entrevista
Um Planeta que precisa de Ciência
Dra. Harriett Stubbs, diretora do SCI-LINK - centro que colabora para o ensino da Ciência nas escolas norte-americanas - fala ao Planeta Sustentável sobre a versão brasileira do projeto, que leva professores do EUA e do Brasil para conhecer a Amazônia e o Pantanal. Ela explica a importância da curiosidade e do pensamento científico para o aprendizado
Por Daniela Silva
Planeta Sustentável - 23/09/2007
Da janela do apartamento ou pela tela da televisão. Se é assim que nossos alunos estão se relacionando com o meio ambiente, tudo indica que seja difícil para os professores ensiná-los a cuidar da Terra. Preocupada com essa situação, a North Carolina University criou um programa que pretende estimular a curiosidade e o pensamento científico nas escolas, por meio da formação dos professores - que, após reformularem suas técnicas pedagógicas, e aprenderem eles mesmos a explorar novos ambientes, podem levar seus alunos a se conectarem com o planeta onde vivem.
O Sci-Link é, antes de tudo, um projeto que liga cientistas, professores e estudantes, com o objetivo de transformar conhecimento científico e experiência internacional em práticas pedagógicas. Os seus fundadores acreditam que a ciência deveria ser mais do que uma disciplina nas escolas: ela deveria ser encarada como um processo, como um modo de pensar. Por meio da colaboração, uma rede é estabelecida entre a universidade, as agências de incentivo governamentais, os cientistas, os professores e os alunos. Por meio das trocas entre eles, o conhecimento cresce e se renova.
No programa Sci-Link Brasil, professores de ciências dos Estados Unidos viajam junto com professores brasileiros (selecionados por entidades de pesquisa) para descobrir uma cidade ou um ecossistema do país (as expedições já passaram por São Paulo, Amazônia, Pantanal e Cataratas do Iguaçu). Além disso, eles visitam escolas públicas e privadas, e discutem com palestrantes e pesquisadores os desafios da sua profissão. Mais do que conhecer a natureza do Brasil, os educadores têm então a oportunidade de trocar idéias, visões de mundo, e de se tornarem mais cientes das similaridades que existem entre eles.
O projeto acontece por meio da cooperação entre o Instituto Sangari e a North Carolina University. A diretora do programa, Dra. Harriett Stubbs, concedeu uma entrevista exclusiva para o Planeta Sustentável sobre ciência, educação e meio ambiente.
Quais são as descobertas mais interessantes de um encontro entre educadores brasileiros e norte-americanos para discutir o ensino de ciências?
Os professores brasileiros acham que não há problemas na educação norte-americana. Mas isso não é verdade, e tudo o que precisamos fazer para mudar essa concepção foi possibilitar o intercâmbio entre eles os professores americanos. Rapidamente, os participantes dos programas percebem que têm muito em comum. Nos EUA, por exemplo, viajar para explorar novas possibilidades também é muito caro para um professor. A razão do programa passar por São Paulo é que pouquíssimos professores americanos tiveram a chance de visitar uma metrópole gigantesca como essa, com tantos problemas, mas também com tantas possibilidades. Em São Paulo é que o grupo se reúne, se conhece, e conhece também os seus formadores.
Como são compostas as turmas de professores americanos que visitam o Brasil pelo programa Sci-Link?
Recebemos professores de diversos lugares dos Estados Unidos, desde estudantes do último ano da universidade de Educação até professores recém-aposentados. Em 2007, recebemos inclusive uma especialista em novas mídias, alguém que trabalha na biblioteca da escola cuidando especificamente de recursos tecnológicos e áudio-visuais para o ensino. Também recebemos alguns educadores de adultos. A maioria desses professores recebe bolsas de estudos de diferentes fundações norte-americanas para fazer o programa.
Antes do programa, o que é que esses professores costumavam falar para os seus alunos sobre o Brasil?
Floresta tropical. Essa é a única coisa que eles abordariam sobre o Brasil antes do programa.
E o Sci-Link acaba mudando essa concepção?
Sim, com certeza. Os professores da última turma, por exemplo, passaram uma semana em São Paulo e uma semana no Pantanal. Nas avaliações que recebemos deles no final do programa, a maioria destacou o aprendizado sobre a cultura brasileira. Uma pessoa que veio pela primeira vez nesse ano, por exemplo, já estruturou um trabalho interdisciplinar que vai abordar o Brasil nas aulas de ciências sociais, de matemática e de literatura. E esses professores também vão levar o que aprenderam para suas organizações profissionais e para o seu local de trabalho, a multiplicação é um dos pré-requisitos da bolsa que a maioria deles recebe.
Como é possível convencer os professores que eles precisam de estratégias diferentes para provocar a curiosidade dos seus alunos?
