Por Thays Prado
Planeta Sustentável - 30/07/2008
A reunião de Conselho do Planeta Sustentável, realizada no dia 29 de julho, na Editora Abril, contou com a presença de um convidado muito especial: o jornalista Washington Novaes. Ele apresentou uma série de dados alarmantes sobre a situação do planeta Terra e chamou a atenção para o fato de que tudo o que o ser humano faz tem impacto sobre o todo e que é impossível tratar qualquer tema sem considerar isso.
Ainda estiveram presentes na reunião, entre outros: Carlos Nobre, climatologista do Centro de Previsão do Tempo e Estudos Climáticos do INPE Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais; Xico Graziano, secretário do Meio Ambiente do Estado de São Paulo, Rachel Biderman, do Centro de Estudos em Sustentabilidade da FGV Fundação Getúlio Vargas e Oded Grajew, do Movimento Nossa São Paulo.
Washington Novaes citou o secretário geral das Nações Unidas, Kofi Annan, que afirma serem dois os grandes problemas que colocam a sobrevivência da humanidade em risco: as mudanças climáticas e os nossos padrões de produção e consumo, que estão muito acima da capacidade de reposição da biosfera (leia artigo do jornalista, publicado no jornal O Estado de São Paulo e republicado na íntegra no site do Planeta Sustentável: As ameaças do mundo e o Estado Nacional).
MUDANÇAS CLIMÁTICAS
Sobre o primeiro assunto, o jornalista lembrou o relatório do IPCC Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, que alerta para o possível aumento da temperatura terrestre entre 1 a 5,8ºC durante o século 21 e a elevação do nível dos oceanos entre 18 e 59 cm. Novaes comenta que já estamos presenciando catástrofes naturais referentes às mudanças climáticas e que a temperatura global subiu 0,7ºC e, na melhor das hipóteses, se elevaria mais 0,6ºC até 2050 isso, se os países se comprometessem a reduzir em 60% suas emissões de carbono até essa data.
Dados do INPE também apontam que a temperatura na Amazônia deve subir entre 6 e 8ºC e de 3 a 4ºC no Centro-Oeste, até o final do século, o que pode gerar uma perda de 20 a 25% dos recursos hídricos brasileiros.
Em termos de emissões de gases, atualmente, lançamos na atmosfera mais de 25 bilhões de toneladas de CO2, sendo que a China contribui com 24% desse valor e os Estados Unidos, com 21%. O Brasil é o 4º país do mundo em emissões. De acordo com inventário realizado em 1994, somos responsáveis por mais de um bilhão de toneladas de dióxido de carbono e 30 milhões de toneladas de metano. Um estudo do Banco Mundial estima que as emissões do Brasil, em 2004, tenham ultrapassado dois bilhões de toneladas.
Atualmente, o G8 grupo dos sete países mais desenvolvidos do mundo mais a Rússia emite 14,3 bilhões de toneladas, 2% a mais do que no ano 2000, apesar de os países terem se comprometido a reduzir em 5,2% de suas emissões de 2008 a 2012. Apenas a Alemanha e a Inglaterra conseguiram diminuir a quantidade de gases de efeito estufa lançados na atmosfera.
Novaes comenta que mesmo a Agência Ambiental dos Estados Unidos, que não costuma atribuir à ação humana a responsabilidade pelos problemas ambientais, reconhece que o aquecimento global é uma ameaça terrível para a nossa espécie.
O jornalista também lembra Nicholas Stern, economista britânico do Banco Mundial que, em relatório encomendado pelo governo de seu país e apresentado em 2006, afirma que as mudanças climáticas podem gerar a pior recessão econômica da atualidade em menos de dez anos.
Uma inovação tecnológica cogitada pelos Estados Unidos, pela Suécia e, até, pelo Brasil para frear o aquecimento global é o seqüestro de carbono da atmosfera e o sepultamento desse elemento químico no fundo da terra e dos oceanos.
