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Fórum discute agricultura e consumo no Brasil
Evento sobre sustentabilidade discute as dificuldades do setor agrícolas para comprar fertilizantes, a legislação para uso da terra e as expectativas e preocupações do brasileiro na hora de comprar um produto

Por Roberta Ávila
Planeta Sustentável - 29/10/2008

O Fórum de Sustentabilidade da Bunge realizado no dia 13 de outubro, em São Paulo, teve início com as palestras de Adalgiso Telles, diretor corporativo de comunicação da Bunge e de André Pessoa, presidente da Agroconsult.

O papel dos fertilizantes na agricultura foi o tema abordado por Ariosto Riva, vice-presidente de nutrientes e fertilizantes da Bunge. Ele destacou que apenas 1/4 do planeta é agricultável, sendo que só 1/8 do total pode ser utilizado para a produção de alimentos. “Isso equivale a 3% da área total da Terra, que produz alimentos para 6,9 bilhões de pessoas. Nesse contexto, o Brasil tem grande importância já que possui a maior disponibilidade de terras agricultáveis do mundo, como também as maiores reservas de água doce (20% do total mundial)”, declarou. No entanto, cerca de 70% do solo brasileiro têm pouca fertilidade, por isso a importância dos fertilizantes.

Apesar da necessidade e da importância dos insumos no país, China, EUA e Índia são os maiores consumidores do produto no mundo e, por isso, são os responsáveis pela alteração de preços. Segundo ele, a atuação do Brasil é muito pequena para provocar flutuação nos valores. Ariosto salientou que a carga tributária dificulta a logística de compra - é mais barato trazer fertilizantes do Marrocos do que levar de um estado para outro por causa dos impostos – e que a demanda mundial pelo produto é crescente, concluindo que a integração com a pecuária traria vantagens aos agricultores para o setor.

GRANDES PERDAS
Em sua apresentação, Luís Fernando Laranja, diretor do Programa Agricultura e Meio Ambiente da WWF-Brasil destacou a necessidade crescente dos 8 Fs - Food, Feed, Fibers, Fuel, Forests, Fruits, Flowers e “Fumo” – ou seja, dos produtos que ocupam extensões cada vez maiores de terra para serem produzidos. “De 1945 até hoje, mais áreas foram convertidas em lavouras do que durante os séculos XVIII e XIX”, disse Laranja. Ele lembrou que, na avaliação do milênio, feita pela ONU – Organização das Nações Unidas foi constatado que ocorreram alterações sem precedentes nos ecossistemas para atender demandas de alimentos, água, fibras e energia.

Isso implicou na melhoria da vida de milhares de pessoas, mas causou grandes perdas à natureza, como a sua capacidade de repor os recursos que são utilizados. “Por isso, foram definidos novos critérios para avaliar os produtos, como Food Miles, Energy/Mass balance, GHG balance e Water Footprint”, exemplificou. Para explicar o que é Water Fooprint, Laranja comentou o gasto de água na produção de um copo de café na Starbucks: 208 litros de água. Essa é a “pegada de água” que um produto deixa - a quantidade que gasta para ser produzido. Já as Food Miles são a extensão pela qual um produto foi transportado, desde a produção até a mesa de consumo. Quanto maior a distância, maior a produção de gases do efeito estufa atrelada ao produto. O GHG Balance também mede a quantidade de gases causadores do efeito estufa vinculados à fabricação de um produto, mas diferente das Food Miles, o GHG (Greenhouse Gas) considera todo o processo produtivo, e não apenas o transporte.

Os novos rótulos também sofreram alterações e passaram a exibir as expressões: orgânico, sustentável, rastreado e responsável. Para finalizar sua exposição, o representante da WWF lembrou a todos a máxima oriental de que “onde há crise, alguns enxergam oportunidade”, mas que o que ele vê, agora, é um pouco diferente: “está é uma oportunidade na qual alguns enxergam só crise”.

LEGITIMIDADE X LEGALIDADE
Evaristo Miranda, chefe da Embrapa Monitoramento por Satélite e conselheiro do Planeta Sustentável, falou sobre as dificuldades de cumprir a legislação ambiental brasileira, que é muito abrangente, complexa e igualmente desrespeitada. Para ele, o problema é seguir a lei considerando as pressões de grupos indígenas, quilombolas e os que reivindicam terra para a reforma agrária. Nas contas de Evaristo, mesmo que pudéssemos anexar a Bolívia, o Paraguai, o Uruguai e o norte da Argentina isso não seria suficiente para contentar a todos. “Não precisamos mexer na lei ambiental, precisamos repactuar essas leis com base na necessidade da sustentabilidade”, acredita.

Para exemplificar o problema, Evaristo contou que boa parte do café de São Paulo e Minas Gerais e da maçã de Santa Catarina é produzida de maneira ilegal. “Existe uma distância muito grande entre a legitimidade e a legalidade. É preciso rever tais conceitos, porque essas culturas não vão acabar”. André Pessoa salientou que a atual legislação - que permite plantar em apenas 5,5% da área do pais - cria uma situação de “me engana que eu gosto generalizado”.

Sobre a poluição, Evaristo defendeu que as comparações precisam ser feitas através de estatísticas e não de senso comum, revelando que, em 2007, a emissão média do brasileiro era de 1,9 toneladas de carbono/ano. Em relação a média da América Latina - 2,5 ton/ano -, a situação do Brasil é confortável. Em comparação com a média mundial - 4,5 ton/ano - também. E, com os Estados Unidos, ainda mais, já que a média de CO2 emitida pelo americano é de 25 ton./ano. O especialista da Embrapa fez questão de frisar, ainda, que a divisão do PIB pelas emissões de carbono é um bom recurso para medir a eficiência energética de uma economia e, neste quesito, o Brasil é mais eficiente do que 140 países do mundo.

OS ABSURDOS DO CONSUMO
Helio Mattar, presidente do Instituto Akatu, também participou do encontro e iniciou sua palestra apresentando uma série de dados sobre o consumo no mundo, como:
- o mundo consome 30% a mais de recursos do que consegue renovar;
- todos os dias são descartados 426 mil celulares e produzidas 50 mil toneladas de resíduos eletrônicos, que crescem em proporção 3 vezes maior do que o lixo comum;
- no Brasil, 140 mil celulares são descartados todos os dias. Temos 111 milhões de linhas de telefone celular, sendo que o tempo médio para a troca do aparelho é de 24 meses.

Para dar idéia do tamanho do problema do lixo em São Paulo, por exemplo, Helio comparou-o com a educação: a despesa com o lixo em São Paulo chega a dois terços do que é investido em educação. Esse valor é duas vezes maior do que o que é investido em cultura e quatro vezes maior do que é direcionado ao meio ambiente.

Ele também revelou que é a primeira vez em que os obesos do mundo somam mais pessoas do que o grupo dos subnutridos: 1,3 bilhões de pessoas estão com sobrepeso enquanto 850