contemporânea e sustentável
Ruy Ohtake e seu sentido de estética urbana
O arquiteto paulistano Ruy Ohtake, em palestra no auditório da Editora Abril, falou sobre crescimento urbano, favelas e soluções criativas para a Região Metropolitana de São Paulo
Por Afonso Capelas Jr.
Planeta Sustentável – 07/11/2008
“Uma das funções mais importantes da cidade grande é a sua estética, que faz com que o cidadão tenha orgulho de viver nela”. A afirmação de Ruy Ohtake expressa, com objetividade, o pensamento do renomado arquiteto paulistano que esteve no dia 5 de novembro no auditório da Editora Abril apresentando a palestra Estética, arquitetura e urbanismo.
Promovido pelo movimento Planeta Sustentável, o encontro reuniu um público formado por funcionários da editora, convidados e leitores que se cadastraram pelo site para assistir ao evento. O arquiteto falou do processo de favelização na Grande São Paulo, mostrou seus principais projetos e obras e apresentou um interessante estudo para a criação de centros urbanos nos entroncamentos do futuro Rodoanel com as principais rodovias que partem de São Paulo. Segundo ele, “trata-se apenas de um exercício sem compromisso, com a intenção de encontrar soluções para a Região Metropolitana”.
Durante a apresentação, Ruy Ohtake – paulistano formado em 1960 pela FAU - Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP – deixou clara a sua preocupação com a qualidade de vida das pessoas que moram na chamada Região Metropolitana de São Paulo, em especial com aquelas que vivem nas favelas. “Bom seria que o planejamento urbano estivesse sempre à frente dessa ocupação desordenada, mas São Paulo cresceu de forma tão alucinante nos últimos 150 anos, que tornou-se impossível acompanhar esse ritmo. Logo depois da Segunda Guerra Mundial, houve o fenômeno da ocupação massiva das periferias e o planejamento urbanístico não conseguiu evitar essa expansão territorial sem controle”, admitiu.
Como conseqüência desse crescimento, Ohtake enfatizou que arquitetos e urbanistas precisam criar uma metodologia eficaz para transformar as favelas em lugares mais agradáveis para seus habitantes. “Só assim elas poderão se transformar em futuros bairros organizados onde as suas comunidades vão se sentir mais cidadãs, já que um terço dos habitantes de São Paulo não atingem um mínimo de dignidade em termos de moradia”.
SOLIDARIEDADE E AUTO-ESTIMA
Nesse sentido, o arquiteto tem trabalhado em comunidades carentes para produzir soluções simples e eficientes. É o caso da favela de Heliópolis, uma das maiores e mais antigas da cidade de São Paulo, surgida há 40 anos na zona Sul de São Paulo. “Cinco anos atrás recebi o desafio de deixar a favela menos feia”, brincou. Ohtake conta que foi procurado pela comunidade para dar uma cara mais alegre às casas que compõem o aglomerado urbano de Heliópolis. “Vi ali uma solidariedade muito bonita entre os moradores, então tive a idéia de fazer um trabalho conjunto com todos eles. Entre inúmeras sugestões resolvemos priorizar a pintura das fachadas das casas e a criação de uma biblioteca comunitária”, contou.
Cada morador escolheu uma cor preferida para suas casas – azul, amarelo, verde, laranja, rosa e até vermelho – mas Ohtake optou, também, por acrescentar detalhes em tons mais fortes ou mais claros – além do branco - nos detalhes das frentes das casas. “Conseguimos o apoio de uma indústria de tintas e contratamos pintores da própria comunidade. A favela ficou com outra cara, a auto-estima de todos melhorou e muitos se animaram, inclusive, a promover pequenas reformas no interior de suas moradias”.
Em seguida, foi a vez da instalação da biblioteca comunitária. “A comunidade queria uma biblioteca onde todas as pessoas pudessem freqüentar e não só os alunos das escolas das redondezas. Recebemos doações de mais de 500 livros a partir de uma lista de mil títulos, feita pelo escritor Antonio Cândido, e conseguimos apoio de um banco para a compra e a manutenção de móveis, computadores e outros equipamentos”, contou Ohtake durante sua apresentação.
