crise financeira
De volta ao essencial
A escritora e co-fundadora do Palas Athena, Lia Diskin diz que a sensação de desorientação causada pela volatilidade do dinheiro e a quebra das bolsas pode se transformar em lucidez. Para dar esse salto, ela nos convida a retornar à raiz da vida e à sabedoria da natureza
Por Thays Prado
Planeta Sustentável - 18/12/2008
[img1] Em momentos de crise, a primeira reação é o desespero, acompanhado da sensação de se estar “em alto mar, numa noite escura e sem lua”, nas palavras da escritora e co-fundadora do Centro de Estudos Filosóficos Palas Athena, Lia Diskin.
Para essa pensadora, cuja confiança na vida parece inabalável, quando nos deparamos com duas crises – ambiental e econômica – que demonstram que nossa maneira de viver não se sustenta, é hora de nos voltarmos para os aspectos concretos da existência e repensarmos o que nos é, de fato, necessário.
Acompanhe a conversa que tivemos com Lia, para quem a desilusão atual é sinônimo de um processo de lucidez.
Como você descreve o momento que estamos vivendo?
Usando uma expressão não muito sofisticada, estamos “caindo na real” e desiludir-se é doloroso, mas saudável. A gente se norteou muito por um mapa que não correspondia ao continente. Em vez de buscar um porto seguro e sustentável, nos internalizamos em marés revoltas. Quando se está numa situação complexa, mas há como vislumbrar uma saída, ainda que distante, isso atenua a ansiedade. Por outro lado, se não conseguimos saber para onde nos movimentamos, ficamos desorientados.
[img2] Ainda não conseguimos visualizar nenhuma saída?
Saídas distantes já foram assinaladas há muito tempo, mas ainda não são palatáveis. O que me causa perplexidade é que ainda se convidem as pessoas a continuar consumindo! Este é um momento de rever se o que consumimos atende a uma necessidade ou a uma compulsão substitutiva de outras realidades internas – para amenizar frustrações, alimentar vaidades...
Não penso que seja lúcido continuar convidando as pessoas a consumir. Como vamos produzir mais carros se em cidades como São Paulo, México e Cingapura não se anda mais? Qual o sentido disso? Essa é uma metáfora do desatino que estamos vivendo: parte-se da idéia de que os recursos são infinitos, mas, na vida concreta, a equação não fecha. Como não se criou outra indústria ou empregos substitutivos, também não podemos ter uma maré de desempregados na rua, porque isso seria uma crise muito pior.
Se realmente cairmos na real e nos tornarmos mais lúcidos, o que iremos perceber daqui em diante?
Como seres vivos, vamos rever nosso modo de ser e estar no mundo. Qual é a minha função aqui: produzir para consumir e consumir para produzir? Isso é insatisfatório, insuficiente e indesejável para o ser humano. O suficiente é ter espaço para explorar seu potencial como humano. E isso sem prejudicar os outros ou a própria Terra, que é o nosso espaço de sustentação.
Como podemos fazer isso?
Primeiro, contatando a realidade, percebendo como se organizam os seres vivos, desde um formigueiro, uma alcatéia, uma manada de búfalos, como eles criam uma ordem social, como cuidam de seu habitat... É contatar a raiz da vida. Nós nos distanciamos dos modelos naturais e um retorno a essa concretude, a essa organicidade com que se sustenta a vida na crosta do planeta seria muito benéfico. A partir daí, se daria um grande processo de educação e auto-reflexão para separarmos desejo de necessidade. Nunca poderemos saciar a voracidade de nossos desejos, mas podemos atender bem a nossas necessidades.
Hoje, o planeta ainda tem capacidade de satisfazer as necessidades de todos os seus habitantes?
De absolutamente todos. Gandhi tem uma frase maravilhosa que diz que o planeta tem recursos para sustentar as necessidades de todos os seres, mas não para sustentar a voracidade e a ganância de uns poucos. Essa crise foi provocada pela avidez de um grupo de apostadores, numa roleta chamada bolsa de valores.
Então, podemos dizer que a sustentabilidade é um caminho natural?
Sustentabilidade, no mundo biológico, é a busca de reciprocidade entre os seres vivos, é a contribuição para o bem comum e a garantia de sobrevida para todos. Se não temos o compromisso de sustentar essa reciprocidade, provocamos desequilíbrios. Esse caminho vai ser duro... Adquirir novos comportamentos, novos modos de viver, mais simplificados e menos cumulativos, provoca consternação ou frustração, mas não tem jeito, é o que temos pela frente e quanto mais adiarmos isso, pior vai ser. Temos que ser realistas, quanto mais postergarmos a transformação do viver, do conviver e do se articular no espaço que a Terra nos oferece, mais difícil será.
[img3] Você acredita que já estamos nos tornando mais lúcidos para isso?
