educomunicação
Nas Ondas do Rádio: também virtual
Projeto pedagógico criado para implantar rádios em escolas públicas enfrenta problemas e busca auxílio em novas tecnologias
Por Carlos Minuano
Planeta Sustentável ¿ 30/04/2008
A idéia é muito boa: capacitar professores, alunos e membros da comunidade para a implantação de rádios escolares, incentivando o uso das mídias e da tecnologia no espaço escolar. Porém, das 455 escolas da rede municipal de ensino fundamental que participaram do programa "Educom.Rádio" - iniciado em 2001 e hoje chamado de Nas Ondas do Rádio -, menos de 150 ainda desenvolvem alguma atividade do projeto.
Parece um caso exemplar de como a descontinuidade de programas - ou a continuidade capenga, causada pelas trocas de governo, equipes e profissionais - pode por a perder iniciativas de relevância social. Lamentável, sobretudo, quando se trata de um setor tão cheio de mazelas e necessidades como a educação pública.
Escolas em reforma, dificuldade na transmissão por problemas estruturais, alto custo do kit e da manutenção dos equipamentos são alguns motivos para o encolhimento das ações, segundo apontou Carlos Lima, atual coordenador do programa, da Secretaria Municipal de Educação de São Paulo - SME/SP. Mas ele destaca, como um dos principais fatores do problema, a gestão rotativa nas escolas. "A cada ano, acontecem muitas trocas de professores. O responsável acaba indo embora e deixando o projeto descoberto".
Os números, porém, indicam que o programa já começou com as pernas bambas. Apesar da adesão de quase 500 escolas, a maior parte delas, desde o início, permaneceu sem equipamentos ou previsão de quando o material chegaria. Algumas aguardam, até hoje, o kit do programa Educom, composto por mesa de som, transmissor, caixas receptoras, antena, microfones, headphones, CD player, tape deck e gravadores.
Desenvolvido em parceria com o Núcleo de Comunicação e Educação da Universidade de São Paulo - NCE/USP, a iniciativa chegou a capacitar cerca de 11 mil professores e tornou-se projeto de lei, proposto pelo vereador Carlos Neder (PT). Aprovada na Câmara, a lei municipal 13.941 foi sancionada em 2004 e regulamentada em 2005. Mesmo período em que finalizava a parceria com a USP.
NOVAS PLATAFORMAS
Para que o projeto não parasse totalmente, por falta de recursos, a solução encontrada pela equipe, segundo Lima, foi migrar a rádio para a internet e diversificar as ações. A partir da formação de professores para o uso da informática como ferramenta pedagógica passaram a estimular outras atividades de produção midiática, em escolas com ou sem rádios escolares, explica o coordenador. "Estamos descobrindo outras possibilidades para o programa: é a educomunicação mediada pela tecnologia".
Nos laboratórios de informática são produzidos programas de rádios, edição de entrevistas e outras atividades, todos publicados na internet em podcast. "O computador tem sido o grande recurso para a produção midiática neste ambiente, junto com softwares como o Audacity (editor de áudio) e, agora, o Zara Radio (programador digital) que tornará possível transmitir programas de rádio produzidos nos laboratórios de informática pelos alunos", defende Lima.
Os recursos da plataforma informatizada também estão sendo utilizados como proposta pedagógica junto a alunos com dificuldades no aprendizado em leitura e escrita. "Os professores passaram a desenvolver atividades de produção radiofônica, leitura oral, entrevistas e atividades relacionadas à oralidade com leitura e gravação para verificação da fluência verbal", diz o coordenador do programa.
Procurada, a Secretaria Municipal de Cultura - por meio de sua assessoria de imprensa - não revelou informações atualizadas sobre o programa "Nas Ondas do Rádio" e também não forneceu a lista das escolas onde o projeto das rádios escolares está em execução.
A VOZ DA PERIFERIA
A E.M.E.F. Fernando Gracioso, localizada em Perus, zona norte de São Paulo, é uma das escolas onde deveria funcionar uma rádio escolar. Ela dispõe de um laboratório de informática com pouco mais de vinte computadores e os equipamentos do kit multimídia, mas a rádio não funciona há mais de um ano. Segundo o professor Fábio Nepomuceno, "a rádio está em processo de reativação". O motivo? Defeito na antena. "Pedimos manutenção com freqüência, mas o atendimento é muito complicado".
