saúde na amazônia
Marinha chega onde o atendimento é precário
O acesso da população ribeirinha do Norte do País à saúde e educação só é possível com a atuação da Marinha brasileira. A única forma de se chegar lá é por rios e afluentes, o que torna a situação de vida bastante precária, demonstrando a fragilidade da cobertura pública nesse pedaço do Brasil
Por Sucena Shkrada Resk
Planeta Sustentável - 17/07/2008
Uma Amazônia carente de saúde, condições sanitárias e de orientação, e que a maioria dos brasileiros desconhece. Esse é o cenário que as equipes médicas e odontológicas da Marinha do Brasil encontram ano após ano, nas missões que são realizadas por três navios de assistência hospitalar da frota.
Os dois primeiros - Oswaldo Cruz e Carlos Chagas - foram construídos com recursos do Ministério da Saúde, na década de 80. O terceiro - Doutor Montenegro – existe graças à parceria com o governo do estado do Acre, em 2000. Esses verdadeiros ambulatórios-hospitais navegam cerca de 20 mil km de rios, que compreendem os estados do Acre, Amapá, Amazonas, Pará, Rondônia e Roraima. Cada missão dura de 25 dias a quatro meses, quando são atendidos os habitantes ribeirinhos, que, em sua maioria, vivem em situação cotidiana de precariedade.
“Em parceria com os órgãos públicos de saúde, que não dispõem de infra-estrutura para dar uma retaguarda permanente, essas missões chegam a ser, em muitos casos, a única prestação de serviço de saúde na região”, afirma o capitão de corveta Luiz André Braz Serafim, oficial de operações do comando da Flotilha do Amazonas. É nestas visitas que os moradores recebem vacinação e tratamento contra doenças típicas no Norte do país, como a malária, hepatite, tuberculose e orientações aos vetores da febre amarela silvestre e da dengue, entre outros. “Eu não imaginava que tanta gente morasse à beira dos rios. A taxa de natalidade e mortalidade infantil é alta na região”, diz o oficial, que no ano passado, comandou o navio Carlos Chagas.
O papel dos profissionais da equipe (geralmente quatro médicos, 4 dentistas, 1 farmacêutico e seis enfermeiros) ainda é prevenir e tratar principalmente doenças parasitárias, que são muito comuns na região, como diarréias, doenças de pele (dermatológicas) dores e inflamações musculares, resultantes do esforço do trabalho braçal. Além disso, as equipes orientam no combate à desnutrição infantil, sobre educação alimentar, prevenção a câncer, DST, Aids e gravidez precoce, que tem alta incidência na região.
O comandante Braz explica que, para dar conta do atendimento básico a centenas de comunidades, o trabalho é desenvolvido em nove pólos divididos ao longo dos rios Solimões, Japurá, Auati-Paraná, Aranapú, Bica, Javari, Purus, Juruá, Madeira, Negro e Branco, Tajapós, Trombetas, Nhamundá, Paraná do Ramos, Jarí, Marajó, Xingu e Tocantins. Só no primeiro semestre deste ano, foram mais de 103 mil atendimentos. Em 2007, ultrapassou os 213 mil. E apesar dos números expressivos, ainda é necessário fazer muito mais, já que este é um problema crônico.
As comunidades, em sua maioria, pertencem aos municípios mais próximos, que em muitos casos, ficam a quilômetros de distância via fluvial, o que dificulta o socorro. Só as maiores dispõem de algum tipo de retaguarda de saúde local providenciada pelo poder público, ou atendimentos periódicos. “Mas o quadro que se repete na maioria é a ausência de regularidade de profissionais de saúde, medicamentos e trabalho preventivo”, constata o comandante.
É nesse universo que aportam os navios, que dispõem de ambulatórios médicos e odontológicos, laboratórios de análises clínicas e farmácias e salas de parto e de cirurgias de baixa complexidade, além de equipamentos de raios-X. O serviço ainda conta com helicóptero e lanchas para os atendimentos mais graves, que exigem remoções.
De acordo com o comandante Braz, o aporte de recursos para o combustível dos navios e para medicamentos vem do Governo Federal, por meio do Ministério da Saúde. “No caso específico do Doutor Montenegro - devido ao convênio com o governo do Acre -, em quatro meses do ano, o atendimento é feito na região e, nos demais meses, em outros pólos”, explica.
Em média, as populações recebem as visitas dos profissionais dos navios de atendimento hospitalar, duas vezes ao ano. E as viagens também dependem das condições do regime de cheias e vazantes dos rios.
