
Por Fabiane Stefano
Revista Exame - 21/11/2007
Os brasileiros viveram no início de novembro uma situação paradoxal em relação ao setor de energia: num hiato de poucos dias, passaram da frustração para uma euforia digna de Copa do Mundo. O motivo da frustração foi o mais que anunciado apagão do gás.
No final de outubro, a Petrobras cortou parte do fornecimento de gás natural nos estados de São Paulo e Rio de Janeiro, confirmando o que muita gente já sabia - a demanda pelo combustível disparou, mas a produção interna não acompanhou o consumo. O resultado: indústrias paradas e filas de carros nos postos de combustíveis.
O que ninguém esperava era que uma notícia que emergiu do fundo do mar mudaria os humores do país. Na quinta-feira 8 de novembro, a mesma Petrobras que negou gás a paulistas e cariocas anunciou que testes confirmaram a existência de uma megajazida de petróleo na bacia de Santos.
Incrustado a 7.000 metros de profundidade, na chamada camada pré-sal, o campo de Tupi poderá elevar em até 40% o potencial de extração de petróleo do país, acrescentando 8 bilhões de barris de óleo de boa qualidade às atuais reservas de 14,4 bilhões de barris. E essas seriam apenas as estimativas iniciais, uma vez que a área potencial de exploração com as mesmas características é de 800 quilômetros de extensão e vai do Espírito Santo a Santa Catarina.
Num cenário muito favorável, o Brasil poderia ultrapassar a Venezuela em termos de reservas de petróleo, com cerca de 100 bilhões de barris. "Reservas como essa podem transformar o Brasil num país exportador de petróleo", disse na ocasião a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, porta-voz das boas notícias.
Essa visão otimista, justificável pela fartura de recursos naturais do país, entra em choque frontal com a realidade do presente. "O governo está acenando com um futuro brilhante para o Brasil, só que para chegar lá vamos ter de atravessar um pântano", diz o físico José Goldemberg, um dos maiores especialistas do país em energia.
O Brasil pode ser, de fato, uma potência energética num mundo cada vez mais ávido por energia. Mas, como fica claro com a crise do gás, isso não depende apenas de sorte e das bênçãos da natureza. Depende, sobretudo, de capacidade de planejamento e execução, que nem sempre o país demonstra ter.
A descoberta de Tupi é só a primeira parte de um processo que vai demandar anos de trabalho e investimentos. Isso não inutiliza tudo o que foi feito pela Petrobras até agora. Mas não garante o futuro. Ao dimensionar o reservatório, a empresa conseguiu um feito mundial: rompeu uma barreira tecnológica em matéria de extração em águas ultraprofundas - é a primeira empresa a perfurar tão longe.
Momentaneamente, suas ações dispararam e fizeram o valor de mercado da estatal atingir 222 bilhões de dólares, à frente de empresas como Google e Procter & Gamble. Os mercados refletiram em cifras o que Tupi pode significar em termos de influência geopolítica. "O Brasil vai se juntar a um pequeno clube de grandes países exportadores de petróleo do hemisfério ocidental, aqueles que não pertencem à Opep e que têm tecnologia para explorar seus recursos. Eles são hoje apenas o Canadá e a Noruega", diz o canadense Peter Tertzakian, geofísico e economista-chefe do fundo de investimento ARC, especializado em administração de recursos do setor energético. Clique e veja o quadro do apagão.
O anúncio da Petrobras fortaleceu a imagem do Brasil como uma potência emergente em matéria de energia. "É um país que não só tem um portfólio energético diversificado, com potencial hidrelétrico, etanol e petróleo, mas que também é estável e com boas relações com os Estados Unidos", afirma Amanda Kuzendoerfer, analista de petróleo da consultoria americana Summit Energy.
O Brasil utiliza apenas 30% de seu potencial hídrico, considerado o maior do mundo. É dono também da sexta maior reserva de urânio do planeta, mas a energia nuclear ainda é irrelevante por aqui.
Sensação no mundo, os biocombustíveis, encabeçados pelo etanol, acharam terreno fértil para expandir-se no país. "O Brasil é um gigante verde discreto e uma das poucas nações que fazem bioenergia em larga escala", disse Ban Ki-moon, secretário-geral da Organização das Nações Unidas, em recente visita ao país.