Para um dos fundadores do projeto, Ismar de Oliveira, professor e coordenador do NCE/USP, o investimento em informática e internet pode ser uma alternativa para manter o projeto e ainda resolver problemas como o da escola de Perus. Ele ressalta que o importante não é o equipamento ou o meio pelo qual é executado, mas, sim, o conceito de educomunicação. "A tecnologia ainda é vista nas escolas como acessório e não como algo essencial no processo pedagógico. Por isso, torcemos pelo sucesso do programa", destaca.
PRODUZIR AO INVÉS DE CONSUMIR
Outra escola, em Perus, aguarda a chegada do kit para a implantação da rádio. É a E.M.E.F. Cândido Portinari. Mesmo sem os equipamentos, a rádio deve entrar no ar, pela internet, graças ao esforço de uma entusiasta da idéia: a professora Rosa Rodrigues. Ela reconhece a importância e o alcance do projeto como ferramenta pedagógica: "Ele é capaz de mostrar aos alunos a diferença entre produzir e apenas consumir. A partir do momento em que você produz, pode avaliar melhor o que consome".
Rosa diz que sonha ver a rádio funcionando, produzida pelos alunos da escola, localizada em uma região carente da capital paulista. A professora não se opõe à utilização da internet para a produção, mas faz uma ressalva importante: "poderemos mostrar para o mundo nossa rádio, mas não para grande parte da comunidade de Perus que não possui computador". Ela se refere ao alcance das rádios escolares que, nos moldes anteriores, deveria atingir um quilômetro e, portanto, chegaria às casas da maioria dos estudantes.
REPÓRTER POR UM DIA
Depois do Campus Party, os alunos do programa "Nas Ondas do Rádio" realizaram sua segunda cobertura jornalística, este ano. Cerca de 100 estudantes se transformaram em "repórteres por um dia" durante o Congresso Internacional das Cidades Educadoras, realizado entre os dias 24 e 27 de abril, no Anhembi. A transmissão foi realizada ao vivo para todos os espaços do evento, de acordo com o coordenador do programa, Carlos Lima.
Além de entrevistar especialistas, celebridades e anônimos, a rádio escola também informou o público sobre o evento. Quatro colégios da rede municipal foram convidados: as E.M.E.F's Brigadeiro Haroldo Veloso e José Quirino Ribeiro, de Itaquera; Francisco Gracioso, de Perus e a Professor Nelson Pimentel Queiroz, de Jabaquara. A cobertura está disponível no blog do programa.
A idéia é muito boa: capacitar professores, alunos e membros da comunidade para a implantação de rádios escolares, incentivando o uso das mídias e da tecnologia no espaço escolar. Porém, das 455 escolas da rede municipal de ensino fundamental que participaram do programa "Educom.Rádio" - iniciado em 2001 e hoje chamado de
Nas Ondas do Rádio -, menos de 150 ainda desenvolvem alguma atividade do projeto.
Parece um caso exemplar de como a descontinuidade de programas - ou a continuidade capenga, causada pelas trocas de governo, equipes e profissionais - pode por a perder iniciativas de relevância social. Lamentável, sobretudo, quando se trata de um setor tão cheio de mazelas e necessidades como a educação pública.
Escolas em reforma, dificuldade na transmissão por problemas estruturais, alto custo do kit e da manutenção dos equipamentos são alguns motivos para o encolhimento das ações, segundo apontou Carlos Lima, atual coordenador do programa, da Secretaria Municipal de Educação de São Paulo - SME/SP. Mas ele destaca, como um dos principais fatores do problema, a gestão rotativa nas escolas. "A cada ano, acontecem muitas trocas de professores. O responsável acaba indo embora e deixando o projeto descoberto".
Os números, porém, indicam que o programa já começou com as pernas bambas. Apesar da adesão de quase 500 escolas, a maior parte delas, desde o início, permaneceu sem equipamentos ou previsão de quando o material chegaria. Algumas aguardam, até hoje, o kit do programa Educom, composto por mesa de som, transmissor, caixas receptoras, antena, microfones, headphones, CD player, tape deck e gravadores.
Desenvolvido em parceria com o Núcleo de Comunicação e Educação da Universidade de São Paulo - NCE/USP, a iniciativa chegou a capacitar cerca de 11 mil professores e tornou-se projeto de lei, proposto pelo vereador Carlos Neder (PT). Aprovada na Câmara, a lei municipal 13.941 foi sancionada em 2004 e regulamentada em 2005. Mesmo período em que finalizava a parceria com a USP.
