Na vida banal do dia-a-dia, no nosso cotidiano mais trivial, uma diferençazinha de dois ou três graus Celsius na temperatura ambiente parece muito pouco, quase nada. Mas, atenção: a mesma ínfima variação pode significar vida ou morte para grande parte da humanidade – e das outras espécies do planeta – se o aquecimento global ultrapassar, em média, apenas dois graus.
Assim proclama este livro premiado, escrito, não por cientistas, mas por um jornalista especializado no assunto. Dois anos depois do lançamento original em língua inglesa, “Seis Graus” (Six Degrees) finalmente chega ao Brasil – onde foi precedido por um documentário baseado em suas páginas, produzido pela National Geographic e exibido na TV por assinatura brasileira com o título SOS Aquecimento Global.
Apesar da autoria jornalística, o prestigioso prêmio que recebeu foi o de “livro de ciência do ano”, concedido por ninguém menos que a Royal Society, a célebre academia de ciências britânica, fundada no século 17 por polímatas como Robert Boyle e Christopher Wren. Tal honraria já seria, por si só, bem bacana – mas ganha importância ainda maior considerando-se a natureza jornalística da obra. Nada melhor que o reconhecimento da comunidade científica para desarmar os céticos e desconfiados de plantão.
Ajudado ou não pelo prêmio, o livro parece ter tido impacto decisivo na mesa de negociações internacionais em torno das mudanças climáticas. No último mês de junho, durante reunião preparatória para a Conferência do Clima de Copenhague, que será realizada em dezembro, um grupo de ONGs ambientalistas – encabeçado por Greenpeace e WWF – entregou, aos representantes governamentais presentes, um dossiê com sua proposta conjunta de estratégias para a contenção do aquecimento global. A ênfase do documento concentra-se justamente no alerta de que a elevação da temperatura média do planeta só nos poupará de catástrofes incontroláveis se não exceder o limite de dois graus. Mark Lynas, autor do livro, pode não ter sido o primeiro a fazer essa declaração – porém, foi só depois do lançamento do livro que ela realmente chamou a devida atenção.
A façanha de Lynas se explica pelo fato de ele não apenas realizar um levantamento completo das pesquisas científicas publicadas sobre o assunto, mas também por sistematizá-las, sintetizá-las e traduzi-las em linguagem acessível e saborosa. Só assim o tal “jornalismo de divulgação científica” pode cumprir seu papel de serviço de utilidade pública. Como diz o autor: “A maior parte desta discussão poderá parecer complexa e misteriosa a quem não é especialista no assunto. Mas não devia. Esta é (...) a questão-chave com que atualmente a humanidade se defronta, muito mais importante que o terrorismo, o crime, a saúde, a educação ou qualquer outra das preocupações (...) que enchem as páginas dos jornais e as telas de TV”.
É mesmo difícil imaginar assunto mais complicado, além de incômodo e polêmico, que o “aquecimento global” – osso duríssimo de roer para quem não estudou essa enigmática ciência chamada “climatologia” numa boa universidade. Quem está acostumado a acompanhar previsões metereológicas, sabe o quanto elas costumam dar errado. A gente começa a entender por que quando Mark Lynas nos pega pela mão, para ensinar o bê-a-bá climatológico. São tão sutis e intricadas as relações entre a temperatura, as correntes oceânicas, os solos, os ventos e as nuvens, que a ciência continua longe de decifrá-las por completo. Nem precisa ser tão bom professor, quanto se revela o repórter Lynas, para fazer delas um estudo fascinante.
“Seis Graus” já é o terceiro livro de Lynas sobre o assunto. No primeiro, “High Tide” (Maré Alta, de 2004, inédito no Brasil), o jornalista – nascido nas Ilhas Fiji e radicado na Inglaterra – relatava viagens ao redor do planeta, pesquisando efeitos já constatáveis do efeito-estufa. O segundo, “Carbon Counter” (Contador de Carbono, 2007, também inédito por aqui), compõe uma espécie de manual, instruindo o leitor a calcular suas emissões pessoais de carbono e buscar maneiras de reduzi-las. Edições brasileiras de ambos os volumes seriam igualmente bem-vindas!
Enquanto elas não vêm, “Seis Graus “ garante leitura de primeira para quem deseja se informar sobre tudo que estará em jogo em Copenhague, no final do ano. Quem assistiu “SOS Aquecimento Global”, já sabe o que está por trás do título do livro e também o modo como aborda a questão. Lynas toma, como ponto de partida, o relatório publicado, em 2001, pelo IPCC – Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, prevendo um aquecimento global entre 1,4 e 5,8 graus Celsius até o final deste século, se as emissões de gases-estufa não fossem contidas. As prováveis consequências de cada um desses grau a mais – arredondados de um a seis – são divididas em capítulos cada vez mais tenebrosos, principalmente depois do, ao que tudo indica, fatídico “terceiro grau”, descrito como o “ponto de desequilíbrio” irreversível, capaz de levar à extinção em massa da vida sobre a Terra.
O Brasil aparece com destaque, não só pela importância das reservas naturais amazônicas, mas também por ter ocorrido aqui o sinal mais contundente de que o aquecimento global não era paranóia dos “eco-chatos”: o furacão Catarina, em 2004. “Uma tempestade (...) que realmente fez os especialistas em previsão coçarem a cabeça, desnorteados”, escreve Lynas, ressaltando que jamais um único furacão havia sido documentado no Atlântico Sul.
Para tudo não acabar em tragédia, “Seis Graus” dedica um sétimo capítulo às possíveis soluções e armas de combate ao aquecimento global, incluindo análise especialmente interessante das fontes de energia alternativa aos combustíveis fósseis. Importante observar que o autor – mais de um ano depois da publicação do livro – mudou radicalmente de opinião a respeito da energia nuclear, tratada aqui com reservas e reticências. Influenciado pelo livro “Prescription for the Planet” (Receita para o Planeta, sem edição em língua portuguesa), do americano Tom Blees – que enaltece uma nova geração de reatores, capazes de aproveitar o lixo radioativo –, Lynas passou a abraçá-la entusiasticamente, sofrendo, por isso, ataques do Partido Verde inglês... ao qual, até então, pertencia!