Por Lina de Albuquerque
Revista Claudia - 09/2007
É automático fazer a associação entre a figura do médico e a cura de um paciente. Mas um diagnóstico realista revela uma situação bem diferente: os médicos brasileiros estão adoecendo e, aos poucos, vão perdendo o medo de exibir a própria ferida. "Eu vivo em eterno estado de burnout", afirma o médico baiano Dirley Barreto de Cerqueira, 31 anos, residente em cirurgia geral de um famoso centro cardiológico e plantonista de um serviço público de emergência, ambos em São Paulo.
Ele se refere à síndrome de burnout - termo inglês que une as palavras burn (queimar) e out (exterior) para designar um mal identificado na década de 80 que consome física e emocionalmente profissionais extremamente devotados ao seu ofício.
No ranking dos candidatos a desenvolver essa doença ocupacional, que acomete com freqüência professores e jornalistas, não é novidade a presença dos profissionais de saúde. O estudo mais recente do Conselho Federal de Medicina apontou, em 2004, que 88% de uma amostragem de 8.980 entrevistados consideraram a atividade desgastante.
"Os especialistas que atuam no limite entre a vida e a morte estão mais expostos ao risco, pois uma decisão errada compromete o restabelecimento ou mesmo a sobrevivência do paciente", afirma o psiquiatra Luiz Antonio Nogueira Martins, professor de psicologia médica da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).
Hoje também se reconhece não serem desprezíveis, entre os médicos, os elevados índices de infarto, alcoolismo, gastrite, hipertensão e colesterol alto. Ultimamente os indicadores de obesidade e tabagismo sofreram um pequeno declínio", reconhece Martins. "Os médicos tornaram-se menos sedentários. Em contrapartida, passaram a ter mais distúrbios ligados aos estados de depressão e ansiedade, à síndrome do pânico e ao burnout."
Por trás desse novo quadro de sintomas pode existir um fenômeno conhecido como "onipotência do conhecimento", observa o psiquiatra João Carlos Dias, diretor da Associação Brasileira de Psiquiatria. "A segurança do saber científico pode aumentar a dificuldade de buscar ajuda."
O psiquiatra ressalta que os índices de suicídio são mais presentes em especialidades como a dos anestesistas e psiquiatras. O uso de substâncias químicas, por sua vez, é outra realidade preocupante nos hospitais (leia depoimento).
O psiquiatra Marcelo Niel, coordenador do Programa de Orientação e Atendimento aos Dependentes (Proad), vinculado à Unifesp, defendeu no ano passado uma tese sobre o reconhecido alto índice de consumo de drogas de uso hospitalar pelos anestesistas, graças ao acesso facilitado aos centros cirúrgicos. "Esse comportamento geralmente reflete a completa falta de preparo para lidar com as freqüentes situações de morte", ele analisa.
Não por acaso, o grupo dos dependentes químicos foi escolhido para um projeto piloto de tratamento de médicos, coordenado pelo psiquiatra Hamer Palhares Alves, na Unifesp. O programa ganhou o apoio do Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp) e depois se ampliou para atender transtornos ligados à ansiedade, à depressão e, naturalmente, ao burnout. "É verdade que os médicos costumam postergar o tratamento. Mas, uma vez que aderem, o sucesso pode ser até maior", pondera Alves.
Sem recorrer ao expediente de esconder-se sob um pseudônimo, o médico Dirley de Cerqueira escancara os bastidores do ofício com notável sinceridade. "As condições a que me submeto para continuar exercendo a medicina estão longe de serem saudáveis. A qualidade de vida é zero. Já passei 14 horas de pé numa cirurgia e depois fui dar um plantão de 12 horas." Casado com uma enfermeira, viu-se obrigado a adiar os planos de ter filhos. "A falta de tempo acaba desestruturando a vida pessoal. Mas é impossível sobreviver apenas com um emprego." O salário-base de um médico contratado pela Prefeitura de São Paulo em período integral é de 881,88 reais.
O médico baiano confessa que chegou a pensar em desistir, mesmo sendo apaixonado pelo ofício. Ele diz se sentir permanentemente esgotado, adormece nas palestras e há pouco descobriu que tem colesterol alto. "Eu não desprezo os componentes genéticos. Mas o ritmo de vida que levo provavelmente fez com que isso se manifestasse mais cedo. Durmo mal, pulo as refeições e não me alimento de forma saudável. Aposto que, se fizessem um cateterismo, muitos médicos descobririam que têm problemas de coração."
