A mudança da Era ou Bolha Industrial para uma nova em que a sustentabilidade paute todas as atividades econômico-financeiras depende, segundo Peter Senge, de pequenas mudanças de atitude e pequenas idéias inovadoras provenientes de muitas pessoas. E isso já está acontecendo.
“A Revolução Decisiva” começa com a tarefa de explicar o cenário em que a sociedade se encontra pela perspectiva do desenvolvimento sustentável. Talvez seja um pouco difícil para o leitor compreender rapidamente essa realidade, mesmo sendo exposto - de forma clara e direta - a dados aparentemente distantes da realidade, mas que afetam indiscriminadamente a civilização globalizada, seu cotidiano e futuro próximo.
Em meio a esses números compostos por muitos dígitos, destaca-se o da emissão mundial de 8 bilhões de toneladas de carbono por ano ou o aumento de 400% dos resíduos sólidos compostos por embalagens nos últimos 20 anos. Das cerca de 500 mil mortes anuais - só na Índia - decorrentes de doenças respiratórias – ocorridas por conta de emissões de partículas industriais - e a estimativa de que 30 milhões de automóveis saem de circulação no mundo, também todo ano.
Por meio desses, entre outros dados alarmantes compilados pelos autores, o livro mostra, logo no início, o quanto estamos cercados por problemas ambientais decorrentes da atividade ou bolha industrial criada e inflada nos últimos séculos. É difícil imaginar o quadro todo, mas conforme a leitura avança, é possível vislumbrar soluções e entender melhor aspectos e mudanças de hábito que contemplam a busca de atividade econômica e meio de vida geradora de zero impacto ambiental.
Basta entender que esses problemas de grandes proporções são fato, por conta de um estilo de vida considerado bom e que gerou progresso, mas que em pequenas ações de muitas pessoas, traz efeitos colaterais nocivos ao bem coletivo.
O livro revela, portanto, que pequenas mudanças de comportamento e boas idéias darão conta da transição do modelo civilizatório vigente para um que contemple valores socioambientais e econômicos. “Ninguém tem a resposta para a pergunta de como seis bilhões de pessoas (logo seremos oito ou nove bilhões) poderão vivenciar juntas a sustentabilidade. Porém, a solução definitiva é exatamente o que não é necessário. Ninguém havia planejado a Revolução Industrial. Nenhum ministério foi encarregado de promovê-la. Nenhuma empresa, isoladamente, liderou o avanço. Em vez disso, inúmeras iniciativas ousadas geraram massa crítica para transformações inevitáveis e inexoráveis. A Era Industrial não resultou de planejamento, mas, sim, de inovações espontâneas. A próxima era não será diferente.”
Senge e sua equipe também indicam a quem escreveram o livro: “Algo que aprendemos em nosso trabalho sobre mudança organizacional e sistêmica é a dificuldade de identificar os líderes antecipadamente”. De acordo com ele, às vezes, são CEOs ou presidentes que representam esse papel. Porém, muitas vezes esses condutores de pessoas não ocupam posições de poder ostensivo na hierarquia organizacional.
“Não são porta-bandeiras nem chefes de torcida que promovem campanhas aparatosas em favor da mudança, mas, isto sim, indivíduos apaixonados que trabalham para transformar suas organizações de baixo para cima. São, quase sempre, pragmáticas de mente aberta, pessoas que se importam profundamente com o futuro, mas não confiam em remendos, em elixires emocionais nem em respostas superficiais para problemas complexos. A duras penas, desenvolveram o senso de como funcionam suas organizações e se imbuíram de humildade quanto ao que qualquer pessoa pode fazer sozinha. Em geral, não se consideram líderes, mas o tempo demonstra que estavam errados.”
A obra destaca alguns casos que ilustram isso. Como o de Per Carstedt, dono de uma grande concessionária Ford no norte da Suécia e se encaixa no que historiadores chamam de “inovação básica”, mudanças na tecnologia e nas organizações que criam novas indústrias, transformam as existentes e reformulam as sociedades. Isso leva com que as pessoas aprendam a viver fora da bolha ou do comportamento vigente.
Carstedt viveu vários anos no Brasil e participou da ECO-92, Conferência das Nações Unidas para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento realizada, em 1992, no Rio de Janeiro. O evento despertou o interesse dele sobre a preservação ambiental. Depois de pesquisar muito sobre desenvolvimento econômico que respeita o meio ambiente e que gera valor social, ele voltou à Suécia, onde herdou uma concessionária de seu pai. Ele se viu em uma empreitada para introduzir o mercado de carros movidos a álcool no país. E segundo ele, dialogou muito com ONGs, montadoras e distribuidoras para criar esse nicho na Suécia.
Hoje, todos as grandes fabricantes de veículos automotores de lá oferecem carros ou caminhões movidos a etanol. Apenas 30% das necessidades de energia do país dependem de petróleo. Grande contraste com o cenário de 1970 em que 77% da energia dependia dessa única fonte por conta dos veículos automotores.
Positivamente, a “Revolução Decisiva” mostra que é possível reverter o atual quadro e conseguir passar para um sistema de produção industrial com zero impacto e até regenerativo. Como? Trazendo à tona casos economicamente viáveis, experiências que geraram resultados e facilmente podem ser implementadas em vários lugares do mundo. O que dá para se perceber é que atitudes e boas idéias necessárias para a mudança de modelo estão, realmente, ocorrendo.
Para quem procura se situar e descobrir esse movimento cada vez mais latente em todo o mundo, “A Revolução Decisiva” é uma ótima leitura. Porém, se prepare, pois a obra é um baú cheio, concentrado em 400 páginas que exigirá reflexão para ligar todas as possibilidades de modelo transitórias que podem funcionar no cotidiano de qualquer um.