
Por Igor Fuser
Revista Atualidades Vestibular - 2008
Você já reparou como, de algum tempo para cá, a palavra energia tem aparecido com destaque no noticiário? Mais do que nunca, a questão energética está presente num enorme leque de assuntos decisivos para o futuro do Brasil e do mundo nas próximas décadas.
Não é por acaso que os principais conflitos militares- como a guerra que os Estados Unidos travam no Iraque eas disputas entre árabes e israelenses- têm como centro o Oriente Médio, a região do planeta mais rica em petróleo.
Países como a Federação Russa e a Venezuela aumentam sua influência internacional em razão da existência em seus territórios de grandes reservas de petróleo e de gás natural, dois combustíveis cada vez mais valiosos.
O Brasil também se torna alvo das atenções mundiais como o país que possui as melhores condições para produzir biocombustíveis, em especial o etanol, ou seja, o álcool da cana-de-açúcar que já abastece parte de sua frota de carros.
Os biocombustíveis apresentam duas vantagens decisivas em relação ao petróleo. Em primeiro lugar, eles oferecem uma fonte de energia renovável, fornecida pelos vegetais. Por isso, as plantas que podem ser usadas como matéria-prima para a produção de combustíveis são chamadas de biomassa.
Já o petróleo, o gás natural e o carvão, encontrados em jazidas situadas abaixo da superfície terrestre ou do fundo do mar, são fontes de energia não renováveis. Chamam-se combustíveis fósseis porque se originam de animais e plantas cujos restos passaram a armazenar a energia do sol, num processo de decomposição que levou milhões de anos.
A segunda vantagem dos biocombustíveis é que eles constituem uma fonte de energia que polui bem menos que o petróleo ou o carvão. Seu consumo não agride tanto o meio ambiente como ocorre com os combustíveis fósseis, apontados pelos cientistas como os principais culpados pelo aquecimento global.
efeito estufa
A procura de alternativas aos combustíveis fósseis combina duas preocupações fundamentais que, até recentemente, eram tratadas em separado. De um lado, a tomada de consciência de que o mundo caminha a passos rápidos rumo auma crise energética por causa do possível esgotamento das jazidas de petróleo.
A falta desse combustível pode levar à decadência as maiores economias do planeta. Do outro, tornam-se cada vez mais evidentes as mudanças climáticas provocadas pelo efeito estufa, um fenômeno causado pela crescente poluição da atmosfera com gases que contêm dióxido de carbono (CO2 ), metano (CH4) e outras substâncias.
Os governantes dos países mais ricos e poderosos nunca deram muita importância às advertências dos cientistas e das entidades de defesa do meio ambiente sobre os danos decorrentes do efeito estufa.
A emissão desses gases, em quantidades cada vez maiores, está aumentando a temperatura média do planeta, com conseqüências catastróficas, como o derretimento do gelo nas montanhas e nas regiões polares e a elevação do nível dos oceanos.
Um acordo internacional, o Protocolo de Kyoto, chegou a ser firmado em 1997. Atualmente conta com a adesão de 171 países que se comprometeram a alterar sua matriz de energia a fim de reduzir a emissão desses gases tão nocivos.
Mas o resultado prático tem sido muito limitado, uma vez que os principais responsáveis pelo efeito estufa- os Estados Unidos e a China- se recusaram a aderir ao acordo, alegando que isso atrapalharia seu crescimento econômico.
desafio
Agora, finalmente, é possível que a catástrofe ambiental venha a receber a atenção que merece. A publicação, no início de 2007, do relatório mais recente do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês), que reúne os principais especialistas no tema, demonstrou, sem nenhuma margem de dúvida, que o meio mais eficiente para combater o aquecimento global é a redução do consumo de combustíveis fósseis e, em especial, o petróleo.
Na realidade, os dois problemas- energia e meio ambiente- são faces da mesma moeda.
Portanto, o desafio atual consiste em mudar o modo pelo qual a energia é obtida e consumida sem que essa alteração prejudique o desenvolvimento e a melhoria das condições de vida.
Não existe uma solução fácil, pois o dilema energético envolve uma questão vital para a economia e para a vida cotidiana. Mesmo fontes de energia consideradas "limpas" podem causar efeitos nocivos ao meio ambiente e à sociedade.
Para obter eletricidade a partir da água dos rios é necessária a construção de gigantescas usinas hidrelétricas, que deslocam milhares de pessoas, destroem florestas e, de quebra, agravam o efeito estufa por meio do gás carbônico que emana da decomposição dos vegetais nas áreas alagadas.
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A energia nuclear, que começou a ser utilizada para fins pacíficos na década de 1950, teve sua expansão interrompida, há vinte anos, diante da dificuldade de encontrar um destino satisfatório para os resíduos radiativos (o "lixo atômico") e por causa dos riscos de segurança. Imagine, por exemplo, o que aconteceria se terroristas se apoderassem do urânio empregado como matéria-prima nas usinas nucleares.
opeso do petróleo
Todo o progresso econômico e tecnológico do século XX está ligado à adoção do petróleo como a principal fonte de energia. Há mais de 100 anos, os motores de combustão interna, movidos a gasolina, querosene e óleo diesel, substituíram as máquinas a vapor que impulsionaram a Revolução Industrial.
Hoje, o petróleo responde por 95% da energia destinada aos meios de transporte, no mundo inteiro. É também um dos principais combustíveis utilizados para produzir eletricidade, além de servir como matéria-prima para uma infinidade de produtos, como os plásticos, os fertilizantes, os tecidos sintéticos e os explosivos. O petróleo é ainda um recurso indispensávelpara a guerra- sem ele, os aviões, os navios, os veículos de combate e os mísseis ficariam parados.
Uma das vantagens do petróleo é custar bem menos que os demais combustíveis, na maioria dos casos. Seu rendimento como fonte de energia é o dobro do que se obtém com o carvão. Ele é mais prático, também. Pode ser transportado por longas distâncias mais depressa e a um custo menor do que qualquer dos seus competidores.
O gás natural, por exemplo, depende de uma estrutura dispendiosa de gasodutos para chegar aos mercados consumidores. E, para ser usado nos meios de transporte, precisa, antes, ser convertido para a forma líquida.
Estima-se que a humanidade já tenha queimado aproximadamente a metade do petróleo existente nas profundezas da terra. Segundo os especialistas, restaria 1 trilhão de barris a ser extraídos, um estoque suficiente para mais 40 anos, no ritmo atual de consumo. Clique aqui e veja a demanda mundial de energia em 2002.
