Etanol
A nova fronteira do etanol
Minas Gerais se transforma em umas das principais áreas de expansão da produção sucroalcooleira com a implantação de 31 usinas
Por Fabiane Stefano
Anuário do Agronegócio Exame - 2008
Quem costuma percorrer as estradas do Triângulo Mineiro pode notar a rápida transformação na paisagem local. No lugar de pastos e lavouras de grãos, surgem agora canaviais. Nas rodovias, caminhões transportam gigantescos equipamentos que seguem para as obras das usinas de açúcar e álcool. Tradicional centro de pecuária de leite e de corte, a região tornou-se uma das principais fronteiras do setor sucroalcooleiro do país. Cidades como Uberaba, Ituiutaba, Santa Vitória, Canápolis e Carneirinho vivem uma fase de euforia graças à expansão global dos biocombustíveis. Hoje, 31 unidades estão em implantação em todo o estado. Outros 15 projetos se encontram em discussão com o governo estadual. “Estamos analisando as regiões que podem receber essas usinas, pois o Triângulo Mineiro está quase saturado”, diz Maurício Cecílio, diretor do Instituto de Desenvolvimento Integrado de Minas Gerais (Indi), órgão do governo que analisa os investimentos no estado. De acordo com o Indi, Minas Gerais deverá receber 10,1 bilhões de reais em investimentos no setor sucroalcooleiro até 2016, recursos que deverão gerar cerca de 65 000 empregos diretos e um número três vezes maior de indiretos.
Há vários fatores que impulsionam os investimentos de usineiros no estado. Além de possuir clima e regime de chuvas apropriados à cultura de cana, Mi nas tem custos muito inferiores aos da produção de São Paulo — sobretudo em relação ao arrendamento da terra. A vizinhança com os paulistas também facilita a administração, a logística e o treinamento de funcionários das unidades de grupos instalados em ambos os estados. O conjunto de vantagens impulsionou o setor sucroalcooleiro de Minas e gerou uma mudança profunda no perfil de seu agronegócio. Somente no ano passado, quase 70 000 hectares de pastagens ou de terras ocupadas por soja e milho foram convertidos em canaviais no estado, área equivalente à da cidade de Belém. No total, Minas tem hoje 467 000 hectares plantados de cana-de-açúcar (veja quadro).
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Naturalmente, os preços da terra aumentaram na mesma velocidade. Segundo a consultoria FNP, especializada em agronegócio, as áreas dedicadas ao cultivo de cana na região de Uberaba, por exemplo, subiram 30% nos últimos três anos. A valorização acabou contaminando também as áreas de pasto e de lavoura de grãos. Hoje, o estado é o terceiro maior produtor de cana do Brasil, na briga para tomar o segundo lugar do Paraná. Ambos, porém, estão longe de alcançar São Paulo, que concentrou 60% da cana moída no Brasil na safra 2006/2007.
O avanço do setor sucroalcooleiro em Minas provocou uma disputa local por investimentos. Os municípios que ainda não conseguiram uma usina brigam para ter uma unidade em seu perímetro. Na cidade de Santa Vitória, por exemplo, localizada na região do Triângulo, a população aguarda a confirmação de um dos mais disputados projetos do setor sucroalcooleiro no Brasil: o pólo alcoolquímico da Dow e da Crystalsev. Será o primeiro centro produtor de polietileno à base de cana-de-açúcar do mundo. Com investimentos estimados em 1,5 bilhão de reais, a usina demandará 8 milhões de toneladas de cana para a produção de 350 000 toneladas de plástico biodegradável para a confecção de embalagens. Os executivos das duas empresas já visitaram várias vezes Santa Vitória para avaliar a infra-estrutura agrícola e logística. “As estradas na região são ruins e podem pesar contra a cidade na decisão final”, diz Diego Donoso, diretor comercial de plásticos para a Dow América Latina, que avalia opções também em Goiás e em São Paulo. Ele confirma, porém, que entre as alternativas estudadas a cidade mineira é a favorita.
