Poluição
Dá um aperto no peito
Não são só os pulmões que saem perdendo nesse mundo esfumaçado. O coração também sofre um bocado. Aprenda a, na medida do possível, se proteger dessa ameaça
Por Anderson Moço
Revista Saúde! - 12/2007
Basta que os níveis de poluentes atmosféricos subam um pouco e ultrapassem ligeiramente o que seria o limite aceitável para que os hospitais fiquem cheios de pacientes com queixas de dor de cabeça, tontura e, pior ainda, dor no peito- alguns dos sinais da pressão sangüínea nas alturas. Pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo, a Unifesp, mostraram a relação ao comparar os índices de poluição na capital paulista e a necessidade de atendimento médico a mais de 17 mil hipertensos. Notou-se que a procura por hospitais simplesmente triplica nos dias em que a qualidade do ar piora. Culpa, acredite, do monóxido de carbono e dos dióxidos de enxofre e de nitrogênio- liberados aos montes pelos automóveis.
Os gases que saem dos escapamentos, diluídos na correnteza do sangue, irritariam nossas artérias. "Dentre outras coisas, fariam o endotélio, o revestimento interno dos vasos, liberar altas doses de endotelina, um potente vasoconstritor. Aí a pressão vai lá no alto", explica o cardiologista Abraão José Cury, que chefiou o estudo. Não à toa, só em São Paulo o número de mortes por infarto e derrame cresce 15% nos dias mais esfumaçados. Há quem apresente estatísticas até piores.
Um trabalho publicado no periódico científico The New England Journal of Medicine mostra que o ar poluído das grandes cidades faz as chances de aparecer um problema cardiovascular aumentarem mais de 25%- e, detalhe, os pesquisadores avaliaram durante seis anos 66 mil moradores de metrópoles com índices de poluição, digamos, mais aceitáveis, dentro dos limites, por assim dizer -, eliminando dos complicados cálculos estatísticos dias de estado de alerta. Segundo o mesmo trabalho, para quem já é cardíaco, aspirar o ar sujo eleva em 76% o risco de morrer- ou seja, para essa gente, o ideal seria se mudar para um recanto com atmosfera limpa.
"Para complicar, além de aumentar a pressão, a poluição diminui a capacidade do coração de se adaptar às exigências cotidianas", diz o médico sanitarista Luiz Alberto Amador Pereira, do Laboratório de Poluição Atmosférica da Universidade de São Paulo. "Ele não consegue variar direito a freqüência de seus batimentos para enfrentar situações de estresse", exemplifica.
"Mulheres, idosos e portadores de diabete são os mais suscetíveis aos prejuízos provocados pela poluição", ressalta o sanitarista Luiz Alberto Amador Pereira, da USP. No caso das mulheres, especificamente, os cientistas ainda não descobriram exatamente por que isso acontece- indícios apontam que os hormônios femininos estejam por trás dessa história. Já para quem tem mais de 60 anos e para os diabéticos a explicação é a mesma. "O organismo dessa gente é mais suscetível à ação dos agentes inflamatórios produzidos pelo corpo exposto aos gases poluentes", explica o cardiologista Marcos Knobel, do Hospital Israelita Albert Einstein, de São Paulo.
Uma investigação feita pela Universidade Northwestern, em Chicago, nos Estados Unidos, mostra ainda que, quando o ar poluído chega aos pulmões, irrita-os a tal ponto que o sistema imunológico passa a lançar uma quantidade 15 vezes maior de uma molécula chamada interleucina-6. E ela provoca mais inflamações por onde passa- artérias, coração, rins, fígado. De quebra, tudo isso aumenta a coagulação sangüínea, deixando o sangue mais espesso.
O CAMINHO DA POLUIÇÃO
Clique aqui e vejacomoa fumaça se espalha pelo sistema circulatório e conheça os danos que ela provoca
"Viscoso, ele passa a exigir mais do coração para ser bombeado, sem contar que não oxigena o músculo cardíaco direito", diz o cardiologista Abraão José Cury, da Unifesp. "Esse quadro contribui para que as placas de gordura se soltem das paredes do vaso, o que pode bloquear o fluxo de sangue", resume. Um nefasto efeito em cadeia provocado pelo ar nosso- e poluído- de cada dia.
OS QUATRO PECADOS CAPITAIS
Sem se dar conta, você pode se expor ainda mais aos gases poluentes
1. Ficar no carro com o ar-condicionado ligado: estar no trânsito com os vidros fechados multiplica por quatro a quantidade de poluentes que você está inalando. "Quando não há circulação de vento os gases tóxicos se concentram dentro do automóvel", explica o sanitarista Luiz Alberto Amador Pereira, da USP.