O esgotamento, embora inevitável, não se dará da noite para o dia.O problema é que o consumo de petróleo vem aumentando mais rápido que a descoberta de novas jazidas e a capacidade de produzi-lo. De acordo com a Agência Internacional de Energia (AIE), o mundo deverá gastar em 2007 um volume de petróleo 2% maior que o do ano anterior.
A previsão para este ano é de um consumo de 86,1 milhões de barris por dia, o que significa 1,6 milhão de barris de petróleo a mais do que em 2006- a cada dia! Pelas estimativas da AIE, em 2030 o planeta precisará de 116 milhões de barris diários para atender às suas necessidades de energia. É um aumento de 28% diante dos 84 milhões de barris consumidos em 2005.
crescimento do consumo
Em parte, essa escalada é o resultado do ligeiro crescimento econômico de países asiáticos como a Índia e, principalmente, a China. Até 1993, a China era uma nação auto-suficiente em petróleo. Ou seja, produzia tudo o que consumia. Desde então, a rápida expansão de sua economia fez dela grande importadora de combustíveis (clique e veja o quadro).
O uso do petróleo pela China tem aumentado num ritmo de 3,4% ao ano, o dobro da média mundial. De acordo com as projeções da AIE, isso levará a economia chinesa a consumir, em 2025, um volume de petróleo equivalente à demanda atual dos Estados Unidos.
O maior culpado é o aumento da frota de carros. A China possui o mercado de automóveis que mais cresce no planeta, com 4,1 milhões de unidades vendidas só em 2006. Sua frota tem aumentado 9% ao ano, três vezes mais que a média internacional.
Outro fator que contribui para o aumento do consumo e, assim, apressa o fim do petróleo disponível no mundo é a sede insaciável dos consumidores norte-americanos por combustíveis. Com apenas 5% da população global, os Estados Unidos consumiram, em 2003, 27% de todo o petróleo produzido no planeta. Desse consumo, mais da metade (54%) veio de fora do país.
A dependência norte-americana em relação a fontes externas tende a crescer na medida em que a produção doméstica vem declinando sem parar. As importações norte-americanas têm aumentado, desde 1988, a uma taxa constante de 5% ao ano. Em 2025, caso se mantenha a tendência atual, 68% do petróleo consumido nos EUA será importado.
O próprio presidente George W. Bush admitiu que os norte-americanos são "viciados em petróleo". Ele fez essa afirmação num discurso, em janeiro de 2007, em que defendeu a busca de fontes alternativas de energia para abastecer os automóveis nos EUA.
Se nem os Estados Unidos, nem a China, nem país algum estão dispostos a abrir mão de sua enorme frota de carros particulares, de onde virão os 32 milhões de barris extras de petróleo de que o mundo precisa, a cada dia, para manter a economia funcionando nos moldes atuais?
Esse enigma tira o sono de governantes e estrategistas nos quatro cantos do globo. Durante a maior parte do século XX, o risco de esgotamento do petróleo foi menosprezado, pois o aumento do consumo era compensado pela descoberta de campos petrolíferos, com imensas reservas a explorar.
O problema é que, desde a década de 1990, não se acharam mais campos gigantes, como são conhecidos. As poucas jazidas encontradas nos anos recentes contêm estoques relativamente pequenos.
Para descobrir o "ouro negro", os pesquisadores precisam se deslocar para lugares inóspitos, como a calota polar, ou inacessíveis, como as grandes profundezas oceânicas. Nesses casos, a despesa para extrair o petróleo se torna tão alta que a empreitada deixa de valer a pena, além dos estragos ambientais que alguns desses projetos causariam.
extração dispendiosa
Diante da ausência de descobertas importantes, os investimentos da indústria petrolífera têm se voltado para o "óleo não convencional", de qualidade muito inferior. Recentes empreendimentos estão desenvolvendo a exploração do óleo extrapesado e do betume, um líquido viscoso. Esses materiais existem em quantidades enormes nas margens do rio Orinoco, na Venezuela, e em algumas regiões do Canadá.
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A dificuldade, aí, é que o petróleo se encontra misturado com areia. A separação é feita por meio de um processo demorado e caríssimo, em que o consumo de energia é quase tão elevado quanto o potencial energético do combustível a ser obtido.
Em síntese, o fim da era do petróleo é inevitável. Os especialistas calculam que está cada vez mais próximo o momento em que, por maiores que sejam os esforços, os produtores não serão mais capazes de aumentar a oferta desse combustível no mercado.
Alguns acreditam que o "pico", como é chamado, ocorrerá já em 2009. Outros, mais otimistas, acham que esse ponto crucial vai demorar um pouco mais. O que ninguém discorda é quanto à necessidade da tomada de providências urgentes para enfrentar a era de escassez de petróleo que teremos pela frente.
Se nada for alterado nos padrões atuais de produção e consumo de energia, os combustíveis, cada vez mais raros, atingirão preços astronômicos, com conseqüências terríveis para a economia.
choque do petróleo
A história recente já registra uma amostra desse cenário de ficção futurista no choque de petróleo, em 1973. A Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) aproveitou uma das guerras entre Israel e os países árabes para aumentar drasticamente o preço desse combustível.
Numa demonstração de força, os produtores árabes integrantes da Opep- donos de grande parte das reservas- chegaram a suspender as remessas para os Estados Unidos e para outros aliados de Israel. Como resultado, o preço da gasolina quadruplicou, provocando uma recessão econômica mundial. No Brasil, que na época dependia das importações de petróleo, houve racionamento de combustíveis e a dívida externa disparou.
Foi só depois da crise do petróleo de 1973 que começou a corrida por fontes alternativas de energia, a fim de reduzir a dependência do petróleo. Diversos países construíram usinas nucleares, que passaram a fornecer eletricidade, enquanto outros apostaram em fontes de energia renováveis, aproveitando os recursos naturais.
É o caso do Brasil, que começou a substituir a gasolina pelo álcool da cana-de-açúcar, cuja produção é incentivada pelo Programa Nacional do Álcool (Proálcool), iniciado em 1975. O gás natural, até então desprezado, tornou-se fonte importante de energia em muitos países, principalmente na parte ocidental da Europa, que se ligou à então União Soviética, o maior produtor mundial, por meio de um gasoduto.
