ultimato
O futuro do planeta em jogo
O mundo tem até dezembro, em Copenhague, na Dinamarca – quando se realizará a COP-15 –, para definir uma agenda global que estabeleça os esforços que serão feitos para mitigar o avanço das mudanças climáticas, as medidas que serão tomadas para nos adaptarmos às novas transformações que certamente o planeta vai sofrer e a parcela de cada país na conta do aquecimento global
Thays Prado - Edição: Mônica Nunes
Planeta Sustentável - 18/04/2009
A 15ª Conferência das Partes, da ONU – Organização das Nações Unidas, é o evento mais aguardado deste ano. De 7 a 18 de dezembro, o futuro da Terra - e, especialmente, da espécie humana - estará em pauta. O encontro tem sido encarado como a última chance para que o mundo chegue a um acordo sobre o que será, realmente, feito para frear o aquecimento global, antes que expire o Protocolo de Kyoto, em 2012.
CENÁRIO AMBIENTAL
O fato de que a Terra está se aquecendo não está em discussão. Tem havido um aumento de temperatura em todo o mundo, sem distinção, em áreas continentais, oceânicas, próximas às grandes cidades, nas regiões rurais e nos lugares mais remotos. Isso prova que se trata de um fenômeno global.
Não é a primeira vez que o planeta aquece. Em milhões de anos, a Terra já teve concentrações de efeito estufa como agora. Esse é o argumento que o grupo dos chamados "céticos" do aquecimento global usa para dizer que o ser humano não tem nada a ver isso e que suas emissões de carbono não afetam o aquecimento global. No entanto, José Antônio Marengo, pesquisador titular do INPE - Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, conta que as atividades humanas aceleraram e intensificaram o processo. "Os últimos 20 anos foram os mais quentes em nosso registro histórico. Impactos que poderiam demorar mais 100 anos para acontecer estão acontecendo agora e de maneira amplificada".
O pesquisador afirma que o clima já está relativamente diferente. Segundo ele, nos próximos vinte anos, as mudanças climáticas podem até não ser tão radicais, mas vão aumentar gradualmente e podem culminar em grandes problemas, com uma enorme quantidade de eventos extremos a partir de 2050.
"Esse é o tempo que ainda temos para fazer algo pelo planeta", alerta Marengo. Ele afirma que, mesmo se todas as indústrias do planeta fossem fechadas imediatamente e parassem de emitir gases de efeito estufa, a Terra continuaria a aquecer, ainda que menos do que antes. Por isso, a principal função dos protocolos e acordos internacionais - como esse que se pretende firmar em Copenhague - é minimizar os impactos do clima e os prejuízos que certamente teremos com o aquecimento global.
De acordo com análises do INPE dos últimos 50 anos, fica claro que o Brasil e a América do Sul como um todo tiveram médias anuais de temperatura 0,7 graus mais altas. Nosso inverno, hoje, está um grau mais quente e a média de temperatura mínima tem se elevado. O pesquisador do INPE também observa que houve aumento do número de eventos climáticos extremos, com muitas chuvas na região Sul e Sudeste. "Se assumirmos que nada será feito para reduzir as emissões de carbono, podemos chegar ao final deste século com uma média de temperatura, no Brasil, 3 graus mais alta - no Sul haveria um aumento de 2 graus, enquanto na Amazônia e no Nordeste, poderia subir até 6!", sentencia.
As médias de chuvas também tendem a ser alteradas. Enquanto a Amazônia e o Nordeste diminuiriam sua pluviosidade em 20% - com possibilidades de secas e ondas de calor e, mesmo, da substituição da floresta amazônica por savana -, o Sul e o Sudeste teriam um aumento de 10% de precipitação, que se manifestaria por meio de chuvas extremas e não regulares. Além do impacto ambiental, está aí uma projeção que implica em grandes problemas sociais, de saúde e, também, de ondas migratórias.
O QUE ESPERAR DE COPENHAGUE
Chegar a um acordo não será fácil. Muitos interesses devem ser postos na mesa durante a 15ª COP. Enquanto alguns países estão preocupados em não desaparecer do mapa por conta dos impactos das mudanças climáticas, o foco de outros está nos incentivos à preservação florestal. Um outro grupo quer que o apoio à adaptação seja a prioridade do encontro e existem, ainda, as economias dependentes do petróleo e, até, aqueles países que já reduziram suas emissões mais do que a média e argumentam que não têm muito mais onde cortar.
