Tecnologia bem usada
Educação sem fio
Aparelhos celulares, geralmente banidos das salas de aula, podem contribuir para a melhoria da qualidade do ensino
Por Carlos Minuano
Planeta Sustentável - 20/12/2007
Computadores na escola não representam exatamente uma novidade, embora isso ainda não seja de fato uma realidade no Brasil. Mas o que muitos não sabem é que os aparelhos celulares, geralmente banidos das salas de aula, podem contribuir um bocado para a melhoria da qualidade do ensino. O tema, no entanto, é polêmico. Nem todos concordam com essa utilidade. Entre os principais opositores encontram-se os próprios professores. O impasse ficou evidente no 2º. Seminário Internacional Mobilefest, sobre tecnologia móvel, realizado em São Paulo na primeira semana de dezembro.
Controvérsias à parte, experiências avançam em todo o mundo. É o caso do game para celular "Ere be dragons - Heartlands", desenvolvido pela artista inglesa Rachel Jacobs, presente no evento. "Não sei como é aqui, mas na Inglaterra as crianças pararam de brincar por causa dos games", conta Jacobs. "Por isso, nos jogos, decidimos inserir atividades que estimulem a criatividade e propiciem experiências educadoras".
O game, desenvolvido em 2005 por Jacobs, possui um monitor de batimentos cardíacos. Os caminhos percorridos no jogo funcionam de acordo com as condições de saúde do jogador. Quanto mais saudável, mais batimentos e mais pontos acumulados. "As crianças gostam porque também aparecem grandes monstros peludos", diz a artista. No entanto, sem que percebam, questões importantes sobre corpo e saúde acabam vindo à tona. Segundo Jacobs, algumas escolas do Reino Unido já estão trabalhando com o game.
"As escolas precisam aceitar a tecnologia móvel de forma útil", afirmou por meio de videoconferência, Graham Brown Martin, fundador e gerente da Handheld Learning, editora de softwares e catalisadora de mudanças importantes no setor de tecnologia educacional na Inglaterra. "Até 2008, teremos mais celulares do que pessoas", disse. O empreendedor das novas tecnologias prevê uma espécie de explosão cultural. "Nos próximos dez anos, toda criança terá um computador de mão ou um equipamento móvel de aprendizado".
ONDA DIGITAL
O medo da tecnologia, entretanto, ainda emperra avanços. "Teme-se que nossa humanidade seja extinta", ironiza Martin. A utilização do aparelho, segundo ele, poderia começar na escola. "É um meio de informação", afirma. Para ele, fotos e vídeos poderiam estar há tempos interagindo com a sala de aula. "Em muitas escolas, o uso do celular é proibido devido a supostos usos inadequados, mas o lápis já serviu para escrever coisas horríveis", ressalta. "É função da escola educar o uso desse meio".
Hoje, a maioria dos jovens não conhece o mundo sem celular. Inserir esse meio na sala de aula, para muitos especialistas, é uma forma inteligente de atrair os alunos para os estudos, conseguindo ainda um engajamento maior da parte deles. Há, porém, quem veja uma ameaça na chamada "onda digital": os professores. Porque eles temem perder o controle. Mas, apesar da resistência, quase todos concordam em um ponto: é preciso se atualizar. Muitos apostam que, do contrário, correm o risco de deixar de existir. "Quanto mais tentarmos deter os jovens em relação ao uso do celular, mais eles vão querer utilizá-lo", analisa Martin.
ESCOLAS TECNOLÓGICAS
Um projeto de inclusão digital realizado em uma escola pública localizada em Taipas, região carente de São Paulo, é outro bom exemplo de como as novas tecnologias podem ser uma poderosa ferramenta a serviço da educação, independente da classe social. Coordenado pela pesquisadora Irene Ficherman, da Politécnica - USP, mais de 200 laptops foram disponibilizados aos alunos: a maioria mora nas favelas e conjuntos habitacionais.
Na avaliação de Ficherman, as pessoas aprendem melhor quando querem aprender e a tecnologia pode ser um grande incentivo. Após alguns meses, em Taipas, isso ficou evidente para ela. "Agora, os estudantes faltam menos, são mais ativos e interessados, ficou mais fácil trabalhar com eles".
