conferência
Felicidade Interna Bruta chama a atenção dos paulistanos
Os indicadores de progresso desenvolvidos no Butão há duas décadas para garantir a felicidade de seus habitantes ganham o mundo em conferências internacionais. Esta semana, foi a vez de o Brasil conhecer a metodologia. Organizado pelo Instituto Visão Futuro, o evento em São Paulo reuniu cerca de mil pessoas
Por Thays Prado
Planeta Sustentável - 03/11/2008
O auditório do SESC Pinheiros, em São Paulo ficou lotado, no dia 29 de outubro, para a I Conferência Nacional do FIB - Felicidade Interna Bruta, organizada pelo Instituto Visão Futuro. Cerca de mil pessoas se inscreveram para ouvir um pouco mais sobre o indicador adotado há duas décadas no Butão e que faz com que o governo direcione suas políticas públicas para a felicidade, a satisfação com a vida e o bem-estar da população, em vez de focar apenas em progresso econômico.
Se há dez anos, o assunto talvez parecesse “coisa de budista”, hoje, o excesso de horas de trabalho para uns e o desemprego para outros, a crise financeira mundial e o fato de os países apresentarem situações caóticas aos seres humanos, como os EUA, onde um quarto de sua população está deprimida e há duas vezes mais divórcios, três vezes mais suicídios entre adolescentes, quatro vezes mais crimes violentos e uma população carcerária cinco vezes maior demonstram que estamos nos aproximando de uma situação limite e buscamos desesperadamente por alternativas que nos salvem da incoerência e da infelicidade que criamos no mundo.
Como mestre de cerimônias para um encontro sobre felicidade, ninguém mais apropriado do que um ator Doutor da Alegria, que chamou ao palco o secretário do Verde e do Meio Ambiente de São Paulo, Eduardo Jorge, o coordenador das pesquisas sobre FIB no Butão e responsável pelas análises estatísticas dos indicadores, Karma Dasho Ura, a psicóloga, antropóloga e incentivadora da implementação do FIB no Brasil, Susan Andrews, o canadense que está à frente da transformação do FIB em um medidor internacional junto às Nações Unidas, Michael Pennock, e o economista Ladislau Dowbor.
COMO FUNCIONA O FIB
A expressão FIB – Felicidade Interna Bruta, em substituição ao PIB – Produto Interno Bruto surgiu de um insight do quarto rei do Butão, Jigme Singye Wangchuck, quando, no início dos anos 80, respondeu a um jornalista que a felicidade do povo deveria ser o propósito da governança.
A partir disso, o Centro de Estudos do Butão reuniu especialistas de todo o mundo para encontrar os pontos-chave para a felicidade, a satisfação com a vida e o bem estar da população. Diversos estudos foram feitos e chegou-se aos nove indicadores que compõem o FIB atualmente:
- bom padrão de vida econômica;
- boa governança;
- educação de qualidade;
- saúde;
- vitalidade comunitária;
- proteção ambiental;
- acesso à cultura;
- gerenciamento equilibrado do tempo e
- bem estar psicológico.
Cada um dos quesitos é desmembrado em outros, mais específicos, num total de 73 variáveis – que verificam como estão os habitantes do país em termos objetivos e subjetivos – transformadas em um número final entre 0 e 1 – assim como o IDH – Índice de Desenvolvimento Humano. Atualmente, o Butão apresenta um FIB igual a 0,5.
É interessante observar que o primeiro dos nove indicadores se refere às questões financeiras. Diversas pesquisas internacionais, apresentadas durante o evento, comprovam que a felicidade dos seres humanos aumenta proporcionalmente ao padrão econômico que possuem até um determinado ponto, depois disso o grau de felicidade começa a declinar.Daí a importância de se reconsiderar o conceito de progresso ligado exclusivamente às riquezas materiais acumuladas pelos países.
Sobre a gestão do próprio tempo, Dasho Karma Ura afirma que seis horas de trabalho por dias seriam o suficiente para produzirmos o necessário e ainda tornaria possível que cada ser humano dormisse as horas de sono de que precisa, se socializasse, pudesse se dedicar um pouco ao autoconhecimento e praticasse atividades físicas diariamente.
O FIB considera o triple bottom line – economicamente viável, socialmente justo e ecologicamente correto – e coloca a preservação do meio ambiente como quesito fundamental: 72% do território do país mantêm sua cobertura vegetal e 28% foi transformado em santuário ecológico. No entanto, pode-se dizer que o índice extrapola o próprio conceito de sustentabilidade já que propõe uma transversalidade entre todos os nove itens.
Tanto Karma Ura quanto o economista Michael Pennock lembraram a importância de todos os indicadores serem pensados juntos, sob pena de as prioridades se voltarem apenas para um setor e fragilizarem outro. Por outro lado, os especialistas também reconhecem que cada nação tem seus próprios valores e, por conta disso, tendem a focar em determinadas questões mais do que em outras.
