relato
Presidente do GRI diz quem é o leitor dos relatórios de sustentabilidade
Em encontro realizado pelo Global Reporting Initiative, o Instituto Ethos e a Fundação Getúlio Vargas, no dia 14 de julho, Ernst Ligteringen falou sobre as expectativas dos stakeholders quanto aos relatórios de sustentabilidade publicados pelas empresas
Por Thays Prado
Planeta Sustentável - 16/07/2008
Um dos desafios enfrentados pelas empresas que decidem fazer seus relatórios de sustentabilidade é definir quais os aspectos devem ser relatados e saber se eles atendem às demandas dos possíveis leitores. Muitas vezes, uma pergunta anterior surge entre os encarregados dessa (ainda considerada) árdua missão: saber quem realmente lê os relatórios.
[img1] Com o objetivo de esclarecer essas dúvidas, mostrar um perfil dos stakeholders, leitores dos relatórios de sustentabilidade e falar sobre suas expectativas, o presidente do GRI, Ernst Ligteringen, esteve no Brasil, no dia 14 de julho, em um evento promovido pelo Global Reporting Initiative, o Instituto Ethos e a Fundação Getúlio Vargas, com o patrocínio do banco Itaú.
Ligteringen apresentou a pesquisa realizada pelo GRI – a RCA - Readers’ Choice Awards –, que reúne 86 organizações de 40 países e cujo objetivo é definir o futuro dos relatórios de sustentabilidade a partir do que os leitores consideram importante. A pesquisa é desenvolvida por um comitê de integridade e passa por análises independentes da KPMG e da SustainAbility a partir das respostas fornecidas pelos leitores no site do GRI.
Os leitores – categorizados em indivíduos, funcionários, investidores, comunidade etc – foram convidados a pontuar os relatórios lidos nos seguintes critérios:
- Materialidade – o relatório aborda os assuntos que são mais relevantes para a organização?
- Inclusão das partes interessadas – o relatório leva em conta as preocupações dos principais stakeholders?
- Contexto da sustentabilidade – como a companhia fala sobre seu próprio desempenho em relação ao tema?
- Abrangência – o relatório permite que o leitor tenha uma noção completa da organização?
- Qualidade – há clareza, confiabilidade e equilíbrio nas informações que constam no relatório?
Dos cerca de 2300 leitores que preencheram o questionário, 1721 foram contados como válidos pela comissão julgadora, que se preocupou em evitar que empresas se utilizassem da ferramenta para fazer campanha em benefício próprio. Cada leitor avaliou, em média, três relatórios de sustentabilidade.
Entre os 24 relatórios selecionados pelos leitores (veja lista completa no site do GRI), a Petrobrás obteve o prêmio de melhor relatório de sustentabilidade eleito pelos multi-stakeholders e pela sociedade civil. O Banco Real ficou como finalista nas categorias de multi-stakeholders e de investidores e analistas. O Banco do Brasil também obteve destaque nesta segunda categoria. A Natura foi finalista como melhor relatório eleito pela sociedade civil e a Usiminas, finalista eleita pelas companhias de países não-OECD (Organization for Economic Co-operation and Development).
RESULTADOS DA RCA
De acordo com os dados levantados pela pesquisa, tanto a sociedade civil quanto os funcionários das empresas esperam relatórios que:
- mostrem o aprendizado das organizações por meio de suas falhas;
- sejam mais criativos e sinceros e
- incluam mais os stakeholders no processo de relato.
Já os investidores desejam relatórios concisos e com foco nas questões mais relevantes para a empresa, e sugerem que os indicadores sejam usados de forma mais consistente para facilitar a comparabilidade entre os relatórios de diferentes empresas e da mesma empresa de um ano para o outro.
Outro ponto bastante destacado entre os leitores de uma maneira geral é a necessidade de transparência e coerência. Eles querem manter-se informados sobre a realidade da empresa e perceber que o que é anunciado pelas organizações é realmente posto em prática.
E se muitas empresas ainda têm receio de relatar erros e dificuldades e prejudicar sua imagem pública, Ernst diz que 80% dos leitores – entre funcionários, integrantes de sindicatos e ONGs e indivíduos – afirmam ficar com uma visão mais positiva da organização quando essa assume suas falhas.
Em relação aos motivos que levam as pessoas a lerem os relatórios de sustentabilidade, a RCA apontou que mais de 60% dos leitores da categoria individual o fazem porque desejam comprar produtos ou serviços da empresa. Entre os investidores, 55% lêem os relatórios para tomar suas decisões de onde aplicar seu dinheiro. Para mais de 70% da sociedade civil, a leitura dos relatórios serve como um diálogo direto com a empresa sobre questões sociais e ambientais.