Novaes contou que o IPCC até reconhece a viabilidade técnica desse procedimento, mas as conseqüências geológicas, hidrológicas e para a biodiversidade marinha poderiam ser desastrosas e incontroláveis. Carlos Nobre explicou que o carbono é injetado sob muita pressão e é necessário usar uma válvula para manter o carbono sepultado. Se a válvula escapar, todos os seres que estiverem na região, morrem imediatamente por asfixia.
Raquel Biderman lembrou que, no Brasil, as empresas estão começando a fazer seus relatórios de emissões de gases de efeito estufa. Por enquanto, são apenas 30, mas ela acredita que esse número deve crescer.
A PARCELA DE CULPA DO BRASIL
A peculiaridade da contribuição brasileira para as mudanças climáticas é a origem do carbono emitido 75% são provenientes do desmatamento e das queimadas, sendo 59% na região da Amazônia e 41% fora dela, especialmente no cerrado. Segundo Novaes, o bioma do cerrado vem perdendo 1,1% de seu território, ou 22 mil Km², todos os anos. E o volume de água que corre pelas bacias brasileiras já diminuiu em 14%.
A criação de gado bovino também é uma grande causadora do efeito estufa. No mundo, a agropecuária contribui com 18% das emissões totais. Para se ter uma idéia, cada boi produz, anualmente, 57 kg de metano. No Brasil, possuímos cerca de 250 milhões de cabeças de gado, o que totaliza 10 milhões de toneladas de metano eliminadas todos os anos. Como o metano é 25 vezes mais eficaz na retenção de calor do que o dióxido de carbono, a pecuária bovina do país é responsável pelo efeito de 250 milhões de toneladas de CO2 por ano a mesma quantidade emitida pela matriz industrial e de transporte no Brasil.
Washington Novaes ainda defendeu que o país precisa mudar seu discurso sobre a redução das emissões de gases. Os argumentos do governo, que se recusa a diminuir suas emissões, são três:
- os países desenvolvidos ainda não cumpriram seu compromisso de redução;
- a medida prejudicaria o desenvolvimento econômico do país e
- reduzir a emissão de gases implicaria em aceitar restrições de soberania sobre os recursos naturais do território nacional.
Para Novaes, essa postura acaba servindo para reforçar a posição dos Estados Unidos de só cumprir sua parte no Protocolo de Kyoto se e quando Brasil, China e Índia também forem incluídos no compromisso.
No entanto, Xico Graziano se disse otimista em relação ao grau de informação dos brasileiros sobre as questões ambientais e às suas atitudes. Um bom exemplo citado pelo secretário do Meio Ambiente do Estado de São Paulo é a descentralização da agenda ambiental no estado, com cada vez mais municípios apresentando seus próprios planos ambientais.
O secretário também contou que foi feito um estudo que demonstra que a área de recuperação de matas ciliares em canaviais, no estado de São Paulo, ultrapassa e muito a área desmatada. São 140 mil hectares de recuperação florestal contra 8 mil de desmatamento. Esses números estão sendo checados pela Secretaria do Meio Ambiente e devem ser oficialmente divulgados em setembro.
Carlos Nobre considerou o avanço importante, mas salientou que essa não é a situação de todo o Brasil.
A ABUNDÂNCIA ENERGÉTICA COMO ESTRATÉGIA
Sobre o consumo energético no mundo, o jornalista ressaltou a participação dos países emergentes. Em uma década, a China aumentou sua demanda energética em 33% e a Índia, em 51%. E, atualmente, a diferença entre o consumo dos habitantes dos países mais ricos e dos mais pobres chega a 11 vezes.
Segundo a Agência Internacional de Energia, dos Estados Unidos, até 2030, o consumo de petróleo deve cair de 38% para 33% e o consumo de energias renováveis deve aumentar de 8% para 9%. Ainda pelos cálculos da agência, seriam necessários investimentos de 45 trilhões de dólares por ano em novas fontes de energia para lidar com o aumento de demanda energética e isso custaria menos ao mundo do que enfrentar as conseqüências de não se fazer nada nesse sentido.
