Independente, totalmente desvinculado de qualquer associação ou entidade científica, como sempre foi, James Lovelock, aos 90 anos, não tem nada a perder. Em seu último trabalho sobre Gaia – a maneira como concebeu a Terra, uma entidade viva que trabalha para manter as condições de sua superfície favoráveis à própria vida -, o cientista ergue em muitos decibéis o tom do alerta sobre o estado do planeta, cujo sistema de auto-regulação estaria sendo derrotado pelos gases de efeito estufa. Em questão de anos, ou décadas, o esquentamento da Terra poderá provocar o colapso de nossa civilização global e a quase extinção da humanidade.
Sim, é para levar a sério. Tido por muitos como um excêntrico solitário, habitante de um velho moinho reconstruído no interior da Inglaterra, cercado de livros e bugigangas, Lovelock primeiro pensou em Gaia em meados dos anos 60, quando foi convidado para participar de um estudo da NASA sobre a probabilidade de vida em Marte e Vênus. As atmosferas dos planetas são compostas em 95% de sua totalidade de dióxido de carbono, e têm temperaturas que proibiriam qualquer espécie de vida como a conhecemos. No começo dos anos 70, ele e sua colega Lynn Margulis desenvolveram uma hipótese científica testável destinada a investigar as propriedades da vida na Terra. A idéia evoluiu e abriu caminho para uma teoria científica interdisciplinar aceita, embora por muitos com grandes reservas.
A visão da Terra como uma coisa viva não é exatamente nova. Platão, de acordo com Francis Bacon, acreditava que ela era “uma criatura una, perfeita e viva”. A percepção científica desta visão, e do que ela acarretava, no entanto, só começaria a surgir cerca de dois mil anos depois. Robert Boyle, um dos fundadores da Royal Society, descreveu no século XVII a atmosfera como “exalações do globo terrestre”. Um século depois, Joseph Black demonstrou que as “exalações” eram uma mistura de gases, e o primeiro a ser isolado foi justamente o dióxido de carbono, então conhecido como “ar fixo”. Nos anos 1820, o matemático e físico francês Fourier começou a cogitar por que a temperatura da Terra era mantida em seu estado atual. O mecanismo preciso só foi descoberto por John Tyndall que, em 1859, percebeu que gases incolores, como o CO2 e o vapor de água, se comportam muito diferentemente de outros gases quando expostos ao calor de radiação – eles absorvem parte da energia e a irradiam de volta para a Terra. O sueco Svante Arrenhius notou, em 1904, que a concentração de CO2 na atmosfera aumentava por conta da queima de combustíveis fósseis, e que isto acabaria por afetar o clima do planeta.
Foram necessárias décadas de conforto material para que a nova onda dos anos 60 e 70, com seus hippies e primeiros ambientalistas, trouxesse o assunto à tona – e ainda, assim, debaixo de muito ceticismo. Em 2001, cientistas de quatro programas internacionais de pesquisa do clima reafirmaram os fundamentos básicos da hipótese de Gaia: a Terra “se comporta como um sistema uno e auto-regulável”, as atividades humanas influenciam significativamente o ambiente, o sistema da Terra é de difícil previsão e pleno de surpresas, o sistema é caracterizado por limiares críticos de mudanças abruptas e, finalmente, já passamos muito da variabilidade natural exibida durante os últimos 500 mil anos.
Mesmo com idéias amplamente aceitas e que influenciam muito do que se pensa hoje sobre o ambiente e o clima, Lovelock não parece estar muito satisfeito com nada do que vê à volta. Critica os verdes por “ingenuidade”, acha que políticas como as do banimento de sacolas de plástico em supermercados servem apenas para as pessoas se sentirem bem, argumenta que iniciativas como a energia eólica e os biocombustíveis servem apenas para dar lucros a novos negócios fortemente subsidiados, e defende ferrenhamente a energia nuclear como a forma menos danosa, mais barata e eficiente para tentar reverter num mínimo um quadro desastroso.
Lovelock escreve com a elegância, a leveza e a erudição de conterrâneos próximos de sua geração, como Aldous Huxley e Bertrand Russel, e seu retrato de um inferno possível no planeta parece nos remeter aos sofridos panoramas de William Blake. Inspirado pela literatura de caráter fantasioso e profético de H.G. Wells, que povoou sua infância, este ano Lovelock deverá viajar para o espaço, a convite de Richard Branson – fundador do Grupo Virgin, que, entre outros negócios, investe em viagens espaciais - para ver, em seu todo, sua amada Gaia. E se o pior acontecer com a nave?, perguntou-lhe recentemente um jornalista inglês. “Que bela maneira de ir embora”, ele respondeu.