Filosofia criada pelo australiano Bill Mollison nos anos 70 – e apresentada em detalhes nesta obra – a permacultura propõe uma ética de cuidado com a Terra e as pessoas, com lições práticas de como planejar a casa, o sítio e até mesmo as cidades para aproveitar tudo o que a natureza oferece, criando conexões sustentáveis entre a humanidade e o planeta.
Pouca gente conhece a permacultura, apesar de ela representar hoje uma espécie de rede socioambiental que já está presente em mais de 120 países, graças aos inúmeros cursos ministrados mundo afora nos institutos e estações de permacultura criados por discípulos de seu principal fundador, o naturalista australiano Bill Mollison. Ele cunhou o termo permacultura na década de 1970, junto com o conterrâneo David Holmgren, a partir da contração das palavras permanente e agricultura, e também da ideia de cultura permanente -que, em sua concepção, deve ser resultado de um manejo sustentável e ético da terra.
No fim dos anos 60, Mollison morava numa pequena vila no interior da Tasmânia, onde pescava, plantava e criava animais para alimentação – mas já sentia que os recursos naturais estavam cada vez mais escassos, resultado da poluição ambiental causada pelo crescimento industrial. Na época, Mollison e Holmgren eram professores na Universidade da Tasmânia e estavam pesquisando um sistema agricultural sustentável para servir como resposta positiva aos sistemas políticos e industriais que, na visão de Mollison, condenavam a continuidade da vida humana e do mundo à nossa volta. O trabalho resultou num conjunto de princípios e num grande jardim experimental, rico em diferentes espécies: árvores perenes, arbustos, vegetais, tubérculos, fungos etc. Tal sistema integrava arquitetura e biologia, agricultura e zootecnia, entre outras inúmeras disciplinas. A pesquisa culminou em 1978 com a criação do termo permacultura e a publicação dos livros Permacultura Um e, um ano depois, Permacultura Dois.
Mas a obra Introdução à Permacultura, de 1991, talvez seja a mais emblemática de Mollison. Isso porque as duas primeiras ainda tinham trejeitos de trabalho acadêmico, falavam para cientistas. Com Introdução, o autor inaugurava uma segunda etapa da permacultura, em que não só o discurso se estendia para leigos (ao trazer uma linguagem mais simples e mais elementos para a prática do novo sistema), como também a permacultura expandia seus horizontes para além da agricultura doméstica de autossuficiência. Como escreveu Mollison no prefácio do livro, “Auto-suficiência alimentar (ou autossuficiência, após a reforma ortográfica) não tem sentido sem que as pessoas tenham acesso à terra, informação e recursos financeiros”. (Não por acaso, um dos princípios éticos da permacultura é cultivar a menor área de terra possível, por meio de sistemas intensivos de pequena escala e eficientes em energia.)
Estava dado, então, o passo que faria da permacultura um sistema cuja meta de fundo é aumentar a independência e a autonomia das famílias em relação à carência de políticas governamentais efetivas, às oscilações do mercado financeiro e aos interesses da iniciativa privada – sem perder de vista, é claro, a manutenção de ecossistemas naturais vivos e saudáveis. Para isso, Mollison criaria na Austrália, por exemplo, estratégias financeiras e legais de acesso à terra e sistemas de economia comunitária para apoiar as famílias permacultoras, como os fundos de empréstimos rotativos e as “moedas verdes” ou LETS (Sistema Local de Trocas de Trabalho).
Nas 204 páginas do livro, o autor apresenta de forma clara, objetiva e ricamente ilustrada um conjunto de práticas e tecnologias sustentáveis capazes de suprir as necessidades humanas básicas: produção alimentar orgânica, construção de moradias com técnicas ecológicas, acesso e consumo consciente da água, uso de fontes renováveis para geração de energia elétrica, além de saneamento com tecnologias naturais e reciclagem e reaproveitamento de resíduos.