Para Novaes, em tempos de serviços e recursos naturais escassos, o Brasil deveria utilizar sua abundância como estratégia. Vivemos em um país que é o sonho mundial: temos uma área continental, boa insolação, 12% da quantidade de água do mundo e de 15 a 20% da biodiversidade planetária.
Isso sem falar na riqueza de matrizes energéticas limpas. Além da hidroeletricidade, podemos produzir energia eólica, solar, a partir das marés e por meio dos biocombustíveis. Washington diz que só nosso potencial eólico poderia gerar duas vezes e meia a quantidade de energia consumida pelo país. E se ¼ de Itaipu fosse coberto com painéis solares, isso geraria tanta energia quanto a hidrelétrica inteira.
NÃO PRECISAMOS DE ANGRA 3
Para quem acredita que está faltando energia no Brasil e que, por isso, é necessário dar andamento às atividades em Angra 3, Washington Novaes conta que além de todo esse potencial de matriz limpa, há três formas para economizar 50% do que gastamos hoje com energia:
- os usuários conseguem diminuir seu consumo em 30% com mudanças de hábitos vide exemplo da época do apagão em 2001, quando a população conseguiu economizar energia;
- podemos aumentar o potencial energético de equipamentos já existentes em 10% e
- ainda dá para reduzir as perdas de energia nas linhas de transmissão. Hoje, nosso desperdício chega a 15%, enquanto no Japão esse valor é de 1%.
Além disso, Novaes diz que a energia nuclear no Brasil não responde a questões básicas de segurança, preço e destinação dos resíduos. Quanto à segurança, não dispomos de tecnologias que garantam que a usina não vai apresentar vazamentos e nem certezas de que os vazamentos podem ser controlados. Até a França enfrenta, atualmente, problemas com vazamento de urânio em duas de suas usinas.
O preço da energia nuclear também é duas vezes e meia maior do que os gastos com uma hidrelétrica, por exemplo. E a destinação dos resíduos é um problema para o qual ninguém no mundo tem solução. Não é possível controlar o comportamento dos depósitos subterrâneos e um vazamento seria capaz de matar milhares de pessoas.
Oded Grajew concordou com as colocações do jornalista e reforçou a importância de se fazer algo para conter o andamento das obras da usina que está instalada entre duas grandes regiões metropolitanas Rio de Janeiro e São Paulo e pode prejudicar a saúde de muita gente.
AS CONSEQUÊNCIAS JÁ COMEÇARAM
Apesar de muitos ainda acreditarem que as catástrofes no planeta são assunto para os filmes de ficção científica ou vão demorar muito para acontecer, Novaes aponta dados de que, na realidade, já estamos sofrendo com os impactos que geramos sobre a Terra.
No Brasil, por exemplo, já presenciamos um furacão no sul do país, enfrentamos secas mais dramáticas e já existem dificuldades reais no abastecimento de água em algumas regiões. A produção de café tem migrado para regiões mais altas por conta do aumento de temperatura e os grãos já estão sofrendo mesmo nas montanhas de Minas Gerais. Atualmente, pesquisadores da EMBRAPA estão tentando produzir espécies não apenas de café, mas também de milho, soja e feijão que suportem melhor o calor.
Novaes chama a atenção para a situação dos mangues, que abrigam 65% das espécies de peixes e, de 1990 a 2000, perdeu cerca de um terço de suas espécies.
Vinte e seis por cento da cobertura de gelo sobre os Andes já derreteu, o que afeta diretamente o regime hidrológico da América do Sul e da Amazônia, e o nível dos oceanos também está perto do limite e pode subir ainda mais. Barcelona, na Espanha, já convive com o drama de uma crise por falta dágua, a bacia sul da Austrália teve seu volume de água reduzido em 40%. O volume de água armazenada do mundo já é três vezes maior do que o contido no fluxo dos rios.
Os dados do último relatório Planeta Vivo, divulgado pelo WWF, apontam que estamos consumindo 25% além da capacidade de reposição da biosfera e a pegada ecológica atual é três vezes superior à de 1961, chegando a 14 bilhões de hectares.
