cinema e filosofia
Filosofia na telona
O filósofo francês Olivier Pourriol mistura Forrest Gump com Descartes
Clarinha Glock
Revista Vida Simples – 11/2009
[img01] O que Brad Pitt, Tom Cruise e Keanu Reeves têm a ver com Descartes, Spinoza ou Kant? Nas palestras do francês Ollivier Pourriol, os personagens interpretados por esses atores em filmes como Clube da Luta, Colateral e Matrix ajudam a compreender filosofia. Pourriol, 37 anos, largou as salas de aula tradicionais e há quatro anos faz palestras buscando no cinema a ilustração das ideias dos grandes pensadores. É assim que o personagem de Tom Hanks em Forrest Gump, com sua corrida para lugar nenhum, nos ajuda a compreender a diferença, segundo René Descartes, entre a capacidade de entendimento, que é finita, e a vontade, que é ilimitada.
Essa e outras cenas estão registradas no livro Cinefilô - As Mais Belas Questões da Filosofia no Cinema. Pourriol é um apaixonado por filmes, livros e filosofia, mas sem radicalismos. "Eu não pratico filosofia por curiosidade, mas para viver melhor", explica. Em meio a suas palestras, e enquanto não sai o segundo livro sobre filosofia e cinema, ele apronta um script baseado na obra La Isla de los Hombres Solos, de Jose Leon Sanchez. E, desta vez, nem Luis Buñuel, nem Clint Eastwood. Quem vai dirigir o filme é o próprio Pourriol. Afinal, se pensar é arriscar-se, como diriam seus amigos filósofos, ele está pronto para colocar em prática os ensinamentos dos mestres.
Como você começou a usar cinema em suas palestras?
Dava aulas normais para o ensino médio, mas achava os textos muito abstratos e distantes do dia a dia, por causa da linguagem. Achava que a filosofia tinha de ir além das aulas e se voltar mais para a vida. E a conexão entre mim e meus estudantes eram os filmes. Todo mundo vai ao cinema e todos, no mundo, podem ver o mesmo filme.
Como é a escolha dos filmes?
Eu escolho filmes de que gosto, outros que pessoas me recomendaram. Tentei fazer uma mistura e tornar o mais surpreendente e claro possível. Filmes como Clube da Luta e X-Men eu gosto muito. Outros, como Matrix, não gosto, mas permitem fazer a conexão com Descartes. O cinema é uma arte abstrata. Um pouco como na psicanálise ou psiquiatria, ela tem arquétipos. Forrest Gump é alguém com pouca capacidade de entendimento, mas muito desejo. É uma figura abstrata, como o triângulo, o círculo. Pode-se usar a ficção para tentar descrever algo, entender a realidade.
Você acredita que seus cursos promovem mudanças de comportamento?
Meus "estudantes" são as pessoas que pagam pelo ingresso. Eles têm entre 12 anos e 85 anos de idade. Não é como uma escola, não há provas. Eles são livres para vir quando quiserem, para fazer perguntas. Então as reações são surpreendentes. Alguns vêm nas palestras há três ou quatro anos. Uma vez fiz uma palestra sobre o que é uma família e usei filmes como A Guerra dos Mundos, de Steven Spielberg, Marcas da Violência, de David Cronenberg, e Pequena Miss Sunshine, de Jonathan Dayton e Valerie Faris. Um ano depois, um pai veio falar comigo e disse: "Sabe, eu tinha deixado minha família. Minha filha tinha 7 anos. Eu assisti a sua palestra, e decidi voltar para minha mulher e filha". Para essa pessoa o efeito foi muito forte.
Quais filósofos foram mencionados nessa ocasião?
Auguste Comte e Hegel. Eles explicam a diferença entre um pai e uma mãe, o que é uma criança e o que se supõe que uma família tenha que fazer. Se você vê Tom Cruise no início de Guerra dos Mundos, ele está divorciado, mal consegue alimentar sua filha, o refrigerador está vazio. No fim do filme, por causa da guerra, ele se torna um pai. Não se vê mais o interior da casa - ou o interior do refrigerador -, mas o mundo de fora. Usando esse filme e o texto de Comte, você acende uma luz - foi o que aconteceu com aquele pai.
Qual é a reação provocada nos adolescentes?