Yvo de Boer, chefe de Clima das Nações Unidas, revela no site da COP-15 (que apresenta informações atualizadas constantemente), pretende que ao menos quatro eixos sejam definidos na ocasião da 15ª COP:
1) quanto os países industrializados estão dispostos a reduzir de emissões de gases de efeito estufa: a expectativa é de que o acordo fique entre 25% e 40%;
2) quanto os países em desenvolvimento, os chamados BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China), estão dispostos a limitar o crescimento de suas emissões de carbono;
3) como será financiada a ajuda necessária para que os países em desenvolvimento se engajem na redução de suas emissões e se adaptem aos impactos que serão causados pelas mudanças climáticas e
4) como esse dinheiro será administrado.
Após 14 edições realizadas pela Convenção do Clima das Nações Unidas, este ano apresenta algumas particularidades que devem dar o tom do debate em dezembro. Uma delas é a posição dos Estados Unidos. Se, em 1997, o país – então maior emissor de carbono do planeta – se recusava a assinar o Protocolo de Kyoto, agora, volta ao jogo com uma nova postura e um novo presidente. Barack Obama tem sido incansável ao anunciar que os EUA vão criar empregos verdes para sair da crise econômica e também aposta em fontes limpas de energia.
Tasso de Azevedo, diretor do Serviço Florestal Brasileiro e um dos prováveis representantes do Brasil em Copenhague, avalia que os americanos querem, de fato, participar da liderança desse acordo global. No entanto, ele alerta que esse país está em processo de definição de uma legislação própria para o clima e, caso fique pronta antes da Conferência, é ela que vai moldar sua posição na reunião. O problema é que as propostas atuais de redução, para o documento, estão abaixo dos 25%, esperados como o mínimo a ser estabelecido em Copenhague. Se a legislação ainda não tiver sido finalizada em dezembro, há mais chances de que as decisões tomadas na 15ª COP ditem os rumos do documento norteamericano.
A grande questão sobre quem vai pagar a conta do aquecimento global permanece e é possível que se torne ainda mais acirrada, já que os países em desenvolvimento têm aumentado e muito suas emissões de carbono. A China já ultrapassou os EUA e ocupa o primeiro lugar em quantidade de gases de efeito estufa lançados na atmosfera.
No entanto, até 2020 a dívida dos países desenvolvidos com o planeta - em termos de quantidade de emissões - ainda é comprovadamente maior que a dos países em desenvolvimento. Por isso, Tasso diz que estes últimos - e aí se inclui o Brasil - não terão metas vinculadas à Convenção Internacional. "Isso está baseado no princípio das responsabilidades comuns, mas diferenciadas, que parte da lógica de que as mudanças climáticas de hoje são conseqüência do acúmulo de emissões desde 1850 (iniciadas com a Revolução Industrial) e que a maior parte delas vem dos países desenvolvidos, portanto, eles têm metas e nós não".
Evidentemente, isso não impede esse grupo de estabelecer suas próprias metas internas, como as criadas no Brasil com o Plano Nacional de Mudanças do Clima. Em 2020, talvez a conversa seja diferente, pois a expectativa é de que, até lá, os países em desenvolvimento emitam mais carbono do que os desenvolvidos. No entanto, se as metas voluntárias internas dos BRICs forem bem cumpridas, talvez isso não chegue a acontecer.
O tema da adaptação aos fenômenos que já são considerados irreversíveis também é crucial e deve render em Copenhague. Os problemas decorrentes das alterações no clima tendem a se agravar e os mais prejudicados serão os quase 100 países menos desenvolvidos. Os recursos financeiros necessários para proteger essas populações devem ser providos pelos países ricos. "Dessa dívida eles não devem escapar", diz Tasso. "Podem até argumentar que estamos nos aproximando em quantidade de emissões, mas as mudanças climáticas atuais são seguramente fruto das emissões deles, já que o carbono fica mais de 100 anos na atmosfera".