Para o professor e pesquisador inglês Martin Owen, especialista na área de tecnologia do aprendizado, há um abismo entre educadores e as possibilidades da tecnologia. Owen afirma que resta a eles uma importante lição de casa: descobrir formas de utilizar esses novos meios, e, em especial, o celular, como instrumento e fonte de conhecimento. "A educação mudou e o papel do professor agora deve ser o de provocador", conclui.
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2º. Seminário Internacional Mobilefest, sobre tecnologia móvel, realizado em São Paulo na primeira semana de dezembro.
Controvérsias à parte, experiências avançam em todo o mundo. É o caso do game para celular "Ere be dragons - Heartlands", desenvolvido pela artista inglesa Rachel Jacobs, presente no evento. "Não sei como é aqui, mas na Inglaterra as crianças pararam de brincar por causa dos games", conta Jacobs. "Por isso, nos jogos, decidimos inserir atividades que estimulem a criatividade e propiciem experiências educadoras".
O game, desenvolvido em 2005 por Jacobs, possui um monitor de batimentos cardíacos. Os caminhos percorridos no jogo funcionam de acordo com as condições de saúde do jogador. Quanto mais saudável, mais batimentos e mais pontos acumulados. "As crianças gostam porque também aparecem grandes monstros peludos", diz a artista. No entanto, sem que percebam, questões importantes sobre corpo e saúde acabam vindo à tona. Segundo Jacobs, algumas escolas do Reino Unido já estão trabalhando com o game.
"As escolas precisam aceitar a tecnologia móvel de forma útil", afirmou por meio de videoconferência, Graham Brown Martin, fundador e gerente da Handheld Learning, editora de softwares e catalisadora de mudanças importantes no setor de tecnologia educacional na Inglaterra. "Até 2008, teremos mais celulares do que pessoas", disse. O empreendedor das novas tecnologias prevê uma espécie de explosão cultural. "Nos próximos dez anos, toda criança terá um computador de mão ou um equipamento móvel de aprendizado".
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O medo da tecnologia, entretanto, ainda emperra avanços. "Teme-se que nossa humanidade seja extinta", ironiza Martin. A utilização do aparelho, segundo ele, poderia começar na escola. "É um meio de informação", afirma. Para ele, fotos e vídeos poderiam estar há tempos interagindo com a sala de aula. "Em muitas escolas, o uso do celular é proibido devido a supostos usos inadequados, mas o lápis já serviu para escrever coisas horríveis", ressalta. "É função da escola educar o uso desse meio".
Hoje, a maioria dos jovens não conhece o mundo sem celular. Inserir esse meio na sala de aula, para muitos especialistas, é uma forma inteligente de atrair os alunos para os estudos, conseguindo ainda um engajamento maior da parte deles. Há, porém, quem veja uma ameaça na chamada "onda digital": os professores. Porque eles temem perder o controle. Mas, apesar da resistência, quase todos concordam em um ponto: é preciso se atualizar. Muitos apostam que, do contrário, correm o risco de deixar de existir. "Quanto mais tentarmos deter os jovens em relação ao uso do celular, mais eles vão querer utilizá-lo", analisa Martin.
ESCOLAS TECNOLÓGICAS
Um projeto de inclusão digital realizado em uma escola pública localizada em Taipas, região carente de São Paulo, é outro bom exemplo de como as novas tecnologias podem ser uma poderosa ferramenta a serviço da educação, independente da classe social. Coordenado pela pesquisadora Irene Ficherman, da Politécnica - USP, mais de 200 laptops foram disponibilizados aos alunos: a maioria mora nas favelas e conjuntos habitacionais.
Na avaliação de Ficherman, as pessoas aprendem melhor quando querem aprender e a tecnologia pode ser um grande incentivo. Após alguns meses, em Taipas, isso ficou evidente para ela. "Agora, os estudantes faltam menos, são mais ativos e interessados, ficou mais fácil trabalhar com eles".
Para o professor e pesquisador inglês Martin Owen, especialista na área de tecnologia do aprendizado, há um abismo entre educadores e as possibilidades da tecnologia. Owen afirma que resta a eles uma importante lição de casa: descobrir formas de utilizar esses novos meios, e, em especial, o celular, como instrumento e fonte de conhecimento. "A educação mudou e o papel do professor agora deve ser o de provocador", conclui.
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