Novas fontes
O Brasil lidera busca por novas energias
Avanços brasileiros no desenvolvimento de tecnologia e no uso de energias renováveis e mais limpas colocam o país na vanguarda
Redação
Almanaque Atualidades Vestibular - 2007
Apesar de toda a crise do petróleo, nem todos os olhos estão voltados para o Oriente Médio. Uma parte cada vez maior da atenção dos que decidem sobre energia no mundo é dedicada ao Brasil. O país detém atualmente o posto de grande - senão o maior - inovador na área das tecnologias alternativas de energia. É líder, por exemplo, na pesquisa e na fabricação de biodiesel, produzido com óleo extraído de algumas espécies vegetais, como a soja e a mamona - e até mesmo de fontes animais, como o sebo de boi. A mais recente inovação é o HBio, combustível idêntico ao diesel produzido com a mistura de óleos vegetais e petróleo cru, o que gera um nível menor de emissão de poluentes.
Tem sido assim desde a década de 1970, quando o Brasil desenvolveu a mais significativa opção ao petróleo, que, naqueles anos, fazia falta em todo o mundo: o álcool anidro adquirido do processamento da cana-de-açúcar. Veja infográfico.
Pró-Álcool e Itaipu
O Programa Nacional do Álcool (Pró-Álcool) foi um sucesso tão grande que, em meados dos anos 1980, se chegou à marca de 95% da frota nacional de automóveis rodando com o combustível. Nos anos 1990, com os preços do petróleo voltando a patamares mais baixos, o álcool perdeu espaço no mercado brasileiro. Mas, desde que os veículos bicombustíveis - outra invenção brasileira - chegaram às concessionárias, com motor híbrido capaz de funcionar com álcool e gasolina, a produção de álcool voltou a ganhar fôlego.
Também há mais de três décadas, para garantir o fornecimento de eletricidade sem depender dos derivados do petróleo nem da queima de madeira, o Brasil optou por substituir as usinas termoelétricas por hidrelétricas. Os maiores investimentos no setor foram feitos na década de 1970, com destaque para a construção da usina binacional de Itaipu, na fronteira com o Paraguai. Hoje, 90% da energia elétrica produzida no país vem das hidrelétricas.
São justamente essas duas opções (álcool e hidrelétricas) que garantem ao Brasil uma posição privilegiada quando se fala da participação de energias renováveis na matriz energética. Segundo dados preliminares do Balanço Energético Nacional deste ano, do Ministério de Minas e Energia, 44,3% da oferta interna de energia vem de fontes renováveis. A média mundial é de 13,3%.
Problemas persistentes
Nem tudo, porém, é motivo de festa. O Brasil não escapa da regra mundial de ser fortemente dependente do petróleo. Cerca de 44% do consumo energético nacional está relacionado a derivados petrolíferos. Graças aos avanços na produção interna, estamos pelo menos a salvo das variações de preço do produto. Mas é claro que, como o mundo todo, o país também corre o risco com o grande maremoto que virá com a extinção das reservas.
Quando falamos então sobre a participação dos combustíveis fósseis, o cenário é bastante negativo. Somando-se ao petróleo o gás natural e o carvão mineral, a parcela do consumo energético dominada por fontes não renováveis chega a 66%. Não renováveis e poluentes, já que sua queima joga na atmosfera gases poluentes que, nas cidades, provocam doenças respiratórias e, para o mundo, significam contribuir para ampliar o efeito estufa.
Opção pelo gás
Mesmo assim, nos últimos anos, o governo vem investindo na substituição gradativa dos combustíveis derivados do refino do petróleo - como gasolina e diesel, para os automóveis, e óleo combustível, na indústria - pelo gás natural. A opção parece se basear na idéia de que "dos males, o menor", já que o gás é menos poluente. Com a construção do gasoduto Brasil-Bolívia e os incentivos para a distribuição do combustível ao setor industrial, automotivo e doméstico, a participação do gás na oferta nacional é crescente. Era de 2% em 1999, já está em 9,4%, e a meta é chegar a 12% em 2010. Mesmo com a crise desencadeada pela nacionalização das reservas na Bolívia, acredita-se que a meta seja alcançada. Para isso, o governo resolveu acelerar o projeto de exploração da maior reserva nacional, na bacia de Santos, entre São Paulo e Paraná.