A sobrecarga de trabalho, aliada a situações de stress e ansiedade, funciona como agravante de doenças do coração. É temerário generalizar a causa, mas não deixa de chamar a atenção o fato de que, entre 23 membros da diretoria do Sindicato dos Médicos de São Paulo (Simesp), cinco sejam enfartados. Quem fornece esses números é o próprio presidente do Simesp, o neurocirurgião Cid Carvalhaes.
Não bastasse o contato com mortes e o risco de contágio, os médicos convivem cada vez mais com situações de ameaças à sua segurança", ele afirma. Somente neste ano foram registradas, na Polícia Federal, 45 agressões físicas contra médicos peritos, segundo a Associação Nacional dos Médicos Peritos da Previdência (ANMP). Em apenas nove meses, dois médicos peritos foram assassinados em Minas Gerais. Em setembro de 2006, Maria Cristina Souza Felipe da Silva, então chefe do setor de perícias do INSS em Governador Valadares, foi assassinada porque havia desvendado um esquema de fraudes.
E, em maio passado, insatisfeito com a não-realização de uma perícia, o gari Manoel de Souza, de Patrocínio, entrou na sala do médico José Rodrigues de Souza e disparou um tiro contra a sua nuca. Por motivo parecido - a recusa de renovação da licença médica -, a autônoma Ana Cristina do Nascimento esfaqueou outro perito do INSS, Gustavo Almeida, que no entanto sobreviveu.
Falta de segurança, acúmulo de empregos e condições precárias de trabalho evidentemente podem ter reflexos negativos na saúde dos médicos. Mas, na opinião do obstetra Luis Barbosa da Silva, coordenador da Maternidade Sofia Feldman, em Belo Horizonte, considerada exemplo de humanização no atendimento pelo Ministério da Saúde, a falta de uma visão humanista na formação também é fator significativo de desgaste físico e emocional.
"Muitos se deixaram escravizar por um sistema imediatista e impessoal que cada vez mais valoriza o lucro e se afasta do paciente", ele afirma. Para Cid Carvalhaes, presidente do Sindicato dos Médicos de São Paulo, o ideal seria que as entidades da classe tivessem a iniciativa de implantar programas para orientar o médico a se cuidar.
"O médico é o pior paciente", diz Carvalhaes. "Ele subestima seus sintomas e se automedica." Essa situação se torna ainda mais dolorosa pela contradição inerente ao diagnóstico: quem cuida pode estar precisando de cuidados.
CONSUMI DROGA ANESTÉSICA POR TRÊS ANOS*
"Quem passou a dica foi um amigo que morava nos Estados Unidos e estava de férias em São Paulo. Sou anestesista e por isso era mais fácil ter acesso à ketamina, anestésico usado em casos de emergência. A ketamina é um conhecido anestésico de cavalo.
É com ela que se faz o special key ("chave especial"), uma droga usada nas baladas. No final do expediente, aspirei 3 mililitros do frasco hospitalar e escondi a seringa contendo o líquido na mochila. Em casa, aqueci a substância no microondas até ficar parecida com cristais de sal grosso e cheirei. A noite foi sensacional.
Tomei gosto pela coisa. No hospital, quase não tinha contato com a luz do sol e via gente morrendo a toda hora. O anestesista é um profissional altamente estressado e sofre pressão do lado dos cirurgiões e dos pacientes. A carga horária é desumana. Eu precisava de diversão a qualquer preço. A fissura pelo key durou uns três anos.
Minha semana de trabalho praticamente só começava na quarta-feira. Na segunda, já chegava atrasado porque tinha virado a noite. Na terça, ainda me recuperava dos excessos do final de semana. Nunca consumi durante o trabalho, em que, aí sim, cheguei a conviver com médicos que estavam numa situação bem pior.
Eles ficaram dependentes de outras drogas de uso hospitalar, como a morfina (analgésico usado no pós-operatório) e o fetanil (anestésico também indicado contra dor oncológica). Um dia, encontrei um colega no banheiro aplicando fetanil no pé. Ele já tinha sido demitido antes e reincidiu. Tenho vários colegas afastados pelo mesmo motivo.
Devem achar difícil trabalhar com a galinha dos ovos de ouro sem mexer nos ovos. No meu caso, só parei porque desenvolvi síndrome do pânico decorrente do uso da droga.
A terapia e a academia me ajudaram a contornar o problema. Não sou hipócrita a ponto de dizer que me afastei completamente das drogas. Volta e meia ainda me jogo. Mas nunca mais tirei nada do hospital. A última vez que consumi bala (ecstasy) foi numa superfesta. E depois me senti culpado. Espero parar totalmente. Sou médico, mas não deixo de ser humano."