EXPERIÊNCIA ÍMPAR
O ano de 2008 tem um significado muito especial para o tenente Marcelo Simonsen, 25 anos, guarda-marinho médico, recém-formado pela Santa Casa de São Paulo, que decidiu trancar um ano de residência para poder ingressar temporariamente nos quadros da Marinha do Brasil, onde atua hoje na equipe do navio Carlos Chagas.
“Já participei de três missões, desde janeiro, nas quais atendemos comunidades dos rios Juruá, Purus, Solimões e Bravo, e Javari. O que mais me sensibilizou foi a simplicidade. Aquelas pessoas nunca estiveram em uma cidade grande e têm uma forma diferente de encarar a vida. É algo bonito, mas ao mesmo tempo triste porque não conseguem perceber como seus filhos poderiam melhorar se saíssem dali. Essa situação acaba ‘amarrando-as’ às regiões. Embora, algumas tenham até antena parabólica em suas casas, essa modernidade não se reflete em coisas básicas, como a construção de fossas sépticas”, conta o médico.
A idéia de participar da missão na região amazônica foi amadurecida nos últimos anos, segundo Simonsen. “Era um desejo meu atender as populações da Amazônia. Conhecer essa realidade enriquece muito, me melhora como pessoa. É uma grande oportunidade de passar por algumas experiências sociais pelas quais eu acho que todo médico deve passar”.
Para o clínico-geral, vários fatores culturais e educacionais interferem na qualidade de vida das pessoas que vivem nas comunidades da Amazônia. “Os pacientes são, na maioria crianças e mulheres. Os homens aparecem em menor quantidade porque, na maioria das vezes, estão trabalhando na hora do atendimento. O que nos frusta é que, mesmo com tanto empenho, a assistência médica que prestamos não consegue alterar a realidade dessas pessoas. Faltam muitos recursos, para contemplar a saúde como um todo. Infelizmente não há tempo disponível”, constata.
A maioria dos casos é de verminose, infecções dermatológicas, anemia e gravidez precoce. “Vemos meninas, na faixa dos 13 anos, que já têm o segundo filho, além de trabalhadores com ‘mialgias’ decorrentes de grande carga de esforço, além de alguns casos de malária e de desnutrição”. A falta de água potável e o hábito de ferver água é uma constante. “Já no período de cheia, algumas comunidades têm dificuldade de plantar para subsistência, o que torna a situação mais precária”, conta Simonsen.
A situação mais carente é detectada ao longo dos rios Purus e Juruá, segundo ele. “Mais de 60% dos moradores jogam os dejetos diretamente nos rios, onde crianças se banham e as populações retiram a água. Essas famílias, em geral, foram para a Amazônia, no ciclo da borracha, no século passado. Hoje sobrevivem, em grande parte, da venda de peixes e subsistem com frutos como ingá e tucuman, e da cultura de legumes (mandioca, feijão e couve...) e hortaliças”. Simonsen ainda observa que raras são as comunidades que têm fossas fundas, recomendadas pelas normas básicas sanitárias da saúde.
MALÁRIA: GRANDE PREOCUPAÇÃO
O tenente Simonsen conta que a vivência direta com os problemas dos ribeirnhos e indígenas torna facilmente perceptível a carência dessa região do país. Nos últimos meses, foi realizada uma operação emergencial da Marinha em apoio à Fundação Nacional de Saúde -Funasa, que priorizou a área do Javari e contou com os navios Carlos Chagas e Oswaldo Cruz. Este último atendeu, também, aldeias indígenas mais isoladas. O motivo é a alta incidência de casos de malária e, também, de hepatite.
“Pode-se constatar, por exemplo, registros na fronteira do Brasil com o Peru. Claro que é importante tratarmos os casos e fazer a vacinação emergencial, mas, para mudar a realidade, é preciso mais recursos. Vou guardar muito mais que memória dessa experiência. Ela fez com que eu mudasse a minha forma de pensar”, afirma.
O índio Clóvis Marubo, da Associação Marubo de São Sebastião, do Vale Javari, chegou a ir para São Paulo, neste mês, com representantes da Organização da União dos Povos Indígenas do Javari, entre outras entidades, para pedir apoio e relatar dificuldades sobre essa situação a instituições governamentais, como o Instituto Butantan. “Há muitos casos de hepatite B, C e D e de morte de crianças e ainda enfrentamos a malária. As missões são paliativas, pois falta, de uma forma geral, medicamentos e equipes de saúde. No mês passado, chegaram a morrer 9 pessoas na minha comunidade. Quando os casos são mais graves, a distância fluvial para percorrer até o socorro mais próximo, pode demorar até 16 horas”, lamenta.
