[img01] Que me desculpem os criadores das embalagens com formas quadradas e cor kraft dos produtos considerados "verdes", mas beleza é mesmo fundamental. Assim, é claro, como funcionalidade, qualidade, utilidade e outros tantos aspectos que fazem um objeto saltar aos nossos olhos quando passeamos pelo supermercado. Porque não tem jeito: não basta ter uma embalagem feita de plástico reciclado, usar produtos orgânicos ou naturais na sua composição. Hoje o mundo acordou para os conceitos de sustentabilidade e, para se adequar a isso, os designers têm o grande desafio de lançar às gôndolas itens úteis e atraentes, na medida certa - o que implica, mais que reutilizar, quebrar a lógica dos descartáveis. Não demora muito, será exigido que se garanta a todo e qualquer objeto - da tampa de uma garrafa à lataria de um carro - seu uso integral, fazendo com que seu reaproveitamento se torne uma premissa industrial. Isso nos leva, aos poucos, a repensar o uso das matérias-primas que temos disponíveis. "Cerca de 500 novos materiais são lançados por mês no globo. De um total de 80 mil, apenas 2500 são seguidamente usados - dos quais, basicamente, só o papel, o plástico e o metal chegam a centros de triagem", diz o engenheiro Wilson Kindlein Júnior, coordenador do Laboratório de Design e Seleção de Materiais da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFGRS). Mais adiantados, os europeus já identificam o ciclo de vida de seus materiais, o que apoia o designer na criação de produtos duráveis e aptos a retomar a roda-viva da linha de montagem quando caírem em desuso. Num futuro próximo, acredita-se que o rótulo ecológico será comum, mostrando ao consumidor, por exemplo, quanto de energia e água foi usado na fabricação daquele item. Com esse poder de escolha, passaremos a ter papel fundamental na eliminação do supérfluo. E na transformação de um ciclo que afeta a todos nós.
EXEMPLO DA NATUREZA
Mas como se faz para criar produtos que sejam ao mesmo tempo social e ecologicamente corretos e que tenham grande apelo sensorial? O designer carioca Fred Gelli destaca a natureza como fonte de inspiração. Para citar um dos maiores cases que já conheceu, Gelli usa o exemplo das flores, que foram criadas há 100 milhões de anos - muito depois das plantas, que já existiam há 3 bilhões - mas que hoje são o meio de reprodução de 90% das espécies vegetais do planeta. "É como lançar um produto às 8 da noite do dia 31 de dezembro e, até a meia-noite, dominar 90% do mercado", compara. Em sua analogia, a natureza parou de desperdiçar os esporos, antigamente levados pelo vento, criou as flores de maneira atraente, com diversos aromas, formas, texturas e cores, o que fez com que pássaros e insetos se tornassem polinizadores e, assim, aumentou em mais de 8000% o número de espécies vegetais. Esse é o viés da ainda pouco digerida ideia de design sustentável: uma cadeia integrada de ações em que materiais são usados com inteligência para criar produtos (as flores), promove-se inclusão social (os animais e insetos), respeita-se a diversidade cultural (o tipo de flor atraente para cada animal e inseto), evita-se o desperdício (os esporos) e cria-se uma gama de produtos que permita todas as ações anteriores (as novas espécies vegetais).
Numa perspectiva mais realista, percebe-se o crescente - porém, ainda pontual - uso profissional de materiais reciclados e resíduos industriais na criação de produtos. Depois de dez anos trabalhando com reciclados na Itália, o designer Marco Capellini se sentiu compelido pela exigência dos consumidores a criar a Remade in Italy, uma consultoria para empresas interessadas na proposta. Em 2009, a Remade tornou-se uma associação sem fins lucrativos responsável pela promoção e venda dos produtos dessas empresas. Já na questão dos rótulos ecológicos, uma das ações da Remade in Italy foi anexar às peças feitas com material reciclado uma etiqueta com informações de fabricação. Uma arrojada cadeira de metal, por exemplo, é identificada com 55% de aço e 22% de alumínio reciclados e apenas 23% dos dois metais virgens. A fabricação dos componentes reciclados economiza energia e gás carbônico se comparada à dos virgens. "É preciso educar o consumidor, contando do que são feitos os produtos e por que são sustentáveis", diz Capellini. No processo de criação e escolha de materiais para se chegar a esse resultado, há também iniciativas que ganham espaço. Desde o ano passado, designers e engenheiros de companhias do mundo todo contam com a ajuda do software canadense SolidWorks, em 3D, para obter a avaliação prévia do ciclo de vida e do impacto ambiental de seus projetos - um processo que custava meses de trabalho e milhares de dólares. A ferramenta dá uma ideia de como cada elemento da peça em questão repercute no ar, na água e no uso de energia locais.
