O PIB não mede o bem-estar. Esta constatação dos autores é, hoje, de suma importância. Na realidade, o PIB mede o valor dos bens e serviços comerciais produzidos durante um ano. Nada diz sobre a riqueza acumulada numa sociedade, nem se o PIB elevado está sendo atingido às custas da venda do capital natural (o petróleo dos países produtores, por exemplo), nem sobre a queixa da dona de casa que constata que quem plantou e colheu um pé de alface contribuiu para o PIB do país, enquanto ela que comprou, lavou, picou e serviu a salada não contribuiu com nada. O PIB se interessa apenas pelo equivalente monetário de um grupo restrito de atividades.
O livro que aqui comentamos não busca fazer nenhuma refutação das contas nacionais, contentando-se apenas com a demonstração de que se trata de um aspecto muito restrito das nossas atividades, contabilizadas de maneira razoavelmente competente, apesar das graves deformações estruturais. O problema, portanto, não é "refutar" os conceitos adotados nos cálculos do PIB (existe imensa bibliografia a respeito) e, sim, uma vez constatado o grupo limitado de atividades que esta metodologia registra, buscar metodologias mais completas. Gadrey e Jany-Catrice fazem um excelente trabalho de revisão das diferentes metodologias disponíveis, dos tipos de indicadores, do potencial que hoje se apresenta para quem quer saber não apenas se o PIB cresceu, mas se estamos vivendo melhor.
Raramente encontrei um livro de estrutura tão simples e didática. E tão rico em sugestões práticas. Com 150 páginas, lê-se tranquilamente num fim de semana. E, no entanto, encontramos bem ordenados os indicadores objetivos e subjetivos, os balanços detalhados e os indicadores sintéticos, as avaliações traduzidas em valores monetários e as que se expressam em volumes físicos, os indicadores de produção (out-puts) e de resultados (out-comes), a diferenciação de números que apresentam "o que" cresceu na economia, e os que indicam "quem" se beneficiou do processo.
Retrospectivamente, as mudanças são fortes. Na era keynesiana, até os anos 1970, a busca do equilíbrio entre o econômico, o social e o (incipiente na época) ambiental era significativa. Nos anos 1980, com Reagan nos EUA e Margareth Thatcher na Inglaterra, o social saiu do mapa, tudo foi concentrado nos resultados econômicos e financeiros. Na década de 1990, com o IDH do Pnud - Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, assistimos a uma nova reviravolta, com a constatação de que a economia deve servir o bem-estar humano, e não o contrário.
A partir daí desenvolvem-se metodologias que avaliam o trabalho voluntário, o trabalho não remunerado doméstico, a destruição ou proteção do meio ambiente, o sentimento de insegurança gerado nos processos produtivos e assim por diante, a dilapidação dos recursos não renováveis (até o Banco Mundial! Veja no site: World Development Indicators 2003 - ). O leque de metodologias, a sua sofisticação e confiabilidade, está se tornando bastante impressionante. Pela primeira vez, começamos a ter instrumentos que podem ser publicados e que deverão permitir ao cidadão saber se o que está sendo feito corresponde às suas opções econômicas, sociais e ambientais.
Os autores passam em revista o "Barômetro de desigualdade e de pobreza" da França, o "Index of Economic Well being", o "Index of Sustainable Economic Welfare", o "Genuine Progress Indicator", o "Personal Security Index", o "Index of Social Health" e outros (além evidentemente do IDH do Pnud), de maneira extremamente organizada, de forma que vemos claramente como as medidas de utilidade empresarial (PIB) evoluem para medidas que avaliam os resultados práticos em termos de bem-estar das populações.
Ou seja, pela primeira vez, estamos realmente medindo a utilidade social das nossas atividades. Uma sociedade onde a economia vai bem, mas o povo vai mal e o planeta é dilapidado, é evidentemente uma sociedade sem rumos.
Construir sistemas simples que permitam à população saber se está vivendo melhor ou não, tem imensa importância. Se o que avaliamos é apenas o volume de atividades empresariais, passamos a achar que se o PIB vai bem, tudo vai bem, pois não temos dados sobre a amplitude do que vai menos bem.
Na realidade, gerar instrumentos que permitam à população avaliar o "progresso genuíno" e a sua qualidade de vida, o que Gadrey chama de "performance societal", tende a reequilibrar os critérios de decisão na sociedade. Por isso, não tenho dúvida em afirmar que se trata de um eixo essencial de avanços na ciência econômica. Uma população informada pode se tornar cidadã. A população desinformada - ou mal informada - como a que temos hoje, tende a ficar apenas angustiada.
É preciso acrescentar que o livro traz uma bibliografia excelente porque é enxuta e rigorosamente concentrada na problemática em estudo. Além disso, numerosos artigos e estudos mencionados estão disponíveis online nos sites listados.
Não devemos esquecer a excelente contribuição de Hazel Henderson em seu "Calvert-Henderson quality of Life Indicators", centrado no exemplo norte-americano. No meu site, há um artigo geral sobre o assunto:está em "Artigos online" e se chama Informação para a cidadania e o desenvolvimento sustentável. Boas leituras.