamos quatro reais no gasto com saúde pública”, diz Neri. Outro dado apresentado informa que a diferença de estatura entre quem tem acesso ao saneamento básico nos primeiros anos de vida e quem não tem é de dois centímetros, um reflexo da desnutrição infantil proveniente de enfermidades causadas pela falta de tratamento de esgoto. A diferença se mantém para cruzamentos de uma série de variáveis como sexo, idade e região (confira nos simuladores do site).
A PERCEPÇÃO DAS PESSOAS
O diferencial metodológico desse estudo é analisar a questão do ponto de vista dos municípios e separar as periferias das metrópoles em nove regiões metropolitanas. A diferença de taxa de cobertura percebida (relatada pelas pessoas durante a Pnad) entre elas, na média nacional, é de 14%, 53% nas periferias contra 67% nas metrópoles. Em todas as localidades, as primeiras apresentam números piores em relação às segundas.
Ainda de acordo com dados da Pnad – Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio, entre 2003 e 2006, a cobertura de esgoto percebida passou de 45,52% para 46,77%: uma melhora de 1,2%, apenas. A boa notícia é que de 2006 para 2007, a taxa de cobertura passou para 49,44%, ou seja, houve um aumento de nove vezes, apesar de ainda não ser satisfatória.
Liderando o ranking entre as capitais, o índice de Belo Horizonte (MG), em 2007, que era de 97, 05% na metrópole e de 75,7% na periferia, seguido por São Paulo com 88,52% e 71,5%. Entre os piores colocados estão Macapá (AP) com 4,03% e Porto Velho (RO) com 5,6%.
Quando o tema foi a qualidade do serviço, os entrevistados situaram o esgoto como o pior deles (49%) em comparação a água canalizada (81%), eletricidade (98%) e lixo coletado (86%).
Para o professor Neri, a responsabilidade última sobre o tratamento do esgoto é das prefeituras, já que a pesquisa mostrou ser indiferente o tipo empresa que oferta o serviço: entre as cidades de melhores e piores realidades estão companhias públicas e privadas, o que mostra, empiricamente, que o tipo de firma não é relevante para atingir resultados.
“O que importa é a gestão do prefeito, por isso, é preciso cobrar deles e dos prefeitos dos municípios vizinhos que façam sua parte. Os efeitos da falta de esgoto transcendem as fronteiras municipais”, afirma.
Segundo Raul Pinho, presidente do Trata Brasil, as estatísticas atuais indicam que seriam necessários 20 anos para a que toda a sociedade tenha acesso ao saneamento. Em referência aos bilhões de reais que serão investidos em infraestrutura para a Copa do Mundo 2014, no Brasil, Pinho disse ser possível acelerar esse processo.
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Como anda o saneamento básico no Brasil?
A concentração de pessoas em pequenas áreas - 85% dos brasileiros estão na cidade e, destes, 31% nas metrópoles - como acontece no país, causa problemas muito conhecidos, como o trânsito caótico e aumento da violência. Mas uma das vantagens dessa distribuição seria o tratamento de esgoto adequado, por proporcionar economia de escala, de escopo e de rede.
Essa é a opinião do professor Marcelo Neri, chefe do Centro de Políticas Sociais da FGV – Fundação Getúlio Vargas e coordenador do estudo que analisou a oferta e a qualidade desse serviço em nível nacional, Trata Brasil: Impactos Sociais na falta de Saneamento nas maiores cidades brasileiras. “Devia ser relativamente barato ofertar esgoto nessas condições, mas estamos vivendo no século 21, como se estivéssemos no século 19”.
Na realidade, a prestação do serviço não é satisfatória. Dados da pesquisa, que analisou o saneamento nas 79 maiores cidades do país de 2003 a 2007, mostram que a taxa de cobertura de rede geral de esgoto do país é de 49,44%. Nas escolas, a situação é ainda pior: o índice é de 39,27%, de acordo com dados de 2007 do Censo Escolar, variando entre os 9,24% de Porto Velho, em Rondônia, aos 100% de Franca e de Santos, em São Paulo.
A pesquisa indica também que o principal motivo de falta escolar, cerca de 70%, em todas as faixas etárias, são as doenças. Muitas delas têm sua origem na falta de saneamento. Outro dado que afeta diretamente as crianças aponta que a chance de uma criança entre zero e seis anos morrer é 22% (número estatisticamente alto) maior nas residências onde não há cobertura de esgoto. Os meninos correm ainda mais riscos por ficarem mais expostos do que as meninas, culturalmente mais induzidas a ficar dentro de casa.
Por isso, o estudo defende que, assim como há políticas de provisão de merenda escolar, é preciso que haja uma espécie de “bolsa saneamento”, que funcionaria como uma estratégia para aliviar os impactos na saúde.
A performance econômica e a renda familiar também são afetados por esse problema. Quem não tem acesso a esse item tem chance 12% maior de se ausentar no trabalho.
“Para cada um real investido em saneamento, economizamos quatro reais no gasto com saúde pública”, diz Neri. Outro dado apresentado informa que a diferença de estatura entre quem tem acesso ao saneamento básico nos primeiros anos de vida e quem não tem é de dois centímetros, um reflexo da desnutrição infantil proveniente de enfermidades causadas pela falta de tratamento de esgoto. A diferença se mantém para cruzamentos de uma série de variáveis como sexo, idade e região (confira nos simuladores do site).
A PERCEPÇÃO DAS PESSOAS
O diferencial metodológico desse estudo é analisar a questão do ponto de vista dos municípios e separar as periferias das metrópoles em nove regiões metropolitanas. A diferença de taxa de cobertura percebida (relatada pelas pessoas durante a Pnad) entre elas, na média nacional, é de 14%, 53% nas periferias contra 67% nas metrópoles. Em todas as localidades, as primeiras apresentam números piores em relação às segundas.
Ainda de acordo com dados da Pnad – Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio, entre 2003 e 2006, a cobertura de esgoto percebida passou de 45,52% para 46,77%: uma melhora de 1,2%, apenas. A boa notícia é que de 2006 para 2007, a taxa de cobertura passou para 49,44%, ou seja, houve um aumento de nove vezes, apesar de ainda não ser satisfatória.
Liderando o ranking entre as capitais, o índice de Belo Horizonte (MG), em 2007, que era de 97, 05% na metrópole e de 75,7% na periferia, seguido por São Paulo com 88,52% e 71,5%. Entre os piores colocados estão Macapá (AP) com 4,03% e Porto Velho (RO) com 5,6%.
Quando o tema foi a qualidade do serviço, os entrevistados situaram o esgoto como o pior deles (49%) em comparação a água canalizada (81%), eletricidade (98%) e lixo coletado (86%).
Para o professor Neri, a responsabilidade última sobre o tratamento do esgoto é das prefeituras, já que a pesquisa mostrou ser indiferente o tipo empresa que oferta o serviço: entre as cidades de melhores e piores realidades estão companhias públicas e privadas, o que mostra, empiricamente, que o tipo de firma não é relevante para atingir resultados.
“O que importa é a gestão do prefeito, por isso, é preciso cobrar deles e dos prefeitos dos municípios vizinhos que façam sua parte. Os efeitos da falta de esgoto transcendem as fronteiras municipais”, afirma.
Segundo Raul Pinho, presidente do Trata Brasil, as estatísticas atuais indicam que seriam necessários 20 anos para a que toda a sociedade tenha acesso ao saneamento. Em referência aos bilhões de reais que serão investidos em infraestrutura para a Copa do Mundo 2014, no Brasil, Pinho disse ser possível acelerar esse processo.
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