terceira idade
O Brasil cada vez mais velho
Seguindo a tendência mundial, o número de idosos no Brasil não para de aumentar. Pessoas com 60 anos ou mais são o grupo que mais cresce no país. Segundo estudo do Ipea, eles serão mais de 55 milhões em 2040. Como ficará a proteção social?
Manoella Oliveira
Planeta Sustentável - 01/10/2009
Projeções da Cepal – Comissão Econômica para América Latina e Caribe, de 2004, apontam um cenário de aceleração da população de idosos, que passará de 40 milhões, no ano 2000, para 96 milhões, em 2025 na América Latina. Não se trata de um fenômeno isolado, mas de uma tendência de envelhecimento populacional em todo o mundo seguida também pelo Brasil, onde o número de idosos ultrapassará 55 milhões em 2040, o que representa 27% da população.
Desse total, 13 milhões estão na categoria “muito idoso” (tem 80 anos ou mais), o que, segundo as pesquisadoras do Ipea – Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada autoras do estudo “Envelhecimento e dependência: desafios para a organização da proteção social”, é preocupante visto que as condições frágeis peculiares a esse grupo, exigem - e vão exigir cada vez mais - iniciativas do poder público deverão ir além do que é oferecido normalmente no campo da saúde, da assistência social e pela Previdência que, aliás, já não vai muito bem.
De janeiro a agosto deste ano, a Previdência Social acumulou déficit de R$29, 9 bilhões, valor 14,8% superior ao registrado no mesmo período do ano anterior. Os gastos com benefícios previdenciários e a arrecadação também aumentaram, passaram de R$132,5 para R$141,7 bilhões e de R$106,4 bilhões para R$111,8 bilhões, respectivamente, nesses primeiros oito meses de 2009, em relação ao mesmo intervalo de 2008. A justificativa da Previdência para o rombo foi o adiantamento de metade do 13º salário dos aposentados e a diminuição do ritmo do crescimento de receitas.
De 1950 a 2000, o crescimento da participação dos idosos na população dobrou e alcançou 8,6%. A participação desse grupo está cada vez maior por causa do aumento da expectativa de vida e da redução da taxa de natalidade. Em 2050, eles serão quase 30% da população do país, o que significa que haverá mais pessoas dependentes dos benefícios da seguridade social e menos contribuintes, não apenas pela diminuição dos jovens e da População Economicamente Ativa, mas também em decorrência do trabalho informal. O que fazer para controlar o aumento desse déficit? Eis o nó do sistema previdenciário, criado para atender demandas de aposentadoria breves e de um mercado assalariado em ascensão. Atualmente, do total da renda dos idosos, 67% é composta por benefícios previdenciários e assistenciais, proporção que sobe para 85% do caso dos “muito idosos”.
Além das políticas públicas, familiares também devem exercer seu papel de cuidadores, principalmente com os mais idosos, que apresentam condições físicas mais debilitadas e criam uma situação de dependência. “As pessoas vivem mais tempo por causa das tecnologias que assim as permitem. Em contrapartida, elas são acometidas por doenças típicas da velhice e tendem a conviver mais tempo com as sequelas dessas enfermidades. Por isso, a dependência existe num sentido amplo que varia desde a necessidade de apoio pra realizar as atividades da vida diária como ir ao banco até levantar-se da cama”, explica Luseni Aquino, uma das autoras do trabalho, juntamente com Anália Soria, Luciana de Barros e Patrícia El-Moon.
De acordo com a pesquisa, essa função não vem sido bem cumprida porque os jovens, além de estarem gradualmente em menor número frente aos idosos, estão cada vez mais indisponíveis, em busca de oportunidades de trabalho e de estudos fora da cidade de origem. Dessa forma, segundo Luseni, cabe a um membro da família – normalmente às mulheres – abrir mão parcial ou integralmente do mercado de trabalho para exercer esse cuidado, uma renúncia que representa custo.
Na opinião da pesquisadora, uma parte considerável do custo do cuidado com o idoso hoje, no Brasil, é assumida pelas famílias porque alguém renuncia a um emprego em função de exercer o papel de cuidador, por isso, a tendência é que uma forte pressão recaia sobre o poder público para que haja uma política bem estruturada. Em países como Japão, Alemanha, Suécia e, recentemente, Espanha, - países que já passaram por esse envelhecimento da população – existem agentes que visitam os idosos para acompanhá-los às compras, cortar o cabelo e realizar tarefas simples de cuidados pessoais.
“O Brasil precisa estruturar um sistema de cuidados dentro do sistema maior de proteção social que deve assegurar a essas pessoas benefícios monetários e serviços. Essas duas ações devem caminhar em paralelo”, diz Luseni.
A oferta de saúde também deve ser repensada e encarada da perspectiva da prevenção e do tratamento de doenças crônicas. A Medicina terá que mudar sua abordagem para um modelo socioambiental que deve considerar o emocional e o contexto de sociedade em que o idosos está inserido, como o isolamento social. Afinal, o grupo “muito idoso” é o que mais cresce no mundo e, em função de sua saúde frágil, requer mais atenção do que um idoso de 60 anos, que, na realidade brasileira, costuma ser um aposentado que ainda trabalha de alguma maneira.
“Por ser um tema recente, ele ainda não está inserido na agenda política de forma esclarecida e coerente. É preciso compreender a importância de discutir, entre outras questões, a dependência do idoso para antecipar os desafios que vamos enfrentar. E nós vamos enfrentar porque o cenário de transição demográfica virá.”, conclui.