Naturalmente, a nova fronteira do petróleo também nasce repleta de expectativas. Mas, entre a euforia e a realidade, existe um longo caminho a ser percorrido. Primeiro, extrair amostras de poços a 7.000 metros de profundidade é bem diferente de torná-los economicamente viáveis. Até agora, a Petrobras, com notória experiência em águas profundas, tem extraído petróleo a cerca de 2.000 metros.
Ao se aventurar na camada pré-sal, precisará fazer investimentos estimados em 50 bilhões de dólares na bacia de Santos para de fato tirar o petróleo do fundo do mar. Além de dinheiro, será necessário também entrar na disputa global por equipamentos e mão-de-obra qualificada. "Seria preciso metade de uma Petrobras tanto em recursos como em pessoal para investigar toda a área do pré-sal", diz o geólogo Saul Susliek, do Centro de Estudo do Petróleo da Unicamp. "Não dá para a estatal fazer tudo sozinha."
Pode até não dar, mas a empresa já mostrou que quer manter o controle desse ouro escondido embaixo do mar. No mesmo dia em que anunciava a descoberta da megajazida, o governo retirou 41 dos 312 blocos a ser licitados na nona rodada marcada pela Agência Nacional do Petróleo (ANP) para o final de novembro.
Os lotes excluídos são próximos aos poços de Tupi e, segundo o governo, poderiam estar subavaliados. Algumas fontes do mercado acreditam que, na verdade, esse foi um subterfúgio para a Petrobras burlar a Lei do Petróleo - que terminou com seu monopólio no setor em 1997 e abriu mercado para investimentos privados na exploração - e obter controle sobre a comercialização futura das reservas.
"A estatal se articulou para retirar as áreas mais atrativas da nova licitação. Isso tem cheiro de retorno ao monopólio", diz o pesquisador Giuseppe Bacoccoli, do núcleo de pós-graduação da Universidade Federal do Rio Janeiro.
A notícia da retirada dos blocos do leilão da ANP frustrou expectativas dos mais de 30 investidores que pretendiam disputar os blocos. "A decisão está mais para Hugo Chávez do que para um país que pretende se inserir no mercado internacional", diz Marco Tavares, sócio da consultoria Gas Energy.
A Shell, um dos grupos interessados, comunicou que iria reavaliar as regras e os lotes restantes para decidir se ainda participaria do leilão. Posição semelhante foi assumida pela Vale do Rio Doce.
O governo nega que haja risco de esvaziamento da disputa. "Tenho informações de que os investidores, mesmo frustrados com a retirada dos blocos, confirmam seu interesse. O leilão será bem-sucedido", diz Nelson Hubner, ministro de Minas e Energia.
De acordo com a Petrobras, o campo de Tupi começará a produzir em 2013. Nesse meio tempo, continuam as prospecções no pré-sal, que, por mais promissoras que sejam, podem apresentar surpresas nada agradáveis.
Em 2004, a Shell teve de reconhecer que havia superestimado descobertas de gás na Austrália e de petróleo na Nigéria em quase 4 bilhões de barris. O episódio pegou mal entre os acionistas e custou o emprego do presidente do conselho de administração da companhia na época.
Também a Petrobras já precisou voltar atrás em relação a previsões feitas para o gás do campo de Mexilhão, na bacia de Santos - um novo cálculo indicou que as reservas são de dois terços do volume inicialmente anunciado há três anos.
Se o futuro energético do país parece brilhante, o presente é lastimável. Nas últimas semanas, o gás natural transformou-se no epicentro da crise de energia com o corte no fornecimento da Petrobras nos maiores estados brasileiros.
Entre as grandes empresas consumidoras, não houve surpresa. Desde o apagão de 2001, o consumo disparou no país com a adoção do combustível nas indústrias e nos automóveis - movimento incentivado pelo próprio governo. Estima-se que a demanda nacional pelo gás natural venha crescendo à média anual de 18%.
O risco de desabastecimento ficou escancarado no episódio de nacionalização da indústria de petróleo e gás na Bolívia, de onde o Brasil importa 25 milhões de metros cúbicos por dia. Para não depender do problemático vizinho, o país deveria estar investindo na auto-suficiência - mas aí o problema é a falta de estímulos à produção interna, hoje concentrada na Petrobras.
Embora a legislação permita os investimentos privados no setor, existe um monopólio velado da estatal. "Ninguém vai investir na extração de gás enquanto o acesso aos dutos de transporte estiver nas mãos da Petrobras", diz o ex-ministro de Minas e Energia Rodolpho Tourinho.