Dividida em oito capítulos, a obra concentra forças numa palavra-chave da permacultura: design. Diz o autor que o design, ou seja, o planejamento da terra ou propriedade (que pode ser uma casa, um sítio, uma vila ou uma cidade) é fundamental para que se consiga extrair dela tudo (ou quase tudo) de que precisamos para viver – e viver bem. O bom design, na permacultura, é aquele que integra os mais diversos elementos disponíveis no terreno (solo, água, sol, vento, chuva, vegetação, animais, resíduos, edificações etc.), criando conexões e relações de interdependência entre eles extremamente sustentáveis.
Para exemplificar, vale recorrer a três princípios da permacultura, que aparecem detalhados logo no primeiro capítulo do livro. São eles: 1- cada elemento do terreno deve ser posicionado em relação a outro de modo que se auxiliem mutuamente; 2- cada elemento executa várias funções (assim, uma cerca de vegetais comestíveis pode servir como alimento, quebra-vento, hábitat para pequenos animais, elemento para dar mais privacidade à casa etc.); 3- toda função essencial (como abastecimento de água e energia) é apoiada por dois ou mais elementos (na falta do aquecimento solar de água, a serpentina do fogão à lenha ou um sistema de energia elétrica garantem a abastecimento).
Há ainda outra estratégia fundamental em qualquer projeto de permacultura: o planejamento por zonas e setores – tema também do primeiro capítulo. Aqui, Mollison propõe o posicionamento dos diferentes elementos de acordo com a frequência de visitas que cada um exige. Assim, um galinheiro, que é visitado 350 vezes ao ano para a coleta de ovos, deve ficar mais próximo da casa principal, ao passo que um carvalho pode estar mais distante, já que tende a ser visitado somente duas vezes no mesmo período, para a colheita de sementes.
Ser um bom designer de permacultura inclui, nos escritos de Mollison, observar atentamente a natureza e planejar ao máximo o uso da área. Tais desafios vêm recheados de ideias nos capítulos dois e três. Uma das lições importantes apresentadas está em aprender a identificar os recursos disponíveis localmente e projetá-los num mapa da propriedade, que deve conter, entre outros dados: informações sobre os cursos d’água, o clima, os ventos predominantes, a posição do sol, a topografia, as construções, os principais acessos e áreas sujeitas a incêndios.
Numa leitura mais ligeira, isso tudo pode parecer muito complicado e de difícil execução. Mas, Mollison adverte: “Embora, a princípio, a Permacultura aparente ser de trabalho intenso, ela não é um retorno aos sistemas proletários de colheitas anuais, escravidão e sofrimento sem fim (...). Pelo contrário, ela prioriza o design (...) para o melhor benefício, utilizando uma certa quantidade de trabalho humano (que pode incluir amigos e vizinhos), uma acumulação gradual de plantas produtivas perenes, (...) o uso de recursos biológicos, tecnologias alternativas que gerem e economizem energia e um uso moderado de máquinas, de forma apropriada. (...) Neste momento, nos parece óbvio que o planejamento da produção alimentar altamente intensiva e biológica, a partir da porta de casa, é o único caminho para a saída das crises futuras”.
Para quem tiver um pouco de paciência para atravessar os trechos que exigem mais atenção do leitor - por conta, especialmente, do pensamento sistêmico presente em toda a obra - os ensinamentos de Mollison trarão sugestões de design para jardins domésticos, pomares, agroflorestas, plantio de grãos, criação de animais e aquicultura.
No último capítulo, o autor traça ainda um panorama de estratégias de permacultura para comunidades e ambientes urbanos, deixando claro que sua técnica de design não tem fronteiras e pode ser aplicada numa casa urbana, numa fazenda e até numa grande metrópole.
Traduzido para o português por André Luis Jaeger Soares, coordenador do IPEC - Instituto de Permacultura e Ecovilas do Cerrado, a edição brasileira - que tem apoio da Editora Novotempo - está esgotada e, até que se tenha notícia de uma nova impressão, a alternativa é adquirir o exemplar em inglês, diretamente da editora australiana Tagari, responsável pelas publicações do Instituto de Permacultura ligado a Bill Mollison desde 1978. Aproveite a visita ao site e conheça mais sobre outras obras do autor.