Os municípios que já conquistaram um empreendimento do setor sucroalcooleiro vislumbram como o dinheiro de salários e de impostos vai mexer com a economia local. É o caso de Carneirinho, município de 8 000 habitantes do Triângulo. Ele acabou de inaugurar sua primeira usina, empreendimento do grupo alagoano Tércio Wanderley. É a quarta unidade da empresa em Minas, obra construída em tempo recorde: 432 dias. O investimento de 120 milhões de reais gerou 230 empregos diretos e 1 150 indiretos na cidade. “É a primeira indústria de Carneirinho”, diz o prefeito Cássio Rosa de Assunção. Localizada na mesma região do estado, a cidade de Ituiutaba vive uma euforia ainda maior. O pequeno município, com 92 000 habitantes, está recebendo duas usinas de cana-de-açúcar da Companhia Nacional Açúcar e Álcool, empresa formada pelo grupo Santelisa Vale e pelos fundos estrangeiros Global Foods e Carlyle/Riverstone, este comandado pelo executivo David Rubenstein.
A primeira unidade será inaugurada em agosto deste ano e terá capacidade para processar 2,5 milhões de toneladas de cana. A outra usina na cidade está em fase inicial de construção. O grupo de investidores vai erguer ainda um terceiro empreendimento desse tipo nas redondezas — mais precisamente na cidade de Campina Verde, a 70 quilômetros de Ituiutaba. O investimento total no estado será de cerca de 1,2 bilhão de reais. “Todos os projetos são idênticos para acelerar o ritmo de implantação”, diz Guilherme Leira Filho, gerente de uma das novas usinas de Ituiutaba. O executivo trabalhava há 26 anos na Jardest, uma das usinas da Santelisa Vale, quando foi convocado para tocar a construção das unidades mineiras e preparar a mão-de-obra local. Até agora, foram contratadas 130 pessoas de Ituiutaba para trabalhar na usina. Boa parte delas foi treinada nas outras usinas do grupo, uma vez que quase ninguém na cidade tinha experiência no setor sucroalcooleiro. Pessoal capacitado é justamente um dos principais gargalos para a maioria das cidades que estão recebendo as novas usinas. Em Ituiutaba, a procura por cursos técnicos no Senai disparou. Cerca de 140 jovens estudam eletrotécnica no curso que foi criado em 2008. Também está em construção um colégio técnico federal que oferecerá cursos voltados para o agronegócio. Tudo para atender à demanda das usinas e das empresas que virão junto com elas. “É natural que seja formado um pólo de fornecedores no entorno das usinas, assim como ocorreu em Sertãozinho, no interior de São Paulo”, diz Anselmo Rodrigues, presidente da Santelisa Vale. A Coopercitrus, cooperativa do interior de São Paulo que atua no ramo de concessionárias de tratores agrícolas, foi para Ituiutaba a pedido da Santelisa Vale para fazer nas unidades mineiras o mesmo trabalho de manutenção dos equipamentos que hoje é realizado nas usinas paulistas. “A maior dificuldade é encontrar gente capacitada. Mandamos um operador de máquinas para a matriz para aprender a mexer
com nossos tratores”, diz Celso Torres, gerente da Coopercitrus. A maior ambição da cidade, no entanto, é receber a nova fábrica da Sermatec, empresa que produz equipamentos para usinas. O investimento de 30 milhões de reais é disputado por Minas, Goiás e Mato Grosso. Afinal, serão 670 empregos com média salarial de 1 600 reais.
AS GIGANTES DE MINAS
Dois grandes empreendimentos previstos para o interior de Minas Gerais nos próximos anos vão exigir investimentos de quase 3 bilhões de reais
1º CNAA
A empresa formada pela Santelisa Vale e pelos fundos estrangeiros Global Foods e Carlyle/Riverstone vai construir três usinas no estado, duas em Ituiutaba e uma terceira em Campina Verde, com capacidade total para moer 15 milhões de toneladas de cana. O valor dos investimentos é de 1,2 bilhão de reais.A primeira das usinas será inaugurada em agosto. Uma segunda ficará pronta em 2009 e não há previsão para a entrega da terceira unidade.
2º Crystalsev e Dow
O projeto das duas empresas prevê a criação do primeiro pólo alcoolquímico do mundo, com capacidade para produzir 350 000 toneladas de polietileno de cana-de-açúcar.A cidade de Santa Vitória é a principal candidata a receber o investimento de 1,5 bilhão de reais. A previsão é que o complexo esteja em funcionamento até 2012.