Como a estatal controla os gasodutos existentes e pode cobrar quanto quiser pelo transporte do gás, na prática nenhuma empresa privada aventura-se a explorar o produto. Isso ocorre por falta de regras para o investimento no setor.
Uma boa notícia é que o nó regulatório pode ser desfeito. Tramita no Senado a última versão da Lei do Gás, a qual prevê que a construção de novos gasodutos será alvo de concessões - seguindo o exemplo bem-sucedido do modelo aplicado a sete lotes de rodovias federais.
Nos últimos dois anos, as idas e vindas do projeto de lei eram reflexo da interferência da Petrobras. Com o Programa de Aceleração do Crescimento, o PAC, ficou patente que faltaria gás e que a resistência à abertura do setor partia de dentro da Petrobras. Entrou em ação a ministra Dilma Rousseff, que enquadrou os radicais da estatal, abrindo caminho para o projeto no Legislativo.
De concreto mesmo, por enquanto só existe a certeza de que não há gás suficiente para suprir toda a demanda - e de que ele custará bem mais caro para quem for atendido, como já avisou a Petrobras.
No interior de São Paulo, os fabricantes de cerâmica do pólo de Santa Gertrudes, que tiveram o gás cortado e foram obrigados a reduzir a produção, anunciaram que vão congelar os investimentos em 2008. Trata-se de uma frustração para um setor que neste ano está crescendo 10%, embalado pela explosão do mercado da construção.
Mesmo diante de sinais como esse, o governo não admite que há apagão do gás. "Todo o mercado contratado está sendo atendido e continuará a ser", diz o ministro Hubner.
O fato é que a crise do gás hoje é uma espécie de trailer de um filme ruim do setor de energia como um todo. As estimativas apontam que já em 2008 pode haver interrupções no fornecimento de energia elétrica caso o clima não ajude. Embora o nível dos reservatórios das hidrelétricas esteja satisfatório no momento, qualquer redução no volume de chuvas pode acender o sinal amarelo.
Nessas situações, as usinas térmicas entrariam em operação - mas os problemas na oferta de gás natural anulam uma estrutura concebida para ser uma espécie de seguro. A térmica de William Ajorna, em Campo Grande, em Mato Grosso do Sul, já está parada.
A usina do grupo Tractebel vinha registrando dificuldades na obtenção do gás desde o começo de 2007. As operações cessaram de vez no início de novembro e acumulam perdas de 800.000 reais por dia. O prejuízo da Tractebel contrasta com as necessidades energéticas do país e com o potencial de transformá-las em crescimento da economia.
Nas últimas semanas, o governo e a Petrobras retomaram as negociações com a Bolívia para pelo menos garantir o suprimento de gás já existente. A estatal, mesmo tendo ativos confiscados pelo governo de Evo Morales, pelos quais recebeu menos da metade do valor estimado, comprometeu-se a fazer novos investimentos no país.
Para fechar um novo acordo com o companheiro boliviano, está marcada uma visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao país vizinho em dezembro. Enquanto isso, em outras frentes, a possibilidade de importação de gás liquefeito de Angola e os investimentos para extração na bacia de Campos estão com o cronograma atrasado.
A previsão é que essas fontes alternativas comecem a suprir o mercado apenas em 2009. Nesse meio tempo, só resta torcer para que São Pedro não negue as chuvas que são necessárias para manter os reservatórios de usinas hidrelétricas cheios o suficiente para dispensar a ajuda das termelétricas. Resultado: enquanto o futuro brilhante ainda é uma promessa, o país já sente como é difícil atravessar o pântano.
UMA POTÊNCIA ENERGÉTICA
Apesar dos problemas atuais, o Brasil reúne condições para ter energia de sobra nas próximas décadas:
Hidrelétrica
O potencial de geração hídrica de energia, estimado em 263 gigawatts, é o maior do mundo. Mas o Brasil ainda utiliza menos de 30% dessa capacidade.
Etanol
O país fica atrás apenas dos Estados Unidos entre os produtores de etanol. As previsões indicam que a atual produção nacional de 17 bilhões de litros por ano deve quase triplicar até 2012.
Petróleo
Só com o novo poço Tupi, na bacia de Santos, as reservas brasileiras devem crescer 40%. As reservas poderiam alcançar 100 bilhões de barris, o que colocaria o Brasil entre os cinco maiores produtores do planeta.
Nuclear
O Brasil tem o sexto maior depósito de urânio do mundo. O potencial deve ser ainda maior, pois as pesquisas geológicas foram feitas apenas em 25% do território nacional.