2. Passear à tarde no parque: nesse período do dia os locais de lazer público ficam cheios de visitantes. Mas esse é exatamente o horário em que se concentra a maior quantidade de uma substância pra lá de nociva ao peito: o ozônio. "Esse gás intensifica muito o processo oxidativo do organismo, favorecendo inflamações e lesões graves no sistema cardiovascular", ressalta o cardiologista Abraão José Cury, da Unifesp.
3. Caminhar e correr em ruas muito movimentadas: Isso é um veneno para a saúde do seu coração. "Procure se exercitar em locais com pouca circulação de carros", recomenda Luiz Alberto Amador Pereira.
4. Ficar na rua em dias poluídos: Quem tem problemas no coração ou histórico de doenças cardiovasculares na família deve evitar sair de casa quando os gases nocivos estão perigosamente concentrados sobre a cidade. "Se você mora perto de uma via com muito trânsito, feche as janelas nos horários de engarrafamento", alerta Pereira.
SEU PEITO EM UMA REDOMA
A poluição do ar está em todos os lugares e já chegou até mesmo ao interior do país. Como não dá para fugir dela, o ideal é adotar alguns hábitos que ajudam a minimizar seus efeitos ruins
Alimentação
"Uma dieta balanceada, rica em fibras e vitaminas, alivia o impacto dos poluentes sobre o organismo", garante o sanitarista Luiz Alberto Amador Pereira, do Laboratório de Poluição Atmosférica da USP. O ideal seria ingerir, diariamente, porções de aveia e de itens cheios de antocianinas, como vinho tinto e uva escura- ou o seu suco. Invista também em frutas e verduras ricas nas vitaminas E e C, como a laranja e o espinafre. Elas combatem os radicais livres, moléculas que causam danos às artérias, cuja produção aumenta à beça nos dias mais poluídos.
Menos estresse
Levar a vida de um jeito mais leve, sorrir mais e, sempre que possível, aproveitar momentos de felicidade ao lado dos amigos e da família- essa é sempre uma ótima receita. "Uma rotina estressante aliada à poluição do ar é como uma bomba-relógio para a saúde do peito", opina o cardiologista Abraão José Cury. Valorize os momentos de descontração, procurando deixar o nervosismo e a ansiedade bem longe de você- principalmente quando estiver preso no trânsito e envolto em toda aquela fumaça.
Atividade física
Exercícios aeróbicos realizados por, no mínimo, meia hora três vezes por semana ajudam a fortalecer o peito. "A caminhada ou a corrida aumentam a capacidade muscular do coração e a elasticidade das artérias, diminuindo os risco de problemas", aconselha o cardiologista Marcos Knobel, do Hospital Israelita Albert Einstein, de São Paulo.
Basta que os níveis de poluentes atmosféricos subam um pouco e ultrapassem ligeiramente o que seria o limite aceitável para que os hospitais fiquem cheios de pacientes com queixas de dor de cabeça, tontura e, pior ainda, dor no peito- alguns dos sinais da pressão sangüínea nas alturas. Pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo, a Unifesp, mostraram a relação ao comparar os índices de poluição na capital paulista e a necessidade de atendimento médico a mais de 17 mil hipertensos. Notou-se que a procura por hospitais simplesmente triplica nos dias em que a qualidade do ar piora. Culpa, acredite, do monóxido de carbono e dos dióxidos de enxofre e de nitrogênio- liberados aos montes pelos automóveis.
Os gases que saem dos escapamentos, diluídos na correnteza do sangue, irritariam nossas artérias. "Dentre outras coisas, fariam o endotélio, o revestimento interno dos vasos, liberar altas doses de endotelina, um potente vasoconstritor. Aí a pressão vai lá no alto", explica o cardiologista Abraão José Cury, que chefiou o estudo. Não à toa, só em São Paulo o número de mortes por infarto e derrame cresce 15% nos dias mais esfumaçados. Há quem apresente estatísticas até piores.
Um trabalho publicado no periódico científico The New England Journal of Medicine mostra que o ar poluído das grandes cidades faz as chances de aparecer um problema cardiovascular aumentarem mais de 25%- e, detalhe, os pesquisadores avaliaram durante seis anos 66 mil moradores de metrópoles com índices de poluição, digamos, mais aceitáveis, dentro dos limites, por assim dizer -, eliminando dos complicados cálculos estatísticos dias de estado de alerta. Segundo o mesmo trabalho, para quem já é cardíaco, aspirar o ar sujo eleva em 76% o risco de morrer- ou seja, para essa gente, o ideal seria se mudar para um recanto com atmosfera limpa.
"Para complicar, além de aumentar a pressão, a poluição diminui a capacidade do coração de se adaptar às exigências cotidianas", diz o médico sanitarista Luiz Alberto Amador Pereira, do Laboratório de Poluição Atmosférica da Universidade de São Paulo. "Ele não consegue variar direito a freqüência de seus batimentos para enfrentar situações de estresse", exemplifica.