AS FLORESTAS E O BRASIL
Para o diretor do Serviço Florestal Brasileiro pode ser que ainda haja espaço na Conferência para a discussão de metas por meio de uma abordagem setorial. Dessa forma, as emissões de cada setor - florestas, transporte e energia, por exemplo - seriam medidas a nível nacional, dando origem a Planos de Desenvolvimento de Baixo Carbono - o Plano Nacional de Mudanças do Clima brasileiro seria um exemplo disso.
Mesmo que a discussão não chegue a esse grau de detalhamento, certamente o setor florestal será contemplado e os mecanismos de incentivo à preservação de florestas, como o REDD - Reducing Emissions from Deforestation in Developing Countries, devem ser aprimorados. A notícia pode ser boa para o Brasil (que deve contar com uma comitiva de mais de cem pessoas do governo em Copenhague, incluindo os ministros do Meio Ambiente, Carlos Minc, e de Ciência e Tecnologia, Sergio Rezende, e encabeçada pelo ministro de Relações Exteriores, Celso Amorim), mas há que se ficar atento às condições para que os recursos financeiros cheguem aos trinta e cinco países que ainda possuem florestas.
"O ponto fundamental é se esse tipo de incentivo permitirá o offset, ou seja, a compensação das emissões dos países ricos", observa Tasso. Ele afirma que a questão envolve o fato de atingirmos ou não a redução global necessária para que o aumento da temperatura no planeta não ultrapasse os dois graus. Se os incentivos dos países desenvolvidos forem utilizados para abater parte de suas obrigações, corremos o risco de que a conta não feche. Por outro lado, se as metas de redução forem altas o suficiente, talvez apenas com os incentivos à preservação florestal elas possam ser cumpridas.
"Esse tema está atualmente em debate, inclusive dentro do governo", diz Tasso. "Se a temperatura aumentar muito, os estudos mostram que os impactos sobre as florestas e o semiárido seriam muito fortes, com conseqüências econômicas e sociais e custos mais altos do que receberíamos dos países desenvolvidos. É necessário avaliar se, ao aproveitarmos a oportunidade de crédito, não estaríamos protegendo a floresta agora, mas a perdendo lá na frente. Essa não é uma questão simples de ser resolvida".
Diante de tantas questões em jogo, até dezembro, só nos resta fazer a nossa parte e obter o máximo de informações possíveis para acompanhar a discussão de Copenhague e cobrar das autoridades locais e globais que também cumpram suas metas para garantir que a Terra continue a ser um lugar habitável - e agradável - para os seres humanos.
A 15ª Conferência das Partes, da ONU – Organização das Nações Unidas, é o evento mais aguardado deste ano. De 7 a 18 de dezembro, o futuro da Terra - e, especialmente, da espécie humana - estará em pauta. O encontro tem sido encarado como a última chance para que o mundo chegue a um acordo sobre o que será, realmente, feito para frear o aquecimento global, antes que expire o Protocolo de Kyoto, em 2012.
CENÁRIO AMBIENTAL
O fato de que a Terra está se aquecendo não está em discussão. Tem havido um aumento de temperatura em todo o mundo, sem distinção, em áreas continentais, oceânicas, próximas às grandes cidades, nas regiões rurais e nos lugares mais remotos. Isso prova que se trata de um fenômeno global.
Não é a primeira vez que o planeta aquece. Em milhões de anos, a Terra já teve concentrações de efeito estufa como agora. Esse é o argumento que o grupo dos chamados "céticos" do aquecimento global usa para dizer que o ser humano não tem nada a ver isso e que suas emissões de carbono não afetam o aquecimento global. No entanto, José Antônio Marengo, pesquisador titular do INPE - Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, conta que as atividades humanas aceleraram e intensificaram o processo. "Os últimos 20 anos foram os mais quentes em nosso registro histórico. Impactos que poderiam demorar mais 100 anos para acontecer estão acontecendo agora e de maneira amplificada".
O pesquisador afirma que o clima já está relativamente diferente. Segundo ele, nos próximos vinte anos, as mudanças climáticas podem até não ser tão radicais, mas vão aumentar gradualmente e podem culminar em grandes problemas, com uma enorme quantidade de eventos extremos a partir de 2050.