A intenção do Centro de Estudos do Butão é monitorar a maneira como as 73 variáveis vão evoluindo ao longo do tempo e verificar se os valores dos butaneses têm se alterado. Em longo prazo, é a própria história da felicidade no país que vai sendo construída e contada.
INTERESSE INTERNACIONAL
Michael Pennock contou que as Nações Unidas estão cada vez mais interessadas em internacionalizar o FIB. Uma conferência em junho deste ano, cujo objetivo era repensar a definição de progresso foi patrocinada pela ONU, o Banco Mundial, a OECD - Organização para Cooperação Econômica e Desenvolvimento, a Federação Islâmica e a União Européia.
Segundo Susan Andrews, a ONU tem a intenção de, concluídas as Metas do Milênio, em 2015, adotar os indicadores do FIB como o novo desafio para a humanidade. A psicóloga, citando o poeta Victor Hugo, afirma que não existe idéia mais bem sucedida do que aquela para a qual o tempo chegou.
As Nações Unidas fizeram um levantamento sobre o FIB no Butão e estão elaborando uma versão mais curta e aplicável a nível internacional, que deve estar disponível online no site do Centro de Estudos do Butão dentro de dois meses. A partir daí, espera-se que cada país possa fazer seus próprios ajustes e colaborar uns com os outros na adoção desse novo paradigma de desenvolvimento.
BRASIL, O PRÓXIMO A ADOTAR O FIB?
Susan, à frente do Instituto Visão Futuro, tem conversado com diversas lideranças locais no Brasil, que se mostraram interessadas em aplicar o conceito do FIB nos espaços sobre os quais têm influência. Ela está esperançosa de que sejamos o segundo país a adotar os indicadores de felicidade e considera que o Brasil se tornará, em breve, uma superpotência por conta da abundância de recursos naturais. O que a psicóloga questiona é se iremos seguir o mesmo caminho dos EUA, “que perderam seu bem estar psicológico” e da China – “que aumenta seu PIB em 10 vezes, mas gasta 10% desse valor para retificar danos ambientais causados pelo crescimento desequilibrado” – ou se teremos uma postura inovadora de progresso. Segundo ela, a implementação do FIB no Brasil teria de ser feita a partir de uma nova instituição que se dedicasse apenas a isso.
Durante a conferência, o secretário do Verde e do Meio Ambiente da cidade de São Paulo, Eduardo Jorge, disse que a prefeitura já vem construindo, juntamente com o PNUMA – Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, iniciativas para melhorar a qualidade de vida da população, baseadas na Carta da Terra. Agora, deve haver também uma aproximação com o PNUD – Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, para conhecer a fundo os estudos sobre o FIB.
O auditório do SESC Pinheiros, em São Paulo ficou lotado, no dia 29 de outubro, para a I Conferência Nacional do FIB - Felicidade Interna Bruta, organizada pelo Instituto Visão Futuro. Cerca de mil pessoas se inscreveram para ouvir um pouco mais sobre o indicador adotado há duas décadas no Butão e que faz com que o governo direcione suas políticas públicas para a felicidade, a satisfação com a vida e o bem-estar da população, em vez de focar apenas em progresso econômico.
Se há dez anos, o assunto talvez parecesse “coisa de budista”, hoje, o excesso de horas de trabalho para uns e o desemprego para outros, a crise financeira mundial e o fato de os países apresentarem situações caóticas aos seres humanos, como os EUA, onde um quarto de sua população está deprimida e há duas vezes mais divórcios, três vezes mais suicídios entre adolescentes, quatro vezes mais crimes violentos e uma população carcerária cinco vezes maior demonstram que estamos nos aproximando de uma situação limite e buscamos desesperadamente por alternativas que nos salvem da incoerência e da infelicidade que criamos no mundo.
Como mestre de cerimônias para um encontro sobre felicidade, ninguém mais apropriado do que um ator Doutor da Alegria, que chamou ao palco o secretário do Verde e do Meio Ambiente de São Paulo, Eduardo Jorge, o coordenador das pesquisas sobre FIB no Butão e responsável pelas análises estatísticas dos indicadores, Karma Dasho Ura, a psicóloga, antropóloga e incentivadora da implementação do FIB no Brasil, Susan Andrews, o canadense que está à frente da transformação do FIB em um medidor internacional junto às Nações Unidas, Michael Pennock, e o economista Ladislau Dowbor.
COMO FUNCIONA O FIB
A expressão FIB – Felicidade Interna Bruta, em substituição ao PIB – Produto Interno Bruto surgiu de um insight do quarto rei do Butão, Jigme Singye Wangchuck, quando, no início dos anos 80, respondeu a um jornalista que a felicidade do povo deveria ser o propósito da governança.