A biomassa
Os recentes problemas com o governo boliviano mostraram as fragilidades da opção pelo gás natural. Ao mesmo tempo, crescem as pressões internas e externas pela redução das emissões de gases poluentes, em especial o gás carbônico. O aproveitamento da biomassa (produção de energia de fontes orgânicas, como madeira e plantas), seja pelo uso de resíduos agroindustriais, seja pela produção de biocombustíveis, gera menos poluição.
O uso de resíduos vegetais pela indústria é crescente. Para as empresas, tem valido a pena substituir os caros derivados de petróleo pela queima de materiais como bagaço de cana, tocos de madeira e palha de soja, mesmo que o potencial de calor gerado pela biomassa seja menor. Como vantagens laterais, diminui-se o desperdício de matéria-prima e o lixo industrial.
Já os biocombustíveis, em especial o biodiesel, recebem atenção especial do governo federal, que financia, por meio do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), projetos de plantas para a produção do combustível orgânico. A primeira usina financiada a entrar em funcionamento foi inaugurada em junho, em Passo Fundo (RS), e vai utilizar soja, canola e girassol como matéria-prima.
As justificativas para tais esforços são quatro. Primeiro, o país é grande produtor de grãos oleaginosos, como a soja, que podem ser usados para fabricar o biodiesel. Além disso, outros produtos regionais, como a mamona, o babaçu e o pequi, têm potencial: a descentralização da produção pelo país - e de seus benefícios econômicos - é a segunda justificativa. A terceira é que um dos grandes problemas do suprimento de energia elétrica nacional - a distribuição - poderia ser resolvido com pequenas usinas movidas a biodiesel. Por último, o combustível orgânico pode aos poucos substituir o diesel, que não só é grande poluente como também exige que o país importe quantidade elevada de petróleo leve para sua fabricação.
Controle de emissões
As vantagens da biomassa, apesar de seu uso resultar em emissões (pequenas) de gás carbônico, a incluíram também no Programa de Incentivo às Fontes Alternativas (Proinfa). O Proinfa garante financiamento a baixo custo do BNDES e a garantia de compra da produção pela Eletrobrás para projetos sustentáveis de geração de energia elétrica. A idéia é incentivar o uso de energias limpas, entre elas o biogás (gerado pela decomposição de matéria orgânica como lixo e dejetos animais) e as energias eólica, solar e maremotriz (aproveitamento da força das ondas).
O país atinge auto-suficiência em petróleo
Desde 21 de abril de 2006, quando entrou em funcionamento a plataforma P-50 da Petrobras, o Brasil é "oficialmente" considerado auto-suficiente em petróleo. Isso significa que o país passa a produzir diariamente uma quantidade de barris igual ou superior à que consome. A novidade tem peso importante num cenário de alta de preços continuada.
O país ainda terá de importar petróleo, já que, para obter certos derivados, é preciso misturar óleo mais comum no Brasil, o óleo pesado (que gera grande quantidade de nafta, gasolina e óleo combustível), ao óleo leve (exigido para a obtenção de diesel, o combustível mais usado na frota nacional).
A vantagem para o país ao alcançar a auto-suficiência é poder compensar por completo as compras de óleo leve que deverão ser feitas vendendo a mesma quantidade do óleo pesado. É quase como fazer uma "troca" de produtos com praticamente o mesmo valor. Além disso, a estimativa da Petrobras é que a necessidade de importação do produto diminua muito. De fato, no primeiro quadrimestre de 2006, a diferença entre barris importados e exportados caiu para cerca de 12%. Em 2005, era de 27,7%.
Para a estatal, o Brasil não apenas deve "empatar" os gastos com importação como vai superá-los. Pelos cálculos da empresa, já em 2006 a balança comercial do petróleo nacional deve fechar com saldo positivo de 2 bilhões de dólares, com uma exportação líquida (ou seja, descontada a quantidade importada) de 100 mil barris diários.
Grande parte do mérito da auto-suficiência deve-se a um longo planejamento. Quando a Petrobras foi criada, em 1953, o Brasil consumia 15 vezes mais derivados do que conseguia refinar. O primeiro passo foi investir em refinarias, para baixar o preço da produção e investir na prospecção e no desenvolvimento de tecnologia para a extração. A estratégia funcionou a ponto de o Brasil ser hoje líder em extração de petróleo em águas profundas.
Os preços altos dos últimos anos também ajudaram a acelerar os investimentos na expansão da infra-estrutura de produção. Desde 2000, a Petrobras registra lucros exuberantes. Em 2005 chegou a 10,1 bilhões de dólares.
