medida ultrapassada
Muito além do PIB
O assunto não é novo e foi recentemente abordado em encontro promovido pelo Instituto Ethos com seus associados e, também, pelo Movimento Nossa São Paulo durante o Fórum Social Mundia, e ocupa algumas das principais mentes do mundo, que estão em busca de novos indicadores de progresso, riqueza e bem-estar
Thays Prado - Edição: Mônica Nunes
Planeta Sustentável - 06/02/2009
Desde a II Guerra Mundial, o crescimento econômico dos países é medido pelo PIB – Produto Interno Bruto, um indicador que, basicamente, contabiliza o que foi produzido internamente em termos de bens e serviços – sem distinção entre o que é benéfico ou não para a sociedade e/ou o meio ambiente – e serve de instrumento de comparação macroeconômica entre as nações.
O que em tempos de conflito fazia sentido, vem perdendo cada vez mais a razão de ser. Segundo o economista José Eli da Veiga, (em artigo publicado no Jornal Valor Econômico, em abril do ano passado, e em seu livro “Emergência Socioambiental”) a medida foi questionada pela primeira vez já na década de 70, pelo próprio criador do PIB, Simon Kuznets, e vem sendo debatida cada vez mais: em Palermo, em 2004; em Milão, em 2006; em Istambul, em meados de 2007 e em Bruxelas no final do mesmo ano.
Esse último encontro rendeu um grande movimento, o Beyond GDP – Além do PIB, em tradução livre –, iniciativa da Comissão Européia, do Parlamento Europeu, do Clube de Roma, da OECD – Organização para Cooperação Econômica e Desenvolvimento e do WWF. A intenção é encontrar instrumentos mais eficientes para medir o progresso, a riqueza e o nível de bem-estar dos países, e que levem em conta não apenas questões econômicas, mas também sociais e ambientais e deem atenção a assuntos como saúde, pobreza, mudanças climáticas e diminuição dos recursos naturais, entre outros. Isso porque o desempenho econômico dos países não reflete necessariamente o nível de bem-estar de sua população. O site do Beyond GDP serve de ferramenta para troca de informações entre os países sobre o que tem sido feito nesse sentido.
A FRANÇA, NA FRENTE
Logo depois do encontro em Bruxelas, o presidente francês Nicolas Sarkozy nomeou dois prêmios Nobel de economia – Joseph Stiglitz e Amartya Sem – a pensarem sobre o assunto. Em janeiro de 2008, estava formada uma comissão especial que ainda se dedica ao tema e conta com mais seis Nobel.
Durante o evento organizado pelo Instituto Ethos para seus associados, no mês passado, em São Paulo (Leia a reportagem: Brasil está na contramão das melhores saídas para a crise), o economista José Eli explicou que há três eixos norteadores do trabalho francês:
- desempenho econômico;
- sustentabilidade e
- felicidade.
Um subgrupo dentro da comissão cuida especificamente de medidores de desempenho econômico. Para o economista, “contabilidade não pode ser misturada com aspectos subjetivos como a felicidade”. Em junho deste ano deve ser apresentado o relatório final do estudo.
No entanto, José Eli acredita que o entrave para a implementação de uma nova medida de progresso e bem-estar se dá no terreno do debate de ideias. Ele diz que não será fácil “romper a inércia institucional” e convencer os organismos internacionais a adotarem novos indicadores.
TENTATIVAS DE AVANÇO
Ainda assim, diversos esforços isolados têm sido feitos para resolver esse dilema contemporâneo. Vários deles estão listados no site do Beyond GDP. Alguns, apenas ajustam o que é medido pelo PIB, expandindo o cálculo econômico a aspectos sociais e ambientais – como é o caso do Genuine Progress Indicator.
Outros, como o Genuine Savings, vão além e consideram o capital natural, ambiental e humano na conta: investimentos em educação significam aumento do indicador, enquanto o desgaste do solo, o corte de florestas e as emissões de carbono fazem com que ele caia.
Já o conhecido IDH – Índice de Desenvolvimento Humano, antes de mais nada, avalia a longevidade e a saúde dos habitantes de um país, seu grau de instrução e se eles possuem um padrão de vida decente, esses dados são combinados com o PIB e geram um número de referência.
Mais recentemente, certos indicadores também têm dado importância à qualidade de vida e à felicidade dos indivíduos de cada país. Entre os exemplos mais notáveis estão o Índice Canadense de Bem-Estar e o FIB – Felicidade Interna Bruta – desenvolvido pelo Butão na década de 80, o índice ganhou o mundo nos últimos anos e, em 2008, foi amplamente divulgado no Brasil, que aspira ser o segundo país a utilizá-lo (Leia reportagem: Felicidade Interna Bruta chama a atenção dos paulistanos).
O FIB ainda inspirou discussões durante o Fórum Social Mundial, em um debate organizado pelo Movimento Nossa São Paulo e que contou com a participação, entre outros especialistas, do filósofo Patrick Viveret – que defendeu que o PIB é uma medida obsoleta, tendo servido apenas no período pós-guerra para viabilizar a reconstrução das nações – e da ex-primeira dama francesa Danielle Mitterrand – que possui uma fundação com seu nome e é uma das incentivadoras da construção de novos parâmetros para a medição das riquezas de um país, que extrapolem o simples acúmulo de capital.