*O entrevistado tem 35 anos e trabalha num hospital público
Por Lina de Albuquerque
Revista Claudia - 09/2007
Ele se refere à síndrome de burnout - termo inglês que une as palavras burn (queimar) e out (exterior) para designar um mal identificado na década de 80 que consome física e emocionalmente profissionais extremamente devotados ao seu ofício.
No ranking dos candidatos a desenvolver essa doença ocupacional, que acomete com freqüência professores e jornalistas, não é novidade a presença dos profissionais de saúde. O estudo mais recente do Conselho Federal de Medicina apontou, em 2004, que 88% de uma amostragem de 8.980 entrevistados consideraram a atividade desgastante.
"Os especialistas que atuam no limite entre a vida e a morte estão mais expostos ao risco, pois uma decisão errada compromete o restabelecimento ou mesmo a sobrevivência do paciente", afirma o psiquiatra Luiz Antonio Nogueira Martins, professor de psicologia médica da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).
Hoje também se reconhece não serem desprezíveis, entre os médicos, os elevados índices de infarto, alcoolismo, gastrite, hipertensão e colesterol alto. Ultimamente os indicadores de obesidade e tabagismo sofreram um pequeno declínio", reconhece Martins. "Os médicos tornaram-se menos sedentários. Em contrapartida, passaram a ter mais distúrbios ligados aos estados de depressão e ansiedade, à síndrome do pânico e ao burnout."
Por trás desse novo quadro de sintomas pode existir um fenômeno conhecido como "onipotência do conhecimento", observa o psiquiatra João Carlos Dias, diretor da Associação Brasileira de Psiquiatria. "A segurança do saber científico pode aumentar a dificuldade de buscar ajuda."
O psiquiatra ressalta que os índices de suicídio são mais presentes em especialidades como a dos anestesistas e psiquiatras. O uso de substâncias químicas, por sua vez, é outra realidade preocupante nos hospitais (leia depoimento).
O psiquiatra Marcelo Niel, coordenador do Programa de Orientação e Atendimento aos Dependentes (Proad), vinculado à Unifesp, defendeu no ano passado uma tese sobre o reconhecido alto índice de consumo de drogas de uso hospitalar pelos anestesistas, graças ao acesso facilitado aos centros cirúrgicos. "Esse comportamento geralmente reflete a completa falta de preparo para lidar com as freqüentes situações de morte", ele analisa.
Não por acaso, o grupo dos dependentes químicos foi escolhido para um projeto piloto de tratamento de médicos, coordenado pelo psiquiatra Hamer Palhares Alves, na Unifesp. O programa ganhou o apoio do Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp) e depois se ampliou para atender transtornos ligados à ansiedade, à depressão e, naturalmente, ao burnout. "É verdade que os médicos costumam postergar o tratamento. Mas, uma vez que aderem, o sucesso pode ser até maior", pondera Alves.
Sem recorrer ao expediente de esconder-se sob um pseudônimo, o médico Dirley de Cerqueira escancara os bastidores do ofício com notável sinceridade. "As condições a que me submeto para continuar exercendo a medicina estão longe de serem saudáveis. A qualidade de vida é zero. Já passei 14 horas de pé numa cirurgia e depois fui dar um plantão de 12 horas." Casado com uma enfermeira, viu-se obrigado a adiar os planos de ter filhos. "A falta de tempo acaba desestruturando a vida pessoal. Mas é impossível sobreviver apenas com um emprego." O salário-base de um médico contratado pela Prefeitura de São Paulo em período integral é de 881,88 reais.
O médico baiano confessa que chegou a pensar em desistir, mesmo sendo apaixonado pelo ofício. Ele diz se sentir permanentemente esgotado, adormece nas palestras e há pouco descobriu que tem colesterol alto. "Eu não desprezo os componentes genéticos. Mas o ritmo de vida que levo provavelmente fez com que isso se manifestasse mais cedo. Durmo mal, pulo as refeições e não me alimento de forma saudável. Aposto que, se fizessem um cateterismo, muitos médicos descobririam que têm problemas de coração."
A sobrecarga de trabalho, aliada a situações de stress e ansiedade, funciona como agravante de doenças do coração. É temerário generalizar a causa, mas não deixa de chamar a atenção o fato de que, entre 23 membros da diretoria do Sindicato dos Médicos de São Paulo (Simesp), cinco sejam enfartados. Quem fornece esses números é o próprio presidente do Simesp, o neurocirurgião Cid Carvalhaes.