Há ilhas de lucidez, mas não um continente de lucidez. Ainda existe uma resistência muito grande em admitir que a brincadeira acabou. A mídia está por trás disso tudo e ainda incita as pessoas a comprarem, porque há postos lotados de mercadorias e há que se pagarem os funcionários, a matéria prima... É um círculo vicioso que se alimenta de maneira perversa.
E dá para quebrar esse círculo vicioso?
Precisamos nos sentar sobre a terra, deixar de lado nossas cadeiras tão higiênicas e ver como nos equacionamos de maneira saudável. Não estou dizendo para voltarmos às tribos, mas temos de rever as premissas que estão erradas. Os recursos são finitos e não podemos continuar a explorá-los com as conseqüências disso diante do nariz. Em pouco tempo, tivemos dois alertas significativos: no dia 5 de fevereiro de 2007, 1.500 cientistas de todo o mundo - que compõem o IPCC - foram unânimes e claríssimos em dizer que a responsabilidade pelas mudanças do planeta é do ser humano. E agora, em outubro, começou a crise econômica, que também é fruto de uma criação humana. O jogo está na mesa, o que mais se espera? Se nem a natureza e nem o modelo econômico nos sustentam mais, quem vai nos sustentar?
Que tipo de lição podemos tirar desta crise econômica?
A de que o dinheiro não é tão concreto quanto imaginávamos. Dinheiro é apenas um símbolo convencional, e tão fluido que quem tinha R$ 5 mil em ações supostamente declarados no extrato bancário, de repente, só tinha R$ 2.500 (risos). Como foi isso? Você não fez nada e mesmo assim perdeu dinheiro? É um dinheiro tão fantástico, que literalmente aquilo se volatiliza. A relação com o dinheiro agora é bem mais estonteante do que há três meses.
E o que fazemos com essa nova referência?
Isso é um convite para nos voltarmos para o concreto. Quando o estômago roncar, não adianta ler poemas ou ouvir uma bela música, ele quer alimento. Não que a arte não seja meritória, não tiro o mérito dela como uma criação da cultura, mas não podemos substituir as coisas, o simbólico é representativo e não substitutivo do real.
Outra lição da crise é que riqueza sem trabalho é algo perigoso. Na natureza, isso não é possível de ser verificado. Se não há o trabalho de um passarinho para a construção de seu ninho, ele não terá onde se abrigar; se um roedor não faz sua caça diária para manter suas crias, elas não sobrevivem.
Você acredita que essa mudança de percepção começa na esfera individual?
Não acredito que possamos falar de um indivíduo dissociado do meio onde está. Não poderíamos ter chegado a ser alguém sem a proteção da família, não seríamos ninguém emocionalmente, se não nos tivéssemos amigos que legitimam nossa presença no mundo... Estamos imbricados em uma única realidade de que nos alimentamos e que se alimenta de nós, ao mesmo tempo. Sozinhos, não encontramos força ou sequer razão para mudar. Mudamos porque queremos que nossos filhos desfrutem de um ambiente saudável, de uma natureza convidativa, inspiradora, de um futuro que seja realmente seguro e confiável. Se não se tem esse sentimento em relação a ninguém, qual a diferença de existir ou não essa rua anos mais tarde?
Sem amor não há estímulo para evoluirmos e transformarmos o meio onde vivemos?
Sem os afetos, os relacionamentos e os vínculos que criamos, não. Precisamos ter respeito pelo processo do qual somos depositários, mas não proprietários. Em condições normais, não posso determinar a minha morte. Eu habito a vida que vai além da minha compreensão e o mínimo que posso ter é respeito por ela.
Ainda dá tempo de fazermos as transformações necessárias em respeito à vida?
Ainda dá. Muita gente tem trabalhado de maneira extraordinária com o consumo consciente, a simplicidade voluntária e pela implementação de agendas ambientalistas nos processos de produção. Se reforçarmos esses grupos, transformarmos essas ações em políticas públicas e colocarmos esses conteúdos nas escolas, a coisa avança rápido.
Não conhecemos nada sobre a vida... O que sabemos sobre a profundeza dos mares? Não temos conhecimento de nem 10% dos seres vivos, dos insetos, das florestas... Não conseguimos mensurar o que nos guarda nosso cérebro! A neurociência tem descortinado uma vida autônoma que nem sabíamos que existia. Ainda estamos engatinhando e se pudermos acolher isso com humildade, vai ser muito bom. A vida nos surpreenderá.
[img1] Em momentos de crise, a primeira reação é o desespero, acompanhado da sensação de se estar “em alto mar, numa noite escura e sem lua”, nas palavras da escritora e co-fundadora do Centro de Estudos Filosóficos Palas Athena, Lia Diskin.
Para essa pensadora, cuja confiança na vida parece inabalável, quando nos deparamos com duas crises – ambiental e econômica – que demonstram que nossa maneira de viver não se sustenta, é hora de nos voltarmos para os aspectos concretos da existência e repensarmos o que nos é, de fato, necessário.
Acompanhe a conversa que tivemos com Lia, para quem a desilusão atual é sinônimo de um processo de lucidez.