Uma Amazônia carente de saúde, condições sanitárias e de orientação, e que a maioria dos brasileiros desconhece. Esse é o cenário que as equipes médicas e odontológicas da Marinha do Brasil encontram ano após ano, nas missões que são realizadas por três navios de assistência hospitalar da frota.
Os dois primeiros - Oswaldo Cruz e Carlos Chagas - foram construídos com recursos do Ministério da Saúde, na década de 80. O terceiro - Doutor Montenegro – existe graças à parceria com o governo do estado do Acre, em 2000. Esses verdadeiros ambulatórios-hospitais navegam cerca de 20 mil km de rios, que compreendem os estados do Acre, Amapá, Amazonas, Pará, Rondônia e Roraima. Cada missão dura de 25 dias a quatro meses, quando são atendidos os habitantes ribeirinhos, que, em sua maioria, vivem em situação cotidiana de precariedade.
“Em parceria com os órgãos públicos de saúde, que não dispõem de infra-estrutura para dar uma retaguarda permanente, essas missões chegam a ser, em muitos casos, a única prestação de serviço de saúde na região”, afirma o capitão de corveta Luiz André Braz Serafim, oficial de operações do comando da Flotilha do Amazonas. É nestas visitas que os moradores recebem vacinação e tratamento contra doenças típicas no Norte do país, como a malária, hepatite, tuberculose e orientações aos vetores da febre amarela silvestre e da dengue, entre outros. “Eu não imaginava que tanta gente morasse à beira dos rios. A taxa de natalidade e mortalidade infantil é alta na região”, diz o oficial, que no ano passado, comandou o navio Carlos Chagas.
O papel dos profissionais da equipe (geralmente quatro médicos, 4 dentistas, 1 farmacêutico e seis enfermeiros) ainda é prevenir e tratar principalmente doenças parasitárias, que são muito comuns na região, como diarréias, doenças de pele (dermatológicas) dores e inflamações musculares, resultantes do esforço do trabalho braçal. Além disso, as equipes orientam no combate à desnutrição infantil, sobre educação alimentar, prevenção a câncer, DST, Aids e gravidez precoce, que tem alta incidência na região.
O comandante Braz explica que, para dar conta do atendimento básico a centenas de comunidades, o trabalho é desenvolvido em nove pólos divididos ao longo dos rios Solimões, Japurá, Auati-Paraná, Aranapú, Bica, Javari, Purus, Juruá, Madeira, Negro e Branco, Tajapós, Trombetas, Nhamundá, Paraná do Ramos, Jarí, Marajó, Xingu e Tocantins. Só no primeiro semestre deste ano, foram mais de 103 mil atendimentos. Em 2007, ultrapassou os 213 mil. E apesar dos números expressivos, ainda é necessário fazer muito mais, já que este é um problema crônico.
As comunidades, em sua maioria, pertencem aos municípios mais próximos, que em muitos casos, ficam a quilômetros de distância via fluvial, o que dificulta o socorro. Só as maiores dispõem de algum tipo de retaguarda de saúde local providenciada pelo poder público, ou atendimentos periódicos. “Mas o quadro que se repete na maioria é a ausência de regularidade de profissionais de saúde, medicamentos e trabalho preventivo”, constata o comandante.
É nesse universo que aportam os navios, que dispõem de ambulatórios médicos e odontológicos, laboratórios de análises clínicas e farmácias e salas de parto e de cirurgias de baixa complexidade, além de equipamentos de raios-X. O serviço ainda conta com helicóptero e lanchas para os atendimentos mais graves, que exigem remoções.
De acordo com o comandante Braz, o aporte de recursos para o combustível dos navios e para medicamentos vem do Governo Federal, por meio do Ministério da Saúde. “No caso específico do Doutor Montenegro - devido ao convênio com o governo do Acre -, em quatro meses do ano, o atendimento é feito na região e, nos demais meses, em outros pólos”, explica.
Em média, as populações recebem as visitas dos profissionais dos navios de atendimento hospitalar, duas vezes ao ano. E as viagens também dependem das condições do regime de cheias e vazantes dos rios.