Desde a II Guerra Mundial, o crescimento econômico dos países é medido pelo PIB – Produto Interno Bruto, um indicador que, basicamente, contabiliza o que foi produzido internamente em termos de bens e serviços – sem distinção entre o que é benéfico ou não para a sociedade e/ou o meio ambiente – e serve de instrumento de comparação macroeconômica entre as nações.
O que em tempos de conflito fazia sentido, vem perdendo cada vez mais a razão de ser. Segundo o economista José Eli da Veiga, (em artigo publicado no Jornal Valor Econômico, em abril do ano passado, e em seu livro “Emergência Socioambiental”) a medida foi questionada pela primeira vez já na década de 70, pelo próprio criador do PIB, Simon Kuznets, e vem sendo debatida cada vez mais: em Palermo, em 2004; em Milão, em 2006; em Istambul, em meados de 2007 e em Bruxelas no final do mesmo ano.
Esse último encontro rendeu um grande movimento, o Beyond GDP – Além do PIB, em tradução livre –, iniciativa da Comissão Européia, do Parlamento Europeu, do Clube de Roma, da OECD – Organização para Cooperação Econômica e Desenvolvimento e do WWF. A intenção é encontrar instrumentos mais eficientes para medir o progresso, a riqueza e o nível de bem-estar dos países, e que levem em conta não apenas questões econômicas, mas também sociais e ambientais e deem atenção a assuntos como saúde, pobreza, mudanças climáticas e diminuição dos recursos naturais, entre outros. Isso porque o desempenho econômico dos países não reflete necessariamente o nível de bem-estar de sua população. O site do Beyond GDP serve de ferramenta para troca de informações entre os países sobre o que tem sido feito nesse sentido.
A FRANÇA, NA FRENTE
Logo depois do encontro em Bruxelas, o presidente francês Nicolas Sarkozy nomeou dois prêmios Nobel de economia – Joseph Stiglitz e Amartya Sem – a pensarem sobre o assunto. Em janeiro de 2008, estava formada uma comissão especial que ainda se dedica ao tema e conta com mais seis Nobel.
Durante o evento organizado pelo Instituto Ethos para seus associados, no mês passado, em São Paulo (Leia a reportagem: Brasil está na contramão das melhores saídas para a crise), o economista José Eli explicou que há três eixos norteadores do trabalho francês:
- desempenho econômico;
- sustentabilidade e
- felicidade.
Um subgrupo dentro da comissão cuida especificamente de medidores de desempenho econômico. Para o economista, “contabilidade não pode ser misturada com aspectos subjetivos como a felicidade”. Em junho deste ano deve ser apresentado o relatório final do estudo.
No entanto, José Eli acredita que o entrave para a implementação de uma nova medida de progresso e bem-estar se dá no terreno do debate de ideias. Ele diz que não será fácil “romper a inércia institucional” e convencer os organismos internacionais a adotarem novos indicadores.
TENTATIVAS DE AVANÇO
Ainda assim, diversos esforços isolados têm sido feitos para resolver esse dilema contemporâneo. Vários deles estão listados no site do Beyond GDP. Alguns, apenas ajustam o que é medido pelo PIB, expandindo o cálculo econômico a aspectos sociais e ambientais – como é o caso do Genuine Progress Indicator.
Outros, como o Genuine Savings, vão além e consideram o capital natural, ambiental e humano na conta: investimentos em educação significam aumento do indicador, enquanto o desgaste do solo, o corte de florestas e as emissões de carbono fazem com que ele caia.
Já o conhecido IDH – Índice de Desenvolvimento Humano, antes de mais nada, avalia a longevidade e a saúde dos habitantes de um país, seu grau de instrução e se eles possuem um padrão de vida decente, esses dados são combinados com o PIB e geram um número de referência.
Mais recentemente, certos indicadores também têm dado importância à qualidade de vida e à felicidade dos indivíduos de cada país. Entre os exemplos mais notáveis estão o Índice Canadense de Bem-Estar e o FIB – Felicidade Interna Bruta – desenvolvido pelo Butão na década de 80, o índice ganhou o mundo nos últimos anos e, em 2008, foi amplamente divulgado no Brasil, que aspira ser o segundo país a utilizá-lo (Leia reportagem: Felicidade Interna Bruta chama a atenção dos paulistanos).
O FIB ainda inspirou discussões durante o Fórum Social Mundial, em um debate organizado pelo Movimento Nossa São Paulo e que contou com a participação, entre outros especialistas, do filósofo Patrick Viveret – que defendeu que o PIB é uma medida obsoleta, tendo servido apenas no período pós-guerra para viabilizar a reconstrução das nações – e da ex-primeira dama francesa Danielle Mitterrand – que possui uma fundação com seu nome e é uma das incentivadoras da construção de novos parâmetros para a medição das riquezas de um país, que extrapolem o simples acúmulo de capital.