O QUE O DINHEIRO NÃO COMPRA
Dados do PNUD Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento revelam que os países industrializados detêm quase 80% da produção, do consumo e da renda do mundo. E que as três pessoas mais ricas do planeta possuem ativos brutos maiores do que a soma dos 48 países mais pobres e que abrigam cerca de 600 milhões de pessoas. Se todos consumíssemos como os habitantes dos Estados Unidos, da Europa ou do Japão, seriam necessários mais dois ou três planetas para suprir as necessidades humanas.
Novaes diz que o maior especialista em biodiversidade do mundo, Edward Wilson (leia resenha do livro O futuro da vida, de sua autoria), questiona se o crescimento econômico seria mesmo a solução para o planeta. Ele faz o cálculo de um crescimento mundial de 3,5% ao ano, o que totalizaria 158 trilhões de dólares em 2050 e afirma: não há recursos e serviços capazes de sustentar esse crescimento.
Washington Novaes ainda ressalta que substituir nossas riquezas naturais por ações humanas significaria gastar, em um ano, três vezes o produto bruto mundial.
Raquel Biderman chamou atenção para o fato de que as questões ambientais não são mais apenas assunto para cientistas, mas também para políticos e para a sociedade como um todo.
Para Oded Grajew, a humanidade não prestou muita atenção aos sinais da natureza ao longo de sua história e agora precisa de um novo padrão civilizatório e de mudanças culturais profundas.
Agora, cabe à sociedade, como um todo, tomar conhecimento do grave panorama atual e fazer mudanças em suas escolhas, inclusive no âmbito eleitoral e político. Washington Novaes acredita que os meios de comunicação podem ajudar nesse sentido, empenhando-se em mostrar as soluções possíveis e chamando a população a participar das discussões sobre o tema de maneira produtiva e crítica.
Leia também:
Energia nuclear, mesmo sem licença
Caçamos sarna para nos coçarmos
Quanto custa perder a biodiversidade?
Que pode mudar no meio ambiente?
E lá vamos nós de energia nuclear
A religião pode conter o deserto?
Por Thays Prado
Planeta Sustentável - 30/07/2008
A reunião de Conselho do Planeta Sustentável, realizada no dia 29 de julho, na Editora Abril, contou com a presença de um convidado muito especial: o jornalista Washington Novaes. Ele apresentou uma série de dados alarmantes sobre a situação do planeta Terra e chamou a atenção para o fato de que tudo o que o ser humano faz tem impacto sobre o todo e que é impossível tratar qualquer tema sem considerar isso.
Ainda estiveram presentes na reunião, entre outros: Carlos Nobre, climatologista do Centro de Previsão do Tempo e Estudos Climáticos do INPE Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais; Xico Graziano, secretário do Meio Ambiente do Estado de São Paulo, Rachel Biderman, do Centro de Estudos em Sustentabilidade da FGV Fundação Getúlio Vargas e Oded Grajew, do Movimento Nossa São Paulo.
Washington Novaes citou o secretário geral das Nações Unidas, Kofi Annan, que afirma serem dois os grandes problemas que colocam a sobrevivência da humanidade em risco: as mudanças climáticas e os nossos padrões de produção e consumo, que estão muito acima da capacidade de reposição da biosfera (leia artigo do jornalista, publicado no jornal O Estado de São Paulo e republicado na íntegra no site do Planeta Sustentável: As ameaças do mundo e o Estado Nacional).
MUDANÇAS CLIMÁTICAS
Sobre o primeiro assunto, o jornalista lembrou o relatório do IPCC Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, que alerta para o possível aumento da temperatura terrestre entre 1 a 5,8ºC durante o século 21 e a elevação do nível dos oceanos entre 18 e 59 cm. Novaes comenta que já estamos presenciando catástrofes naturais referentes às mudanças climáticas e que a temperatura global subiu 0,7ºC e, na melhor das hipóteses, se elevaria mais 0,6ºC até 2050 isso, se os países se comprometessem a reduzir em 60% suas emissões de carbono até essa data.
