a vez das florestas
Como vai a Amazônia
Na palestra promovida pelo Planeta Sustentável, Adalberto Verissimo, do Imazon, comentou sobre as principais questões que envolvem o bioma, que pode colocar o Brasil em posição de liderança em Copenhague: o desmatamento que já “varreu" 18% da floresta, os pontos nevrálgicos da MP 458 e os caminhos para uma economia de baixo carbono
Thays Prado – Edição: Mônica Nunes
Planeta Sustentável - 19/06/2009
O Brasil já perdeu 18% da cobertura florestal amazônica – o que corresponde a duas vezes o estado de São Paulo, mais o Paraná, Santa Catarina e Espírito Santo. Isso sem falar nas áreas degradadas, que, apesar de deixarem a floresta empobrecida, não entram na conta. Na Grande Amazônia, o desflorestamento já atingiu a casa dos 900 mil Km².
A notícia não é boa: enquanto o setor de transportes em todo o mundo emite 10% do total dos gases de efeito estufa lançados na atmosfera, o desmatamento contribui com 17% a 19% das emissões globais de carbono e o Brasil é um dos grandes responsáveis por essa fatia – tanto que já ocupa o quarto lugar no ranking dos países mais emissores do mundo.
Ao contrário das florestas temperadas, que vêm sendo recuperadas na Europa, ainda não dispomos de tecnologias eficientes para a recomposição das florestas tropicais, que são as que concentram maior quantidade de biomassa e devem ser preservadas. A Amazônia representa 60% das florestas tropicais do mundo e 35% está em território nacional.
Os dados, mostrados hoje por Adalberto Verissimo, pesquisador sênior e fundador do Imazon – Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia, durante apresentação realizada a convite do Planeta Sustentável, na Editora Abril, demonstram o potencial brasileiro para assumir um papel de liderança nas discussões sobre o clima em Copenhague. Ele aposta que, daqui em diante, o tema do clima virá, necessariamente, acompanhado dos mecanismos de incentivo à preservação florestal. A estimativa é de que as florestas demandem de U$10 bilhões a U$30 bilhões por ano para garantir sua conservação.
No entanto, o pesquisador chama a atenção para as políticas que vem sendo votadas pelo governo, que estão na contramão da economia de baixo carbono e criam condições para o desmatamento aumentar. “Os Estados Unidos e a Europa já estão se posicionando de forma diferente para fazerem a transição de uma economia de alta para uma de baixa emissão de carbono. Esse esforço ainda não está presente no Brasil e talvez só esteja quando começarem as grandes catástrofes”.
A MEDIDA PROVISÓRIA 458
Beto Verissimo diz que apenas 4% das áreas privadas na Amazônia estão cadastradas, 21% são terras devolutas e 21% estão sob disputa. Para conter o desmatamento e viabilizar uma nova economia na região, a regularização fundiária é fundamental. Para ele, boa parte da MP 458, aprovada recentemente pelo Senado, é boa, mas possui três células cancerosas que precisam ser avaliadas pelo presidente Lula antes de sua sanção:
- o prazo para a venda da terra de três anos para as grandes propriedades;
- a venda das terras para pessoas jurídicas e prepostos e
- a falta de exigência de compensação do passivo ambiental.
NOVA ECONOMIA
Do ponto de vista econômico, a Amazônia também vai mal. A região já é a maior produtora de madeira tropical do mundo – sendo que 70% são consumidos no país – e também se baseia na soja, na pecuária, na energia e na mineração.
Estudos desenvolvidos pelo Imazon deixam claro que, apesar de um crescimento inicial do PIB e do IDH nas áreas em que há aceleração do desmatamento, cresce também a violência, incluindo homicídios e trabalho escravo nesses locais e, em 15 anos, a região fica completamente degradada pela passagem das madeireiras e dos pecuaristas e volta aos mesmos baixos índices anteriores, com queda de renda, arrecadação de tributos e empregos. Beto Verissimo ainda garante que a agricultura não é uma atividade viável para a Amazônia, pois a quantidade de chuvas é muito superior ao adequado para o cultivo de grãos.
A boa notícia é que o setor madeireiro vem se empenhando para garantir a rastreabilidade de sua cadeia produtiva. No ano passado, o setor madeireiro movimentou R$ 8 bilhões, dos quais R$ 4 bilhões são de madeira legal. Há dez anos, esse índice era zero. A pecuária está atrasada nesse processo e existe uma resistência do próprio setor em mudar de atitude. “O Ministério Público pede que em dez anos os frigoríficos tenham cadeia produtiva cadastrada, mas eles argumentam que o prazo é curto, querem trinta anos”, diz Beto.
Produtos não madeireiros, como o açaí, começam a ganhar importância estatística na Amazônia.
Para Beto Verissimo, as medidas do governo e do setor privado para uma economia de baixo carbono ainda têm resultados tímidos e são necessárias ações mais profundas. O pesquisador aponta alguns caminhos:
- é necessário reflorestar e recompor as paisagens degradadas, manejar as florestas em pé, conservar a biodiversidade, regularizar as terras e fortalecer as instituições que atuam na Amazônia;
- de acordo com o relatório apresentado pela consultoria McKinsey, o custo financeiro de se preservar a Amazônia seria de R$ 17 bilhões até 2030. “O Brasil já investe de R$8 a R$10 bilhões, mas na direção errada”, afirma Beto;
- investir em novas tecnologias de produção sustentável, melhorando a produtividade nas áreas agrícolas já abertas;
- a questão do clima será imperativa para a manutenção da Amazônia, caso contrário, ela seria destruída como foi a Mata Atlântica.