As pesquisas por novas jazidas de petróleo se intensificaram e uma grande reserva foi encontrada no Mar do Norte, entre a Inglaterra e a Noruega, o que também ajudou a garantir o suprimento de energia dos europeus.
Nas décadas de 1980 e 1990, o abastecimento se normalizou e a energia ficou mais barata. Nos últimos anos, porém, o preço voltou a aumentar, passando de menos de 20 dólares o barril, em 1999, para mais de 70, em 2005, para depois se estabilizar em torno de 60 dólares.
esgotamento de reservas
Desta vez, a alta dos preços do petróleo provoca uma preocupação maior porque seu motivo é justamente a perspectiva de que a produção não venha a dar conta da demanda. O motivo da escassez já não é um confronto político, mas, sim, um limite estabelecido pela própria natureza.
Os poços de petróleo estão condenados a secar um dia. Isso já começou a ocorrer com as reservas européias do Mar do Norte, onde se extraem quantidades menores a cada ano. A perspectiva da falta resulta em tendência de aumento dos preços, que se acentua ainda mais com a intensificação dos conflitos no Oriente Médio após a invasão do Iraque pelos EUA, em 2003, uma operação militar cujo objetivo era, exatamente, reforçar o controle norte-americano sobre essa região.
O Oriente Médio, é bom lembrar, abriga em seu subsolo dois terços das reservas petrolíferas do planeta, concentradas sobretudo em cinco países: Arábia Saudita, Iraque, Irã, Emirados Árabes Unidos e Kuweit. Quando o petróleo no resto do mundo já estiver perto do fim, esses produtores continuarão extraindo o valioso líquido em grandes quantidades, o que os tornará donos absolutos do mercado.
Isso explica a enorme importância estratégica dessa região. A disputa geopolítica pelo controle das fontes de abastecimento de combustíveis envolve não apenas os EUA como também outras potências.
A China procura se garantir estabelecendo parcerias com países produtores de petróleo interessados em manter uma política de independência em relação aos EUA, como o Irã, a Venezuela e algumas nações africanas.
Já a Federação Russa, proprietária de enormes reservas de petróleo e de gás, utiliza cada vez mais seus recursos energéticos num esforço de recuperar a influência política sobre os países vizinhos que antes faziam parte da União Soviética, como a Ucrânia e as novas repúblicas da Ásia Central.
Mais do que um problema econômico, a crise de energia é também um fator que joga lenha na fogueira das tensões geopolíticas, com o risco de provocar novas guerras no futuro.
matriz energética
A única maneira de enfrentar o atual impasse- e, ao mesmo tempo, de pôr um freio à emissão dos gases causadores do aquecimento global- é diminuir a participação do petróleo na matriz energética mundial.
O que isso significa? Chamamos de matriz energética o conjunto dos recursos de energia utilizados e dos modos como esse uso se dá. Atualmente, o petróleo fornece cerca de 40% de toda a energia que é consumida no planeta.
O carvão, a segunda fonte de energia mais importante, era responsável, em 2002, por 25,5%, mas essa proporção tem crescido lentamente nos últimos anos como uma maneira de compensar a alta nos preços do petróleo. Em seguida vêm o gás natural (23,4%), a energia nuclear (7,4%), a energia hidrelétrica (2,4%) e a biomassa (álcool, lenha e resíduos de animais, com 1,3% do total).
As fontes alternativas- como a energia eólica, conseguida por meio do vento, e a solar, que consiste na obtenção de energia com a transformação da luz natural em eletricidade- têm participação muito pequena na matriz energética mundial, pois ainda há limitações tecnológicas para que sejam usadas em larga escala.
A energia eólica, aproveitada há séculos pelos moinhos, depende da existência de ventos. A energia solar custa caro e tem sua aplicação limitada às regiões mais ensolaradas. Os estudos para a utilização das marés e das correntes marinhas como fonte de energia ainda se encontram num estágio inicial e enfrentam alguns problemas de difícil solução: sua aplicação impede o uso das praias para outras finalidades, como o lazer, e causa graves danos à fauna marinha.
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o brasil na liderança em biocombustíveis
Para evitar crises de abastecimento de energia- como o apagão que, em 2001, levou os brasileiros a racionar eletricidade -, os países procuram diversificar sua matriz energética. O Brasil, nesse ponto, é privilegiado.
Com rios caudalosos em seu território, o país possui o maior potencial hídrico do mundo e o usa para produzir eletricidade. As hidrelétricas fornecem 85% da eletricidade consumida no Brasil (o restante provém das usinas termelétricas, que funcionam com gás natural, óleo diesel, energia nuclear e combustíveis vegetais, como o bagaço da cana).
Além das hidrelétricas já em funcionamento, há planos para a construção de mais quatro. A maior delas, no rio Madeira, ainda dependia da solução para as dúvidas quanto ao impacto ambiental, já que a represa alagará uma vasta área de selva amazônica.
O petróleo ainda responde por quase metade de toda a energia consumida no Brasil, que conseguiu, com os esforços da Petrobras, superar a dependência do óleo importado. Desde 2006, ele é auto-suficiente na produção de petróleo.
Nos últimos anos, o gás natural ganhou destaque na matriz energética brasileira, com a construção do Gasoduto Brasil-Bolívia, que abastece setores importantes da indústria de São Paulo com o combustível importado do país vizinho.
A descoberta, em 2006, de importantes reservas submarinas de gás na região de Santos deverá reduzir a dependência brasileira em relação ao fornecimento do gás boliviano, que tem sido objeto de divergências entre os dois países (clique e veja quadro).
A busca de maior variedade nas fontes de geração de energia também inclui o programa nuclear brasileiro, iniciado na década de 1970, durante o regime militar. Seu resultado mais conhecido foi a instalação das duas usinas nucleares de Angra dos Reis (RJ). A construção da terceira, a Angra III, foi suspensa em 1986, por falta de verbas.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva é favorável à retomada das obras. Se isso ocorrer, a usina deverá produzir energia a partir de 2012. Os planos do governo brasileiro prevêem a construção de quatro a oito usinas nucleares até 2030. O campo mais promissor para o desenvolvimento de recursos energéticos no Brasil é o dos biocombustíveis, em especial o uso do etanol da cana-de-açúcar em automóveis.
Com clima favorável ao cultivo de várias plantas fornecedoras de energia, vastas extensões de terra fértil e grandes contingentes de mão-de-obra disponíveis, o país se tornou líder mundial na pesquisa e produção de combustíveis com base na biomassa.
