FÓRUM SOCIAL MUNDIAL
Evento foca justiça socioambiental e paz no mundo
O Fórum Social Mundial, realizado no final de janeiro, reforçou lutas antigas e novas do movimento idealizado no Brasil e consolidou a agenda mundial, que incluirá países diversos, dos EUA ao Oriente, como preparação para a edição de 2011, em Dakar, no Senegal
Sucena Shkrada Resk – Edição: Mônica Nunes
Planeta Sustentável – 02/02/2010
Antigas e novas pautas de lutas pela justiça socioambiental e pela paz no mundo. Esta foi a tônica das discussões do Seminário “Dez Anos Depois: Desafios e Propostas para Um Mundo Possível” e das atividades paralelas que ocorreram em Porto Alegre/RS e região metropolitana, entre 25 e 29 de janeiro. A programação deu início a uma extensa agenda do FSM - Fórum Social Mundial, com cerca de 30 ações pelo mundo, que mobilizarão desde a sociedade dos EUA ao Oriente, como Marrocos, Iraque e Palestina, sem dúvida, uma meta ambiciosa devido às condições geopolíticas planetárias. O objetivo de tanta mobilização é a preparação para a edição mundial, em janeiro de 2011, em Dakar, no Senegal.
Segundo a organização do evento, participaram aproximadamente 35 mil pessoas, de 39 países, em 915 atividades. A presença feminina teve destaque: 59,3% do público. A exemplo de Cândida Marques, 64 anos, que gastou 33 horas de Goiânia até Porto Alegre para poder participar do FSM. “Venho de um bairro que ainda tem fossas e participo do Fórum de Defesa do Cerrado porque sei de sua importância para a manutenção dos aquíferos, das nascentes do Amazonas, do São Francisco”, disse. A motivação para participar do encontro, de acordo com a militante, também foi se aprofundar sobre a economia solidária.
Manifestações contra o modelo de desenvolvimento neoliberal, pela paz na Faixa de Gaza e criação do Estado Palestino, além da mobilização pelos direitos dos povos tradicionais, pela igualdade de gênero e pela economia solidária se somaram à defesa da Amazônia, como patrimônio nacional. A iniciativa reproduziu as reivindicações resultantes da edição passada, que ocorreu em Belém, com participação expressiva de aproximadamente 133 mil pessoas, de 142 países, entre janeiro e fevereiro de 2009.
Este ano, novos temas foram introduzidos como o apoio em solidariedade às vítimas do terremoto do Haiti e o protesto contra o golpe ao governo em Honduras. Pela primeira vez,foi realizado o Fórum Mundial de Economia Solidária, antes do Social, com atividades foram desenvolvidas na cidade de Santa Maria e a participação de mais de 600 empreendimentos de 28 países.
A preocupação com os rumos das mudanças climáticas no planeta levou à discussão sobre posturas mais concretas dos movimentos sociais com relação à COP16 - 16ª Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, que ocorrerá, no fim do ano, no México. Para isso, será organizado um encontro em Cochabamba, de 29 a 31 de outubro, na Bolívia, que discutirá a crise civilizatória.
“Na Bolívia, já temos a malária, na África, as catástrofes climáticas, as costas inundadas e mais de 22 milhões de refugiados pelo mundo. O fracasso da COP15 se deve, também, ao posicionamento dos EUA e da China sobre os outros países. Não há nenhuma garantia de que,no México, teremos um resultado diferente. Hoje, o que existe é uma crise financeira conjugada à climática. Chegamos a esse limite de incapacidade de propostas ao desenvolvimento sustentável, alertou o sociólogo Roberto Espinoza, coordenador do Fórum de Crise Civilizatória e consultor técnico da Cordenação Andina de Organizações Indígenas. Esse tipo de Capitalismo burocrático, segundo ele, é responsável pela situação-limite em que vivemos.
Organizações também trouxeram experiências de atividades, que já resultam na prática de ideais defendidos no FSM, como a experiência da Rede Social Brasileira por Cidades Justas e Sustentáveis, que está presente em cerca de 30 cidades. “Desde dezembro, estamos preparando um material chamado “Plataforma Cidades Sustentáveis” para mostrar as experiências bem-sucedidas por todo o mundo, desde o tratamento do lixo à tecnologia. A ideia é colocar tudo em debate com os candidados ao governo e à presidência”, explicou Maurício Broinizi, secretário-executivo do Movimento Nossa São Paulo.
DESCENTRALIZAÇÃO EM PAUTA
A organização do FSM foi questionada por participantes e pela mídia quanto à redução de público e descentralização do encontro em diferentes locais, inclusive, na Bahia, neste fim de semana. Em resposta, Cândido Grzybowski, do IBASE – Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas, alegou que isso não significa o esvaziamento do encontro. “Não temos capacidade de fazer eventos do porte de Belém, todos anos, por isso, em 2006, criamos um comitê internacional, que decidiu que haveria um encontro centralizado, um ano sim, outro não. Em 2011, será em Dakar, no Senegal”, disse ele, que ainda integra o comitê idealizador e organizador do FSM.