Por Fabiane Stefano
Revista Exame - 21/11/2007
No final de outubro, a Petrobras cortou parte do fornecimento de gás natural nos estados de São Paulo e Rio de Janeiro, confirmando o que muita gente já sabia - a demanda pelo combustível disparou, mas a produção interna não acompanhou o consumo. O resultado: indústrias paradas e filas de carros nos postos de combustíveis.
O que ninguém esperava era que uma notícia que emergiu do fundo do mar mudaria os humores do país. Na quinta-feira 8 de novembro, a mesma Petrobras que negou gás a paulistas e cariocas anunciou que testes confirmaram a existência de uma megajazida de petróleo na bacia de Santos.
Incrustado a 7.000 metros de profundidade, na chamada camada pré-sal, o campo de Tupi poderá elevar em até 40% o potencial de extração de petróleo do país, acrescentando 8 bilhões de barris de óleo de boa qualidade às atuais reservas de 14,4 bilhões de barris. E essas seriam apenas as estimativas iniciais, uma vez que a área potencial de exploração com as mesmas características é de 800 quilômetros de extensão e vai do Espírito Santo a Santa Catarina.
Num cenário muito favorável, o Brasil poderia ultrapassar a Venezuela em termos de reservas de petróleo, com cerca de 100 bilhões de barris. "Reservas como essa podem transformar o Brasil num país exportador de petróleo", disse na ocasião a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, porta-voz das boas notícias.
Essa visão otimista, justificável pela fartura de recursos naturais do país, entra em choque frontal com a realidade do presente. "O governo está acenando com um futuro brilhante para o Brasil, só que para chegar lá vamos ter de atravessar um pântano", diz o físico José Goldemberg, um dos maiores especialistas do país em energia.
O Brasil pode ser, de fato, uma potência energética num mundo cada vez mais ávido por energia. Mas, como fica claro com a crise do gás, isso não depende apenas de sorte e das bênçãos da natureza. Depende, sobretudo, de capacidade de planejamento e execução, que nem sempre o país demonstra ter.
A descoberta de Tupi é só a primeira parte de um processo que vai demandar anos de trabalho e investimentos. Isso não inutiliza tudo o que foi feito pela Petrobras até agora. Mas não garante o futuro. Ao dimensionar o reservatório, a empresa conseguiu um feito mundial: rompeu uma barreira tecnológica em matéria de extração em águas ultraprofundas - é a primeira empresa a perfurar tão longe.
Momentaneamente, suas ações dispararam e fizeram o valor de mercado da estatal atingir 222 bilhões de dólares, à frente de empresas como Google e Procter & Gamble. Os mercados refletiram em cifras o que Tupi pode significar em termos de influência geopolítica. "O Brasil vai se juntar a um pequeno clube de grandes países exportadores de petróleo do hemisfério ocidental, aqueles que não pertencem à Opep e que têm tecnologia para explorar seus recursos. Eles são hoje apenas o Canadá e a Noruega", diz o canadense Peter Tertzakian, geofísico e economista-chefe do fundo de investimento ARC, especializado em administração de recursos do setor energético. Clique e veja o quadro do apagão.
O anúncio da Petrobras fortaleceu a imagem do Brasil como uma potência emergente em matéria de energia. "É um país que não só tem um portfólio energético diversificado, com potencial hidrelétrico, etanol e petróleo, mas que também é estável e com boas relações com os Estados Unidos", afirma Amanda Kuzendoerfer, analista de petróleo da consultoria americana Summit Energy.
O Brasil utiliza apenas 30% de seu potencial hídrico, considerado o maior do mundo. É dono também da sexta maior reserva de urânio do planeta, mas a energia nuclear ainda é irrelevante por aqui.
Sensação no mundo, os biocombustíveis, encabeçados pelo etanol, acharam terreno fértil para expandir-se no país. "O Brasil é um gigante verde discreto e uma das poucas nações que fazem bioenergia em larga escala", disse Ban Ki-moon, secretário-geral da Organização das Nações Unidas, em recente visita ao país.
Naturalmente, a nova fronteira do petróleo também nasce repleta de expectativas. Mas, entre a euforia e a realidade, existe um longo caminho a ser percorrido. Primeiro, extrair amostras de poços a 7.000 metros de profundidade é bem diferente de torná-los economicamente viáveis. Até agora, a Petrobras, com notória experiência em águas profundas, tem extraído petróleo a cerca de 2.000 metros.
