Biodiversidade serve para tudo isso e muito, mas muito mais. O livro "Biodiversidade: para comer, para vestir ou passar no cabelo?" trata justamente sobre como alguns segmentos da sociedade civil estão trabalhando esse assunto no Brasil, um país megadiverso: o primeiro em número de espécies de peixes e de mamíferos do planeta, o segundo em anfíbios, o terceiro em aves e o quinto em répteis. Ainda abriga 20% das espécies de plantas do mundo.
A publicação apresenta uma coletânea de artigos de mais de 63 autores distribuídos em 424 páginas. Dá um panorama atual do que está sendo feito e aponta caminhos de como se pode salvar as espécies, promover a conservação, o desenvolvimento e a justiça socioambiental. Reúne experiências que visam a implementação da "Convenção da Diversidade Biológica" (CDB) que estabelece que todos os países signatários (que assinaram o documento na Rio 92) precisam tomar medidas para a conservação, o uso sustentável e a repartição de benefícios da biodiversidade.
O livro foi preparado para ser uma contribuição brasileira à "Conferência das Partes da Convenção da Diversidade Biológica", que aconteceu em abril de 2006, em Curitiba. Cada uma das organizadoras convidou especialistas que relataram o que suas instituições estão fazendo pela CDB. E indica que há luz no fim do túnel diante da extinção em massa de espécies, hoje muito maior do que na época dos dinossauros, segundo o artigo "O Futuro, a quem pertence?".
A relevância da obra se dá principalmente ao mostrar como a gestão da biodiversidade depende de decisões coletivas e parcerias entre os diversos segmentos da sociedade. Além disso, sabe-se muito pouco o valor das espécies e suas inter-relações, os serviços ambientais que prestam ao homem ou à natureza, o seu potencial de uso e o real impacto de suas transformações.
A obra é útil para aqueles que querem entender a importância da biodiversidade e que trabalham com o tema, seja para saber o que já foi feito ou para constatar como é necessária a união de esforços para o sucesso das iniciativas. As experiências contadas são muito variadas, assim como o desenvolvimento dos assuntos. Há textos grandes com informações mais detalhadas, como fotos e gráficos, e também textos curtos que dão uma visão mais geral.
Como os autores fizeram um trabalho voluntário, atendendo a um pedido das entidades organizadoras - Instituto Internacional de Educação do Brasil, Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável, WWF, The Nature Conservancy (TNC) - o livro, às vezes, peca por não desenvolver suficientemente temas urgentes e que mereceriam um destaque maior. Um exemplo é o relato do trabalho do Instituto Hórus, descrito por Sílvia Ziller. A entidade é uma das poucas, se não a única, que trabalha com os estragos provocados pela introdução de espécies exóticas invasoras no Brasil. Essa é a segunda causa de extinção de espécies no mundo, mesmo assim, o assunto é abordado em apenas duas páginas e meia.
Algumas informações também se repetem e vários autores batem na mesma tecla: é preciso melhorar, e muito, a educação, a capacitação sobre o uso sustentável e a preservação da biodiversidade brasileira. Suzana Machado Pádua e Cláudio Valladares Pádua, do "Instituto de Pesquisas Ecológicas" (Ipê), ressaltam a falta de um sistema educacional que desperte a consciência da importância do patrimônio ambiental brasileiro. Isso poderia contribuir para chamar a atenção dos tomadores de decisão e da própria sociedade sobre o valor da natureza. Em "Biodiversidade também é uma questão de educação", a jornalista Liana John, uma das precursoras do jornalismo ambiental do Brasil - com um texto fluido, acessível e gostoso de ler - conduz a uma viagem que aguça todos os sentidos do leitor a fim de fazê-lo compreender as peculiaridades da diversidade de vidas do território brasileiro.
O papel do terceiro setor como fomentador e catalisador de iniciativas para a sustentabilidade também é defendido por diversos autores, mas fica claro que é preciso superar restrições técnicas, legais e culturais, como argumentam Vanderlei Perez Canhos, Dora Ann Lange Canhos e Sidnei de Souza, do "Centro de Referência em Informação Ambiental" (Cria). A entidade tem como missão a disseminação eletrônica de dados como ferramenta na organização da comunidade científica e tecnológica do país. O Cria desenvolveu vários sistemas de informação, como o do "Instituto Virtual da Biodiversidade" e do "SpeciesLink" (um sistema de dados de acervos de coleções biológicas e de observação de campo), além de muitos outros projetos.
Também há descrição do trabalho de algumas empresas que têm incorporado os preceitos da sustentabilidade. A Natura, por exemplo, foi a primeira empresa nacional de cosméticos a obter autorização no Brasil para bioprospecção - a tentativa de identificar o potencial comercial do conhecimento tradicional através da análise genética dos seus componentes. O ABN AMRO, Banco Real, patrocinador do Planeta Sustentável, criou mecanismos para estimular seus clientes a conservar florestas nativas. O Sebrae também participa, enumerando as diversas experiências de capacitação e promoção de econegócios. Já o Sesc apresenta o projeto Sesc Pantanal, um programa de proteção e de conservação da biodiversidade, cuja matriz é uma Reserva Particular de Patrimônio Natural (RPPN) com 106 mil hectares.
Vale destacar, ainda, o relato da pioneira na disseminação ao grande público sobre o tema: a jornalista Maria Zulmira de Souza, conselheira do Planeta Sustentável. Ela conta um pouco do desafio que foi colocar no ar o "Repórter Eco", da TV Cultura de São Paulo, o primeiro programa de televisão a digerir o tema em um canal aberto de televisão. A TV Cultura também foi a única do Brasil a ter um espaço dedicado à biodiversidade, o programa "Biodiversidade Brasil", desenvolvido graças à Lei Rouanet e patrocinado pela Natura. Desde 2001, ele trata, semanalmente, do tema no "Repórter Eco".
A obra também está disponível em Inglês. Os recursos obtidos com a venda vão para o fundo de publicações do IEB para viabilizar novos títulos. O livro é vendido em livrarias, mas também pode ser adquirido no site da editora, por R$ 40.