Desde a instalação do Proálcool, na década de 1970, a substituição da gasolina pelo álcool no setor de transportes promoveu uma economia equivalente a mais de 1 bilhão de barris de petróleo- cifra que corresponde a quase dois anos da produção atual de petróleo no Brasil. A mistura de álcool à gasolina, obrigatória por lei, situa-se atualmente entre 20% e 25%, e a introdução dos veículos flex (que admitem igualmente os dois combustíveis), em 2003, deu novos incentivos à produção de etanol.
Essas mudanças elevaram a participação dos derivados da cana-de-açúcar na matriz energética brasileira de 13,8% em 2005 para 14,4%. Atualmente, 82% dos carros fabricados no país utilizam o sistema flex.
Além do etanol, o Brasil tem uma posição de liderança mundial na produção do biodiesel. Esse combustível, obtido de plantas oleaginosas como a mamona, o dendê, o girassol, o babaçu, a soja e o algodão, é capaz de substituir, total ou parcialmente, o diesel de petróleo utilizado principalmente em caminhões, camionetes, ônibus e tratores.
O biodiesel, que já vinha sendo pesquisado no país desde a década de 1970, voltou a receber atenção do governo por causa do aumento dos preços do óleo diesel. Para estimular seu uso, existe desde 2005 uma lei que prevê o crescimento progressivo do percentual de biodiesel no óleo diesel comercializado até atingir 8%, em 2013.
Tanto a adoção do biodiesel quanto a do etanol trazem benefícios ambientais e contribuem para melhorar a qualidade do ar nos grandes centros urbanos, pois emitem menos poluentes.
A grande novidade de 2007- que provocou uma onda de euforia entre os empresários brasileiros envolvidos no cultivo da cana-de-açúcar- foi a decisão do governo norte-americano de aumentar drasticamente o uso de biocombustíveis, que passaram a ser considerados uma opção viável para enfrentar a dependência de petróleo importado.
No início de 2007, o presidente Bush anunciou que os Estados Unidos deverão substituir 20% de sua gasolina por etanol nos próximos dez anos. Para alcançar essa meta, os EUA teriam de ampliar sua produção de etanol- obtido atualmente com o milho cultivado naquele país- dos atuais 20,4 bilhões de litros por ano para 132,4 bilhões de litros.
Os EUA não possuem terras suficientes para isso nem têm condições de redirecionar todo o milho para produzir combustíveis, o que provocaria uma explosão no preço dos alimentos. A solução óbvia é importar o etanol brasileiro, que, além de mais barato que o milho norte-americano, é mais eficiente como fonte de energia.
Em sua visita ao Brasil, em abril de 2007, Bush expressou a intenção dos EUA de importar grandes quantidades de biocombustíveis brasileiros para cumprir sua meta de substituição da gasolina. Esse projeto, caso se concretize, exigirá uma produção de etanol brasileiro nove vezes maior que a atual.
Os especialistas calculam que 77 usinas de cana-de-açúcar terão de ser construídas no país nos próximos cinco anos, com um investimento de 2,5 bilhões de dólares, grande parte dos quais virá de empreendedores estrangeiros.
A União Européia também manifestou interesse no etanol, como parte do esforço para cumprir seu compromisso de alcançar até 2020 uma redução de 20% da emissão de gases do efeito estufa em relação a 1990. Isso amplia ainda mais as oportunidades de negócios para os usineiros. Outro importante mercado potencial é o do Japão, cujo governo sinalizou a intenção de adicionar até 10% de etanol na gasolina.
Apesar do entusiasmo de autoridades e de empresários, a decisão de ampliar drasticamente a produção brasileira de etanol envolve pontos delicados, que ainda precisam ser esclarecidos.
Existe o receio de que uma parte significativa das terras atualmente usadas na produção de alimentos dê lugar ao plantio de matéria-prima para a produção de biocombustíveis, provocando a redução na oferta de comida, seu aumento de preço e até mesmo a fome.
Igualmente preocupante é o risco de os novos cultivos empurrarem a fronteira agrícola do país em direção às áreas florestais ainda não devastadas, principalmente na Amazônia. Há também críticas ao modelo econômico que favorece o capital estrangeiro e a grandes empresários do agronegócio brasileiro, agravando a concentração da propriedade das terras, em prejuízo da reforma agrária e da agricultura familiar.
Essas questões são atualmente objeto de debate e devem ser levadas em conta num momento em que o Brasil se vê diante de uma decisão crucial para os rumos de sua economia e de suas relações sociais.
resumo
BIOCOMBUSTÍVEIS >>É o combustível obtido de matérias-primas vegetais, como o álcool (etanol) da cana-de-açúcar e do milho, e o biodiesel, extraído de plantas oleaginosas como a soja, o dendê, o babaçu e o algodão.
FIM DA ERA DO PETRÓLEO >> O aumento do consumo de petróleo no planeta, causado sobretudo pela expansão da frota de automóveis e de caminhões, está acelerando a exaustão das reservas dessa fonte de energia não renovável. Já não se encontram jazidas capazes de compensar os poços de petróleo que estão secando. Assim, as reservas remanescentes se concentram cada vez mais em algumas poucas regiões do mundo- principalmente no Oriente Médio -, o que agrava a disputa geopolítica pelo controle desses recursos.
MATRIZ ENERGÉTICA >> É o conjunto dos recursos de energia de uma sociedade e das formas como eles são usados. A matriz abrange as fontes de energia (petróleo, água etc.), as tecnologias de geração (mecânica, nuclear etc.) e a forma do consumo: eletricidade, combustíveis e a queima industrial ou doméstica, entre outras. As principais fontes brasileiras de energia são petróleo e derivados, água, carvão vegetal e mineral, gás natural, lenha, urânio e cana-de-açúcar.
SETOR ELÉTRICO >> O Brasil tem o maior potencial hídrico do mundo e o usa para produzir eletricidade, uma diretriz mantida nos últimos 50 anos. Na década de 1970 houve investimento maciço na construção de grandes usinas hidrelétricas, como Itaipu, que entrou em operação na década seguinte. No período mais recente, porém, o consumo cresceu mais que a produção de energia. Há planos para a construção de novas represas para a obtenção de eletricidade, principalmente na Amazônia, mas esses projetos provocam resistência de setores preocupados com o impacto sobre o meio ambiente e sobre os moradores das áreas a ser alagadas.