Porém, um detalhe negativo também contribuiu para que se alcançasse a meta da auto-suficiência antes do previsto. Com a economia crescendo a índices muito baixos nos últimos anos, a demanda por petróleo diminuiu em vez de aumentar.
Apesar de toda a crise do petróleo, nem todos os olhos estão voltados para o Oriente Médio. Uma parte cada vez maior da atenção dos que decidem sobre energia no mundo é dedicada ao Brasil. O país detém atualmente o posto de grande - senão o maior - inovador na área das tecnologias alternativas de energia. É líder, por exemplo, na pesquisa e na fabricação de biodiesel, produzido com óleo extraído de algumas espécies vegetais, como a soja e a mamona - e até mesmo de fontes animais, como o sebo de boi. A mais recente inovação é o HBio, combustível idêntico ao diesel produzido com a mistura de óleos vegetais e petróleo cru, o que gera um nível menor de emissão de poluentes.
Tem sido assim desde a década de 1970, quando o Brasil desenvolveu a mais significativa opção ao petróleo, que, naqueles anos, fazia falta em todo o mundo: o álcool anidro adquirido do processamento da cana-de-açúcar. Veja infográfico.
Pró-Álcool e Itaipu
O Programa Nacional do Álcool (Pró-Álcool) foi um sucesso tão grande que, em meados dos anos 1980, se chegou à marca de 95% da frota nacional de automóveis rodando com o combustível. Nos anos 1990, com os preços do petróleo voltando a patamares mais baixos, o álcool perdeu espaço no mercado brasileiro. Mas, desde que os veículos bicombustíveis - outra invenção brasileira - chegaram às concessionárias, com motor híbrido capaz de funcionar com álcool e gasolina, a produção de álcool voltou a ganhar fôlego.
Também há mais de três décadas, para garantir o fornecimento de eletricidade sem depender dos derivados do petróleo nem da queima de madeira, o Brasil optou por substituir as usinas termoelétricas por hidrelétricas. Os maiores investimentos no setor foram feitos na década de 1970, com destaque para a construção da usina binacional de Itaipu, na fronteira com o Paraguai. Hoje, 90% da energia elétrica produzida no país vem das hidrelétricas.
São justamente essas duas opções (álcool e hidrelétricas) que garantem ao Brasil uma posição privilegiada quando se fala da participação de energias renováveis na matriz energética. Segundo dados preliminares do Balanço Energético Nacional deste ano, do Ministério de Minas e Energia, 44,3% da oferta interna de energia vem de fontes renováveis. A média mundial é de 13,3%.
Problemas persistentes
Nem tudo, porém, é motivo de festa. O Brasil não escapa da regra mundial de ser fortemente dependente do petróleo. Cerca de 44% do consumo energético nacional está relacionado a derivados petrolíferos. Graças aos avanços na produção interna, estamos pelo menos a salvo das variações de preço do produto. Mas é claro que, como o mundo todo, o país também corre o risco com o grande maremoto que virá com a extinção das reservas.
Quando falamos então sobre a participação dos combustíveis fósseis, o cenário é bastante negativo. Somando-se ao petróleo o gás natural e o carvão mineral, a parcela do consumo energético dominada por fontes não renováveis chega a 66%. Não renováveis e poluentes, já que sua queima joga na atmosfera gases poluentes que, nas cidades, provocam doenças respiratórias e, para o mundo, significam contribuir para ampliar o efeito estufa.
Opção pelo gás
Mesmo assim, nos últimos anos, o governo vem investindo na substituição gradativa dos combustíveis derivados do refino do petróleo - como gasolina e diesel, para os automóveis, e óleo combustível, na indústria - pelo gás natural. A opção parece se basear na idéia de que "dos males, o menor", já que o gás é menos poluente. Com a construção do gasoduto Brasil-Bolívia e os incentivos para a distribuição do combustível ao setor industrial, automotivo e doméstico, a participação do gás na oferta nacional é crescente. Era de 2% em 1999, já está em 9,4%, e a meta é chegar a 12% em 2010. Mesmo com a crise desencadeada pela nacionalização das reservas na Bolívia, acredita-se que a meta seja alcançada. Para isso, o governo resolveu acelerar o projeto de exploração da maior reserva nacional, na bacia de Santos, entre São Paulo e Paraná.
A biomassa
Os recentes problemas com o governo boliviano mostraram as fragilidades da opção pelo gás natural. Ao mesmo tempo, crescem as pressões internas e externas pela redução das emissões de gases poluentes, em especial o gás carbônico. O aproveitamento da biomassa (produção de energia de fontes orgânicas, como madeira e plantas), seja pelo uso de resíduos agroindustriais, seja pela produção de biocombustíveis, gera menos poluição.
