FUTUROLOGIA
Coleta seletiva e solidária, o próximo passo
Neste sistema - criado no Rio de Janeiro, mas que ainda aguarda implantação - os catadores são organizados em cooperativas, andam bem equipados, atuam em instalações adequadas e agem diretamente nas fontes geradoras de lixo
Por Gabriela Varanda - Edição: Mônica Nunes
Planeta Sustentável - 30/11/2007
Muito mais do que um problema apenas ambiental, a coleta e o correto tratamento do lixo envolvem outras questões que, muitas vezes, passam desapercebidas. Como, por exemplo, a atividade dos catadores de lixo, que fazem parte de um mercado informal de pessoas que vivem da venda de materiais recicláveis, revirando os lixões das cidades, em condições insalubres, por módicos trocados que lhe garantem a sobrevivência.
"É justamente para propor uma nova inserção social desses personagens que surgiu o Programa de Coleta Seletiva Solidária, que sugere um papel diferente para os catadores", explica Pólita Gonçalves, consultora sócio-ambiental e assessora da Secretaria do Ambiente do Estado do Rio de Janeiro. "Nesse novo contexto, os catadores, organizados em cooperativas, devidamente equipados e protegidos por uniformes e luvas, com instalações e transporte adequados para coletar e armazenar o material, passam a agir diretamente nas fontes geradoras de lixo, colaborando com a limpeza pública", completa Pólita.
A administração federal e o governo estadual do Rio de Janeiro já deram um bom passo nesse sentido, com os Decretos Federal nº 5940/06 e estadual nº 40.645/07, que instituíram a separação dos recicláveis nas repartições públicas e a sua doação direta para cooperativas de catadores. Porém, a coleta seletiva solidária ainda é uma meta a ser atingida.
LIXÃO, ATERRO CONTROLADO E ATERRO SANITÁRIO
Para entender melhor como e onde se faz o depósito dos resíduos sólidos nas cidades brasileiras, e o tipo de impacto ambiental e social que esse tipo de instalação proporciona, é preciso entender a diferença entre lixão, aterro controlado e aterro sanitário.
Lixão é uma área de disposição final de resíduos sólidos que não conta com preparação anterior do solo, e nem com sistema de tratamento do chorume, efluente líquido que escorre do lixo, penetra na terra e contamina solo e lençóis freáticos. Moscas, pássaros e ratos circulam a céu aberto, enquanto crianças, adolescentes e adultos catam comida e materiais recicláveis para vender.
Já o aterro controlado é uma fase intermediária entre o lixão e o aterro sanitário, onde diariamente a pilha de lixo é coberta com terra ou outro material disponível, como forração ou saibro, e o chorume é coletado e levado para cima da pilha de lixo, diminuindo sua absorção pela terra.
Mas a correta disposição dos resíduos sólidos urbanos se faz no aterro sanitário, onde o terreno é previamente preparado para receber o lixo, com nivelamento da terra e selamento de sua base, com argila e mantas de PVC. Com a impermeabilização do solo, o lençol freático não é contaminado pelo chorume, que é coletado por drenos e encaminhado para o poço de acumulação. Nos seis primeiros meses de operação do aterro sanitário, o chorume é recirculado sobre a massa de lixo aterrada e, após esse período é, então, encaminhado para a estação de tratamento de efluentes. A cobertura diária do lixo evita ainda a proliferação de vetores, mau cheiro e poluição visual.
De acordo com a Pesquisa Nacional de Saneamento Básico, realizada pelo IBGE, em 2000, coleta-se no Brasil, diariamente, 125.281 mil toneladas de resíduos domiciliares, mas 52,8% dos municípios brasileiros depositam seus resíduos em lixões.
Portanto, para pensar o problema do lixo de uma maneira sustentável é preciso considerar as dimensões ambientais e sociais dessa questão. Isso significa, na prática, reduzir ao mínimo a geração do lixo, aumentar ao máximo a reutilização e a reciclagem do que foi gerado, fazer o depósito e tratamento ambientalmente saudável dos rejeitos e promover a inclusão social e econômica de quem vive dessa cadeia produtiva.