Por Igor Fuser
Revista Atualidades Vestibular - 2008
Não é por acaso que os principais conflitos militares- como a guerra que os Estados Unidos travam no Iraque eas disputas entre árabes e israelenses- têm como centro o Oriente Médio, a região do planeta mais rica em petróleo.
Países como a Federação Russa e a Venezuela aumentam sua influência internacional em razão da existência em seus territórios de grandes reservas de petróleo e de gás natural, dois combustíveis cada vez mais valiosos.
O Brasil também se torna alvo das atenções mundiais como o país que possui as melhores condições para produzir biocombustíveis, em especial o etanol, ou seja, o álcool da cana-de-açúcar que já abastece parte de sua frota de carros.
Os biocombustíveis apresentam duas vantagens decisivas em relação ao petróleo. Em primeiro lugar, eles oferecem uma fonte de energia renovável, fornecida pelos vegetais. Por isso, as plantas que podem ser usadas como matéria-prima para a produção de combustíveis são chamadas de biomassa.
Já o petróleo, o gás natural e o carvão, encontrados em jazidas situadas abaixo da superfície terrestre ou do fundo do mar, são fontes de energia não renováveis. Chamam-se combustíveis fósseis porque se originam de animais e plantas cujos restos passaram a armazenar a energia do sol, num processo de decomposição que levou milhões de anos.
A segunda vantagem dos biocombustíveis é que eles constituem uma fonte de energia que polui bem menos que o petróleo ou o carvão. Seu consumo não agride tanto o meio ambiente como ocorre com os combustíveis fósseis, apontados pelos cientistas como os principais culpados pelo aquecimento global.
efeito estufa
A procura de alternativas aos combustíveis fósseis combina duas preocupações fundamentais que, até recentemente, eram tratadas em separado. De um lado, a tomada de consciência de que o mundo caminha a passos rápidos rumo auma crise energética por causa do possível esgotamento das jazidas de petróleo.
A falta desse combustível pode levar à decadência as maiores economias do planeta. Do outro, tornam-se cada vez mais evidentes as mudanças climáticas provocadas pelo efeito estufa, um fenômeno causado pela crescente poluição da atmosfera com gases que contêm dióxido de carbono (CO2 ), metano (CH4) e outras substâncias.
Os governantes dos países mais ricos e poderosos nunca deram muita importância às advertências dos cientistas e das entidades de defesa do meio ambiente sobre os danos decorrentes do efeito estufa.
A emissão desses gases, em quantidades cada vez maiores, está aumentando a temperatura média do planeta, com conseqüências catastróficas, como o derretimento do gelo nas montanhas e nas regiões polares e a elevação do nível dos oceanos.
Um acordo internacional, o Protocolo de Kyoto, chegou a ser firmado em 1997. Atualmente conta com a adesão de 171 países que se comprometeram a alterar sua matriz de energia a fim de reduzir a emissão desses gases tão nocivos.
Mas o resultado prático tem sido muito limitado, uma vez que os principais responsáveis pelo efeito estufa- os Estados Unidos e a China- se recusaram a aderir ao acordo, alegando que isso atrapalharia seu crescimento econômico.
desafio
Agora, finalmente, é possível que a catástrofe ambiental venha a receber a atenção que merece. A publicação, no início de 2007, do relatório mais recente do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês), que reúne os principais especialistas no tema, demonstrou, sem nenhuma margem de dúvida, que o meio mais eficiente para combater o aquecimento global é a redução do consumo de combustíveis fósseis e, em especial, o petróleo.
Na realidade, os dois problemas- energia e meio ambiente- são faces da mesma moeda.
Portanto, o desafio atual consiste em mudar o modo pelo qual a energia é obtida e consumida sem que essa alteração prejudique o desenvolvimento e a melhoria das condições de vida.
Não existe uma solução fácil, pois o dilema energético envolve uma questão vital para a economia e para a vida cotidiana. Mesmo fontes de energia consideradas "limpas" podem causar efeitos nocivos ao meio ambiente e à sociedade.
Para obter eletricidade a partir da água dos rios é necessária a construção de gigantescas usinas hidrelétricas, que deslocam milhares de pessoas, destroem florestas e, de quebra, agravam o efeito estufa por meio do gás carbônico que emana da decomposição dos vegetais nas áreas alagadas.
| [img01] |
A energia nuclear, que começou a ser utilizada para fins pacíficos na década de 1950, teve sua expansão interrompida, há vinte anos, diante da dificuldade de encontrar um destino satisfatório para os resíduos radiativos (o "lixo atômico") e por causa dos riscos de segurança. Imagine, por exemplo, o que aconteceria se terroristas se apoderassem do urânio empregado como matéria-prima nas usinas nucleares.
opeso do petróleo
Todo o progresso econômico e tecnológico do século XX está ligado à adoção do petróleo como a principal fonte de energia. Há mais de 100 anos, os motores de combustão interna, movidos a gasolina, querosene e óleo diesel, substituíram as máquinas a vapor que impulsionaram a Revolução Industrial.
Hoje, o petróleo responde por 95% da energia destinada aos meios de transporte, no mundo inteiro. É também um dos principais combustíveis utilizados para produzir eletricidade, além de servir como matéria-prima para uma infinidade de produtos, como os plásticos, os fertilizantes, os tecidos sintéticos e os explosivos. O petróleo é ainda um recurso indispensávelpara a guerra- sem ele, os aviões, os navios, os veículos de combate e os mísseis ficariam parados.
Uma das vantagens do petróleo é custar bem menos que os demais combustíveis, na maioria dos casos. Seu rendimento como fonte de energia é o dobro do que se obtém com o carvão. Ele é mais prático, também. Pode ser transportado por longas distâncias mais depressa e a um custo menor do que qualquer dos seus competidores.
O gás natural, por exemplo, depende de uma estrutura dispendiosa de gasodutos para chegar aos mercados consumidores. E, para ser usado nos meios de transporte, precisa, antes, ser convertido para a forma líquida.
Estima-se que a humanidade já tenha queimado aproximadamente a metade do petróleo existente nas profundezas da terra. Segundo os especialistas, restaria 1 trilhão de barris a ser extraídos, um estoque suficiente para mais 40 anos, no ritmo atual de consumo. Clique aqui e veja a demanda mundial de energia em 2002.