"Esse é o tempo que ainda temos para fazer algo pelo planeta", alerta Marengo. Ele afirma que, mesmo se todas as indústrias do planeta fossem fechadas imediatamente e parassem de emitir gases de efeito estufa, a Terra continuaria a aquecer, ainda que menos do que antes. Por isso, a principal função dos protocolos e acordos internacionais - como esse que se pretende firmar em Copenhague - é minimizar os impactos do clima e os prejuízos que certamente teremos com o aquecimento global.
De acordo com análises do INPE dos últimos 50 anos, fica claro que o Brasil e a América do Sul como um todo tiveram médias anuais de temperatura 0,7 graus mais altas. Nosso inverno, hoje, está um grau mais quente e a média de temperatura mínima tem se elevado. O pesquisador do INPE também observa que houve aumento do número de eventos climáticos extremos, com muitas chuvas na região Sul e Sudeste. "Se assumirmos que nada será feito para reduzir as emissões de carbono, podemos chegar ao final deste século com uma média de temperatura, no Brasil, 3 graus mais alta - no Sul haveria um aumento de 2 graus, enquanto na Amazônia e no Nordeste, poderia subir até 6!", sentencia.
As médias de chuvas também tendem a ser alteradas. Enquanto a Amazônia e o Nordeste diminuiriam sua pluviosidade em 20% - com possibilidades de secas e ondas de calor e, mesmo, da substituição da floresta amazônica por savana -, o Sul e o Sudeste teriam um aumento de 10% de precipitação, que se manifestaria por meio de chuvas extremas e não regulares. Além do impacto ambiental, está aí uma projeção que implica em grandes problemas sociais, de saúde e, também, de ondas migratórias.
O QUE ESPERAR DE COPENHAGUE
Chegar a um acordo não será fácil. Muitos interesses devem ser postos na mesa durante a 15ª COP. Enquanto alguns países estão preocupados em não desaparecer do mapa por conta dos impactos das mudanças climáticas, o foco de outros está nos incentivos à preservação florestal. Um outro grupo quer que o apoio à adaptação seja a prioridade do encontro e existem, ainda, as economias dependentes do petróleo e, até, aqueles países que já reduziram suas emissões mais do que a média e argumentam que não têm muito mais onde cortar.
Yvo de Boer, chefe de Clima das Nações Unidas, revela no site da COP-15 (que apresenta informações atualizadas constantemente), pretende que ao menos quatro eixos sejam definidos na ocasião da 15ª COP:
1) quanto os países industrializados estão dispostos a reduzir de emissões de gases de efeito estufa: a expectativa é de que o acordo fique entre 25% e 40%;
2) quanto os países em desenvolvimento, os chamados BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China), estão dispostos a limitar o crescimento de suas emissões de carbono;
3) como será financiada a ajuda necessária para que os países em desenvolvimento se engajem na redução de suas emissões e se adaptem aos impactos que serão causados pelas mudanças climáticas e
4) como esse dinheiro será administrado.
Após 14 edições realizadas pela Convenção do Clima das Nações Unidas, este ano apresenta algumas particularidades que devem dar o tom do debate em dezembro. Uma delas é a posição dos Estados Unidos. Se, em 1997, o país – então maior emissor de carbono do planeta – se recusava a assinar o Protocolo de Kyoto, agora, volta ao jogo com uma nova postura e um novo presidente. Barack Obama tem sido incansável ao anunciar que os EUA vão criar empregos verdes para sair da crise econômica e também aposta em fontes limpas de energia.
Tasso de Azevedo, diretor do Serviço Florestal Brasileiro e um dos prováveis representantes do Brasil em Copenhague, avalia que os americanos querem, de fato, participar da liderança desse acordo global. No entanto, ele alerta que esse país está em processo de definição de uma legislação própria para o clima e, caso fique pronta antes da Conferência, é ela que vai moldar sua posição na reunião. O problema é que as propostas atuais de redução, para o documento, estão abaixo dos 25%, esperados como o mínimo a ser estabelecido em Copenhague. Se a legislação ainda não tiver sido finalizada em dezembro, há mais chances de que as decisões tomadas na 15ª COP ditem os rumos do documento norteamericano.
A grande questão sobre quem vai pagar a conta do aquecimento global permanece e é possível que se torne ainda mais acirrada, já que os países em desenvolvimento têm aumentado e muito suas emissões de carbono. A China já ultrapassou os EUA e ocupa o primeiro lugar em quantidade de gases de efeito estufa lançados na atmosfera.