Eu uso os filmes para apresentar-lhes os filósofos. Então eles perdem o medo da filosofia. Nessa idade, tudo é muito intenso. Eles ficam contentes de vir, de perguntar, de dar ideias, sentem-se livres. Estão fora da sala de aula. Noto que os professores não estão satisfeitos com a forma como ensinam, de ter que dar notas e agir como se fossem juízes. O que faz um bom professor é o prazer de compartilhar, e não dar notas. Alguns vêm a minhas palestras e contam que a relação com os estudantes muda: de repente eles se sentem autorizados a falar sobre o que gostam - e todo mundo gosta de cinema, inclusive os professores.
Descartes é tido como o filósofo das dúvidas e da ação. Como usar suas ideias para questionar a atualidade?
Descartes faz o link entre geometria e álgebra. Tudo o que existe no mundo pode ser colocado numa equação, codificado e recriado. Como acontece no filme Matrix, em que se cria um novo mundo com números. A única coisa que não se pode recriar é o pensamento, a mente, as ideias - estas não podem surgir do nada. Em Matrix, por exemplo, a diferença entre o ser humano e a máquina é que a máquina não pode entender o que é liberdade. Descartes, por um lado, era um grande matemático, mas por outro entendia que liberdade e alma não podiam ser colocados em uma equação. Quando se lê Descartes, percebe-se que há uma grande diferença entre o espaço do corpo e o da alma.
Como a filosofia pode mudar a vida de alguém?
Você vê a vida diferente. Mas é difícil responder. Quando eu tinha 18 anos, a filosofia foi uma grande revelação sobre a verdade da vida. Agora eu acredito que o perigo da filosofia é que lhe dá um nível de abstração. E, se você se mantém só no abstrato, você não vive. Muitas pessoas que fazem filosofia acabam lendo o tempo todo, entendendo as coisas, mas não vivendo. Então o que você descobre quando alcança os filósofos - não todos eles, tem de escolher quais são seus "amigos" - é que eles não sabem muito sobre a vida. Acho que há muito mais nos filmes e na arte. A verdadeira resposta é que não há resposta para tudo. Quando você entende isso, começa a apreciar mais a vida. Compreende que não é preciso pensar o tempo todo. Quando você assiste a um filme, você não pensa o tempo todo. A reação à energia e à beleza vem antes, depois vem o pensamento.
Para saber mais
Cinefilô - As Mais Belas Questões da Filosofia no Cinema, Jorge Zahar
[img01] O que Brad Pitt, Tom Cruise e Keanu Reeves têm a ver com Descartes, Spinoza ou Kant? Nas palestras do francês Ollivier Pourriol, os personagens interpretados por esses atores em filmes como Clube da Luta, Colateral e Matrix ajudam a compreender filosofia. Pourriol, 37 anos, largou as salas de aula tradicionais e há quatro anos faz palestras buscando no cinema a ilustração das ideias dos grandes pensadores. É assim que o personagem de Tom Hanks em Forrest Gump, com sua corrida para lugar nenhum, nos ajuda a compreender a diferença, segundo René Descartes, entre a capacidade de entendimento, que é finita, e a vontade, que é ilimitada.
Essa e outras cenas estão registradas no livro Cinefilô - As Mais Belas Questões da Filosofia no Cinema. Pourriol é um apaixonado por filmes, livros e filosofia, mas sem radicalismos. "Eu não pratico filosofia por curiosidade, mas para viver melhor", explica. Em meio a suas palestras, e enquanto não sai o segundo livro sobre filosofia e cinema, ele apronta um script baseado na obra La Isla de los Hombres Solos, de Jose Leon Sanchez. E, desta vez, nem Luis Buñuel, nem Clint Eastwood. Quem vai dirigir o filme é o próprio Pourriol. Afinal, se pensar é arriscar-se, como diriam seus amigos filósofos, ele está pronto para colocar em prática os ensinamentos dos mestres.
Como você começou a usar cinema em suas palestras?
Dava aulas normais para o ensino médio, mas achava os textos muito abstratos e distantes do dia a dia, por causa da linguagem. Achava que a filosofia tinha de ir além das aulas e se voltar mais para a vida. E a conexão entre mim e meus estudantes eram os filmes. Todo mundo vai ao cinema e todos, no mundo, podem ver o mesmo filme.
Como é a escolha dos filmes?