Dados do INPE também apontam que a temperatura na Amazônia deve subir entre 6 e 8ºC e de 3 a 4ºC no Centro-Oeste, até o final do século, o que pode gerar uma perda de 20 a 25% dos recursos hídricos brasileiros.
Em termos de emissões de gases, atualmente, lançamos na atmosfera mais de 25 bilhões de toneladas de CO2, sendo que a China contribui com 24% desse valor e os Estados Unidos, com 21%. O Brasil é o 4º país do mundo em emissões. De acordo com inventário realizado em 1994, somos responsáveis por mais de um bilhão de toneladas de dióxido de carbono e 30 milhões de toneladas de metano. Um estudo do Banco Mundial estima que as emissões do Brasil, em 2004, tenham ultrapassado dois bilhões de toneladas.
Atualmente, o G8 grupo dos sete países mais desenvolvidos do mundo mais a Rússia emite 14,3 bilhões de toneladas, 2% a mais do que no ano 2000, apesar de os países terem se comprometido a reduzir em 5,2% de suas emissões de 2008 a 2012. Apenas a Alemanha e a Inglaterra conseguiram diminuir a quantidade de gases de efeito estufa lançados na atmosfera.
Novaes comenta que mesmo a Agência Ambiental dos Estados Unidos, que não costuma atribuir à ação humana a responsabilidade pelos problemas ambientais, reconhece que o aquecimento global é uma ameaça terrível para a nossa espécie.
O jornalista também lembra Nicholas Stern, economista britânico do Banco Mundial que, em relatório encomendado pelo governo de seu país e apresentado em 2006, afirma que as mudanças climáticas podem gerar a pior recessão econômica da atualidade em menos de dez anos.
Uma inovação tecnológica cogitada pelos Estados Unidos, pela Suécia e, até, pelo Brasil para frear o aquecimento global é o seqüestro de carbono da atmosfera e o sepultamento desse elemento químico no fundo da terra e dos oceanos.
Novaes contou que o IPCC até reconhece a viabilidade técnica desse procedimento, mas as conseqüências geológicas, hidrológicas e para a biodiversidade marinha poderiam ser desastrosas e incontroláveis. Carlos Nobre explicou que o carbono é injetado sob muita pressão e é necessário usar uma válvula para manter o carbono sepultado. Se a válvula escapar, todos os seres que estiverem na região, morrem imediatamente por asfixia.
Raquel Biderman lembrou que, no Brasil, as empresas estão começando a fazer seus relatórios de emissões de gases de efeito estufa. Por enquanto, são apenas 30, mas ela acredita que esse número deve crescer.
A PARCELA DE CULPA DO BRASIL
A peculiaridade da contribuição brasileira para as mudanças climáticas é a origem do carbono emitido 75% são provenientes do desmatamento e das queimadas, sendo 59% na região da Amazônia e 41% fora dela, especialmente no cerrado. Segundo Novaes, o bioma do cerrado vem perdendo 1,1% de seu território, ou 22 mil Km², todos os anos. E o volume de água que corre pelas bacias brasileiras já diminuiu em 14%.
A criação de gado bovino também é uma grande causadora do efeito estufa. No mundo, a agropecuária contribui com 18% das emissões totais. Para se ter uma idéia, cada boi produz, anualmente, 57 kg de metano. No Brasil, possuímos cerca de 250 milhões de cabeças de gado, o que totaliza 10 milhões de toneladas de metano eliminadas todos os anos. Como o metano é 25 vezes mais eficaz na retenção de calor do que o dióxido de carbono, a pecuária bovina do país é responsável pelo efeito de 250 milhões de toneladas de CO2 por ano a mesma quantidade emitida pela matriz industrial e de transporte no Brasil.
Washington Novaes ainda defendeu que o país precisa mudar seu discurso sobre a redução das emissões de gases. Os argumentos do governo, que se recusa a diminuir suas emissões, são três:
- os países desenvolvidos ainda não cumpriram seu compromisso de redução;
- a medida prejudicaria o desenvolvimento econômico do país e
- reduzir a emissão de gases implicaria em aceitar restrições de soberania sobre os recursos naturais do território nacional.