Basta colocá-los num lugar diferente, com pessoas diferentes e dar coisas diferentes pra eles fazerem. Depois que um dos professores começa a falar, logo se percebe que todos eles têm algo a dizer. Nós descobrimos que uma das coisas mais importantes que nós temos que fazer é estimulá-los a tirar seus alunos da sala de aula. Imagine a diferença de falar sobre os animais para uma criança que já foi ao zoólogico e uma que só conhece o elefante pela televisão - essa diferença precisa ser considerada pelos professores. No programa, os professores também tiram fotos, colhem folhas, frutos secos, e outros materiais do Brasil para que as crianças possam ver e tocar naquilo que estão estudando
Você vê maneiras para que os professores brasileiros também consigam levar essas mesmas informações para o seu cotidiano? As crianças do Brasil também só conhecem a floresta pelos livros
Nós perguntamos aos professores que participaram do último intercâmbio o que eles fariam para estimular os seus alunos para a pesquisa e para a curiosidade quando voltassem às suas escolas. E foi surpreendente pra mim ouvir, de uma professora de São Paulo, a seguinte resposta: "eu levarei os meus alunos a uma floricultura". É isso mesmo, lá eles verão alguma biodiversidade que eles não poderão ver na sala de aula. Os professores ficam muito contentes ao descobrirem essas novas possibilidades.
E por que isso é tão importante para os alunos?
A maioria dos problemas de aprendizado das crianças vêm do fato delas não se sentirem conectadas com aquilo que a escola mostra pra elas. A exploração é importantíssima, porque as crianças precisam experimentar para aprender. Tirar os alunos da sala de aula é difícil, pois isso também requer tempo, planejamento, dinheiro. Mas é necessário, porque gera reações imediatas das crianças, reações necessárias para que elas se conectem com o mundo onde vivem.
Pode estar nessa forma diferenciada de ensinar o estímulo necessário para que as crianças se conectem com o meio ambiente e aprendam a tomar conta do planeta?
Eu acho que as pessoas, e não apenas as crianças, precisam de perspectivas diferentes nesse sentido. E precisam também entender que a informação pode vir de muitos lugares, assim como da escola. Nos Estados Unidos, infelizmente, o governo tem sido muito negativo no tratamento desses assuntos. O ensino da ciência, e o estímulo da curiosidade não são mais prioridade nas escolas. Esperamos que isso mude. O fato é que os cientistas precisam se apegar à ciencia, mas também precisam se preocupar com como as pessoas reagem às revelações que produzem, e esse é um grande desafio para todos nós.
Da janela do apartamento ou pela tela da televisão. Se é assim que nossos alunos estão se relacionando com o meio ambiente, tudo indica que seja difícil para os professores ensiná-los a cuidar da Terra. Preocupada com essa situação, a
North Carolina University criou um programa que pretende estimular a curiosidade e o pensamento científico nas escolas, por meio da formação dos professores - que, após reformularem suas técnicas pedagógicas, e aprenderem eles mesmos a explorar novos ambientes, podem levar seus alunos a se conectarem com o planeta onde vivem.
O Sci-Link é, antes de tudo, um projeto que liga cientistas, professores e estudantes, com o objetivo de transformar conhecimento científico e experiência internacional em práticas pedagógicas. Os seus fundadores acreditam que a ciência deveria ser mais do que uma disciplina nas escolas: ela deveria ser encarada como um processo, como um modo de pensar. Por meio da colaboração, uma rede é estabelecida entre a universidade, as agências de incentivo governamentais, os cientistas, os professores e os alunos. Por meio das trocas entre eles, o conhecimento cresce e se renova.
No programa Sci-Link Brasil, professores de ciências dos Estados Unidos viajam junto com professores brasileiros (selecionados por entidades de pesquisa) para descobrir uma cidade ou um ecossistema do país (as expedições já passaram por São Paulo, Amazônia, Pantanal e Cataratas do Iguaçu). Além disso, eles visitam escolas públicas e privadas, e discutem com palestrantes e pesquisadores os desafios da sua profissão. Mais do que conhecer a natureza do Brasil, os educadores têm então a oportunidade de trocar idéias, visões de mundo, e de se tornarem mais cientes das similaridades que existem entre eles.
O projeto acontece por meio da cooperação entre o Instituto Sangari e a North Carolina University. A diretora do programa, Dra. Harriett Stubbs, concedeu uma entrevista exclusiva para o Planeta Sustentável sobre ciência, educação e meio ambiente.
Quais são as descobertas mais interessantes de um encontro entre educadores brasileiros e norte-americanos para discutir o ensino de ciências?
