Talvez nenhum tema científico moderno tenha demandado tanta discussão internacional, envolvendo uma gama de atores tão expressivos - como as cúpulas dos principais governos mundiais e as grandes corporações - como o aquecimento global. Em poucos anos, foram criados tratados internacionais, regras de mercado ainda difíceis de entender e muitas tentativas, por enquanto ainda vãs, de mudanças nos padrões de produção e consumo da humanidade (sobretudo em relação à energia).
Embora majoritários, os estudos que mostram alterações importantes no clima mundial por conta da atividade humana não são unânimes. Há um grupo de cientistas que defende exatamente o contrário: o clima mundial é muito complexo para que qualquer atividade humana possa influenciá-lo e é provável que o planeta entre em uma fase de esfriamento.
No livro "Aquecimento Global - Frias Contendas Científicas", organizado pelo economista José Eli da Veiga, professor titular do Departamento de Economia da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA-USP) e um dos adeptos da Economia Ecológica, as duas correntes são colocadas lado a lado, com a intenção declarada de fazer o leitor conhecer melhor os argumentos dos dois lados e também mostrar que a controvérsia científica não deve ser encarada como pecado e que ambas as correntes devem ser aprofundadas para diminuir as incertezas ainda vigentes.
Em um terceiro capítulo, é apresentado um panorama do debate econômico e do processo político desencadeado pela Convenção do Clima e um desafio é colocado pelos autores sobre as conseqüências de se aceitar uma ou outra tese.
Sonia Barros de Oliveira, professora titular do Instituto de Geociências da USP, mostra no capítulo "Base científica para a compreensão do aquecimento global" as principais teses sobre mudança do clima aceitas pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas da Organização das Nações Unidas (IPCC, na sigla em inglês), grupo de mais de 2.000 cientistas de todo o mundo que analisam a literatura científica e técnica disponível e elaboram relatórios sobre a mudança no clima.
Basicamente, Oliveira apresenta os principais fatores que condicionam o clima, com destaque para o efeito estufa, descreve as mudanças climáticas observadas ao longo do século XX e discute o papel relativo dos fatores que influem no balaço energético do sistema climático desde o início da era industrial, entre eles o aumento das emissões de gases de efeito estufa de origem antrópica. Explica, ainda, o que são e como são produzidos os cenários que permitem inferir o aumento futuro da temperatura na Terra e suas possíveis conseqüências.
No segundo capítulo, "Aquecimento global, uma visão crítica", o físico Luiz Carlos Baldicero Molion, professor da Universidade Federal de Alagoas e doutor em meteorologia, põe em dúvida a hipótese de aquecimento global provocado por atividades humanas. Com um pouco mais de exclamações (!) do comum em textos científicos, procura demonstrar que as teses do IPCC carecem de bases científicas sólidas ao não considerar adequadamente todos os processo físicos que ocorrem na atmosfera, particularmente a cobertura de nuvens e o ciclo hidrológico.
Afirma que os modelos climáticos que embasam as teses do IPCC são meros exercícios acadêmicos e não podem ser usados como motivo para políticas que visem o bem-estar social. Considera, como os demais cientistas chamados "céticos", que a atividade humana tem muito pouca influência no clima para ser detectada e que a maior probabilidade, nos próximos 20 anos, é de um resfriamento global.
Mas é no terceiro e último capítulo, "Economia e política do aquecimento global", que José Eli da Veiga e Petterson Molina Vale, também economista formado pela USP, mostram como essas controvérsias têm sido tratadas no âmbito da economia e da política e porque estamos diante de uma encruzilhada: ou acreditamos nos "céticos" ou levamos a sério as previsões do IPCC. Como demonstram os autores, ficar no meio termo não parece ser uma alternativa viável. Para eles, a impressão passada pelos acordos em vigor seria algo como fazer de conta que acredita nas teses do IPCC, mas no fundo duvidar, já que as propostas em vigor são tímidas para enfrentar o problema.
Segundo Veiga e Molina, "nada pode ser mais incoerente do que levar a sério as conclusões do IPCC e, simultaneamente, supor que o problema possa ser enfrentado mediante acordos internacionais do gênero do Protocolo de Kyoto. Se o IPCC estiver mesmo com a verdade, todos os países do mundo, a começar pelos mais ricos e poderosos, deveriam enfrentar o problema como se estivessem diante de uma grande guerra, em vez de barganharem ridículas metas de contenção de emissões". Ambos defendem que, para conter e mitigar o aquecimento global aceito pelo IPCC, são necessários esforços e orçamentos muito maiores na área de ciência e tecnologia, principalmente para diminuir a dependência de combustíveis fósseis.
Finalmente, para os que acham que optar pelos "céticos" significa viver em tranqüilidade e parar de se preocupar como futuro do planeta, o próprio Molion, no final de seu artigo, lembra que não acreditar no aquecimento global, não é aval para o ser humano degradar o meio ambiente: "..., o bom senso sugere a adoção de políticas de conservação ambiental bem elaboradas, destituídas de dogmatismo, e mudanças nos hábitos de consumo para que a humanidade possa sobreviver, isto é, para que as gerações futuras possam usufruir dos recursos naturais disponíveis atualmente."