NOVAS PLATAFORMAS
Para que o projeto não parasse totalmente, por falta de recursos, a solução encontrada pela equipe, segundo Lima, foi migrar a rádio para a internet e diversificar as ações. A partir da formação de professores para o uso da informática como ferramenta pedagógica passaram a estimular outras atividades de produção midiática, em escolas com ou sem rádios escolares, explica o coordenador. "Estamos descobrindo outras possibilidades para o programa: é a educomunicação mediada pela tecnologia".
Nos laboratórios de informática são produzidos programas de rádios, edição de entrevistas e outras atividades, todos publicados na internet em podcast. "O computador tem sido o grande recurso para a produção midiática neste ambiente, junto com softwares como o Audacity (editor de áudio) e, agora, o Zara Radio (programador digital) que tornará possível transmitir programas de rádio produzidos nos laboratórios de informática pelos alunos", defende Lima.
Os recursos da plataforma informatizada também estão sendo utilizados como proposta pedagógica junto a alunos com dificuldades no aprendizado em leitura e escrita. "Os professores passaram a desenvolver atividades de produção radiofônica, leitura oral, entrevistas e atividades relacionadas à oralidade com leitura e gravação para verificação da fluência verbal", diz o coordenador do programa.
Procurada, a Secretaria Municipal de Cultura - por meio de sua assessoria de imprensa - não revelou informações atualizadas sobre o programa "Nas Ondas do Rádio" e também não forneceu a lista das escolas onde o projeto das rádios escolares está em execução.
A VOZ DA PERIFERIA
A E.M.E.F. Fernando Gracioso, localizada em Perus, zona norte de São Paulo, é uma das escolas onde deveria funcionar uma rádio escolar. Ela dispõe de um laboratório de informática com pouco mais de vinte computadores e os equipamentos do kit multimídia, mas a rádio não funciona há mais de um ano. Segundo o professor Fábio Nepomuceno, "a rádio está em processo de reativação". O motivo? Defeito na antena. "Pedimos manutenção com freqüência, mas o atendimento é muito complicado".
Para um dos fundadores do projeto, Ismar de Oliveira, professor e coordenador do NCE/USP, o investimento em informática e internet pode ser uma alternativa para manter o projeto e ainda resolver problemas como o da escola de Perus. Ele ressalta que o importante não é o equipamento ou o meio pelo qual é executado, mas, sim, o conceito de educomunicação. "A tecnologia ainda é vista nas escolas como acessório e não como algo essencial no processo pedagógico. Por isso, torcemos pelo sucesso do programa", destaca.
PRODUZIR AO INVÉS DE CONSUMIR
Outra escola, em Perus, aguarda a chegada do kit para a implantação da rádio. É a E.M.E.F. Cândido Portinari. Mesmo sem os equipamentos, a rádio deve entrar no ar, pela internet, graças ao esforço de uma entusiasta da idéia: a professora Rosa Rodrigues. Ela reconhece a importância e o alcance do projeto como ferramenta pedagógica: "Ele é capaz de mostrar aos alunos a diferença entre produzir e apenas consumir. A partir do momento em que você produz, pode avaliar melhor o que consome".
Rosa diz que sonha ver a rádio funcionando, produzida pelos alunos da escola, localizada em uma região carente da capital paulista. A professora não se opõe à utilização da internet para a produção, mas faz uma ressalva importante: "poderemos mostrar para o mundo nossa rádio, mas não para grande parte da comunidade de Perus que não possui computador". Ela se refere ao alcance das rádios escolares que, nos moldes anteriores, deveria atingir um quilômetro e, portanto, chegaria às casas da maioria dos estudantes.
REPÓRTER POR UM DIA
Depois do Campus Party, os alunos do programa "Nas Ondas do Rádio" realizaram sua segunda cobertura jornalística, este ano. Cerca de 100 estudantes se transformaram em "repórteres por um dia" durante o Congresso Internacional das Cidades Educadoras, realizado entre os dias 24 e 27 de abril, no Anhembi. A transmissão foi realizada ao vivo para todos os espaços do evento, de acordo com o coordenador do programa, Carlos Lima.
Além de entrevistar especialistas, celebridades e anônimos, a rádio escola também informou o público sobre o evento. Quatro colégios da rede municipal foram convidados: as E.M.E.F's Brigadeiro Haroldo Veloso e José Quirino Ribeiro, de Itaquera; Francisco Gracioso, de Perus e a Professor Nelson Pimentel Queiroz, de Jabaquara. A cobertura está disponível no blog do programa.