EXPERIÊNCIA ÍMPAR
O ano de 2008 tem um significado muito especial para o tenente Marcelo Simonsen, 25 anos, guarda-marinho médico, recém-formado pela Santa Casa de São Paulo, que decidiu trancar um ano de residência para poder ingressar temporariamente nos quadros da Marinha do Brasil, onde atua hoje na equipe do navio Carlos Chagas.
“Já participei de três missões, desde janeiro, nas quais atendemos comunidades dos rios Juruá, Purus, Solimões e Bravo, e Javari. O que mais me sensibilizou foi a simplicidade. Aquelas pessoas nunca estiveram em uma cidade grande e têm uma forma diferente de encarar a vida. É algo bonito, mas ao mesmo tempo triste porque não conseguem perceber como seus filhos poderiam melhorar se saíssem dali. Essa situação acaba ‘amarrando-as’ às regiões. Embora, algumas tenham até antena parabólica em suas casas, essa modernidade não se reflete em coisas básicas, como a construção de fossas sépticas”, conta o médico.
A idéia de participar da missão na região amazônica foi amadurecida nos últimos anos, segundo Simonsen. “Era um desejo meu atender as populações da Amazônia. Conhecer essa realidade enriquece muito, me melhora como pessoa. É uma grande oportunidade de passar por algumas experiências sociais pelas quais eu acho que todo médico deve passar”.
Para o clínico-geral, vários fatores culturais e educacionais interferem na qualidade de vida das pessoas que vivem nas comunidades da Amazônia. “Os pacientes são, na maioria crianças e mulheres. Os homens aparecem em menor quantidade porque, na maioria das vezes, estão trabalhando na hora do atendimento. O que nos frusta é que, mesmo com tanto empenho, a assistência médica que prestamos não consegue alterar a realidade dessas pessoas. Faltam muitos recursos, para contemplar a saúde como um todo. Infelizmente não há tempo disponível”, constata.
A maioria dos casos é de verminose, infecções dermatológicas, anemia e gravidez precoce. “Vemos meninas, na faixa dos 13 anos, que já têm o segundo filho, além de trabalhadores com ‘mialgias’ decorrentes de grande carga de esforço, além de alguns casos de malária e de desnutrição”. A falta de água potável e o hábito de ferver água é uma constante. “Já no período de cheia, algumas comunidades têm dificuldade de plantar para subsistência, o que torna a situação mais precária”, conta Simonsen.
A situação mais carente é detectada ao longo dos rios Purus e Juruá, segundo ele. “Mais de 60% dos moradores jogam os dejetos diretamente nos rios, onde crianças se banham e as populações retiram a água. Essas famílias, em geral, foram para a Amazônia, no ciclo da borracha, no século passado. Hoje sobrevivem, em grande parte, da venda de peixes e subsistem com frutos como ingá e tucuman, e da cultura de legumes (mandioca, feijão e couve...) e hortaliças”. Simonsen ainda observa que raras são as comunidades que têm fossas fundas, recomendadas pelas normas básicas sanitárias da saúde.
MALÁRIA: GRANDE PREOCUPAÇÃO
O tenente Simonsen conta que a vivência direta com os problemas dos ribeirnhos e indígenas torna facilmente perceptível a carência dessa região do país. Nos últimos meses, foi realizada uma operação emergencial da Marinha em apoio à Fundação Nacional de Saúde -Funasa, que priorizou a área do Javari e contou com os navios Carlos Chagas e Oswaldo Cruz. Este último atendeu, também, aldeias indígenas mais isoladas. O motivo é a alta incidência de casos de malária e, também, de hepatite.
“Pode-se constatar, por exemplo, registros na fronteira do Brasil com o Peru. Claro que é importante tratarmos os casos e fazer a vacinação emergencial, mas, para mudar a realidade, é preciso mais recursos. Vou guardar muito mais que memória dessa experiência. Ela fez com que eu mudasse a minha forma de pensar”, afirma.
O índio Clóvis Marubo, da Associação Marubo de São Sebastião, do Vale Javari, chegou a ir para São Paulo, neste mês, com representantes da Organização da União dos Povos Indígenas do Javari, entre outras entidades, para pedir apoio e relatar dificuldades sobre essa situação a instituições governamentais, como o Instituto Butantan. “Há muitos casos de hepatite B, C e D e de morte de crianças e ainda enfrentamos a malária. As missões são paliativas, pois falta, de uma forma geral, medicamentos e equipes de saúde. No mês passado, chegaram a morrer 9 pessoas na minha comunidade. Quando os casos são mais graves, a distância fluvial para percorrer até o socorro mais próximo, pode demorar até 16 horas”, lamenta.