O uso de resíduos vegetais pela indústria é crescente. Para as empresas, tem valido a pena substituir os caros derivados de petróleo pela queima de materiais como bagaço de cana, tocos de madeira e palha de soja, mesmo que o potencial de calor gerado pela biomassa seja menor. Como vantagens laterais, diminui-se o desperdício de matéria-prima e o lixo industrial.
Já os biocombustíveis, em especial o biodiesel, recebem atenção especial do governo federal, que financia, por meio do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), projetos de plantas para a produção do combustível orgânico. A primeira usina financiada a entrar em funcionamento foi inaugurada em junho, em Passo Fundo (RS), e vai utilizar soja, canola e girassol como matéria-prima.
As justificativas para tais esforços são quatro. Primeiro, o país é grande produtor de grãos oleaginosos, como a soja, que podem ser usados para fabricar o biodiesel. Além disso, outros produtos regionais, como a mamona, o babaçu e o pequi, têm potencial: a descentralização da produção pelo país - e de seus benefícios econômicos - é a segunda justificativa. A terceira é que um dos grandes problemas do suprimento de energia elétrica nacional - a distribuição - poderia ser resolvido com pequenas usinas movidas a biodiesel. Por último, o combustível orgânico pode aos poucos substituir o diesel, que não só é grande poluente como também exige que o país importe quantidade elevada de petróleo leve para sua fabricação.
Controle de emissões
As vantagens da biomassa, apesar de seu uso resultar em emissões (pequenas) de gás carbônico, a incluíram também no Programa de Incentivo às Fontes Alternativas (Proinfa). O Proinfa garante financiamento a baixo custo do BNDES e a garantia de compra da produção pela Eletrobrás para projetos sustentáveis de geração de energia elétrica. A idéia é incentivar o uso de energias limpas, entre elas o biogás (gerado pela decomposição de matéria orgânica como lixo e dejetos animais) e as energias eólica, solar e maremotriz (aproveitamento da força das ondas).
O país atinge auto-suficiência em petróleo
Desde 21 de abril de 2006, quando entrou em funcionamento a plataforma P-50 da Petrobras, o Brasil é "oficialmente" considerado auto-suficiente em petróleo. Isso significa que o país passa a produzir diariamente uma quantidade de barris igual ou superior à que consome. A novidade tem peso importante num cenário de alta de preços continuada.
O país ainda terá de importar petróleo, já que, para obter certos derivados, é preciso misturar óleo mais comum no Brasil, o óleo pesado (que gera grande quantidade de nafta, gasolina e óleo combustível), ao óleo leve (exigido para a obtenção de diesel, o combustível mais usado na frota nacional).
A vantagem para o país ao alcançar a auto-suficiência é poder compensar por completo as compras de óleo leve que deverão ser feitas vendendo a mesma quantidade do óleo pesado. É quase como fazer uma "troca" de produtos com praticamente o mesmo valor. Além disso, a estimativa da Petrobras é que a necessidade de importação do produto diminua muito. De fato, no primeiro quadrimestre de 2006, a diferença entre barris importados e exportados caiu para cerca de 12%. Em 2005, era de 27,7%.
Para a estatal, o Brasil não apenas deve "empatar" os gastos com importação como vai superá-los. Pelos cálculos da empresa, já em 2006 a balança comercial do petróleo nacional deve fechar com saldo positivo de 2 bilhões de dólares, com uma exportação líquida (ou seja, descontada a quantidade importada) de 100 mil barris diários.
Grande parte do mérito da auto-suficiência deve-se a um longo planejamento. Quando a Petrobras foi criada, em 1953, o Brasil consumia 15 vezes mais derivados do que conseguia refinar. O primeiro passo foi investir em refinarias, para baixar o preço da produção e investir na prospecção e no desenvolvimento de tecnologia para a extração. A estratégia funcionou a ponto de o Brasil ser hoje líder em extração de petróleo em águas profundas.
Os preços altos dos últimos anos também ajudaram a acelerar os investimentos na expansão da infra-estrutura de produção. Desde 2000, a Petrobras registra lucros exuberantes. Em 2005 chegou a 10,1 bilhões de dólares.
Porém, um detalhe negativo também contribuiu para que se alcançasse a meta da auto-suficiência antes do previsto. Com a economia crescendo a índices muito baixos nos últimos anos, a demanda por petróleo diminuiu em vez de aumentar.