A iniciativa foi tão festejada que Ruy Ohtake foi também requisitado pela comunidade da favela Jardim Pantanal, na zona Leste da Capital, para revitalizar seu espaço urbano. Com apoio e financiamento do governo estadual paulista foi, então, criado o projeto São Paulo de Cara Nova, colocado em prática em setembro deste ano.
CONTEMPORANEIDADE E QUALIDADE DE VIDA
Além do trabalho nas comunidades mais carentes, Ruy Ohtake apresentou à platéia do auditório Abril algumas de suas mais belas e imponentes e criações. Em São Paulo, destacou o Hotel Unique, na avenida Brigadeiro Luis Antonio. “As curvas do edifício e a fusão do concreto com o cobre dão um tom de contemporaneidade à cidade”, informou. Já no Instituto Tomie Ohtake, o arquiteto revelou que teve a pretensão de integrar os três bairros onde o edifício foi erguido: Pinheiros, Alto de Pinheiros e Vila Madalena. “Além do colorido da fachada, quis também criar áreas de convívio para as pessoas, com ambientes agradáveis e calçadas mais largas”.
No plano da urbanização, Ruy Ohtake foi o idealizador do “Expresso Tiradentes” que liga a região do Parque D. Pedro, no centro de São Paulo, ao bairro do Sacomã, através de linhas de ônibus que circulam por uma pista exclusiva suspensa a 8 metros de altura. “Era um projeto para ser concluído em três anos, mas acabou passando por quatro diferentes administrações públicas. Hoje oferece um meio de transporte digno à população paulistana”, contou.
O Parque Ecológico do Tietê, na zona Leste da capital paulista, também é outra obra de sua autoria que ainda custa a ser concluída. “O projeto original prevê um pólo de turismo ecológico desde o bairro da Penha até a nascente do rio Tietê, na cidade de Salesópolis, num total de 60 quilômetros. Mas, por enquanto, só temos a primeira parte construída na Penha, com equipamentos esportivos, recreativos e culturais em meio a trechos de Mata Atlântica, que protegem a várzea do rio”. O sonho de Ohtake de oferecer qualidade vida à população urbana, no entanto, é ver toda a sua criação concretizada incluindo uma estrada parque com ciclovia desde a zona Leste da capital até a cidade de Mogi das Cruzes, margeando todo o Tietê e conservando suas curvas.
“Uma das funções mais importantes da cidade grande é a sua estética, que faz com que o cidadão tenha orgulho de viver nela”. A afirmação de Ruy Ohtake expressa, com objetividade, o pensamento do renomado arquiteto paulistano que esteve no dia 5 de novembro no auditório da Editora Abril apresentando a palestra Estética, arquitetura e urbanismo.
Promovido pelo movimento Planeta Sustentável, o encontro reuniu um público formado por funcionários da editora, convidados e leitores que se cadastraram pelo site para assistir ao evento. O arquiteto falou do processo de favelização na Grande São Paulo, mostrou seus principais projetos e obras e apresentou um interessante estudo para a criação de centros urbanos nos entroncamentos do futuro Rodoanel com as principais rodovias que partem de São Paulo. Segundo ele, “trata-se apenas de um exercício sem compromisso, com a intenção de encontrar soluções para a Região Metropolitana”.
Durante a apresentação, Ruy Ohtake – paulistano formado em 1960 pela FAU - Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP – deixou clara a sua preocupação com a qualidade de vida das pessoas que moram na chamada Região Metropolitana de São Paulo, em especial com aquelas que vivem nas favelas. “Bom seria que o planejamento urbano estivesse sempre à frente dessa ocupação desordenada, mas São Paulo cresceu de forma tão alucinante nos últimos 150 anos, que tornou-se impossível acompanhar esse ritmo. Logo depois da Segunda Guerra Mundial, houve o fenômeno da ocupação massiva das periferias e o planejamento urbanístico não conseguiu evitar essa expansão territorial sem controle”, admitiu.
Como conseqüência desse crescimento, Ohtake enfatizou que arquitetos e urbanistas precisam criar uma metodologia eficaz para transformar as favelas em lugares mais agradáveis para seus habitantes. “Só assim elas poderão se transformar em futuros bairros organizados onde as suas comunidades vão se sentir mais cidadãs, já que um terço dos habitantes de São Paulo não atingem um mínimo de dignidade em termos de moradia”.