Para Novaes, essa postura acaba servindo para reforçar a posição dos Estados Unidos de só cumprir sua parte no Protocolo de Kyoto se e quando Brasil, China e Índia também forem incluídos no compromisso.
No entanto, Xico Graziano se disse otimista em relação ao grau de informação dos brasileiros sobre as questões ambientais e às suas atitudes. Um bom exemplo citado pelo secretário do Meio Ambiente do Estado de São Paulo é a descentralização da agenda ambiental no estado, com cada vez mais municípios apresentando seus próprios planos ambientais.
O secretário também contou que foi feito um estudo que demonstra que a área de recuperação de matas ciliares em canaviais, no estado de São Paulo, ultrapassa e muito a área desmatada. São 140 mil hectares de recuperação florestal contra 8 mil de desmatamento. Esses números estão sendo checados pela Secretaria do Meio Ambiente e devem ser oficialmente divulgados em setembro.
Carlos Nobre considerou o avanço importante, mas salientou que essa não é a situação de todo o Brasil.
A ABUNDÂNCIA ENERGÉTICA COMO ESTRATÉGIA
Sobre o consumo energético no mundo, o jornalista ressaltou a participação dos países emergentes. Em uma década, a China aumentou sua demanda energética em 33% e a Índia, em 51%. E, atualmente, a diferença entre o consumo dos habitantes dos países mais ricos e dos mais pobres chega a 11 vezes.
Segundo a Agência Internacional de Energia, dos Estados Unidos, até 2030, o consumo de petróleo deve cair de 38% para 33% e o consumo de energias renováveis deve aumentar de 8% para 9%. Ainda pelos cálculos da agência, seriam necessários investimentos de 45 trilhões de dólares por ano em novas fontes de energia para lidar com o aumento de demanda energética e isso custaria menos ao mundo do que enfrentar as conseqüências de não se fazer nada nesse sentido.
Para Novaes, em tempos de serviços e recursos naturais escassos, o Brasil deveria utilizar sua abundância como estratégia. Vivemos em um país que é o sonho mundial: temos uma área continental, boa insolação, 12% da quantidade de água do mundo e de 15 a 20% da biodiversidade planetária.
Isso sem falar na riqueza de matrizes energéticas limpas. Além da hidroeletricidade, podemos produzir energia eólica, solar, a partir das marés e por meio dos biocombustíveis. Washington diz que só nosso potencial eólico poderia gerar duas vezes e meia a quantidade de energia consumida pelo país. E se ¼ de Itaipu fosse coberto com painéis solares, isso geraria tanta energia quanto a hidrelétrica inteira.
NÃO PRECISAMOS DE ANGRA 3
Para quem acredita que está faltando energia no Brasil e que, por isso, é necessário dar andamento às atividades em Angra 3, Washington Novaes conta que além de todo esse potencial de matriz limpa, há três formas para economizar 50% do que gastamos hoje com energia:
- os usuários conseguem diminuir seu consumo em 30% com mudanças de hábitos vide exemplo da época do apagão em 2001, quando a população conseguiu economizar energia;
- podemos aumentar o potencial energético de equipamentos já existentes em 10% e
- ainda dá para reduzir as perdas de energia nas linhas de transmissão. Hoje, nosso desperdício chega a 15%, enquanto no Japão esse valor é de 1%.
Além disso, Novaes diz que a energia nuclear no Brasil não responde a questões básicas de segurança, preço e destinação dos resíduos. Quanto à segurança, não dispomos de tecnologias que garantam que a usina não vai apresentar vazamentos e nem certezas de que os vazamentos podem ser controlados. Até a França enfrenta, atualmente, problemas com vazamento de urânio em duas de suas usinas.
O preço da energia nuclear também é duas vezes e meia maior do que os gastos com uma hidrelétrica, por exemplo. E a destinação dos resíduos é um problema para o qual ninguém no mundo tem solução. Não é possível controlar o comportamento dos depósitos subterrâneos e um vazamento seria capaz de matar milhares de pessoas.
