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Invenção do Contemporâneo - Riscos Sistêmicos
A série Riscos Sistêmicos - parceria do Espaço Cultural CPFL com a TV Cultura -, traz quatro DVDs com palestras de grandes cientistas sobre os perigos do aquecimento global
Que a Terra está seriamente enferma todos já percebemos. A gravidade da doença ficou ainda mais explícita depois do diagnóstico feito no início do ano pela equipe de cientistas de vários países durante as reuniões do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas-IPCC, na Europa. Na ocasião, os especialistas tornaram públicos os resultados de suas pesquisas, alertando para as conseqüências nefastas que o aquecimento global trará para o planeta nas próximas décadas. Depois da divulgação desses relatórios, discussões em todos os níveis procuram traçar uma perspectiva do que realmente pode acontecer com nosso dia-a-dia diante das alterações dos humores do clima em todo o mundo.
Sim, é um assunto que está na mídia diariamente, mas talvez pouca gente consiga se dar conta da sua gravidade e urgência. Para entender melhor esse tema tão complexo quanto relevante, o Espaço Cultural CPFL, em Campinas, vem produzindo uma série de palestras com renomados especialistas no assunto para o programa Invenção do Contemporâneo. Na série RiscosSistêmicos foram quatro encontros realizados no auditório do Espaço Cultural CPFL, em Campinas, e levados ao ar pela TV Cultura de São Paulo. A curadoria ficou a cargo do físico brasileiro Rogério Cezar de Cerqueira Leite, professor emérito da Unicamp e presidente do Laboratório Nacional de Luz Sincroton.
Rogério Cerqueira Leite foi também um dos palestrantes da série e falou sobre o tema A energia nos próximos 50 anos. Diante de uma platéia atenta, o físico discutiu de forma bastante didática as alternativas energéticas de que a humanidade vai precisar dispor nas próximas décadas já que as estimativas apontam que até 2050 a população mundial deve atingir nove bilhões de habitantes. Tanta gente significa também salto considerável do consumo de energia, que segundo Cerqueira Leite, deve ser da ordem de 100% a 200%. O físico admite que, diante desse quadro, não será mais possível fazer uso somente das formas de energia que utilizamos hoje, como os combustíveis fósseis que agravam a situação de aquecimento global em que vivemos. "Percebe-se que as formas de produção de energia atual gastam mais do que produzem", diz. Expondo as diferentes formas de obtenção de energia, o físico conclui que a contribuição das energias renováveis não chegará a 4% em 2050. E acredita que teremos, mesmo, que rever nossos hábitos para reduzir drasticamente os gastos com o uso da energia. Para Cerqueira Leite, a solução deve ser uma combinação de fatores como a conservação e aproveitamento das poucas fontes alternativas como o etanol, acredita. "O que se espera é que uma nova tecnologia futura de geração de energia possa nos salvar dessa situação", admite o físico, que vê vantagens na energia nuclear como alternativa imediata. "Hoje é o que nos resta para evitar o efeito estufa", conclui com nítido ceticismo.
[img02]Conseqüências do aquecimento global é o tema proferido por Carlos Nobre, climatologista e membro do conselho consultivo do Planeta Sustentável. De início, Nobre expõe as conseqüências do efeito estufa causado pelo aumento dos níveis de gás carbônico na atmosfera terrestre. "Hoje, a grande questão entre a comunidade científica é se a temperatura causa o aumento de CO2 ou se o aumento de CO2 é que eleva a temperatura global", revela. Não temos essa resposta ainda. O fato é que, de acordo com o climatologista, em 150 anos a concentração de CO2 na atmosfera do planeta aumentou e muito. Essa elevação vem acontecendo desde a Revolução Industrial, mas acentuou-se com o boom econômico do pós-guerra.
Durante sua palestra, Nobre afirma que vivemos um momento único na história do planeta, com grandes alterações na temperatura, extinção de várias espécies, alterações na composição atmosférica, aumento da população e perda de florestas. "Tudo isso vem crescendo exponencialmente. Nossa espécie está mudando o ambiente global de uma forma que nunca ocorreu e o clima é apenas um dos fatores preocupantes", acredita. Para o pesquisador, a conta é simples, mas assustadora: quanto mais quente ficar a Terra, mais situações climáticas extremas vão acontecer, como chuvas torrenciais, furacões, secas prolongadas. E não é o que já estamos vendo hoje nos noticiários?
[img03]O terceiro programa da série tem como tema Protocolo de Kyoto - presente e futuro, discutido pela geógrafa Branca Bastos Americano e pelo professor de economia internacional Warwick J. McKibbin. A geógrafa, que é também assessora técnica da Comissão Interministerial de Mudança Global do Clima, explica o que é o Protocolo de Kyoto e qual a importância da sua criação nas discussões sobre o controle das emissões dos gases que provocam o efeito estufa. "O protocolo é um grande avanço, pois serviu para que as nações começassem a pensar mais no assunto e a tomar atitudes concretas", reconhece Branca. Já o economista e professor Warwick McKibbin, faz duras críticas ao protocolo e acredita que haverá grandes perdas no Produto Interno Bruto dos países se as decisões de Kyoto forem seguidas à risca. "Não é à toa que os Estados Unidos não quiseram aderir", ataca McKibbin. Por causa disso, ele acredita que o protocolo não tem chances de funcionar. Em contrapartida defende o que chama de "Alternativa McKibbin-Wilcoxen". Trata-se de um minucioso estudo onde propõe adaptações ao que foi decidido em Kyoto. Algumas delas são incentivar imediatamente o uso de novas tecnologias, gerenciar as demandas de energia e criar mercados locais em substituição ao mercado globalizado que temos atualmente.