Quem costuma percorrer as estradas do Triângulo Mineiro pode notar a rápida transformação na paisagem local. No lugar de pastos e lavouras de grãos, surgem agora canaviais. Nas rodovias, caminhões transportam gigantescos equipamentos que seguem para as obras das usinas de açúcar e álcool. Tradicional centro de pecuária de leite e de corte, a região tornou-se uma das principais fronteiras do setor sucroalcooleiro do país. Cidades como Uberaba, Ituiutaba, Santa Vitória, Canápolis e Carneirinho vivem uma fase de euforia graças à expansão global dos biocombustíveis. Hoje, 31 unidades estão em implantação em todo o estado. Outros 15 projetos se encontram em discussão com o governo estadual. “Estamos analisando as regiões que podem receber essas usinas, pois o Triângulo Mineiro está quase saturado”, diz Maurício Cecílio, diretor do Instituto de Desenvolvimento Integrado de Minas Gerais (Indi), órgão do governo que analisa os investimentos no estado. De acordo com o Indi, Minas Gerais deverá receber 10,1 bilhões de reais em investimentos no setor sucroalcooleiro até 2016, recursos que deverão gerar cerca de 65 000 empregos diretos e um número três vezes maior de indiretos.
Há vários fatores que impulsionam os investimentos de usineiros no estado. Além de possuir clima e regime de chuvas apropriados à cultura de cana, Mi nas tem custos muito inferiores aos da produção de São Paulo — sobretudo em relação ao arrendamento da terra. A vizinhança com os paulistas também facilita a administração, a logística e o treinamento de funcionários das unidades de grupos instalados em ambos os estados. O conjunto de vantagens impulsionou o setor sucroalcooleiro de Minas e gerou uma mudança profunda no perfil de seu agronegócio. Somente no ano passado, quase 70 000 hectares de pastagens ou de terras ocupadas por soja e milho foram convertidos em canaviais no estado, área equivalente à da cidade de Belém. No total, Minas tem hoje 467 000 hectares plantados de cana-de-açúcar (veja quadro).
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Naturalmente, os preços da terra aumentaram na mesma velocidade. Segundo a consultoria FNP, especializada em agronegócio, as áreas dedicadas ao cultivo de cana na região de Uberaba, por exemplo, subiram 30% nos últimos três anos. A valorização acabou contaminando também as áreas de pasto e de lavoura de grãos. Hoje, o estado é o terceiro maior produtor de cana do Brasil, na briga para tomar o segundo lugar do Paraná. Ambos, porém, estão longe de alcançar São Paulo, que concentrou 60% da cana moída no Brasil na safra 2006/2007.
O avanço do setor sucroalcooleiro em Minas provocou uma disputa local por investimentos. Os municípios que ainda não conseguiram uma usina brigam para ter uma unidade em seu perímetro. Na cidade de Santa Vitória, por exemplo, localizada na região do Triângulo, a população aguarda a confirmação de um dos mais disputados projetos do setor sucroalcooleiro no Brasil: o pólo alcoolquímico da Dow e da Crystalsev. Será o primeiro centro produtor de polietileno à base de cana-de-açúcar do mundo. Com investimentos estimados em 1,5 bilhão de reais, a usina demandará 8 milhões de toneladas de cana para a produção de 350 000 toneladas de plástico biodegradável para a confecção de embalagens. Os executivos das duas empresas já visitaram várias vezes Santa Vitória para avaliar a infra-estrutura agrícola e logística. “As estradas na região são ruins e podem pesar contra a cidade na decisão final”, diz Diego Donoso, diretor comercial de plásticos para a Dow América Latina, que avalia opções também em Goiás e em São Paulo. Ele confirma, porém, que entre as alternativas estudadas a cidade mineira é a favorita.