O esgotamento, embora inevitável, não se dará da noite para o dia.O problema é que o consumo de petróleo vem aumentando mais rápido que a descoberta de novas jazidas e a capacidade de produzi-lo. De acordo com a Agência Internacional de Energia (AIE), o mundo deverá gastar em 2007 um volume de petróleo 2% maior que o do ano anterior.
A previsão para este ano é de um consumo de 86,1 milhões de barris por dia, o que significa 1,6 milhão de barris de petróleo a mais do que em 2006- a cada dia! Pelas estimativas da AIE, em 2030 o planeta precisará de 116 milhões de barris diários para atender às suas necessidades de energia. É um aumento de 28% diante dos 84 milhões de barris consumidos em 2005.
crescimento do consumo
Em parte, essa escalada é o resultado do ligeiro crescimento econômico de países asiáticos como a Índia e, principalmente, a China. Até 1993, a China era uma nação auto-suficiente em petróleo. Ou seja, produzia tudo o que consumia. Desde então, a rápida expansão de sua economia fez dela grande importadora de combustíveis (clique e veja o quadro).
O uso do petróleo pela China tem aumentado num ritmo de 3,4% ao ano, o dobro da média mundial. De acordo com as projeções da AIE, isso levará a economia chinesa a consumir, em 2025, um volume de petróleo equivalente à demanda atual dos Estados Unidos.
O maior culpado é o aumento da frota de carros. A China possui o mercado de automóveis que mais cresce no planeta, com 4,1 milhões de unidades vendidas só em 2006. Sua frota tem aumentado 9% ao ano, três vezes mais que a média internacional.
Outro fator que contribui para o aumento do consumo e, assim, apressa o fim do petróleo disponível no mundo é a sede insaciável dos consumidores norte-americanos por combustíveis. Com apenas 5% da população global, os Estados Unidos consumiram, em 2003, 27% de todo o petróleo produzido no planeta. Desse consumo, mais da metade (54%) veio de fora do país.
A dependência norte-americana em relação a fontes externas tende a crescer na medida em que a produção doméstica vem declinando sem parar. As importações norte-americanas têm aumentado, desde 1988, a uma taxa constante de 5% ao ano. Em 2025, caso se mantenha a tendência atual, 68% do petróleo consumido nos EUA será importado.
O próprio presidente George W. Bush admitiu que os norte-americanos são "viciados em petróleo". Ele fez essa afirmação num discurso, em janeiro de 2007, em que defendeu a busca de fontes alternativas de energia para abastecer os automóveis nos EUA.
Se nem os Estados Unidos, nem a China, nem país algum estão dispostos a abrir mão de sua enorme frota de carros particulares, de onde virão os 32 milhões de barris extras de petróleo de que o mundo precisa, a cada dia, para manter a economia funcionando nos moldes atuais?
Esse enigma tira o sono de governantes e estrategistas nos quatro cantos do globo. Durante a maior parte do século XX, o risco de esgotamento do petróleo foi menosprezado, pois o aumento do consumo era compensado pela descoberta de campos petrolíferos, com imensas reservas a explorar.
O problema é que, desde a década de 1990, não se acharam mais campos gigantes, como são conhecidos. As poucas jazidas encontradas nos anos recentes contêm estoques relativamente pequenos.
Para descobrir o "ouro negro", os pesquisadores precisam se deslocar para lugares inóspitos, como a calota polar, ou inacessíveis, como as grandes profundezas oceânicas. Nesses casos, a despesa para extrair o petróleo se torna tão alta que a empreitada deixa de valer a pena, além dos estragos ambientais que alguns desses projetos causariam.
extração dispendiosa
Diante da ausência de descobertas importantes, os investimentos da indústria petrolífera têm se voltado para o "óleo não convencional", de qualidade muito inferior. Recentes empreendimentos estão desenvolvendo a exploração do óleo extrapesado e do betume, um líquido viscoso. Esses materiais existem em quantidades enormes nas margens do rio Orinoco, na Venezuela, e em algumas regiões do Canadá.
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A dificuldade, aí, é que o petróleo se encontra misturado com areia. A separação é feita por meio de um processo demorado e caríssimo, em que o consumo de energia é quase tão elevado quanto o potencial energético do combustível a ser obtido.
Em síntese, o fim da era do petróleo é inevitável. Os especialistas calculam que está cada vez mais próximo o momento em que, por maiores que sejam os esforços, os produtores não serão mais capazes de aumentar a oferta desse combustível no mercado.
Alguns acreditam que o "pico", como é chamado, ocorrerá já em 2009. Outros, mais otimistas, acham que esse ponto crucial vai demorar um pouco mais. O que ninguém discorda é quanto à necessidade da tomada de providências urgentes para enfrentar a era de escassez de petróleo que teremos pela frente.
Se nada for alterado nos padrões atuais de produção e consumo de energia, os combustíveis, cada vez mais raros, atingirão preços astronômicos, com conseqüências terríveis para a economia.
choque do petróleo
A história recente já registra uma amostra desse cenário de ficção futurista no choque de petróleo, em 1973. A Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) aproveitou uma das guerras entre Israel e os países árabes para aumentar drasticamente o preço desse combustível.
Numa demonstração de força, os produtores árabes integrantes da Opep- donos de grande parte das reservas- chegaram a suspender as remessas para os Estados Unidos e para outros aliados de Israel. Como resultado, o preço da gasolina quadruplicou, provocando uma recessão econômica mundial. No Brasil, que na época dependia das importações de petróleo, houve racionamento de combustíveis e a dívida externa disparou.
Foi só depois da crise do petróleo de 1973 que começou a corrida por fontes alternativas de energia, a fim de reduzir a dependência do petróleo. Diversos países construíram usinas nucleares, que passaram a fornecer eletricidade, enquanto outros apostaram em fontes de energia renováveis, aproveitando os recursos naturais.
É o caso do Brasil, que começou a substituir a gasolina pelo álcool da cana-de-açúcar, cuja produção é incentivada pelo Programa Nacional do Álcool (Proálcool), iniciado em 1975. O gás natural, até então desprezado, tornou-se fonte importante de energia em muitos países, principalmente na parte ocidental da Europa, que se ligou à então União Soviética, o maior produtor mundial, por meio de um gasoduto.
As pesquisas por novas jazidas de petróleo se intensificaram e uma grande reserva foi encontrada no Mar do Norte, entre a Inglaterra e a Noruega, o que também ajudou a garantir o suprimento de energia dos europeus.