Eu escolho filmes de que gosto, outros que pessoas me recomendaram. Tentei fazer uma mistura e tornar o mais surpreendente e claro possível. Filmes como Clube da Luta e X-Men eu gosto muito. Outros, como Matrix, não gosto, mas permitem fazer a conexão com Descartes. O cinema é uma arte abstrata. Um pouco como na psicanálise ou psiquiatria, ela tem arquétipos. Forrest Gump é alguém com pouca capacidade de entendimento, mas muito desejo. É uma figura abstrata, como o triângulo, o círculo. Pode-se usar a ficção para tentar descrever algo, entender a realidade.
Você acredita que seus cursos promovem mudanças de comportamento?
Meus "estudantes" são as pessoas que pagam pelo ingresso. Eles têm entre 12 anos e 85 anos de idade. Não é como uma escola, não há provas. Eles são livres para vir quando quiserem, para fazer perguntas. Então as reações são surpreendentes. Alguns vêm nas palestras há três ou quatro anos. Uma vez fiz uma palestra sobre o que é uma família e usei filmes como A Guerra dos Mundos, de Steven Spielberg, Marcas da Violência, de David Cronenberg, e Pequena Miss Sunshine, de Jonathan Dayton e Valerie Faris. Um ano depois, um pai veio falar comigo e disse: "Sabe, eu tinha deixado minha família. Minha filha tinha 7 anos. Eu assisti a sua palestra, e decidi voltar para minha mulher e filha". Para essa pessoa o efeito foi muito forte.
Quais filósofos foram mencionados nessa ocasião?
Auguste Comte e Hegel. Eles explicam a diferença entre um pai e uma mãe, o que é uma criança e o que se supõe que uma família tenha que fazer. Se você vê Tom Cruise no início de Guerra dos Mundos, ele está divorciado, mal consegue alimentar sua filha, o refrigerador está vazio. No fim do filme, por causa da guerra, ele se torna um pai. Não se vê mais o interior da casa - ou o interior do refrigerador -, mas o mundo de fora. Usando esse filme e o texto de Comte, você acende uma luz - foi o que aconteceu com aquele pai.
Qual é a reação provocada nos adolescentes?
Eu uso os filmes para apresentar-lhes os filósofos. Então eles perdem o medo da filosofia. Nessa idade, tudo é muito intenso. Eles ficam contentes de vir, de perguntar, de dar ideias, sentem-se livres. Estão fora da sala de aula. Noto que os professores não estão satisfeitos com a forma como ensinam, de ter que dar notas e agir como se fossem juízes. O que faz um bom professor é o prazer de compartilhar, e não dar notas. Alguns vêm a minhas palestras e contam que a relação com os estudantes muda: de repente eles se sentem autorizados a falar sobre o que gostam - e todo mundo gosta de cinema, inclusive os professores.
Descartes é tido como o filósofo das dúvidas e da ação. Como usar suas ideias para questionar a atualidade?
Descartes faz o link entre geometria e álgebra. Tudo o que existe no mundo pode ser colocado numa equação, codificado e recriado. Como acontece no filme Matrix, em que se cria um novo mundo com números. A única coisa que não se pode recriar é o pensamento, a mente, as ideias - estas não podem surgir do nada. Em Matrix, por exemplo, a diferença entre o ser humano e a máquina é que a máquina não pode entender o que é liberdade. Descartes, por um lado, era um grande matemático, mas por outro entendia que liberdade e alma não podiam ser colocados em uma equação. Quando se lê Descartes, percebe-se que há uma grande diferença entre o espaço do corpo e o da alma.
Como a filosofia pode mudar a vida de alguém?
Você vê a vida diferente. Mas é difícil responder. Quando eu tinha 18 anos, a filosofia foi uma grande revelação sobre a verdade da vida. Agora eu acredito que o perigo da filosofia é que lhe dá um nível de abstração. E, se você se mantém só no abstrato, você não vive. Muitas pessoas que fazem filosofia acabam lendo o tempo todo, entendendo as coisas, mas não vivendo. Então o que você descobre quando alcança os filósofos - não todos eles, tem de escolher quais são seus "amigos" - é que eles não sabem muito sobre a vida. Acho que há muito mais nos filmes e na arte. A verdadeira resposta é que não há resposta para tudo. Quando você entende isso, começa a apreciar mais a vida. Compreende que não é preciso pensar o tempo todo. Quando você assiste a um filme, você não pensa o tempo todo. A reação à energia e à beleza vem antes, depois vem o pensamento.
Para saber mais
Cinefilô - As Mais Belas Questões da Filosofia no Cinema, Jorge Zahar