No entanto, até 2020 a dívida dos países desenvolvidos com o planeta - em termos de quantidade de emissões - ainda é comprovadamente maior que a dos países em desenvolvimento. Por isso, Tasso diz que estes últimos - e aí se inclui o Brasil - não terão metas vinculadas à Convenção Internacional. "Isso está baseado no princípio das responsabilidades comuns, mas diferenciadas, que parte da lógica de que as mudanças climáticas de hoje são conseqüência do acúmulo de emissões desde 1850 (iniciadas com a Revolução Industrial) e que a maior parte delas vem dos países desenvolvidos, portanto, eles têm metas e nós não".
Evidentemente, isso não impede esse grupo de estabelecer suas próprias metas internas, como as criadas no Brasil com o Plano Nacional de Mudanças do Clima. Em 2020, talvez a conversa seja diferente, pois a expectativa é de que, até lá, os países em desenvolvimento emitam mais carbono do que os desenvolvidos. No entanto, se as metas voluntárias internas dos BRICs forem bem cumpridas, talvez isso não chegue a acontecer.
O tema da adaptação aos fenômenos que já são considerados irreversíveis também é crucial e deve render em Copenhague. Os problemas decorrentes das alterações no clima tendem a se agravar e os mais prejudicados serão os quase 100 países menos desenvolvidos. Os recursos financeiros necessários para proteger essas populações devem ser providos pelos países ricos. "Dessa dívida eles não devem escapar", diz Tasso. "Podem até argumentar que estamos nos aproximando em quantidade de emissões, mas as mudanças climáticas atuais são seguramente fruto das emissões deles, já que o carbono fica mais de 100 anos na atmosfera".
AS FLORESTAS E O BRASIL
Para o diretor do Serviço Florestal Brasileiro pode ser que ainda haja espaço na Conferência para a discussão de metas por meio de uma abordagem setorial. Dessa forma, as emissões de cada setor - florestas, transporte e energia, por exemplo - seriam medidas a nível nacional, dando origem a Planos de Desenvolvimento de Baixo Carbono - o Plano Nacional de Mudanças do Clima brasileiro seria um exemplo disso.
Mesmo que a discussão não chegue a esse grau de detalhamento, certamente o setor florestal será contemplado e os mecanismos de incentivo à preservação de florestas, como o REDD - Reducing Emissions from Deforestation in Developing Countries, devem ser aprimorados. A notícia pode ser boa para o Brasil (que deve contar com uma comitiva de mais de cem pessoas do governo em Copenhague, incluindo os ministros do Meio Ambiente, Carlos Minc, e de Ciência e Tecnologia, Sergio Rezende, e encabeçada pelo ministro de Relações Exteriores, Celso Amorim), mas há que se ficar atento às condições para que os recursos financeiros cheguem aos trinta e cinco países que ainda possuem florestas.
"O ponto fundamental é se esse tipo de incentivo permitirá o offset, ou seja, a compensação das emissões dos países ricos", observa Tasso. Ele afirma que a questão envolve o fato de atingirmos ou não a redução global necessária para que o aumento da temperatura no planeta não ultrapasse os dois graus. Se os incentivos dos países desenvolvidos forem utilizados para abater parte de suas obrigações, corremos o risco de que a conta não feche. Por outro lado, se as metas de redução forem altas o suficiente, talvez apenas com os incentivos à preservação florestal elas possam ser cumpridas.
"Esse tema está atualmente em debate, inclusive dentro do governo", diz Tasso. "Se a temperatura aumentar muito, os estudos mostram que os impactos sobre as florestas e o semiárido seriam muito fortes, com conseqüências econômicas e sociais e custos mais altos do que receberíamos dos países desenvolvidos. É necessário avaliar se, ao aproveitarmos a oportunidade de crédito, não estaríamos protegendo a floresta agora, mas a perdendo lá na frente. Essa não é uma questão simples de ser resolvida".
Diante de tantas questões em jogo, até dezembro, só nos resta fazer a nossa parte e obter o máximo de informações possíveis para acompanhar a discussão de Copenhague e cobrar das autoridades locais e globais que também cumpram suas metas para garantir que a Terra continue a ser um lugar habitável - e agradável - para os seres humanos.