“A contribuição de Belém a Porto Alegre (onde o FSM começou), é trazer o questionamento sobre a necessidade do decrescimento do consumo e mudanças de atitude, que converge para o tema do ‘bem-viver’ proposto pelos povos tradicionais”, afirmou o organizador do Seminário, Sérgio Haddad, da Ação Educativa.
AGENDA MUNDIAL
Em 2010, será realizada uma série de Fóruns Sociais pelo mundo, como nos EUS e em países africanos, além da 5ª edição do Fórum Pan-Amazônico, em Santarém, de 25 a 29 de novembro. “É uma experiência transformadora”, disse Michael Leon Guerreiro, Fórum Social Mundial dos EUA. “Questionávamos porque não tínhamos movimentos como o de Porto Alegre. Agora, a expectativa é para o segundo fórum, em Michigan, em junho, depois de Atlanta, em 2007. Há uma situação de emergência que nos impulsiona para irmos além. Não podemos atingir objetivos, sem trabalhar com os movimentos internacionais”, concluiu.
De acordo com o militante, a escolha de Michigan se deveu ao fato de essa ser uma das áreas mais deprimidas dos EUA, com 23% de desemprego, oficialmente. “Esperamos 20 mil pessoas, contra cerca de 15 mil em Atlanta. Há uma marcha começando do Sul, de New Orleans, que foi atingido pelo furacão Katrina, como também do Canadá. Serão cinco dias, semelhante a outros encontros”, explicou.
Para Kamal Lahbib, do Fórum de Maghreb, do Marrocos, os desafios para a implementação dos fóruns são grandes. “A situação no norte da África é muito difícil. Países como Nigéria e Tunísia, passam por situações políticas graves. Há muita tensão no Egito. Por isso, decidimos nos mobilizar para Dakar 2011”, ressaltou.
A estratégia, de acordo com o coordenador, é desenvolver ações para a mobilização de agricultores, das mulheres, entre outros grupos. “O Fórum Mundial de Educação, na Palestina, este ano será, também, um grande desafio para nós”. O encontro ocorrerá na fronteira com Israel.
Em Dakar, a proposta é fazer a integração à América Latina e Ásia. “Foi organizado o Conselho do Fórum Social Africano, em um processo de quase seis meses, com a ideia da difusão sul-sul e um direcionamento à questão da segurança alimentar. Contamos com a colaboração de um comitê de Afro-Descendentes do Brasil”, afirmou o representante Taoufik Bem Abdallah.
Veja mais:
*Fórum Social Mundial
*Seminário Dez Anos Depois: Desafios e Propostas para Um Mundo Possível
Antigas e novas pautas de lutas pela justiça socioambiental e pela paz no mundo. Esta foi a tônica das discussões do Seminário “Dez Anos Depois: Desafios e Propostas para Um Mundo Possível” e das atividades paralelas que ocorreram em Porto Alegre/RS e região metropolitana, entre 25 e 29 de janeiro. A programação deu início a uma extensa agenda do FSM - Fórum Social Mundial, com cerca de 30 ações pelo mundo, que mobilizarão desde a sociedade dos EUA ao Oriente, como Marrocos, Iraque e Palestina, sem dúvida, uma meta ambiciosa devido às condições geopolíticas planetárias. O objetivo de tanta mobilização é a preparação para a edição mundial, em janeiro de 2011, em Dakar, no Senegal.
Segundo a organização do evento, participaram aproximadamente 35 mil pessoas, de 39 países, em 915 atividades. A presença feminina teve destaque: 59,3% do público. A exemplo de Cândida Marques, 64 anos, que gastou 33 horas de Goiânia até Porto Alegre para poder participar do FSM. “Venho de um bairro que ainda tem fossas e participo do Fórum de Defesa do Cerrado porque sei de sua importância para a manutenção dos aquíferos, das nascentes do Amazonas, do São Francisco”, disse. A motivação para participar do encontro, de acordo com a militante, também foi se aprofundar sobre a economia solidária.
Manifestações contra o modelo de desenvolvimento neoliberal, pela paz na Faixa de Gaza e criação do Estado Palestino, além da mobilização pelos direitos dos povos tradicionais, pela igualdade de gênero e pela economia solidária se somaram à defesa da Amazônia, como patrimônio nacional. A iniciativa reproduziu as reivindicações resultantes da edição passada, que ocorreu em Belém, com participação expressiva de aproximadamente 133 mil pessoas, de 142 países, entre janeiro e fevereiro de 2009.
Este ano, novos temas foram introduzidos como o apoio em solidariedade às vítimas do terremoto do Haiti e o protesto contra o golpe ao governo em Honduras. Pela primeira vez,foi realizado o Fórum Mundial de Economia Solidária, antes do Social, com atividades foram desenvolvidas na cidade de Santa Maria e a participação de mais de 600 empreendimentos de 28 países.