OS CÍRCULOS PERVERSO E VIRTUOSO DA RECICLAGEM
"A cadeia produtiva da reciclagem pode ser dividida em dois modos: o círculo perverso e o círculo virtuoso", explica Pólita. No círculo perverso, o consumidor não separa seu lixo, o catador é uma categoria desorganizada, "caçando" seu ganha-pão nas ruas ou nos lixões, vendendo-os a preços baixos para atravessadores que, com grande volume de material acumulado, fazem negócio com a indústria.
Já no círculo virtuoso, o consumidor separa seu lixo, destinando parte dele para reciclagem, os catadores, organizados em cooperativas, possuem áreas de armazenagem apropriadas, investem na articulação e na organização do mercado, eliminado o atravessador, e obtém melhores preços com a venda do material reciclável para a indústria.
Qualquer um pode colaborar ativamente com a implantação de um círculo virtuoso da reciclagem, mas é preciso entender que apoio a essa iniciativa começa dentro de nossa casa ou local de trabalho. Separar o lixo seco e reciclável do lixo molhado é, portanto, fundamental.
Outra iniciativa interessante é procurar por cooperativas de catadores que possam atuar junto a seu condomínio ou sua empresa, recolhendo o lixo reciclável. Para procurar as cooperativas cadastradas no Estado do Rio de Janeiro, basta uma pesquisa no site da Secretaria do Ambiente
Porém, boa parte da população da cidade do Rio não parece ainda muito preocupada em separar seu lixo, é o que afirma o engenheiro José Henrique Penido, assessor-chefe da Diretoria Técnica e Industrial da Companhia Municipal de Limpeza Urbana do Rio de Janeiro (Comlurb). "A quantidade de lixo reciclável recolhido por nossos caminhões é ainda muito pequena", diz Penido. A Comlurb realiza hoje a coleta seletiva, semanalmente, em 42 bairros do Rio.
Penido afirma, no entanto, que a instituição tem interesse na implantação da coleta seletiva solidária. "Simpatizamos com o programa por dois motivos: haveria uma redução do lixo reciclável a ser recolhido na fonte, atividade que seria exercida pelas cooperativas, e, se a população separasse, de fato, seu lixo, isso evitaria que os catadores de rua rasgassem os sacos de lixo molhado, em busca de recicláveis, espalhando sujeira e mau cheiro pelas calçadas", explica.
A Comlurb tem experiência em parcerias com catadores. É o caso do Pólo de Reciclagem, ocupado pela Associação de Catadores de Gramacho, no Aterro de Jardim Gramacho, no município de Duque de Caxias (RJ). Mil catadores atuam hoje no local e contam com um galpão para separação, armazenagem e pesagem do material, além de uma área administrativa.
Diante do encerramento programado do aterro, a Comlurb acertou ainda, com a empresa que explora a produção de biogás no local, a destinação de uma verba para capacitação profissional dos catadores. "É claro que é melhor que os catadores se organizem em cooperativas ou associações, saiam do ambiente dos aterros e passem a recolher o material reaproveitável diretamente na fonte", completa Penido, que aproveita para revelar que a Comlurb não descarta a possibilidade de firmar parcerias com cooperativas de catadores, que poderiam assumir a coleta do lixo reciclável em áreas da cidade.
Para saber mais sobre a atividade dos catadores, ocupação reconhecida pelo Ministério do Trabalho e Emprego, visite o site do Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis - www.movimentodoscatadores.org.br
OS REAIS BENEFÍCIOS DA RECICLAGEM
¿¿Uma tonelada de papel reciclado poupa 22 árvores do corte, consome 71% menos energia elétrica e representa uma poluição 74% menor do que uma nova produção da mesma quantidade
¿¿A reciclagem de 18.679 toneladas de papel preserva 637 mil árvores
¿¿Uma lata pode resistir cem anos à ação do tempo. Reciclar uma tonelada de alumínio gasta 95% menos energia do que fabricar a mesma quantidade
¿¿Uma tonelada de alumínio usado reciclado representa cinco de minério extraído poupado. A reciclagem de 6.405 toneladas de metal, preserva 987 toneladas de carvão
¿¿Para cada garrafa de vidro reciclada é economizada energia elétrica suficiente para acender uma lâmpada de 100 Watts, durante quatro horas.
