É fato que o planeta passa por uma grave crise ambiental. E, de certa forma, não é errado dizer que esse caos foi causado por nós, seres humanos, principalmente nos últimos 100 anos. É isso que mostram os números do IPCC (sigla em inglês para Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas). Sendo assim, é preciso pensar no futuro e fazer com que as novas gerações não repitam os erros das anteriores. Mas como atingir as novas gerações? Simples: revolucionar a educação.
De certa forma é isso que pretende fazer o Centro de Eco-Alfabetização, localizado em Berkeley, na Califórnia. Fortemente inspirado nas idéias de um de seus fundadores, o físico austríaco Fritjof Capra (autor de vários livros de sucesso, como o Tao da Física, o Ponto de Mutação e A Teia da Vida - Uma Nova Compreensão Científica dos Sistemas Vivos), o Centro vai além da educação ecológica como disciplina. Sua proposta é bem mais ampla. "Temos que visar uma transformação mais profunda no conteúdo, no processo e no alcance da educação em todos os níveis", descreve David W. Orr, professor de estudos ambientais, responsável pelo prólogo da obra.
O livro não oferece leitura fácil e está muito alicerçado em experiências realizadas nos Estados Unidos, que, como se sabe, guarda muitas diferenças em relação ao Brasil, principalmente na área de educação. Mas, mesmo assim, a obra pode ser de grande valia para educadores e ambientalistas em busca de boas idéias sobre como embasar novas formas de "alfabetização ecológica".
O livro reúne 26 artigos e ensaios de vários autores, principalmente ambientalistas, biólogos e pedagogos. O próprio Capra assina alguns dos textos. Segundo ele, "pode-se criar sociedades sustentáveis seguindo o modelo dos ecossistemas da natureza. E para entendermos os princípios organizacionais que os ecossistemas desenvolveram ao longo de milhões de anos, temos que conhecer os princípios básicos da ecologia - a linguagem da natureza". Para Capra, "a estrutura conceitual mais apropriada para se entender a ecologia hoje é a teoria dos sistemas vivos, que continua sendo desenvolvida e cujas raízes incluem a biologia organísmica, a psicologia gestalt, a teoria geral dos sistemas e a teoria da complexidade (ou dinâmica não linear)".
Além de muitas idéias e teorias como essa, o livro também brinda o leitor com várias experiências bem-sucedidas de parceiros do Centro de Eco-Alfabetização. Uma delas ganhou o nome de "Pátio Escolar Comestível". "Entender como o alimento parte da semente e chega até a mesa requer algum conhecimento dos processos naturais básicos, como circulação de energia, ciclos dos nutrientes, como a decomposição de um organismo torna-se alimento de outro. Também requer um entendimento da relação entre os sistemas educacionais, agrícolas, sócio-econômicos e políticos", descreve um dos autores. Em outra iniciativa alunos foram a campo tentar recuperar córregos em fazendas com a intenção de aprender sobre como as espécies em um ecossistema se interagem e, ao mesmo tempo, ajudar na preservação do camarão de água doce, ameaçado de extinção na Califórnia. Também é interessante a experiência em que vários alunos plantaram mudas de salgueiros e depois descobriram a importância dessas árvores para o ambiente local.
Talvez a iniciativa mais impactante para algumas crianças norte-americanas tenha sido o estudo de meio realizado em lavouras sustentáveis, quando puderam conhecer de perto as origens do alimento e as pessoas que o cultivam. "A maior parte de nossa sociedade não sabe mais o que é arrancar uma cenoura da terra ou comer uma melancia ainda quente com o calor do sol ou mastigar vagens tão secas que derretem na boca", escreve um dos autores do livro. O que não é verdade apenas nos Estados Unidos.