A preocupação com os rumos das mudanças climáticas no planeta levou à discussão sobre posturas mais concretas dos movimentos sociais com relação à COP16 - 16ª Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, que ocorrerá, no fim do ano, no México. Para isso, será organizado um encontro em Cochabamba, de 29 a 31 de outubro, na Bolívia, que discutirá a crise civilizatória.
“Na Bolívia, já temos a malária, na África, as catástrofes climáticas, as costas inundadas e mais de 22 milhões de refugiados pelo mundo. O fracasso da COP15 se deve, também, ao posicionamento dos EUA e da China sobre os outros países. Não há nenhuma garantia de que,no México, teremos um resultado diferente. Hoje, o que existe é uma crise financeira conjugada à climática. Chegamos a esse limite de incapacidade de propostas ao desenvolvimento sustentável, alertou o sociólogo Roberto Espinoza, coordenador do Fórum de Crise Civilizatória e consultor técnico da Cordenação Andina de Organizações Indígenas. Esse tipo de Capitalismo burocrático, segundo ele, é responsável pela situação-limite em que vivemos.
Organizações também trouxeram experiências de atividades, que já resultam na prática de ideais defendidos no FSM, como a experiência da Rede Social Brasileira por Cidades Justas e Sustentáveis, que está presente em cerca de 30 cidades. “Desde dezembro, estamos preparando um material chamado “Plataforma Cidades Sustentáveis” para mostrar as experiências bem-sucedidas por todo o mundo, desde o tratamento do lixo à tecnologia. A ideia é colocar tudo em debate com os candidados ao governo e à presidência”, explicou Maurício Broinizi, secretário-executivo do Movimento Nossa São Paulo.
DESCENTRALIZAÇÃO EM PAUTA
A organização do FSM foi questionada por participantes e pela mídia quanto à redução de público e descentralização do encontro em diferentes locais, inclusive, na Bahia, neste fim de semana. Em resposta, Cândido Grzybowski, do IBASE – Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas, alegou que isso não significa o esvaziamento do encontro. “Não temos capacidade de fazer eventos do porte de Belém, todos anos, por isso, em 2006, criamos um comitê internacional, que decidiu que haveria um encontro centralizado, um ano sim, outro não. Em 2011, será em Dakar, no Senegal”, disse ele, que ainda integra o comitê idealizador e organizador do FSM.
“A contribuição de Belém a Porto Alegre (onde o FSM começou), é trazer o questionamento sobre a necessidade do decrescimento do consumo e mudanças de atitude, que converge para o tema do ‘bem-viver’ proposto pelos povos tradicionais”, afirmou o organizador do Seminário, Sérgio Haddad, da Ação Educativa.
AGENDA MUNDIAL
Em 2010, será realizada uma série de Fóruns Sociais pelo mundo, como nos EUS e em países africanos, além da 5ª edição do Fórum Pan-Amazônico, em Santarém, de 25 a 29 de novembro. “É uma experiência transformadora”, disse Michael Leon Guerreiro, Fórum Social Mundial dos EUA. “Questionávamos porque não tínhamos movimentos como o de Porto Alegre. Agora, a expectativa é para o segundo fórum, em Michigan, em junho, depois de Atlanta, em 2007. Há uma situação de emergência que nos impulsiona para irmos além. Não podemos atingir objetivos, sem trabalhar com os movimentos internacionais”, concluiu.
De acordo com o militante, a escolha de Michigan se deveu ao fato de essa ser uma das áreas mais deprimidas dos EUA, com 23% de desemprego, oficialmente. “Esperamos 20 mil pessoas, contra cerca de 15 mil em Atlanta. Há uma marcha começando do Sul, de New Orleans, que foi atingido pelo furacão Katrina, como também do Canadá. Serão cinco dias, semelhante a outros encontros”, explicou.
Para Kamal Lahbib, do Fórum de Maghreb, do Marrocos, os desafios para a implementação dos fóruns são grandes. “A situação no norte da África é muito difícil. Países como Nigéria e Tunísia, passam por situações políticas graves. Há muita tensão no Egito. Por isso, decidimos nos mobilizar para Dakar 2011”, ressaltou.
A estratégia, de acordo com o coordenador, é desenvolver ações para a mobilização de agricultores, das mulheres, entre outros grupos. “O Fórum Mundial de Educação, na Palestina, este ano será, também, um grande desafio para nós”. O encontro ocorrerá na fronteira com Israel.
Em Dakar, a proposta é fazer a integração à América Latina e Ásia. “Foi organizado o Conselho do Fórum Social Africano, em um processo de quase seis meses, com a ideia da difusão sul-sul e um direcionamento à questão da segurança alimentar. Contamos com a colaboração de um comitê de Afro-Descendentes do Brasil”, afirmou o representante Taoufik Bem Abdallah.
Veja mais:
*Fórum Social Mundial
*Seminário Dez Anos Depois: Desafios e Propostas para Um Mundo Possível