É difícil acreditar no diretor Andrew Stanton quando ele declara que não tinha nenhuma intenção de passar um sermão ambientalista com WALL-E. Vencedor do Oscar 2009 de melhor animação, o filme – que poderia ser descrito como uma apocalíptica ficção-científica para crianças – toca pais e filhos, netos e avós, tios e sobrinhos com um alerta tão incisivo quanto Uma Verdade Inconveniente (2006) e A Última Hora (2007).
A óbvia diferença é que, enquanto esses dois documentários se apóiam em dados e fatos investigados cientificamente, o filme de Stanton faz arte com criatividade e imaginação proféticas. Já devidamente consagrado com o Oscar de melhor animação por Procurando Nemo (2003), o diretor conta que – durante os quinze anos que se passaram desde o primeiro esboço de WALL-E até sua finalização – a realidade é que foi se tornando cada vez mais parecida com o cenário futurista desolador concebido por ele e sua equipe de co-roteiristas: o planeta Terra soterrado por montanhas de lixo, habitado apenas pelo robô que dá nome ao filme e uma barata.
Querendo ou não, acabaram construindo uma fábula ecológica de impacto social e político raro, ainda mais se tratando de um desenho animado. Se existe uma fronteira entre filmes para adultos e filmes para crianças, o estúdio Pixar nunca deu a menor bola para ela. Começou revolucionando a arte da animação com Toy Story (1995), primeiro longa-metragem 100% gerado em computadores, e seguiu colecionando sucessos como Monstros S.A., Os Incríveis e Ratatouille. Logo tornou-se um clichê da crítica cinematográfica afirmar que os filmes da Pixar eram capazes de agradar aos adultos mais até do que às crianças.
Dessa vez, porém, foram acusados de ir longe demais. Lançado em junho de 2008, ao mesmo tempo que batia o recorde de faturamento da Pixar e recebia uma chuvarada de elogios por sua originalidade artística, WALL-E atraiu a ira do setor mais conservador da mídia norte-americana. A polêmica estourou no site da revista National Review. Um articulista acusava o filme de bombardear seus filhos com “propaganda esquerdista sobre os males da humanidade”. Outro chamava atenção para a “hipocrisia” da Disney (proprietária da Pixar desde 2006), ao colocar nos cinemas um contundente manifesto contra o consumismo, simultaneamente abarrotando as lojas de brinquedos com bonequinhos do robô protagonista, “manufaturados na China, em fábricas destruidoras do meio ambiente, e embalados em plástico que demorará centenas de anos para biodegradar em nossos aterros”.
Se você ainda não viu WALL-E, pode parar de ler por aqui. Ganhará mais assistindo ao filme e tirando suas próprias conclusões, sem nenhuma resenha desmancha-prazeres antecipando detalhes da história. Quem já viu, porém, dificilmente se surpreenderá que tenha sido celebrado como obra-prima por sua narrativa quase sem diálogos, a ponto de ser eleito o melhor filme de 2008 pelas associações de críticos de cinema de Los Angeles e Chicago – a primeira vez que uma animação ganhou a parada.
Se WALL-E serve ou não como aula de educação ambiental é uma discussão que permanece aberta, mas basta a polêmica lançada pela National Review para evidenciar que a fita contém mais do que entretenimento puro e simples.