Aobra, coordenada pelo mexicano Lorenzo Carrasco, é fruto de investigação por parte do coletivo de imprensa EIR (Executive Inteligence Review) e defende que ONGs, fundações e movimentos socioambientais são "inimigos da civilização" a serviço de um grande estratagema, ardilosamente coordenado por oligarquias anglo-americanas com o único intuito de condenar os países pobres ao eterno subdesenvolvimento.
A idéia não é nova, possivelmente fruto de uma antipatia criada pela atuação dos movimentos socioambientais frente a impasses em grandes obras de infra-estrutura. A venda de 17 mil cópias de Máfia Verde, desde a sua primeira edição, segundo informações da distribuidora, demonstra que a tese de que as causas ambientais encobrem interesses econômicos oligárquicos (especialmente abaixo do equador) ganha cada vez mais adeptos. Entretanto, a máfia descrita na obra é de tal sofisticação, que é de se espantar a lacuna no correspondente aos motivos que levariam qualquer elite econômica a sabotar deliberadamente os países pobres. Motivos até podem existir, mas passam ao largo da rebuscada argumentação que, com uma erudição acaciana, remonta aos tempos do Renascimento. Os autores parecem contar com a solidariedade do leitor, desde que tenha introjetado um certo maniqueísmo, segundo o qual os ricos estariam sempre do lado do mal.
Como é comum em obras de cunho conspiratório, há certa confusão entre teorias e fatos. A história do surgimento do WWF (Fundo Mundial para a Natureza, na sigla em inglês), graças ao ativismo de monarcas da casa de Windsor e o apoio de grandes corporações britânicas, é suficiente para render à ONG o papel de "Estado-Maior" do nefasto movimento anti-desenvolvimentista. Também a nacionalidade de financiadores da rede FOE (Amigos da Terra, na sigla em inglês) basta para lançar seu prestígio na lama: "Desde sua Fundação, o FOE tem se mantido principalmente com contribuições de grandes fundações filantrópicas estadunidenses, o que é suficiente para determinar quais são seus reais propósitos 'ambientalistas' (sic) no Brasil e em outros países em desenvolvimento". Assim, ao longo de outros muitos exemplos, Máfia Verde deixa o leitor à espera de provas ou argumentos mais convincentes que nunca chegam.
Cabe lembrar que a tendência para validar conspirações é, na verdade, uma vocação dos autores. E estes são um mistério: aparentemente, é impossível descobrir quem são. Denominá-los apenas como "investigadores da EIR" compromete a credibilidade da obra. .
A revista EIR foi fundada por Lyndon LaRouche, economista e folclórico personagem da política americana. LaRouche já alegou que a rainha da Inglaterra seria chefe de uma gang internacional de tráfico de drogas e sustenta teorias controversas sobre os ataques de 11 de setembro. O fato é que, mesmo com muita disposição para idéias inovadoras, há elementos em Máfia Verde que dificultam qualquer boa-vontade.
Há o etnocentrismo da referência aos Ianomâmi como "silvícolas errantes que ainda não ultrapassam o nível civilizatório do neolítico". Há o argumento de que o desenvolvimento sustentável é uma volta ao paganismo (porque colocaria a deusa Gaia - Terra - acima da humanidade em termos de importância). Há a negação veemente de qualquer crise ambiental, ressaltando-se que o pesticida Dicloro-Difenil-Tricloroetano (DDT), os clorofluorcarbonos (CFCs) e os gases de efeito estufa seriam vítimas de uma perseguição "sem qualquer fundamentação científica". Desnecessário é lembrar que poucos anos após o lançamento de Máfia Verde, 2.500 cientistas de 130 países atestaram, em uníssono, as conseqüências maléficas da emissão de gases de efeitos estufa. Mas não custa.
Paira sobre tudo isso o que é possivelmente o maior erro da obra: não conhecer a agenda das instituições e movimentos que visa criticar. Isso apesar do excelente e extenso levantamento histórico desses grupos, bem como das políticas internacionais voltadas para o meio ambiente (informações que podem ser de bom uso para o leitor devidamente crítico).
Como aponta Máfia Verde, o movimento socioambiental teve sua gênese nos anos 60 e 70 e esteve ligado a uma inspiração romântica, quase bucólica, de adoração à natureza. Também flertou com ideologias voltadas para a demonização do capitalismo. Mas o tempo passou, e a maior parte das organizações atacadas na obra, hoje, dedica-se muito mais à proposição de alternativas de desenvolvimento, com a exploração econômica racional dos biomas, do que à simples defesa da preservação. Acusar tais organizações de algozes do progresso é ignorar que o próprio conceito de progresso está em debate hoje no mundo e, por isso mesmo, em transformação.