Nas décadas de 1980 e 1990, o abastecimento se normalizou e a energia ficou mais barata. Nos últimos anos, porém, o preço voltou a aumentar, passando de menos de 20 dólares o barril, em 1999, para mais de 70, em 2005, para depois se estabilizar em torno de 60 dólares.
esgotamento de reservas
Desta vez, a alta dos preços do petróleo provoca uma preocupação maior porque seu motivo é justamente a perspectiva de que a produção não venha a dar conta da demanda. O motivo da escassez já não é um confronto político, mas, sim, um limite estabelecido pela própria natureza.
Os poços de petróleo estão condenados a secar um dia. Isso já começou a ocorrer com as reservas européias do Mar do Norte, onde se extraem quantidades menores a cada ano. A perspectiva da falta resulta em tendência de aumento dos preços, que se acentua ainda mais com a intensificação dos conflitos no Oriente Médio após a invasão do Iraque pelos EUA, em 2003, uma operação militar cujo objetivo era, exatamente, reforçar o controle norte-americano sobre essa região.
O Oriente Médio, é bom lembrar, abriga em seu subsolo dois terços das reservas petrolíferas do planeta, concentradas sobretudo em cinco países: Arábia Saudita, Iraque, Irã, Emirados Árabes Unidos e Kuweit. Quando o petróleo no resto do mundo já estiver perto do fim, esses produtores continuarão extraindo o valioso líquido em grandes quantidades, o que os tornará donos absolutos do mercado.
Isso explica a enorme importância estratégica dessa região. A disputa geopolítica pelo controle das fontes de abastecimento de combustíveis envolve não apenas os EUA como também outras potências.
A China procura se garantir estabelecendo parcerias com países produtores de petróleo interessados em manter uma política de independência em relação aos EUA, como o Irã, a Venezuela e algumas nações africanas.
Já a Federação Russa, proprietária de enormes reservas de petróleo e de gás, utiliza cada vez mais seus recursos energéticos num esforço de recuperar a influência política sobre os países vizinhos que antes faziam parte da União Soviética, como a Ucrânia e as novas repúblicas da Ásia Central.
Mais do que um problema econômico, a crise de energia é também um fator que joga lenha na fogueira das tensões geopolíticas, com o risco de provocar novas guerras no futuro.
matriz energética
A única maneira de enfrentar o atual impasse- e, ao mesmo tempo, de pôr um freio à emissão dos gases causadores do aquecimento global- é diminuir a participação do petróleo na matriz energética mundial.
O que isso significa? Chamamos de matriz energética o conjunto dos recursos de energia utilizados e dos modos como esse uso se dá. Atualmente, o petróleo fornece cerca de 40% de toda a energia que é consumida no planeta.
O carvão, a segunda fonte de energia mais importante, era responsável, em 2002, por 25,5%, mas essa proporção tem crescido lentamente nos últimos anos como uma maneira de compensar a alta nos preços do petróleo. Em seguida vêm o gás natural (23,4%), a energia nuclear (7,4%), a energia hidrelétrica (2,4%) e a biomassa (álcool, lenha e resíduos de animais, com 1,3% do total).
As fontes alternativas- como a energia eólica, conseguida por meio do vento, e a solar, que consiste na obtenção de energia com a transformação da luz natural em eletricidade- têm participação muito pequena na matriz energética mundial, pois ainda há limitações tecnológicas para que sejam usadas em larga escala.
A energia eólica, aproveitada há séculos pelos moinhos, depende da existência de ventos. A energia solar custa caro e tem sua aplicação limitada às regiões mais ensolaradas. Os estudos para a utilização das marés e das correntes marinhas como fonte de energia ainda se encontram num estágio inicial e enfrentam alguns problemas de difícil solução: sua aplicação impede o uso das praias para outras finalidades, como o lazer, e causa graves danos à fauna marinha.
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o brasil na liderança em biocombustíveis
Para evitar crises de abastecimento de energia- como o apagão que, em 2001, levou os brasileiros a racionar eletricidade -, os países procuram diversificar sua matriz energética. O Brasil, nesse ponto, é privilegiado.
Com rios caudalosos em seu território, o país possui o maior potencial hídrico do mundo e o usa para produzir eletricidade. As hidrelétricas fornecem 85% da eletricidade consumida no Brasil (o restante provém das usinas termelétricas, que funcionam com gás natural, óleo diesel, energia nuclear e combustíveis vegetais, como o bagaço da cana).
Além das hidrelétricas já em funcionamento, há planos para a construção de mais quatro. A maior delas, no rio Madeira, ainda dependia da solução para as dúvidas quanto ao impacto ambiental, já que a represa alagará uma vasta área de selva amazônica.
O petróleo ainda responde por quase metade de toda a energia consumida no Brasil, que conseguiu, com os esforços da Petrobras, superar a dependência do óleo importado. Desde 2006, ele é auto-suficiente na produção de petróleo.
Nos últimos anos, o gás natural ganhou destaque na matriz energética brasileira, com a construção do Gasoduto Brasil-Bolívia, que abastece setores importantes da indústria de São Paulo com o combustível importado do país vizinho.
A descoberta, em 2006, de importantes reservas submarinas de gás na região de Santos deverá reduzir a dependência brasileira em relação ao fornecimento do gás boliviano, que tem sido objeto de divergências entre os dois países (clique e veja quadro).
A busca de maior variedade nas fontes de geração de energia também inclui o programa nuclear brasileiro, iniciado na década de 1970, durante o regime militar. Seu resultado mais conhecido foi a instalação das duas usinas nucleares de Angra dos Reis (RJ). A construção da terceira, a Angra III, foi suspensa em 1986, por falta de verbas.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva é favorável à retomada das obras. Se isso ocorrer, a usina deverá produzir energia a partir de 2012. Os planos do governo brasileiro prevêem a construção de quatro a oito usinas nucleares até 2030. O campo mais promissor para o desenvolvimento de recursos energéticos no Brasil é o dos biocombustíveis, em especial o uso do etanol da cana-de-açúcar em automóveis.
Com clima favorável ao cultivo de várias plantas fornecedoras de energia, vastas extensões de terra fértil e grandes contingentes de mão-de-obra disponíveis, o país se tornou líder mundial na pesquisa e produção de combustíveis com base na biomassa.