No Brasil, o ecodesign tem aliado a busca do baixo impacto ambiental à necessidade de populações de baixa renda. Vencedora do prêmio europeu If Product Design Award 2009, a lavadora Superpop chama atenção por três aspectos: pode ser desmontada, o que permite que seja carregada até em casa no ônibus ou no carro, evitando emissões de carbono com o transporte do caminhão da loja, tem 3 quilos a menos de plástico comparada a lavadoras comuns, consumindo menos energia e resina na fabricação, e, por fim, pode ser compartilhada. "A leveza e a alça do produto permitem que ele seja emprestado nas comunidades onde é usado", conta um dos criadores, o designer Gustavo Chelles, de São Paulo. Na Universidade de São Paulo (USP), o recolhimento de toneladas de peças de computador gera, desde 2009, a recuperação e montagem de cerca de 50 máquinas por mês, direcionadas a projetos sociais. "As instituições se comprometem a devolvê-las à USP quando se tornarem obsoletas", diz Tereza Cristina Carvalho, coordenadora do Laboratório de Sustentabilidade do Departamento de Engenharia da Computação e Sistemas Digitais da instituição. Desde 2008, a USP também já comprou cerca de 5 mil computadores novos através de uma licitação que estimula empresas a fabricar máquinas sem adição de metais pesados, como chumbo ou cádmio, e com maior eficiência energética, garantindo-lhe um selo verde. Na área de decoração, o uso da madeira morta - caída em floresta ou encontrada em praias e rios - na criação de móveis tem ganhado adeptos, mas ainda para um público com alto poder aquisitivo. "Além de ser uma matéria-prima antiga, a madeira é versátil e fácil de ser reutilizada", diz o arquiteto Carlos Motta, de São Paulo. Desde os anos 1970, Motta prestou atenção nas madeiras trazidas pelo mar e começou a criar algumas peças. Hoje ele tem uma empresa especializada em projetos de arquitetura, móveis e trabalhos especiais feitos sob encomenda, sempre reaproveitando pedaços de madeira abandonados ou certificados.
Tudo indica que estamos na contracorrente de um ideal implantado pelos EUA no pós-guerra para reaquecer o mercado: a ideia de que o consumo se tornasse um modo de vida e de que, como defendia o economista e empresário Victor Lebow, as coisas fossem queimadas, desgastadas, substituídas e descartadas em um ritmo cada vez maior, fazendo a máquina girar. A solução, no entanto, não é negar matérias-primas como o plástico nem usar apenas recicláveis, mas saber aproveitar a variedade de materiais disponíveis e combiná-los de forma que objetos e peças possam ser desmontados, substituídos, reutilizados e, a partir daí, mostrar ao consumidor que produtos ele realmente precisa adquirir. Um exemplo é a retomada das simpáticas vendas a granel que, além de dispensar embalagens, deixam os consumidores mais autossuficientes, como ocorre na Califórnia. "Você leva o frasco e a máquina só registra o peso do produto", conta o arquiteto Carlos Motta, que já morou no estado americano.
SOCIEDADE VERDE
Mas não podemos negar que ainda estamos condicionados a um consumismo desvairado, ainda mais no Brasil, com o aumento da renda das classes C e D. "Hoje as pessoas jogam um micro-ondas fora porque não pagam por isso. Se pensarmos que em 2050 seremos 9,5 bilhões de pessoas no planeta, vai ser difícil ter espaço para o lixo", diz Gelli. Para o designer carioca, nossas aquisições tendem a ganhar o status de serviço, como no caso de, em vez de comprar um purificador de água, apenas alugar o equipamento da empresa - que se responsabiliza por sua manutenção. Ou então tendem a ser coletivas, como na proposta de oficinas em edifícios, em que os condôminos dividem uma máquina de furar.
Disparidades à parte, de acordo com o relatório da organização norte-americana Worldwatch Institute (WWI), boa parte dos consumidores é a favor de uma legislação que cobre das empresas mais proteção ao meio ambiente, além da criação de leis que exijam instruções claras sobre uso e descarte dos produtos. Migramos de uma época em que se acreditava que o planeta seria uma fonte inesgotável de matérias-primas para um período em que as normas de controle e gestão ambiental já não mais satisfazem. Recentes medidas soam como o prenúncio de uma nova postura das empresas, como é o caso da implantação da Política Nacional de Resíduos Sólidos, no ano passado, que visa responsabilizar as indústrias pelo destino de seus produtos quando forem descartados. Segundo o italiano Marco Capellini, autor de um decreto-lei em que entidades públicas são obrigadas a comprar produtos reciclados obtidos a partir da coleta seletiva de seu país, de alguma forma as legislações contribuem para a conscientização do consumidor. "Estamos passando de escolhas de interesses individuais às de interesse coletivo. A escolha do consumidor pode e deve afetar o mercado, que até agora tem afetado o consumidor", completa Capellini. De uma coisa sabemos: numa sociedade cada vez mais conectada, está ficando difícil uma empresa fingir que é "verde". Os consumidores têm se utilizado da internet para avaliar, reclamar e denunciar produtos e serviços, a exemplo do tão replicado flagra da utilização do trabalho escravo pela marca de roupas Zara. Talvez o grande salto do ecodesign seja, agora, o da transformação de uma utopia nos traços iniciais de um novo projeto, com o olhar ainda curioso, mas atento, do consumidor. Ele próprio mais disposto a fazer parte de uma mudança que começa antes mesmo da hora em que entra em um supermercado - e que só termina quando o mundo, hoje em meio a tantos objetos descartados, puder respirar mais aliviado.