FONTE
Curso de extensão "Introdução à Coleta Seletiva Solidária", Escola de Química/UFRJ, outubro/2007
Muito mais do que um problema apenas ambiental, a coleta e o correto tratamento do lixo envolvem outras questões que, muitas vezes, passam desapercebidas. Como, por exemplo, a atividade dos catadores de lixo, que fazem parte de um mercado informal de pessoas que vivem da venda de materiais recicláveis, revirando os lixões das cidades, em condições insalubres, por módicos trocados que lhe garantem a sobrevivência.
"É justamente para propor uma nova inserção social desses personagens que surgiu o Programa de Coleta Seletiva Solidária, que sugere um papel diferente para os catadores", explica Pólita Gonçalves, consultora sócio-ambiental e assessora da Secretaria do Ambiente do Estado do Rio de Janeiro. "Nesse novo contexto, os catadores, organizados em cooperativas, devidamente equipados e protegidos por uniformes e luvas, com instalações e transporte adequados para coletar e armazenar o material, passam a agir diretamente nas fontes geradoras de lixo, colaborando com a limpeza pública", completa Pólita.
A administração federal e o governo estadual do Rio de Janeiro já deram um bom passo nesse sentido, com os Decretos Federal nº 5940/06 e estadual nº 40.645/07, que instituíram a separação dos recicláveis nas repartições públicas e a sua doação direta para cooperativas de catadores. Porém, a coleta seletiva solidária ainda é uma meta a ser atingida.
LIXÃO, ATERRO CONTROLADO E ATERRO SANITÁRIO
Para entender melhor como e onde se faz o depósito dos resíduos sólidos nas cidades brasileiras, e o tipo de impacto ambiental e social que esse tipo de instalação proporciona, é preciso entender a diferença entre lixão, aterro controlado e aterro sanitário.
Lixão é uma área de disposição final de resíduos sólidos que não conta com preparação anterior do solo, e nem com sistema de tratamento do chorume, efluente líquido que escorre do lixo, penetra na terra e contamina solo e lençóis freáticos. Moscas, pássaros e ratos circulam a céu aberto, enquanto crianças, adolescentes e adultos catam comida e materiais recicláveis para vender.
Já o aterro controlado é uma fase intermediária entre o lixão e o aterro sanitário, onde diariamente a pilha de lixo é coberta com terra ou outro material disponível, como forração ou saibro, e o chorume é coletado e levado para cima da pilha de lixo, diminuindo sua absorção pela terra.
Mas a correta disposição dos resíduos sólidos urbanos se faz no aterro sanitário, onde o terreno é previamente preparado para receber o lixo, com nivelamento da terra e selamento de sua base, com argila e mantas de PVC. Com a impermeabilização do solo, o lençol freático não é contaminado pelo chorume, que é coletado por drenos e encaminhado para o poço de acumulação. Nos seis primeiros meses de operação do aterro sanitário, o chorume é recirculado sobre a massa de lixo aterrada e, após esse período é, então, encaminhado para a estação de tratamento de efluentes. A cobertura diária do lixo evita ainda a proliferação de vetores, mau cheiro e poluição visual.
De acordo com a Pesquisa Nacional de Saneamento Básico, realizada pelo IBGE, em 2000, coleta-se no Brasil, diariamente, 125.281 mil toneladas de resíduos domiciliares, mas 52,8% dos municípios brasileiros depositam seus resíduos em lixões.
Portanto, para pensar o problema do lixo de uma maneira sustentável é preciso considerar as dimensões ambientais e sociais dessa questão. Isso significa, na prática, reduzir ao mínimo a geração do lixo, aumentar ao máximo a reutilização e a reciclagem do que foi gerado, fazer o depósito e tratamento ambientalmente saudável dos rejeitos e promover a inclusão social e econômica de quem vive dessa cadeia produtiva.
OS CÍRCULOS PERVERSO E VIRTUOSO DA RECICLAGEM
"A cadeia produtiva da reciclagem pode ser dividida em dois modos: o círculo perverso e o círculo virtuoso", explica Pólita. No círculo perverso, o consumidor não separa seu lixo, o catador é uma categoria desorganizada, "caçando" seu ganha-pão nas ruas ou nos lixões, vendendo-os a preços baixos para atravessadores que, com grande volume de material acumulado, fazem negócio com a indústria.