Ao se aventurar na camada pré-sal, precisará fazer investimentos estimados em 50 bilhões de dólares na bacia de Santos para de fato tirar o petróleo do fundo do mar. Além de dinheiro, será necessário também entrar na disputa global por equipamentos e mão-de-obra qualificada. "Seria preciso metade de uma Petrobras tanto em recursos como em pessoal para investigar toda a área do pré-sal", diz o geólogo Saul Susliek, do Centro de Estudo do Petróleo da Unicamp. "Não dá para a estatal fazer tudo sozinha."
Pode até não dar, mas a empresa já mostrou que quer manter o controle desse ouro escondido embaixo do mar. No mesmo dia em que anunciava a descoberta da megajazida, o governo retirou 41 dos 312 blocos a ser licitados na nona rodada marcada pela Agência Nacional do Petróleo (ANP) para o final de novembro.
Os lotes excluídos são próximos aos poços de Tupi e, segundo o governo, poderiam estar subavaliados. Algumas fontes do mercado acreditam que, na verdade, esse foi um subterfúgio para a Petrobras burlar a Lei do Petróleo - que terminou com seu monopólio no setor em 1997 e abriu mercado para investimentos privados na exploração - e obter controle sobre a comercialização futura das reservas.
"A estatal se articulou para retirar as áreas mais atrativas da nova licitação. Isso tem cheiro de retorno ao monopólio", diz o pesquisador Giuseppe Bacoccoli, do núcleo de pós-graduação da Universidade Federal do Rio Janeiro.
A notícia da retirada dos blocos do leilão da ANP frustrou expectativas dos mais de 30 investidores que pretendiam disputar os blocos. "A decisão está mais para Hugo Chávez do que para um país que pretende se inserir no mercado internacional", diz Marco Tavares, sócio da consultoria Gas Energy.
A Shell, um dos grupos interessados, comunicou que iria reavaliar as regras e os lotes restantes para decidir se ainda participaria do leilão. Posição semelhante foi assumida pela Vale do Rio Doce.
O governo nega que haja risco de esvaziamento da disputa. "Tenho informações de que os investidores, mesmo frustrados com a retirada dos blocos, confirmam seu interesse. O leilão será bem-sucedido", diz Nelson Hubner, ministro de Minas e Energia.
De acordo com a Petrobras, o campo de Tupi começará a produzir em 2013. Nesse meio tempo, continuam as prospecções no pré-sal, que, por mais promissoras que sejam, podem apresentar surpresas nada agradáveis.
Em 2004, a Shell teve de reconhecer que havia superestimado descobertas de gás na Austrália e de petróleo na Nigéria em quase 4 bilhões de barris. O episódio pegou mal entre os acionistas e custou o emprego do presidente do conselho de administração da companhia na época.
Também a Petrobras já precisou voltar atrás em relação a previsões feitas para o gás do campo de Mexilhão, na bacia de Santos - um novo cálculo indicou que as reservas são de dois terços do volume inicialmente anunciado há três anos.
Se o futuro energético do país parece brilhante, o presente é lastimável. Nas últimas semanas, o gás natural transformou-se no epicentro da crise de energia com o corte no fornecimento da Petrobras nos maiores estados brasileiros.
Entre as grandes empresas consumidoras, não houve surpresa. Desde o apagão de 2001, o consumo disparou no país com a adoção do combustível nas indústrias e nos automóveis - movimento incentivado pelo próprio governo. Estima-se que a demanda nacional pelo gás natural venha crescendo à média anual de 18%.
O risco de desabastecimento ficou escancarado no episódio de nacionalização da indústria de petróleo e gás na Bolívia, de onde o Brasil importa 25 milhões de metros cúbicos por dia. Para não depender do problemático vizinho, o país deveria estar investindo na auto-suficiência - mas aí o problema é a falta de estímulos à produção interna, hoje concentrada na Petrobras.
Embora a legislação permita os investimentos privados no setor, existe um monopólio velado da estatal. "Ninguém vai investir na extração de gás enquanto o acesso aos dutos de transporte estiver nas mãos da Petrobras", diz o ex-ministro de Minas e Energia Rodolpho Tourinho.
Como a estatal controla os gasodutos existentes e pode cobrar quanto quiser pelo transporte do gás, na prática nenhuma empresa privada aventura-se a explorar o produto. Isso ocorre por falta de regras para o investimento no setor.