A partir disso, o Centro de Estudos do Butão reuniu especialistas de todo o mundo para encontrar os pontos-chave para a felicidade, a satisfação com a vida e o bem estar da população. Diversos estudos foram feitos e chegou-se aos nove indicadores que compõem o FIB atualmente:
- bom padrão de vida econômica;
- boa governança;
- educação de qualidade;
- saúde;
- vitalidade comunitária;
- proteção ambiental;
- acesso à cultura;
- gerenciamento equilibrado do tempo e
- bem estar psicológico.
Cada um dos quesitos é desmembrado em outros, mais específicos, num total de 73 variáveis – que verificam como estão os habitantes do país em termos objetivos e subjetivos – transformadas em um número final entre 0 e 1 – assim como o IDH – Índice de Desenvolvimento Humano. Atualmente, o Butão apresenta um FIB igual a 0,5.
É interessante observar que o primeiro dos nove indicadores se refere às questões financeiras. Diversas pesquisas internacionais, apresentadas durante o evento, comprovam que a felicidade dos seres humanos aumenta proporcionalmente ao padrão econômico que possuem até um determinado ponto, depois disso o grau de felicidade começa a declinar.Daí a importância de se reconsiderar o conceito de progresso ligado exclusivamente às riquezas materiais acumuladas pelos países.
Sobre a gestão do próprio tempo, Dasho Karma Ura afirma que seis horas de trabalho por dias seriam o suficiente para produzirmos o necessário e ainda tornaria possível que cada ser humano dormisse as horas de sono de que precisa, se socializasse, pudesse se dedicar um pouco ao autoconhecimento e praticasse atividades físicas diariamente.
O FIB considera o triple bottom line – economicamente viável, socialmente justo e ecologicamente correto – e coloca a preservação do meio ambiente como quesito fundamental: 72% do território do país mantêm sua cobertura vegetal e 28% foi transformado em santuário ecológico. No entanto, pode-se dizer que o índice extrapola o próprio conceito de sustentabilidade já que propõe uma transversalidade entre todos os nove itens.
Tanto Karma Ura quanto o economista Michael Pennock lembraram a importância de todos os indicadores serem pensados juntos, sob pena de as prioridades se voltarem apenas para um setor e fragilizarem outro. Por outro lado, os especialistas também reconhecem que cada nação tem seus próprios valores e, por conta disso, tendem a focar em determinadas questões mais do que em outras.
A intenção do Centro de Estudos do Butão é monitorar a maneira como as 73 variáveis vão evoluindo ao longo do tempo e verificar se os valores dos butaneses têm se alterado. Em longo prazo, é a própria história da felicidade no país que vai sendo construída e contada.
INTERESSE INTERNACIONAL
Michael Pennock contou que as Nações Unidas estão cada vez mais interessadas em internacionalizar o FIB. Uma conferência em junho deste ano, cujo objetivo era repensar a definição de progresso foi patrocinada pela ONU, o Banco Mundial, a OECD - Organização para Cooperação Econômica e Desenvolvimento, a Federação Islâmica e a União Européia.
Segundo Susan Andrews, a ONU tem a intenção de, concluídas as Metas do Milênio, em 2015, adotar os indicadores do FIB como o novo desafio para a humanidade. A psicóloga, citando o poeta Victor Hugo, afirma que não existe idéia mais bem sucedida do que aquela para a qual o tempo chegou.
As Nações Unidas fizeram um levantamento sobre o FIB no Butão e estão elaborando uma versão mais curta e aplicável a nível internacional, que deve estar disponível online no site do Centro de Estudos do Butão dentro de dois meses. A partir daí, espera-se que cada país possa fazer seus próprios ajustes e colaborar uns com os outros na adoção desse novo paradigma de desenvolvimento.
BRASIL, O PRÓXIMO A ADOTAR O FIB?
Susan, à frente do Instituto Visão Futuro, tem conversado com diversas lideranças locais no Brasil, que se mostraram interessadas em aplicar o conceito do FIB nos espaços sobre os quais têm influência. Ela está esperançosa de que sejamos o segundo país a adotar os indicadores de felicidade e considera que o Brasil se tornará, em breve, uma superpotência por conta da abundância de recursos naturais. O que a psicóloga questiona é se iremos seguir o mesmo caminho dos EUA, “que perderam seu bem estar psicológico” e da China – “que aumenta seu PIB em 10 vezes, mas gasta 10% desse valor para retificar danos ambientais causados pelo crescimento desequilibrado” – ou se teremos uma postura inovadora de progresso. Segundo ela, a implementação do FIB no Brasil teria de ser feita a partir de uma nova instituição que se dedicasse apenas a isso.
Durante a conferência, o secretário do Verde e do Meio Ambiente da cidade de São Paulo, Eduardo Jorge, disse que a prefeitura já vem construindo, juntamente com o PNUMA – Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, iniciativas para melhorar a qualidade de vida da população, baseadas na Carta da Terra. Agora, deve haver também uma aproximação com o PNUD – Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, para conhecer a fundo os estudos sobre o FIB.