Quais as contribuições que a Geografia Humana pode dar para o entendimento do mundo neste período da globalização? Como decifrar a atual força das corporações multinacionais na organização dos territórios? Por que é tão importante a análise da vida das populações nas grandes cidades, principalmente nos países pobres, para propormos novas formas de organização do espaço geográfico?
Essas são algumas das questões abordadas pelo livro “A Natureza do Espaço”, de Milton Santos. Certamente uma das principais novidades da obra é a definição original de espaço geográfico, que é visto como um "conjunto indissociável de sistemas de objetos e de sistemas de ações".
Essa proposta permite captar o movimento das sociedades e dos atores que as compõem (estados, empresas, partidos políticos, indivíduos etc.), levando em conta a localização e a materialidade dos sistemas técnicos à disposição de cada ator. Contempla-se assim uma ambição antiga da Geografia Humana, de propor explicações críticas e verossímeis sobre cada época, sem cair nos "determinismos" tão comuns da disciplina no passado.
Ao distinguir outra proposta central do livro, poderíamos dar destaque à sua definição de lugar, como sendo a "dimensão espacial do cotidiano". A proposta permite entender as diversas formas de solidariedade criativas e genuínas que se forjam na vida diária das populações pobres do Terceiro Mundo.
São essas formas que, segundo Milton Santos, permitiriam fundar uma nova ética na organização do espaço geográfico - uma ética menos pautada nas necessidades hegemônicas das grandes empresas, e mais concatenada com as demandas de dignidade inadiáveis das populações periféricas.
TRECHO DO LIVRO
"Através do entendimento desse conteúdo geográfico do cotidiano podemos, talvez, contribuir para o necessário entendimento (e talvez, teorização) dessa relação entre espaço e movimentos sociais, enxergando na materialidade, esse componente imprescindível do espaço geográfico, que é, ao mesmo tempo, uma condição para a ação; uma estrutura de controle, um limite à ação; um convite à ação. Nada fazemos hoje que não seja a partir dos objetos que nos cercam.
A história das chamadas relações entre sociedade e natureza é, em todos os lugares habitados, a da substituição de um meio natural, dado a uma determinada sociedade, por meio cada vez mais artificializado, isto é, sucessivamente instrumentalizado por essa mesma sociedade.
Em cada fração da superfície da terra, o caminho que vai de uma situação a outra se dá de maneira particular; e a parte do 'natural' e do 'artificial' também varia, assim como mudam as modalidades do seu arranjo."
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Sobre o autor
O geógrafo baiano Milton Santos (1926-2001) escreveu mais de 40 livros sobre o processo de urbanização nos países subdesenvolvidos, a organização do espaço geográfico e a teoria da geografia.
Fabio Betioli Contel, autor desta resenha, é professor do Departamento de Geografia da Universidade de São Paulo (USP) e membro da Associação dos Geógrafos Brasileiros (Secção São Paulo).