Oded Grajew concordou com as colocações do jornalista e reforçou a importância de se fazer algo para conter o andamento das obras da usina que está instalada entre duas grandes regiões metropolitanas Rio de Janeiro e São Paulo e pode prejudicar a saúde de muita gente.
AS CONSEQUÊNCIAS JÁ COMEÇARAM
Apesar de muitos ainda acreditarem que as catástrofes no planeta são assunto para os filmes de ficção científica ou vão demorar muito para acontecer, Novaes aponta dados de que, na realidade, já estamos sofrendo com os impactos que geramos sobre a Terra.
No Brasil, por exemplo, já presenciamos um furacão no sul do país, enfrentamos secas mais dramáticas e já existem dificuldades reais no abastecimento de água em algumas regiões. A produção de café tem migrado para regiões mais altas por conta do aumento de temperatura e os grãos já estão sofrendo mesmo nas montanhas de Minas Gerais. Atualmente, pesquisadores da EMBRAPA estão tentando produzir espécies não apenas de café, mas também de milho, soja e feijão que suportem melhor o calor.
Novaes chama a atenção para a situação dos mangues, que abrigam 65% das espécies de peixes e, de 1990 a 2000, perdeu cerca de um terço de suas espécies.
Vinte e seis por cento da cobertura de gelo sobre os Andes já derreteu, o que afeta diretamente o regime hidrológico da América do Sul e da Amazônia, e o nível dos oceanos também está perto do limite e pode subir ainda mais. Barcelona, na Espanha, já convive com o drama de uma crise por falta dágua, a bacia sul da Austrália teve seu volume de água reduzido em 40%. O volume de água armazenada do mundo já é três vezes maior do que o contido no fluxo dos rios.
Os dados do último relatório Planeta Vivo, divulgado pelo WWF, apontam que estamos consumindo 25% além da capacidade de reposição da biosfera e a pegada ecológica atual é três vezes superior à de 1961, chegando a 14 bilhões de hectares.
O QUE O DINHEIRO NÃO COMPRA
Dados do PNUD Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento revelam que os países industrializados detêm quase 80% da produção, do consumo e da renda do mundo. E que as três pessoas mais ricas do planeta possuem ativos brutos maiores do que a soma dos 48 países mais pobres e que abrigam cerca de 600 milhões de pessoas. Se todos consumíssemos como os habitantes dos Estados Unidos, da Europa ou do Japão, seriam necessários mais dois ou três planetas para suprir as necessidades humanas.
Novaes diz que o maior especialista em biodiversidade do mundo, Edward Wilson (leia resenha do livro O futuro da vida, de sua autoria), questiona se o crescimento econômico seria mesmo a solução para o planeta. Ele faz o cálculo de um crescimento mundial de 3,5% ao ano, o que totalizaria 158 trilhões de dólares em 2050 e afirma: não há recursos e serviços capazes de sustentar esse crescimento.
Washington Novaes ainda ressalta que substituir nossas riquezas naturais por ações humanas significaria gastar, em um ano, três vezes o produto bruto mundial.
Raquel Biderman chamou atenção para o fato de que as questões ambientais não são mais apenas assunto para cientistas, mas também para políticos e para a sociedade como um todo.
Para Oded Grajew, a humanidade não prestou muita atenção aos sinais da natureza ao longo de sua história e agora precisa de um novo padrão civilizatório e de mudanças culturais profundas.
Agora, cabe à sociedade, como um todo, tomar conhecimento do grave panorama atual e fazer mudanças em suas escolhas, inclusive no âmbito eleitoral e político. Washington Novaes acredita que os meios de comunicação podem ajudar nesse sentido, empenhando-se em mostrar as soluções possíveis e chamando a população a participar das discussões sobre o tema de maneira produtiva e crítica.
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Energia nuclear, mesmo sem licença
Caçamos sarna para nos coçarmos
Quanto custa perder a biodiversidade?
Que pode mudar no meio ambiente?
E lá vamos nós de energia nuclear
A religião pode conter o deserto?


