*Cepal
*Ipea
Leia também:
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Os idosos e as crianças
Projeções da Cepal – Comissão Econômica para América Latina e Caribe, de 2004, apontam um cenário de aceleração da população de idosos, que passará de 40 milhões, no ano 2000, para 96 milhões, em 2025 na América Latina. Não se trata de um fenômeno isolado, mas de uma tendência de envelhecimento populacional em todo o mundo seguida também pelo Brasil, onde o número de idosos ultrapassará 55 milhões em 2040, o que representa 27% da população.
Desse total, 13 milhões estão na categoria “muito idoso” (tem 80 anos ou mais), o que, segundo as pesquisadoras do Ipea – Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada autoras do estudo “Envelhecimento e dependência: desafios para a organização da proteção social”, é preocupante visto que as condições frágeis peculiares a esse grupo, exigem - e vão exigir cada vez mais - iniciativas do poder público deverão ir além do que é oferecido normalmente no campo da saúde, da assistência social e pela Previdência que, aliás, já não vai muito bem.
De janeiro a agosto deste ano, a Previdência Social acumulou déficit de R$29, 9 bilhões, valor 14,8% superior ao registrado no mesmo período do ano anterior. Os gastos com benefícios previdenciários e a arrecadação também aumentaram, passaram de R$132,5 para R$141,7 bilhões e de R$106,4 bilhões para R$111,8 bilhões, respectivamente, nesses primeiros oito meses de 2009, em relação ao mesmo intervalo de 2008. A justificativa da Previdência para o rombo foi o adiantamento de metade do 13º salário dos aposentados e a diminuição do ritmo do crescimento de receitas.
De 1950 a 2000, o crescimento da participação dos idosos na população dobrou e alcançou 8,6%. A participação desse grupo está cada vez maior por causa do aumento da expectativa de vida e da redução da taxa de natalidade. Em 2050, eles serão quase 30% da população do país, o que significa que haverá mais pessoas dependentes dos benefícios da seguridade social e menos contribuintes, não apenas pela diminuição dos jovens e da População Economicamente Ativa, mas também em decorrência do trabalho informal. O que fazer para controlar o aumento desse déficit? Eis o nó do sistema previdenciário, criado para atender demandas de aposentadoria breves e de um mercado assalariado em ascensão. Atualmente, do total da renda dos idosos, 67% é composta por benefícios previdenciários e assistenciais, proporção que sobe para 85% do caso dos “muito idosos”.
Além das políticas públicas, familiares também devem exercer seu papel de cuidadores, principalmente com os mais idosos, que apresentam condições físicas mais debilitadas e criam uma situação de dependência. “As pessoas vivem mais tempo por causa das tecnologias que assim as permitem. Em contrapartida, elas são acometidas por doenças típicas da velhice e tendem a conviver mais tempo com as sequelas dessas enfermidades. Por isso, a dependência existe num sentido amplo que varia desde a necessidade de apoio pra realizar as atividades da vida diária como ir ao banco até levantar-se da cama”, explica Luseni Aquino, uma das autoras do trabalho, juntamente com Anália Soria, Luciana de Barros e Patrícia El-Moon.
De acordo com a pesquisa, essa função não vem sido bem cumprida porque os jovens, além de estarem gradualmente em menor número frente aos idosos, estão cada vez mais indisponíveis, em busca de oportunidades de trabalho e de estudos fora da cidade de origem. Dessa forma, segundo Luseni, cabe a um membro da família – normalmente às mulheres – abrir mão parcial ou integralmente do mercado de trabalho para exercer esse cuidado, uma renúncia que representa custo.
Na opinião da pesquisadora, uma parte considerável do custo do cuidado com o idoso hoje, no Brasil, é assumida pelas famílias porque alguém renuncia a um emprego em função de exercer o papel de cuidador, por isso, a tendência é que uma forte pressão recaia sobre o poder público para que haja uma política bem estruturada. Em países como Japão, Alemanha, Suécia e, recentemente, Espanha, - países que já passaram por esse envelhecimento da população – existem agentes que visitam os idosos para acompanhá-los às compras, cortar o cabelo e realizar tarefas simples de cuidados pessoais.
“O Brasil precisa estruturar um sistema de cuidados dentro do sistema maior de proteção social que deve assegurar a essas pessoas benefícios monetários e serviços. Essas duas ações devem caminhar em paralelo”, diz Luseni.
A oferta de saúde também deve ser repensada e encarada da perspectiva da prevenção e do tratamento de doenças crônicas. A Medicina terá que mudar sua abordagem para um modelo socioambiental que deve considerar o emocional e o contexto de sociedade em que o idosos está inserido, como o isolamento social. Afinal, o grupo “muito idoso” é o que mais cresce no mundo e, em função de sua saúde frágil, requer mais atenção do que um idoso de 60 anos, que, na realidade brasileira, costuma ser um aposentado que ainda trabalha de alguma maneira.
“Por ser um tema recente, ele ainda não está inserido na agenda política de forma esclarecida e coerente. É preciso compreender a importância de discutir, entre outras questões, a dependência do idoso para antecipar os desafios que vamos enfrentar. E nós vamos enfrentar porque o cenário de transição demográfica virá.”, conclui.
*Cepal
*Ipea
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