A partir dos dados observados, Ernst conclui que os relatórios de sustentabilidade já possuem milhares de leitores e que essa leitura tem diferentes propósitos, dependendo da categoria na qual o leitor se encaixa. No entanto, em todas as categorias, não há pressa em ler esses relatórios assim que eles são publicados. Por isso, eles devem ficar disponíveis para que os leitores possam consultá-los quando precisarem de informações específicas sobre a empresa.
DESAFIOS
Depois que o presidente do GRI apresentou os dados da pesquisa com os leitores, formou-se uma mesa de debates com Ricardo Young, presidente do Instituto Ethos, João Meirelles, presidente do Instituto Peabiru (PA), Ricardo Nogueira, superintendente executivo de operações da Bovespa, Célia Rosemblum, editora do jornal Valor Econômico, Regina Queiroz, do Instituto Observatório Social, Sônia Favaretto, do Banco Itaú, e Marco Antônio Fujihara, da Sustaincapital, que representaram as diversas categorias de stakeholders e falaram sobre os desafios dos relatórios de sustentabilidade.
Entre os pontos levantados pela mesa, falou-se sobre a necessidade de os relatórios adequarem sua linguagem ao público leigo. “Os documentos precisam ser concisos e relevantes, não se esconder em complexidades técnicas e, ao mesmo tempo, não deixar de informar a quem precisa desse tipo de dado”, sugere Ricardo Young.
Marco Fujihara alertou para a falta de compromisso a longo prazo por parte das empresas, que não se preocupam com a continuidade entre o que é apresentado em um relatório e no do ano seguinte. Como investidor, ele afirma: “Não há necessidade de as empresas reportarem que fazem o que a lei exige. Isso é o mínimo. Eu preciso saber do diferencial e de sua intenção para o ano seguinte e para os próximos dez anos”. Marco também sugeriu que os relatórios sejam mais interativos para garantirem a participação dos multi-stakeholders.
Ricardo Nogueira observou que os investidores sempre olharam para os relatórios financeiros – que refletem o passado da organização. Agora, eles também olham para os relatórios de sustentabilidade – que mostram para onde a empresa está caminhando e se tornaram um importante instrumento de medição de riscos a médio e longo prazo. Nogueira ainda lembrou que é importante levar as informações sobre a empresa aos stakeholders que não sabem onde consegui-las, como as comunidades que não têm acesso à internet, e discutir os dados com eles pessoalmente.
Os debatedores foram unânimes em dizer que o GRI é uma boa oportunidade de as empresas diminuírem os paradoxos existentes internamente e que os relatórios de sustentabilidade devem ser encarados como uma ferramenta de gestão e não apenas de comunicação e marketing.
Um dos desafios enfrentados pelas empresas que decidem fazer seus relatórios de sustentabilidade é definir quais os aspectos devem ser relatados e saber se eles atendem às demandas dos possíveis leitores. Muitas vezes, uma pergunta anterior surge entre os encarregados dessa (ainda considerada) árdua missão: saber quem realmente lê os relatórios.
[img1] Com o objetivo de esclarecer essas dúvidas, mostrar um perfil dos stakeholders, leitores dos relatórios de sustentabilidade e falar sobre suas expectativas, o presidente do GRI, Ernst Ligteringen, esteve no Brasil, no dia 14 de julho, em um evento promovido pelo Global Reporting Initiative, o Instituto Ethos e a Fundação Getúlio Vargas, com o patrocínio do banco Itaú.
Ligteringen apresentou a pesquisa realizada pelo GRI – a RCA - Readers’ Choice Awards –, que reúne 86 organizações de 40 países e cujo objetivo é definir o futuro dos relatórios de sustentabilidade a partir do que os leitores consideram importante. A pesquisa é desenvolvida por um comitê de integridade e passa por análises independentes da KPMG e da SustainAbility a partir das respostas fornecidas pelos leitores no site do GRI.
Os leitores – categorizados em indivíduos, funcionários, investidores, comunidade etc – foram convidados a pontuar os relatórios lidos nos seguintes critérios:
- Materialidade – o relatório aborda os assuntos que são mais relevantes para a organização?
- Inclusão das partes interessadas – o relatório leva em conta as preocupações dos principais stakeholders?
- Contexto da sustentabilidade – como a companhia fala sobre seu próprio desempenho em relação ao tema?
- Abrangência – o relatório permite que o leitor tenha uma noção completa da organização?
- Qualidade – há clareza, confiabilidade e equilíbrio nas informações que constam no relatório?
Dos cerca de 2300 leitores que preencheram o questionário, 1721 foram contados como válidos pela comissão julgadora, que se preocupou em evitar que empresas se utilizassem da ferramenta para fazer campanha em benefício próprio. Cada leitor avaliou, em média, três relatórios de sustentabilidade.