SOLIDARIEDADE E AUTO-ESTIMA
Nesse sentido, o arquiteto tem trabalhado em comunidades carentes para produzir soluções simples e eficientes. É o caso da favela de Heliópolis, uma das maiores e mais antigas da cidade de São Paulo, surgida há 40 anos na zona Sul de São Paulo. “Cinco anos atrás recebi o desafio de deixar a favela menos feia”, brincou. Ohtake conta que foi procurado pela comunidade para dar uma cara mais alegre às casas que compõem o aglomerado urbano de Heliópolis. “Vi ali uma solidariedade muito bonita entre os moradores, então tive a idéia de fazer um trabalho conjunto com todos eles. Entre inúmeras sugestões resolvemos priorizar a pintura das fachadas das casas e a criação de uma biblioteca comunitária”, contou.
Cada morador escolheu uma cor preferida para suas casas – azul, amarelo, verde, laranja, rosa e até vermelho – mas Ohtake optou, também, por acrescentar detalhes em tons mais fortes ou mais claros – além do branco - nos detalhes das frentes das casas. “Conseguimos o apoio de uma indústria de tintas e contratamos pintores da própria comunidade. A favela ficou com outra cara, a auto-estima de todos melhorou e muitos se animaram, inclusive, a promover pequenas reformas no interior de suas moradias”.
Em seguida, foi a vez da instalação da biblioteca comunitária. “A comunidade queria uma biblioteca onde todas as pessoas pudessem freqüentar e não só os alunos das escolas das redondezas. Recebemos doações de mais de 500 livros a partir de uma lista de mil títulos, feita pelo escritor Antonio Cândido, e conseguimos apoio de um banco para a compra e a manutenção de móveis, computadores e outros equipamentos”, contou Ohtake durante sua apresentação.
A iniciativa foi tão festejada que Ruy Ohtake foi também requisitado pela comunidade da favela Jardim Pantanal, na zona Leste da Capital, para revitalizar seu espaço urbano. Com apoio e financiamento do governo estadual paulista foi, então, criado o projeto São Paulo de Cara Nova, colocado em prática em setembro deste ano.
CONTEMPORANEIDADE E QUALIDADE DE VIDA
Além do trabalho nas comunidades mais carentes, Ruy Ohtake apresentou à platéia do auditório Abril algumas de suas mais belas e imponentes e criações. Em São Paulo, destacou o Hotel Unique, na avenida Brigadeiro Luis Antonio. “As curvas do edifício e a fusão do concreto com o cobre dão um tom de contemporaneidade à cidade”, informou. Já no Instituto Tomie Ohtake, o arquiteto revelou que teve a pretensão de integrar os três bairros onde o edifício foi erguido: Pinheiros, Alto de Pinheiros e Vila Madalena. “Além do colorido da fachada, quis também criar áreas de convívio para as pessoas, com ambientes agradáveis e calçadas mais largas”.
No plano da urbanização, Ruy Ohtake foi o idealizador do “Expresso Tiradentes” que liga a região do Parque D. Pedro, no centro de São Paulo, ao bairro do Sacomã, através de linhas de ônibus que circulam por uma pista exclusiva suspensa a 8 metros de altura. “Era um projeto para ser concluído em três anos, mas acabou passando por quatro diferentes administrações públicas. Hoje oferece um meio de transporte digno à população paulistana”, contou.
O Parque Ecológico do Tietê, na zona Leste da capital paulista, também é outra obra de sua autoria que ainda custa a ser concluída. “O projeto original prevê um pólo de turismo ecológico desde o bairro da Penha até a nascente do rio Tietê, na cidade de Salesópolis, num total de 60 quilômetros. Mas, por enquanto, só temos a primeira parte construída na Penha, com equipamentos esportivos, recreativos e culturais em meio a trechos de Mata Atlântica, que protegem a várzea do rio”. O sonho de Ohtake de oferecer qualidade vida à população urbana, no entanto, é ver toda a sua criação concretizada incluindo uma estrada parque com ciclovia desde a zona Leste da capital até a cidade de Mogi das Cruzes, margeando todo o Tietê e conservando suas curvas.