Afonso Capelas Jr.
Incorporar o conceito da sustentabilidade em todos os setores da vida é, hoje, não só uma necessidade do ponto de vista socioambiental como também uma estratégia imprescindível de toda e qualquer empresa com pretensões a sobreviver daqui para diante. Assim, desenvolver bens e serviços “leves” – como sugere o título deste livro – torna-se um grande desafio dentro da cadeia de produção. De forma criativa, convidativa e bem ilustrada Haverá a idade das coisas leves propõe novas ideias sobre como oferecer produtos e serviços menos agressivos ao meio ambiente e mais duráveis para o nosso dia-a-dia. Algumas delas soam até bastante insólitas, mas são perfeitamente aplicáveis.
O organizador da publicação, Thierry Kazazian, é um famoso designer francês e fundador da O2, primeira agência internacional de designers que adotam o conceito do desenvolvimento sustentável em todos os seus projetos. Editado com o apoio da entidade ambientalista internacional WWF - World Wildlife Fund, o livro propõe sete projetos sustentáveis, todos muito interessantes, nas áreas de alimentação, habitação, energia elétrica, água, esporte, mobilidade e multimídia. Os projetos são apresentados em capítulos distintos como geniais criações de empresas fictícias envolvidas com a sustentabilidade. Antes da apresentação dos produtos de cada uma dessas empresas há um resumo informativo dos impactos ambientais das áreas abordadas. Em seguida, o fundador imaginário da empresa descreve a trajetória de sua companhia. A partir de então, leitor mergulha em uma apresentação comercial ricamente ilustrada dos produtos, com suas características, benefícios e vantagens ambientais.
Que tal o condomínio do seu prédio ou a empresa onde você trabalha colocarem um carro sempre à sua disposição para você utilizar a qualquer hora, assim como fazem com os elevadores? Ou transformar seu esforço físico durante a malhação na academia em energia elétrica para abastecer o celular, o aparelho de MP3 ou o notebook? Mais: por que não instalar em casa um chuveiro vaporizador capaz de economizar muitos litros de água a cada banho, com a mesma eficiência de um chuveiro comum? Estas são algumas das “coisas leves” propostas pela publicação. O organizador Thierry Kazazian ressalta: “Se alguns aspectos desses serviços podem parecer utópicos, a maior parte deles é tecnicamente viável e às vezes prolonga o que atualmente existe”. Por isso mesmo, ao final de cada um dos sete capítulos dedicados aos produtos leves, Kazazian se permite confrontar as sugestões de seus designers colocadas ao longo do livro com as ações de grandes multinacionais francesas reais, como Danone, Renault e Suez. Elas são apresentadas em forma de entrevistas com executivos dessas empresas.
Antes mesmo de conhecer esses produtos sustentáveis, o leitor também vai receber mais uma infinidade de informações relevantes ao longo das 200 páginas do livro. O primeiro capítulo é o “Histórico”, no qual uma linha do tempo expõe os períodos mais importantes da trajetória humana no planeta – com seus prós e contras – desde a Revolução Industrial até os dias atuais. Passa pela explosão do consumo após a crise econômica de 1929, o mau uso da energia nuclear com a invenção da primeira bomba atômica detonada em Hiroshima ao final da 2ª. Grande Guerra Mundial, em 1945, até as viagens das naves espaciais Apollo que levaram o homem à lua, na década de 1960 e a primeira crise do petróleo, no início dos anos 1970.
O capítulo “Hoje... A idade das coisas férteis” começa tratando da interdependência entre homem e natureza, entre economia e ecologia. Depois fala do tempo e duração das coisas, do ciclo e transformação na natureza e, por fim, do optimum, que se traduz por uma citação inicial emblemática para a sustentabilidade: “Várias escolas de pensamento constatam que, para criar uma sociedade durável, deveríamos nos aproximar de um ponto em que utilizássemos apenas 10% dos recursos que as sociedades industriais hoje consomem. Para realizar essa transformação, mudanças radicais são necessárias”.
Os textos desse capítulo estão recheados de fotos e infográficos que ajudam a entender melhor os impactos das atividades das empresas no meio ambiente, o ciclo de produção e de vida de um item de consumo (tomando como exemplo algo tão cotidiano como um aparelho de som), além da roda de ecoconcepção de um produto rigidamente fabricado sob o conceito da sustentabilidade. A intenção desta parte do livro, de acordo com Thierry Kazazian, é mostrar como o meio ambiente pode servir como fonte de inspiração para novas estratégias empresariais, ou como é possível fazer um “acordo fértil” entre homem e natureza. “Quatro temas naturais – a Interdependência, o Tempo, o Ciclo, o Optimum – são enunciados em função da natureza, da sociedade atual, da empresa e do objeto, no sentido de encontrar soluções mais viáveis e duráveis para o homem e seu meio ambiente”.
Por fim, “Haverá a idade das coisas leves” deixa um glossário de termos mais utilizados na área da sustentabilidade, precedida de uma explicação do que é a pegada ecológica, escrita pelo representante da WWF francesa Thierry Thouvenot. O livro é de grande utilidade não só para designers, como também para quem se interessa por inovação e soluções inteligentes para os dias atuais, onde pairam as ameaças do aquecimento global.