Uma boa notícia é que o nó regulatório pode ser desfeito. Tramita no Senado a última versão da Lei do Gás, a qual prevê que a construção de novos gasodutos será alvo de concessões - seguindo o exemplo bem-sucedido do modelo aplicado a sete lotes de rodovias federais.
Nos últimos dois anos, as idas e vindas do projeto de lei eram reflexo da interferência da Petrobras. Com o Programa de Aceleração do Crescimento, o PAC, ficou patente que faltaria gás e que a resistência à abertura do setor partia de dentro da Petrobras. Entrou em ação a ministra Dilma Rousseff, que enquadrou os radicais da estatal, abrindo caminho para o projeto no Legislativo.
De concreto mesmo, por enquanto só existe a certeza de que não há gás suficiente para suprir toda a demanda - e de que ele custará bem mais caro para quem for atendido, como já avisou a Petrobras.
No interior de São Paulo, os fabricantes de cerâmica do pólo de Santa Gertrudes, que tiveram o gás cortado e foram obrigados a reduzir a produção, anunciaram que vão congelar os investimentos em 2008. Trata-se de uma frustração para um setor que neste ano está crescendo 10%, embalado pela explosão do mercado da construção.
Mesmo diante de sinais como esse, o governo não admite que há apagão do gás. "Todo o mercado contratado está sendo atendido e continuará a ser", diz o ministro Hubner.
O fato é que a crise do gás hoje é uma espécie de trailer de um filme ruim do setor de energia como um todo. As estimativas apontam que já em 2008 pode haver interrupções no fornecimento de energia elétrica caso o clima não ajude. Embora o nível dos reservatórios das hidrelétricas esteja satisfatório no momento, qualquer redução no volume de chuvas pode acender o sinal amarelo.
Nessas situações, as usinas térmicas entrariam em operação - mas os problemas na oferta de gás natural anulam uma estrutura concebida para ser uma espécie de seguro. A térmica de William Ajorna, em Campo Grande, em Mato Grosso do Sul, já está parada.
A usina do grupo Tractebel vinha registrando dificuldades na obtenção do gás desde o começo de 2007. As operações cessaram de vez no início de novembro e acumulam perdas de 800.000 reais por dia. O prejuízo da Tractebel contrasta com as necessidades energéticas do país e com o potencial de transformá-las em crescimento da economia.
Nas últimas semanas, o governo e a Petrobras retomaram as negociações com a Bolívia para pelo menos garantir o suprimento de gás já existente. A estatal, mesmo tendo ativos confiscados pelo governo de Evo Morales, pelos quais recebeu menos da metade do valor estimado, comprometeu-se a fazer novos investimentos no país.
Para fechar um novo acordo com o companheiro boliviano, está marcada uma visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao país vizinho em dezembro. Enquanto isso, em outras frentes, a possibilidade de importação de gás liquefeito de Angola e os investimentos para extração na bacia de Campos estão com o cronograma atrasado.
A previsão é que essas fontes alternativas comecem a suprir o mercado apenas em 2009. Nesse meio tempo, só resta torcer para que São Pedro não negue as chuvas que são necessárias para manter os reservatórios de usinas hidrelétricas cheios o suficiente para dispensar a ajuda das termelétricas. Resultado: enquanto o futuro brilhante ainda é uma promessa, o país já sente como é difícil atravessar o pântano.
UMA POTÊNCIA ENERGÉTICA
Apesar dos problemas atuais, o Brasil reúne condições para ter energia de sobra nas próximas décadas:
Hidrelétrica
O potencial de geração hídrica de energia, estimado em 263 gigawatts, é o maior do mundo. Mas o Brasil ainda utiliza menos de 30% dessa capacidade.
Etanol
O país fica atrás apenas dos Estados Unidos entre os produtores de etanol. As previsões indicam que a atual produção nacional de 17 bilhões de litros por ano deve quase triplicar até 2012.
Petróleo
Só com o novo poço Tupi, na bacia de Santos, as reservas brasileiras devem crescer 40%. As reservas poderiam alcançar 100 bilhões de barris, o que colocaria o Brasil entre os cinco maiores produtores do planeta.
Nuclear
O Brasil tem o sexto maior depósito de urânio do mundo. O potencial deve ser ainda maior, pois as pesquisas geológicas foram feitas apenas em 25% do território nacional.
