Os municípios que já conquistaram um empreendimento do setor sucroalcooleiro vislumbram como o dinheiro de salários e de impostos vai mexer com a economia local. É o caso de Carneirinho, município de 8 000 habitantes do Triângulo. Ele acabou de inaugurar sua primeira usina, empreendimento do grupo alagoano Tércio Wanderley. É a quarta unidade da empresa em Minas, obra construída em tempo recorde: 432 dias. O investimento de 120 milhões de reais gerou 230 empregos diretos e 1 150 indiretos na cidade. “É a primeira indústria de Carneirinho”, diz o prefeito Cássio Rosa de Assunção. Localizada na mesma região do estado, a cidade de Ituiutaba vive uma euforia ainda maior. O pequeno município, com 92 000 habitantes, está recebendo duas usinas de cana-de-açúcar da Companhia Nacional Açúcar e Álcool, empresa formada pelo grupo Santelisa Vale e pelos fundos estrangeiros Global Foods e Carlyle/Riverstone, este comandado pelo executivo David Rubenstein.
A primeira unidade será inaugurada em agosto deste ano e terá capacidade para processar 2,5 milhões de toneladas de cana. A outra usina na cidade está em fase inicial de construção. O grupo de investidores vai erguer ainda um terceiro empreendimento desse tipo nas redondezas — mais precisamente na cidade de Campina Verde, a 70 quilômetros de Ituiutaba. O investimento total no estado será de cerca de 1,2 bilhão de reais. “Todos os projetos são idênticos para acelerar o ritmo de implantação”, diz Guilherme Leira Filho, gerente de uma das novas usinas de Ituiutaba. O executivo trabalhava há 26 anos na Jardest, uma das usinas da Santelisa Vale, quando foi convocado para tocar a construção das unidades mineiras e preparar a mão-de-obra local. Até agora, foram contratadas 130 pessoas de Ituiutaba para trabalhar na usina. Boa parte delas foi treinada nas outras usinas do grupo, uma vez que quase ninguém na cidade tinha experiência no setor sucroalcooleiro. Pessoal capacitado é justamente um dos principais gargalos para a maioria das cidades que estão recebendo as novas usinas. Em Ituiutaba, a procura por cursos técnicos no Senai disparou. Cerca de 140 jovens estudam eletrotécnica no curso que foi criado em 2008. Também está em construção um colégio técnico federal que oferecerá cursos voltados para o agronegócio. Tudo para atender à demanda das usinas e das empresas que virão junto com elas. “É natural que seja formado um pólo de fornecedores no entorno das usinas, assim como ocorreu em Sertãozinho, no interior de São Paulo”, diz Anselmo Rodrigues, presidente da Santelisa Vale. A Coopercitrus, cooperativa do interior de São Paulo que atua no ramo de concessionárias de tratores agrícolas, foi para Ituiutaba a pedido da Santelisa Vale para fazer nas unidades mineiras o mesmo trabalho de manutenção dos equipamentos que hoje é realizado nas usinas paulistas. “A maior dificuldade é encontrar gente capacitada. Mandamos um operador de máquinas para a matriz para aprender a mexer
com nossos tratores”, diz Celso Torres, gerente da Coopercitrus. A maior ambição da cidade, no entanto, é receber a nova fábrica da Sermatec, empresa que produz equipamentos para usinas. O investimento de 30 milhões de reais é disputado por Minas, Goiás e Mato Grosso. Afinal, serão 670 empregos com média salarial de 1 600 reais.
AS GIGANTES DE MINAS
Dois grandes empreendimentos previstos para o interior de Minas Gerais nos próximos anos vão exigir investimentos de quase 3 bilhões de reais
1º CNAA
A empresa formada pela Santelisa Vale e pelos fundos estrangeiros Global Foods e Carlyle/Riverstone vai construir três usinas no estado, duas em Ituiutaba e uma terceira em Campina Verde, com capacidade total para moer 15 milhões de toneladas de cana. O valor dos investimentos é de 1,2 bilhão de reais.A primeira das usinas será inaugurada em agosto. Uma segunda ficará pronta em 2009 e não há previsão para a entrega da terceira unidade.
2º Crystalsev e Dow
O projeto das duas empresas prevê a criação do primeiro pólo alcoolquímico do mundo, com capacidade para produzir 350 000 toneladas de polietileno de cana-de-açúcar.A cidade de Santa Vitória é a principal candidata a receber o investimento de 1,5 bilhão de reais. A previsão é que o complexo esteja em funcionamento até 2012.