Desde a instalação do Proálcool, na década de 1970, a substituição da gasolina pelo álcool no setor de transportes promoveu uma economia equivalente a mais de 1 bilhão de barris de petróleo- cifra que corresponde a quase dois anos da produção atual de petróleo no Brasil. A mistura de álcool à gasolina, obrigatória por lei, situa-se atualmente entre 20% e 25%, e a introdução dos veículos flex (que admitem igualmente os dois combustíveis), em 2003, deu novos incentivos à produção de etanol.
Essas mudanças elevaram a participação dos derivados da cana-de-açúcar na matriz energética brasileira de 13,8% em 2005 para 14,4%. Atualmente, 82% dos carros fabricados no país utilizam o sistema flex.
Além do etanol, o Brasil tem uma posição de liderança mundial na produção do biodiesel. Esse combustível, obtido de plantas oleaginosas como a mamona, o dendê, o girassol, o babaçu, a soja e o algodão, é capaz de substituir, total ou parcialmente, o diesel de petróleo utilizado principalmente em caminhões, camionetes, ônibus e tratores.
O biodiesel, que já vinha sendo pesquisado no país desde a década de 1970, voltou a receber atenção do governo por causa do aumento dos preços do óleo diesel. Para estimular seu uso, existe desde 2005 uma lei que prevê o crescimento progressivo do percentual de biodiesel no óleo diesel comercializado até atingir 8%, em 2013.
Tanto a adoção do biodiesel quanto a do etanol trazem benefícios ambientais e contribuem para melhorar a qualidade do ar nos grandes centros urbanos, pois emitem menos poluentes.
A grande novidade de 2007- que provocou uma onda de euforia entre os empresários brasileiros envolvidos no cultivo da cana-de-açúcar- foi a decisão do governo norte-americano de aumentar drasticamente o uso de biocombustíveis, que passaram a ser considerados uma opção viável para enfrentar a dependência de petróleo importado.
No início de 2007, o presidente Bush anunciou que os Estados Unidos deverão substituir 20% de sua gasolina por etanol nos próximos dez anos. Para alcançar essa meta, os EUA teriam de ampliar sua produção de etanol- obtido atualmente com o milho cultivado naquele país- dos atuais 20,4 bilhões de litros por ano para 132,4 bilhões de litros.
Os EUA não possuem terras suficientes para isso nem têm condições de redirecionar todo o milho para produzir combustíveis, o que provocaria uma explosão no preço dos alimentos. A solução óbvia é importar o etanol brasileiro, que, além de mais barato que o milho norte-americano, é mais eficiente como fonte de energia.
Em sua visita ao Brasil, em abril de 2007, Bush expressou a intenção dos EUA de importar grandes quantidades de biocombustíveis brasileiros para cumprir sua meta de substituição da gasolina. Esse projeto, caso se concretize, exigirá uma produção de etanol brasileiro nove vezes maior que a atual.
Os especialistas calculam que 77 usinas de cana-de-açúcar terão de ser construídas no país nos próximos cinco anos, com um investimento de 2,5 bilhões de dólares, grande parte dos quais virá de empreendedores estrangeiros.
A União Européia também manifestou interesse no etanol, como parte do esforço para cumprir seu compromisso de alcançar até 2020 uma redução de 20% da emissão de gases do efeito estufa em relação a 1990. Isso amplia ainda mais as oportunidades de negócios para os usineiros. Outro importante mercado potencial é o do Japão, cujo governo sinalizou a intenção de adicionar até 10% de etanol na gasolina.
Apesar do entusiasmo de autoridades e de empresários, a decisão de ampliar drasticamente a produção brasileira de etanol envolve pontos delicados, que ainda precisam ser esclarecidos.
Existe o receio de que uma parte significativa das terras atualmente usadas na produção de alimentos dê lugar ao plantio de matéria-prima para a produção de biocombustíveis, provocando a redução na oferta de comida, seu aumento de preço e até mesmo a fome.
Igualmente preocupante é o risco de os novos cultivos empurrarem a fronteira agrícola do país em direção às áreas florestais ainda não devastadas, principalmente na Amazônia. Há também críticas ao modelo econômico que favorece o capital estrangeiro e a grandes empresários do agronegócio brasileiro, agravando a concentração da propriedade das terras, em prejuízo da reforma agrária e da agricultura familiar.
Essas questões são atualmente objeto de debate e devem ser levadas em conta num momento em que o Brasil se vê diante de uma decisão crucial para os rumos de sua economia e de suas relações sociais.
resumo
BIOCOMBUSTÍVEIS >>É o combustível obtido de matérias-primas vegetais, como o álcool (etanol) da cana-de-açúcar e do milho, e o biodiesel, extraído de plantas oleaginosas como a soja, o dendê, o babaçu e o algodão.
FIM DA ERA DO PETRÓLEO >> O aumento do consumo de petróleo no planeta, causado sobretudo pela expansão da frota de automóveis e de caminhões, está acelerando a exaustão das reservas dessa fonte de energia não renovável. Já não se encontram jazidas capazes de compensar os poços de petróleo que estão secando. Assim, as reservas remanescentes se concentram cada vez mais em algumas poucas regiões do mundo- principalmente no Oriente Médio -, o que agrava a disputa geopolítica pelo controle desses recursos.
MATRIZ ENERGÉTICA >> É o conjunto dos recursos de energia de uma sociedade e das formas como eles são usados. A matriz abrange as fontes de energia (petróleo, água etc.), as tecnologias de geração (mecânica, nuclear etc.) e a forma do consumo: eletricidade, combustíveis e a queima industrial ou doméstica, entre outras. As principais fontes brasileiras de energia são petróleo e derivados, água, carvão vegetal e mineral, gás natural, lenha, urânio e cana-de-açúcar.
SETOR ELÉTRICO >> O Brasil tem o maior potencial hídrico do mundo e o usa para produzir eletricidade, uma diretriz mantida nos últimos 50 anos. Na década de 1970 houve investimento maciço na construção de grandes usinas hidrelétricas, como Itaipu, que entrou em operação na década seguinte. No período mais recente, porém, o consumo cresceu mais que a produção de energia. Há planos para a construção de novas represas para a obtenção de eletricidade, principalmente na Amazônia, mas esses projetos provocam resistência de setores preocupados com o impacto sobre o meio ambiente e sobre os moradores das áreas a ser alagadas.
