Não bastasse o contato com mortes e o risco de contágio, os médicos convivem cada vez mais com situações de ameaças à sua segurança", ele afirma. Somente neste ano foram registradas, na Polícia Federal, 45 agressões físicas contra médicos peritos, segundo a Associação Nacional dos Médicos Peritos da Previdência (ANMP). Em apenas nove meses, dois médicos peritos foram assassinados em Minas Gerais. Em setembro de 2006, Maria Cristina Souza Felipe da Silva, então chefe do setor de perícias do INSS em Governador Valadares, foi assassinada porque havia desvendado um esquema de fraudes.
E, em maio passado, insatisfeito com a não-realização de uma perícia, o gari Manoel de Souza, de Patrocínio, entrou na sala do médico José Rodrigues de Souza e disparou um tiro contra a sua nuca. Por motivo parecido - a recusa de renovação da licença médica -, a autônoma Ana Cristina do Nascimento esfaqueou outro perito do INSS, Gustavo Almeida, que no entanto sobreviveu.
Falta de segurança, acúmulo de empregos e condições precárias de trabalho evidentemente podem ter reflexos negativos na saúde dos médicos. Mas, na opinião do obstetra Luis Barbosa da Silva, coordenador da Maternidade Sofia Feldman, em Belo Horizonte, considerada exemplo de humanização no atendimento pelo Ministério da Saúde, a falta de uma visão humanista na formação também é fator significativo de desgaste físico e emocional.
"Muitos se deixaram escravizar por um sistema imediatista e impessoal que cada vez mais valoriza o lucro e se afasta do paciente", ele afirma. Para Cid Carvalhaes, presidente do Sindicato dos Médicos de São Paulo, o ideal seria que as entidades da classe tivessem a iniciativa de implantar programas para orientar o médico a se cuidar.
"O médico é o pior paciente", diz Carvalhaes. "Ele subestima seus sintomas e se automedica." Essa situação se torna ainda mais dolorosa pela contradição inerente ao diagnóstico: quem cuida pode estar precisando de cuidados.
CONSUMI DROGA ANESTÉSICA POR TRÊS ANOS*
"Quem passou a dica foi um amigo que morava nos Estados Unidos e estava de férias em São Paulo. Sou anestesista e por isso era mais fácil ter acesso à ketamina, anestésico usado em casos de emergência. A ketamina é um conhecido anestésico de cavalo.
É com ela que se faz o special key ("chave especial"), uma droga usada nas baladas. No final do expediente, aspirei 3 mililitros do frasco hospitalar e escondi a seringa contendo o líquido na mochila. Em casa, aqueci a substância no microondas até ficar parecida com cristais de sal grosso e cheirei. A noite foi sensacional.
Tomei gosto pela coisa. No hospital, quase não tinha contato com a luz do sol e via gente morrendo a toda hora. O anestesista é um profissional altamente estressado e sofre pressão do lado dos cirurgiões e dos pacientes. A carga horária é desumana. Eu precisava de diversão a qualquer preço. A fissura pelo key durou uns três anos.
Minha semana de trabalho praticamente só começava na quarta-feira. Na segunda, já chegava atrasado porque tinha virado a noite. Na terça, ainda me recuperava dos excessos do final de semana. Nunca consumi durante o trabalho, em que, aí sim, cheguei a conviver com médicos que estavam numa situação bem pior.
Eles ficaram dependentes de outras drogas de uso hospitalar, como a morfina (analgésico usado no pós-operatório) e o fetanil (anestésico também indicado contra dor oncológica). Um dia, encontrei um colega no banheiro aplicando fetanil no pé. Ele já tinha sido demitido antes e reincidiu. Tenho vários colegas afastados pelo mesmo motivo.
Devem achar difícil trabalhar com a galinha dos ovos de ouro sem mexer nos ovos. No meu caso, só parei porque desenvolvi síndrome do pânico decorrente do uso da droga.
A terapia e a academia me ajudaram a contornar o problema. Não sou hipócrita a ponto de dizer que me afastei completamente das drogas. Volta e meia ainda me jogo. Mas nunca mais tirei nada do hospital. A última vez que consumi bala (ecstasy) foi numa superfesta. E depois me senti culpado. Espero parar totalmente. Sou médico, mas não deixo de ser humano."
*O entrevistado tem 35 anos e trabalha num hospital público
