Entre os 24 relatórios selecionados pelos leitores (veja lista completa no site do GRI), a Petrobrás obteve o prêmio de melhor relatório de sustentabilidade eleito pelos multi-stakeholders e pela sociedade civil. O Banco Real ficou como finalista nas categorias de multi-stakeholders e de investidores e analistas. O Banco do Brasil também obteve destaque nesta segunda categoria. A Natura foi finalista como melhor relatório eleito pela sociedade civil e a Usiminas, finalista eleita pelas companhias de países não-OECD (Organization for Economic Co-operation and Development).
RESULTADOS DA RCA
De acordo com os dados levantados pela pesquisa, tanto a sociedade civil quanto os funcionários das empresas esperam relatórios que:
- mostrem o aprendizado das organizações por meio de suas falhas;
- sejam mais criativos e sinceros e
- incluam mais os stakeholders no processo de relato.
Já os investidores desejam relatórios concisos e com foco nas questões mais relevantes para a empresa, e sugerem que os indicadores sejam usados de forma mais consistente para facilitar a comparabilidade entre os relatórios de diferentes empresas e da mesma empresa de um ano para o outro.
Outro ponto bastante destacado entre os leitores de uma maneira geral é a necessidade de transparência e coerência. Eles querem manter-se informados sobre a realidade da empresa e perceber que o que é anunciado pelas organizações é realmente posto em prática.
E se muitas empresas ainda têm receio de relatar erros e dificuldades e prejudicar sua imagem pública, Ernst diz que 80% dos leitores – entre funcionários, integrantes de sindicatos e ONGs e indivíduos – afirmam ficar com uma visão mais positiva da organização quando essa assume suas falhas.
Em relação aos motivos que levam as pessoas a lerem os relatórios de sustentabilidade, a RCA apontou que mais de 60% dos leitores da categoria individual o fazem porque desejam comprar produtos ou serviços da empresa. Entre os investidores, 55% lêem os relatórios para tomar suas decisões de onde aplicar seu dinheiro. Para mais de 70% da sociedade civil, a leitura dos relatórios serve como um diálogo direto com a empresa sobre questões sociais e ambientais.
A partir dos dados observados, Ernst conclui que os relatórios de sustentabilidade já possuem milhares de leitores e que essa leitura tem diferentes propósitos, dependendo da categoria na qual o leitor se encaixa. No entanto, em todas as categorias, não há pressa em ler esses relatórios assim que eles são publicados. Por isso, eles devem ficar disponíveis para que os leitores possam consultá-los quando precisarem de informações específicas sobre a empresa.
DESAFIOS
Depois que o presidente do GRI apresentou os dados da pesquisa com os leitores, formou-se uma mesa de debates com Ricardo Young, presidente do Instituto Ethos, João Meirelles, presidente do Instituto Peabiru (PA), Ricardo Nogueira, superintendente executivo de operações da Bovespa, Célia Rosemblum, editora do jornal Valor Econômico, Regina Queiroz, do Instituto Observatório Social, Sônia Favaretto, do Banco Itaú, e Marco Antônio Fujihara, da Sustaincapital, que representaram as diversas categorias de stakeholders e falaram sobre os desafios dos relatórios de sustentabilidade.
Entre os pontos levantados pela mesa, falou-se sobre a necessidade de os relatórios adequarem sua linguagem ao público leigo. “Os documentos precisam ser concisos e relevantes, não se esconder em complexidades técnicas e, ao mesmo tempo, não deixar de informar a quem precisa desse tipo de dado”, sugere Ricardo Young.
Marco Fujihara alertou para a falta de compromisso a longo prazo por parte das empresas, que não se preocupam com a continuidade entre o que é apresentado em um relatório e no do ano seguinte. Como investidor, ele afirma: “Não há necessidade de as empresas reportarem que fazem o que a lei exige. Isso é o mínimo. Eu preciso saber do diferencial e de sua intenção para o ano seguinte e para os próximos dez anos”. Marco também sugeriu que os relatórios sejam mais interativos para garantirem a participação dos multi-stakeholders.
Ricardo Nogueira observou que os investidores sempre olharam para os relatórios financeiros – que refletem o passado da organização. Agora, eles também olham para os relatórios de sustentabilidade – que mostram para onde a empresa está caminhando e se tornaram um importante instrumento de medição de riscos a médio e longo prazo. Nogueira ainda lembrou que é importante levar as informações sobre a empresa aos stakeholders que não sabem onde consegui-las, como as comunidades que não têm acesso à internet, e discutir os dados com eles pessoalmente.
Os debatedores foram unânimes em dizer que o GRI é uma boa oportunidade de as empresas diminuírem os paradoxos existentes internamente e que os relatórios de sustentabilidade devem ser encarados como uma ferramenta de gestão e não apenas de comunicação e marketing.