"Mulheres, idosos e portadores de diabete são os mais suscetíveis aos prejuízos provocados pela poluição", ressalta o sanitarista Luiz Alberto Amador Pereira, da USP. No caso das mulheres, especificamente, os cientistas ainda não descobriram exatamente por que isso acontece- indícios apontam que os hormônios femininos estejam por trás dessa história. Já para quem tem mais de 60 anos e para os diabéticos a explicação é a mesma. "O organismo dessa gente é mais suscetível à ação dos agentes inflamatórios produzidos pelo corpo exposto aos gases poluentes", explica o cardiologista Marcos Knobel, do Hospital Israelita Albert Einstein, de São Paulo.
Uma investigação feita pela Universidade Northwestern, em Chicago, nos Estados Unidos, mostra ainda que, quando o ar poluído chega aos pulmões, irrita-os a tal ponto que o sistema imunológico passa a lançar uma quantidade 15 vezes maior de uma molécula chamada interleucina-6. E ela provoca mais inflamações por onde passa- artérias, coração, rins, fígado. De quebra, tudo isso aumenta a coagulação sangüínea, deixando o sangue mais espesso.
O CAMINHO DA POLUIÇÃO
Clique aqui e vejacomoa fumaça se espalha pelo sistema circulatório e conheça os danos que ela provoca
"Viscoso, ele passa a exigir mais do coração para ser bombeado, sem contar que não oxigena o músculo cardíaco direito", diz o cardiologista Abraão José Cury, da Unifesp. "Esse quadro contribui para que as placas de gordura se soltem das paredes do vaso, o que pode bloquear o fluxo de sangue", resume. Um nefasto efeito em cadeia provocado pelo ar nosso- e poluído- de cada dia.
OS QUATRO PECADOS CAPITAIS
Sem se dar conta, você pode se expor ainda mais aos gases poluentes
1. Ficar no carro com o ar-condicionado ligado: estar no trânsito com os vidros fechados multiplica por quatro a quantidade de poluentes que você está inalando. "Quando não há circulação de vento os gases tóxicos se concentram dentro do automóvel", explica o sanitarista Luiz Alberto Amador Pereira, da USP.
2. Passear à tarde no parque: nesse período do dia os locais de lazer público ficam cheios de visitantes. Mas esse é exatamente o horário em que se concentra a maior quantidade de uma substância pra lá de nociva ao peito: o ozônio. "Esse gás intensifica muito o processo oxidativo do organismo, favorecendo inflamações e lesões graves no sistema cardiovascular", ressalta o cardiologista Abraão José Cury, da Unifesp.
3. Caminhar e correr em ruas muito movimentadas: Isso é um veneno para a saúde do seu coração. "Procure se exercitar em locais com pouca circulação de carros", recomenda Luiz Alberto Amador Pereira.
4. Ficar na rua em dias poluídos: Quem tem problemas no coração ou histórico de doenças cardiovasculares na família deve evitar sair de casa quando os gases nocivos estão perigosamente concentrados sobre a cidade. "Se você mora perto de uma via com muito trânsito, feche as janelas nos horários de engarrafamento", alerta Pereira.
SEU PEITO EM UMA REDOMA
A poluição do ar está em todos os lugares e já chegou até mesmo ao interior do país. Como não dá para fugir dela, o ideal é adotar alguns hábitos que ajudam a minimizar seus efeitos ruins
Alimentação
"Uma dieta balanceada, rica em fibras e vitaminas, alivia o impacto dos poluentes sobre o organismo", garante o sanitarista Luiz Alberto Amador Pereira, do Laboratório de Poluição Atmosférica da USP. O ideal seria ingerir, diariamente, porções de aveia e de itens cheios de antocianinas, como vinho tinto e uva escura- ou o seu suco. Invista também em frutas e verduras ricas nas vitaminas E e C, como a laranja e o espinafre. Elas combatem os radicais livres, moléculas que causam danos às artérias, cuja produção aumenta à beça nos dias mais poluídos.
Menos estresse
Levar a vida de um jeito mais leve, sorrir mais e, sempre que possível, aproveitar momentos de felicidade ao lado dos amigos e da família- essa é sempre uma ótima receita. "Uma rotina estressante aliada à poluição do ar é como uma bomba-relógio para a saúde do peito", opina o cardiologista Abraão José Cury. Valorize os momentos de descontração, procurando deixar o nervosismo e a ansiedade bem longe de você- principalmente quando estiver preso no trânsito e envolto em toda aquela fumaça.
Atividade física
Exercícios aeróbicos realizados por, no mínimo, meia hora três vezes por semana ajudam a fortalecer o peito. "A caminhada ou a corrida aumentam a capacidade muscular do coração e a elasticidade das artérias, diminuindo os risco de problemas", aconselha o cardiologista Marcos Knobel, do Hospital Israelita Albert Einstein, de São Paulo.