O Brasil já perdeu 18% da cobertura florestal amazônica – o que corresponde a duas vezes o estado de São Paulo, mais o Paraná, Santa Catarina e Espírito Santo. Isso sem falar nas áreas degradadas, que, apesar de deixarem a floresta empobrecida, não entram na conta. Na Grande Amazônia, o desflorestamento já atingiu a casa dos 900 mil Km².
A notícia não é boa: enquanto o setor de transportes em todo o mundo emite 10% do total dos gases de efeito estufa lançados na atmosfera, o desmatamento contribui com 17% a 19% das emissões globais de carbono e o Brasil é um dos grandes responsáveis por essa fatia – tanto que já ocupa o quarto lugar no ranking dos países mais emissores do mundo.
Ao contrário das florestas temperadas, que vêm sendo recuperadas na Europa, ainda não dispomos de tecnologias eficientes para a recomposição das florestas tropicais, que são as que concentram maior quantidade de biomassa e devem ser preservadas. A Amazônia representa 60% das florestas tropicais do mundo e 35% está em território nacional.
Os dados, mostrados hoje por Adalberto Verissimo, pesquisador sênior e fundador do Imazon – Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia, durante apresentação realizada a convite do Planeta Sustentável, na Editora Abril, demonstram o potencial brasileiro para assumir um papel de liderança nas discussões sobre o clima em Copenhague. Ele aposta que, daqui em diante, o tema do clima virá, necessariamente, acompanhado dos mecanismos de incentivo à preservação florestal. A estimativa é de que as florestas demandem de U$10 bilhões a U$30 bilhões por ano para garantir sua conservação.
No entanto, o pesquisador chama a atenção para as políticas que vem sendo votadas pelo governo, que estão na contramão da economia de baixo carbono e criam condições para o desmatamento aumentar. “Os Estados Unidos e a Europa já estão se posicionando de forma diferente para fazerem a transição de uma economia de alta para uma de baixa emissão de carbono. Esse esforço ainda não está presente no Brasil e talvez só esteja quando começarem as grandes catástrofes”.
A MEDIDA PROVISÓRIA 458
Beto Verissimo diz que apenas 4% das áreas privadas na Amazônia estão cadastradas, 21% são terras devolutas e 21% estão sob disputa. Para conter o desmatamento e viabilizar uma nova economia na região, a regularização fundiária é fundamental. Para ele, boa parte da MP 458, aprovada recentemente pelo Senado, é boa, mas possui três células cancerosas que precisam ser avaliadas pelo presidente Lula antes de sua sanção:
- o prazo para a venda da terra de três anos para as grandes propriedades;
- a venda das terras para pessoas jurídicas e prepostos e
- a falta de exigência de compensação do passivo ambiental.
NOVA ECONOMIA
Do ponto de vista econômico, a Amazônia também vai mal. A região já é a maior produtora de madeira tropical do mundo – sendo que 70% são consumidos no país – e também se baseia na soja, na pecuária, na energia e na mineração.
Estudos desenvolvidos pelo Imazon deixam claro que, apesar de um crescimento inicial do PIB e do IDH nas áreas em que há aceleração do desmatamento, cresce também a violência, incluindo homicídios e trabalho escravo nesses locais e, em 15 anos, a região fica completamente degradada pela passagem das madeireiras e dos pecuaristas e volta aos mesmos baixos índices anteriores, com queda de renda, arrecadação de tributos e empregos. Beto Verissimo ainda garante que a agricultura não é uma atividade viável para a Amazônia, pois a quantidade de chuvas é muito superior ao adequado para o cultivo de grãos.
A boa notícia é que o setor madeireiro vem se empenhando para garantir a rastreabilidade de sua cadeia produtiva. No ano passado, o setor madeireiro movimentou R$ 8 bilhões, dos quais R$ 4 bilhões são de madeira legal. Há dez anos, esse índice era zero. A pecuária está atrasada nesse processo e existe uma resistência do próprio setor em mudar de atitude. “O Ministério Público pede que em dez anos os frigoríficos tenham cadeia produtiva cadastrada, mas eles argumentam que o prazo é curto, querem trinta anos”, diz Beto.
Produtos não madeireiros, como o açaí, começam a ganhar importância estatística na Amazônia.
Para Beto Verissimo, as medidas do governo e do setor privado para uma economia de baixo carbono ainda têm resultados tímidos e são necessárias ações mais profundas. O pesquisador aponta alguns caminhos:
- é necessário reflorestar e recompor as paisagens degradadas, manejar as florestas em pé, conservar a biodiversidade, regularizar as terras e fortalecer as instituições que atuam na Amazônia;
- de acordo com o relatório apresentado pela consultoria McKinsey, o custo financeiro de se preservar a Amazônia seria de R$ 17 bilhões até 2030. “O Brasil já investe de R$8 a R$10 bilhões, mas na direção errada”, afirma Beto;
- investir em novas tecnologias de produção sustentável, melhorando a produtividade nas áreas agrícolas já abertas;
- a questão do clima será imperativa para a manutenção da Amazônia, caso contrário, ela seria destruída como foi a Mata Atlântica.