Já no círculo virtuoso, o consumidor separa seu lixo, destinando parte dele para reciclagem, os catadores, organizados em cooperativas, possuem áreas de armazenagem apropriadas, investem na articulação e na organização do mercado, eliminado o atravessador, e obtém melhores preços com a venda do material reciclável para a indústria.
Qualquer um pode colaborar ativamente com a implantação de um círculo virtuoso da reciclagem, mas é preciso entender que apoio a essa iniciativa começa dentro de nossa casa ou local de trabalho. Separar o lixo seco e reciclável do lixo molhado é, portanto, fundamental.
Outra iniciativa interessante é procurar por cooperativas de catadores que possam atuar junto a seu condomínio ou sua empresa, recolhendo o lixo reciclável. Para procurar as cooperativas cadastradas no Estado do Rio de Janeiro, basta uma pesquisa no site da Secretaria do Ambiente
Porém, boa parte da população da cidade do Rio não parece ainda muito preocupada em separar seu lixo, é o que afirma o engenheiro José Henrique Penido, assessor-chefe da Diretoria Técnica e Industrial da Companhia Municipal de Limpeza Urbana do Rio de Janeiro (Comlurb). "A quantidade de lixo reciclável recolhido por nossos caminhões é ainda muito pequena", diz Penido. A Comlurb realiza hoje a coleta seletiva, semanalmente, em 42 bairros do Rio.
Penido afirma, no entanto, que a instituição tem interesse na implantação da coleta seletiva solidária. "Simpatizamos com o programa por dois motivos: haveria uma redução do lixo reciclável a ser recolhido na fonte, atividade que seria exercida pelas cooperativas, e, se a população separasse, de fato, seu lixo, isso evitaria que os catadores de rua rasgassem os sacos de lixo molhado, em busca de recicláveis, espalhando sujeira e mau cheiro pelas calçadas", explica.
A Comlurb tem experiência em parcerias com catadores. É o caso do Pólo de Reciclagem, ocupado pela Associação de Catadores de Gramacho, no Aterro de Jardim Gramacho, no município de Duque de Caxias (RJ). Mil catadores atuam hoje no local e contam com um galpão para separação, armazenagem e pesagem do material, além de uma área administrativa.
Diante do encerramento programado do aterro, a Comlurb acertou ainda, com a empresa que explora a produção de biogás no local, a destinação de uma verba para capacitação profissional dos catadores. "É claro que é melhor que os catadores se organizem em cooperativas ou associações, saiam do ambiente dos aterros e passem a recolher o material reaproveitável diretamente na fonte", completa Penido, que aproveita para revelar que a Comlurb não descarta a possibilidade de firmar parcerias com cooperativas de catadores, que poderiam assumir a coleta do lixo reciclável em áreas da cidade.
Para saber mais sobre a atividade dos catadores, ocupação reconhecida pelo Ministério do Trabalho e Emprego, visite o site do Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis - www.movimentodoscatadores.org.br
OS REAIS BENEFÍCIOS DA RECICLAGEM
¿¿Uma tonelada de papel reciclado poupa 22 árvores do corte, consome 71% menos energia elétrica e representa uma poluição 74% menor do que uma nova produção da mesma quantidade
¿¿A reciclagem de 18.679 toneladas de papel preserva 637 mil árvores
¿¿Uma lata pode resistir cem anos à ação do tempo. Reciclar uma tonelada de alumínio gasta 95% menos energia do que fabricar a mesma quantidade
¿¿Uma tonelada de alumínio usado reciclado representa cinco de minério extraído poupado. A reciclagem de 6.405 toneladas de metal, preserva 987 toneladas de carvão
¿¿Para cada garrafa de vidro reciclada é economizada energia elétrica suficiente para acender uma lâmpada de 100 Watts, durante quatro horas.
FONTE
Curso de extensão "Introdução à Coleta Seletiva Solidária", Escola de Química/UFRJ, outubro/2007