Mais de 80% da população dos Estados Unidos têm algum grau de educação superior*. Esse número, inspiração para tantas nações do mundo (como o Brasil, onde apenas 6% conseguem concluir a educação pós-secundária), é obviamente motivo de orgulho, mas também provocacerta angústia: os norte-americanos são os maiores usuários de energia doméstica e os maiores produtores de lixo per capta do mundo. Eles alcançam médias insustentáveis de consumo e de descarte, que se fossem adotadas pelo resto da população, causariam um colapso imediato nos sistemas produtivos e nos biomas da Terra.
O que acontece, então, com a crença na educação como fator importante da construção de sociedades sustentáveis? Será que a educação pode mesmo garantir que exista engajamento e compromisso com o futuro do planeta?
O livro "A Escola Sustentável - Eco-alfabetizando para o Meio Ambiente", da educadora Lúcia Legan, articula respostas positivas para essas perguntas. Sim, é possível repensar a relação do homem com o meio ambiente na escola. Sim, o educador tem um papel importantíssimo na formação de gerações preocupadas com cuidar da Terra. Sim, é na educação que devem se concentrar a maior parte das atenções, dos esforços, dos recursos humanos e materiais destinados à promoção da sustentabilidade.
Essa reafirmação do potencial transformador do professor e da escola não deixa de considerar as dificuldades que os educadores enfrentam no seu dia a dia. A autora conta que ela mesma só conseguiu perceber que as "pessoas urbanas estão no escuro" quando se mudou para a zona rural. Lá, começou a notar que as crianças precisam experimentar a natureza para compreendê-la e para se responsabilizar por ela.
Segundo Lúcia, ninguém precisa "reinventar a roda" para se tornar um eco-educador. Ela segue, para isso, o caminho da permacultura, cujos valores e práticas podem ser adaptados ao contexto da sala de aula, fomentando atividades interdisciplinares e projetos educativos. Assim, cria-se uma intensa ligação com a comunidade local, tornando a escola uma entidade solidária, participante e transformadora do espaço a sua volta.
O sucesso desses projetos depende de muitos fatores, entre eles, de uma reformulação do papel do professor na sala de aula. É preciso abandonar a postura de detentor do conhecimento, para elaborar uma relação colaborativa com os alunos. Muitas das propostas de Lúcia para essa nova formulação são seguidas por ela mesma no formato do livro: repleto de sugestões (e não de modelos consolidados), citações, experiências pessoais, diagramas. A edição 2007 acompanha um poster da "flor da sustentabilidade", para facilitar a multiplicação dos conceitos.
O exemplo que abriu essa reportagem - sobre a relação contraditória entre o grau de instrução dos norte-americanos e seus altos índices de consumo e de geração de resíduos - mostra que simplesmente "educar mais" as pessoas não é suficiente para formar sociedades sustentáveis. Para alcançar esse objetivo tão urgente, é preciso "educar de outro jeito". E apesar das dificuldades, os educadores que toparem esse desafio podem se tornar agentes importante do futuro do Planeta
*Dados do Livro Estatístico do Ano, da UNESCO, citados por Lúcia Legan em A Escola Sustentável.