“O homem foi abençoado com a razão, com o poder de criar e poder acrescentar ao que lhe foi dado. Mas até agora não tem sido um criador, apenas um destruidor. As florestas continuam a desaparecer, a vida selvagem se extingue, o clima se arruína e a terra fica mais pobre e feia a cada dia.” Tão atual, não? Mas é de autoria do escritor e dramaturgo russo Anton Chekov, que escrevia no final do século XIX. Três séculos antes, o teólogo alemão Martinho Lutero lembrava que “Deus escreve o Evangelho não apenas na Bíblia, mas nas árvores, nas flores, nas nuvens e estrelas”. Mas foi apenas nas últimas décadas do século XX que a ficha começou a cair. A Floresta Negra do país de Lutero seria devastada nos séculos seguintes, e a Rússia de Chekhov ajudaria o mundo a acordar para o óbvio, com a tragédia de Chernobyl: a Terra pode em breve se tornar um ambiente proibitivo para a manutenção e proliferação da vida humana.
E, ao acordar, a humanidade se pergunta: há salvação? Há, mas a recuperação de Gaia, a Mãe Terra, terá de ser feita com urgência e planificação apenas vista em tempos de guerra. É este o principal recado de Plano B 4.0 – Mobilização Para Salvar a Civilização, de Lester Brown. Presidente do Earth Policy Institute, fundador do Worldwatch Institute, autor de mais de 50 livros sobre o ambiente traduzidos para 40 idiomas, Brown é uma das vozes mais ativas e ouvidas quando o tema é ecologia. Ted Turner, o poderoso fundador da CNN, tem por hábito comprar centenas de cópias das obras de Brown, que distribui para chefes de estado de todo o mundo, para os CEOs das 500 maiores empresas da revista Fortune e para os membros do Congresso americano.
O Plano B 4.0 é uma atualização de uma série iniciada em 1993. Detalhista e pesquisador incansável, Brown dedica no livro mais de 80 páginas apenas às referências consultadas para sua elaboração. O impressionante volume de dados poderia transformá-lo em obra de difícil digestão, mas, habilidoso, Brown constrói um texto de leitura agradável, por mais espanto e temor que muitos destes dados possam suscitar.
Brown se alinha com vários autores quando insiste na necessidade de reduzir os níveis de CO2 para uma concentração de 350 partes por milhão. O que se postula é um corte de 80% das emissões até 2020, para que mantenha os níveis até 400 ppm antes de começarmos a reduzi-los. Um desafio e tanto. “Mas como vamos encarar a próxima geração se não tentarmos?”, ele pergunta. E cita como exemplo da possibilidade de realização a reação dos Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial – após sua entrada no conflito, o país viu em seis meses todo seu parque industrial se transformar, num esforço coletivo sem precedentes em tempos modernos.
Basicamente, este esforço se sustentaria em dois eixos. Um deles é o aumento da eficiência no uso da energia, do qual ele cita como exemplo a tecnologia de iluminação, responsável atualmente por 19% do consumo de energia mundial. Lâmpadas fluorescentes compactas, que usam 75% menos energia que as incadescentes, são cada vez mais utilizadas. As de diodo (LEDs) usam 85%. E elas devem ser consideradas em lares, escritórios, fábricas, sinalização e iluminação urbana. Além disso, existe um avançado movimento de fabricantes para levar ao consumidor aparelhos domésticos com consumo mais baixo de energia (com economias de até 12%).
O segundo eixo é a passagem para a adoção de energia renovável – térmica, eólica ou solar -, o que ocorre em escala “inimaginável mesmo dois anos atrás”. O Plano B envolve um programa emergencial para a produção de 3000 gigawatts de energia eólica até 2020, o que seria suficiente para atender 40% da demanda mundial. Isto resultaria na implantação de 1.5 milhão de turbinas de 2 megawatts cada. Intimidador? pergunta ele. Compare isto à produção mundial anual de 70 milhões de carros, que consomem cada vez mais combustíveis feitos com grãos – cujos preços oscilam junto com os petróleo, numa equação perversa.
Sem estes esforços, será impossível erradicar, ou mesmo mitigar, um problema que assola o mundo em vários continentes – a fome endêmica. Além de ceifar milhões de vida, ela provoca alta instabilidade política e destrói estados, como o Iêmen, ou o Congo, colocados à mercê de predadores, e berço de movimentos radicais. A fome e a desnutrição estiveram em baixa por grande parte do século XX. Mas depois de atingirem 825 milhões de pessoas, chegaram a 1 bilhão em 2008. E podem chegar a 1.2 bilhão, até 2015, a continuarem as coisas como estão. Além disso, observa-se o crescente número de países que compram vastas extensões de terra fora de suas fronteiras, e cujas populações cresceram para muito além de suas capacidades de alimentá-las – como Arábia Saudita, Coréia do Sul e China (esta, hoje dona de grandes áreas do Brasil).
O teólogo Leonardo Boff, afirma que “preferimos nos enganar cobrindo o corpo da Mãe Terra com band-aids na ilusão de que estamos tratando de suas feridas“. Os riscos geopolíticos são mais do que claros. E as mudanças requeridas levarão forçosamente à maior intervenção dos estados em suas economias. Lester Brown não toca a fundo nestas questões, mas seu livro é um precioso conjunto de indicadores para que fiquemos mais alertas e ativos na proteção ao nosso planeta.
* Os updates do livro, assim como sua totalidade, podem ser baixados no site Earth Policy