Os professores brasileiros acham que não há problemas na educação norte-americana. Mas isso não é verdade, e tudo o que precisamos fazer para mudar essa concepção foi possibilitar o intercâmbio entre eles os professores americanos. Rapidamente, os participantes dos programas percebem que têm muito em comum. Nos EUA, por exemplo, viajar para explorar novas possibilidades também é muito caro para um professor. A razão do programa passar por São Paulo é que pouquíssimos professores americanos tiveram a chance de visitar uma metrópole gigantesca como essa, com tantos problemas, mas também com tantas possibilidades. Em São Paulo é que o grupo se reúne, se conhece, e conhece também os seus formadores.
Como são compostas as turmas de professores americanos que visitam o Brasil pelo programa Sci-Link?
Recebemos professores de diversos lugares dos Estados Unidos, desde estudantes do último ano da universidade de Educação até professores recém-aposentados. Em 2007, recebemos inclusive uma especialista em novas mídias, alguém que trabalha na biblioteca da escola cuidando especificamente de recursos tecnológicos e áudio-visuais para o ensino. Também recebemos alguns educadores de adultos. A maioria desses professores recebe bolsas de estudos de diferentes fundações norte-americanas para fazer o programa.
Antes do programa, o que é que esses professores costumavam falar para os seus alunos sobre o Brasil?
Floresta tropical. Essa é a única coisa que eles abordariam sobre o Brasil antes do programa.
E o Sci-Link acaba mudando essa concepção?
Sim, com certeza. Os professores da última turma, por exemplo, passaram uma semana em São Paulo e uma semana no Pantanal. Nas avaliações que recebemos deles no final do programa, a maioria destacou o aprendizado sobre a cultura brasileira. Uma pessoa que veio pela primeira vez nesse ano, por exemplo, já estruturou um trabalho interdisciplinar que vai abordar o Brasil nas aulas de ciências sociais, de matemática e de literatura. E esses professores também vão levar o que aprenderam para suas organizações profissionais e para o seu local de trabalho, a multiplicação é um dos pré-requisitos da bolsa que a maioria deles recebe.
Como é possível convencer os professores que eles precisam de estratégias diferentes para provocar a curiosidade dos seus alunos?
Basta colocá-los num lugar diferente, com pessoas diferentes e dar coisas diferentes pra eles fazerem. Depois que um dos professores começa a falar, logo se percebe que todos eles têm algo a dizer. Nós descobrimos que uma das coisas mais importantes que nós temos que fazer é estimulá-los a tirar seus alunos da sala de aula. Imagine a diferença de falar sobre os animais para uma criança que já foi ao zoólogico e uma que só conhece o elefante pela televisão - essa diferença precisa ser considerada pelos professores. No programa, os professores também tiram fotos, colhem folhas, frutos secos, e outros materiais do Brasil para que as crianças possam ver e tocar naquilo que estão estudando
Você vê maneiras para que os professores brasileiros também consigam levar essas mesmas informações para o seu cotidiano? As crianças do Brasil também só conhecem a floresta pelos livros
Nós perguntamos aos professores que participaram do último intercâmbio o que eles fariam para estimular os seus alunos para a pesquisa e para a curiosidade quando voltassem às suas escolas. E foi surpreendente pra mim ouvir, de uma professora de São Paulo, a seguinte resposta: "eu levarei os meus alunos a uma floricultura". É isso mesmo, lá eles verão alguma biodiversidade que eles não poderão ver na sala de aula. Os professores ficam muito contentes ao descobrirem essas novas possibilidades.
E por que isso é tão importante para os alunos?
A maioria dos problemas de aprendizado das crianças vêm do fato delas não se sentirem conectadas com aquilo que a escola mostra pra elas. A exploração é importantíssima, porque as crianças precisam experimentar para aprender. Tirar os alunos da sala de aula é difícil, pois isso também requer tempo, planejamento, dinheiro. Mas é necessário, porque gera reações imediatas das crianças, reações necessárias para que elas se conectem com o mundo onde vivem.
Pode estar nessa forma diferenciada de ensinar o estímulo necessário para que as crianças se conectem com o meio ambiente e aprendam a tomar conta do planeta?
Eu acho que as pessoas, e não apenas as crianças, precisam de perspectivas diferentes nesse sentido. E precisam também entender que a informação pode vir de muitos lugares, assim como da escola. Nos Estados Unidos, infelizmente, o governo tem sido muito negativo no tratamento desses assuntos. O ensino da ciência, e o estímulo da curiosidade não são mais prioridade nas escolas. Esperamos que isso mude. O fato é que os cientistas precisam se apegar à ciencia, mas também precisam se preocupar com como as pessoas reagem às revelações que produzem, e esse é um grande desafio para todos nós.