Como você descreve o momento que estamos vivendo?
Usando uma expressão não muito sofisticada, estamos “caindo na real” e desiludir-se é doloroso, mas saudável. A gente se norteou muito por um mapa que não correspondia ao continente. Em vez de buscar um porto seguro e sustentável, nos internalizamos em marés revoltas. Quando se está numa situação complexa, mas há como vislumbrar uma saída, ainda que distante, isso atenua a ansiedade. Por outro lado, se não conseguimos saber para onde nos movimentamos, ficamos desorientados.
[img2] Ainda não conseguimos visualizar nenhuma saída?
Saídas distantes já foram assinaladas há muito tempo, mas ainda não são palatáveis. O que me causa perplexidade é que ainda se convidem as pessoas a continuar consumindo! Este é um momento de rever se o que consumimos atende a uma necessidade ou a uma compulsão substitutiva de outras realidades internas – para amenizar frustrações, alimentar vaidades...
Não penso que seja lúcido continuar convidando as pessoas a consumir. Como vamos produzir mais carros se em cidades como São Paulo, México e Cingapura não se anda mais? Qual o sentido disso? Essa é uma metáfora do desatino que estamos vivendo: parte-se da idéia de que os recursos são infinitos, mas, na vida concreta, a equação não fecha. Como não se criou outra indústria ou empregos substitutivos, também não podemos ter uma maré de desempregados na rua, porque isso seria uma crise muito pior.
Se realmente cairmos na real e nos tornarmos mais lúcidos, o que iremos perceber daqui em diante?
Como seres vivos, vamos rever nosso modo de ser e estar no mundo. Qual é a minha função aqui: produzir para consumir e consumir para produzir? Isso é insatisfatório, insuficiente e indesejável para o ser humano. O suficiente é ter espaço para explorar seu potencial como humano. E isso sem prejudicar os outros ou a própria Terra, que é o nosso espaço de sustentação.
Como podemos fazer isso?
Primeiro, contatando a realidade, percebendo como se organizam os seres vivos, desde um formigueiro, uma alcatéia, uma manada de búfalos, como eles criam uma ordem social, como cuidam de seu habitat... É contatar a raiz da vida. Nós nos distanciamos dos modelos naturais e um retorno a essa concretude, a essa organicidade com que se sustenta a vida na crosta do planeta seria muito benéfico. A partir daí, se daria um grande processo de educação e auto-reflexão para separarmos desejo de necessidade. Nunca poderemos saciar a voracidade de nossos desejos, mas podemos atender bem a nossas necessidades.
Hoje, o planeta ainda tem capacidade de satisfazer as necessidades de todos os seus habitantes?
De absolutamente todos. Gandhi tem uma frase maravilhosa que diz que o planeta tem recursos para sustentar as necessidades de todos os seres, mas não para sustentar a voracidade e a ganância de uns poucos. Essa crise foi provocada pela avidez de um grupo de apostadores, numa roleta chamada bolsa de valores.
Então, podemos dizer que a sustentabilidade é um caminho natural?
Sustentabilidade, no mundo biológico, é a busca de reciprocidade entre os seres vivos, é a contribuição para o bem comum e a garantia de sobrevida para todos. Se não temos o compromisso de sustentar essa reciprocidade, provocamos desequilíbrios. Esse caminho vai ser duro... Adquirir novos comportamentos, novos modos de viver, mais simplificados e menos cumulativos, provoca consternação ou frustração, mas não tem jeito, é o que temos pela frente e quanto mais adiarmos isso, pior vai ser. Temos que ser realistas, quanto mais postergarmos a transformação do viver, do conviver e do se articular no espaço que a Terra nos oferece, mais difícil será.
[img3] Você acredita que já estamos nos tornando mais lúcidos para isso?
Há ilhas de lucidez, mas não um continente de lucidez. Ainda existe uma resistência muito grande em admitir que a brincadeira acabou. A mídia está por trás disso tudo e ainda incita as pessoas a comprarem, porque há postos lotados de mercadorias e há que se pagarem os funcionários, a matéria prima... É um círculo vicioso que se alimenta de maneira perversa.
E dá para quebrar esse círculo vicioso?
Precisamos nos sentar sobre a terra, deixar de lado nossas cadeiras tão higiênicas e ver como nos equacionamos de maneira saudável. Não estou dizendo para voltarmos às tribos, mas temos de rever as premissas que estão erradas. Os recursos são finitos e não podemos continuar a explorá-los com as conseqüências disso diante do nariz. Em pouco tempo, tivemos dois alertas significativos: no dia 5 de fevereiro de 2007, 1.500 cientistas de todo o mundo - que compõem o IPCC - foram unânimes e claríssimos em dizer que a responsabilidade pelas mudanças do planeta é do ser humano. E agora, em outubro, começou a crise econômica, que também é fruto de uma criação humana. O jogo está na mesa, o que mais se espera? Se nem a natureza e nem o modelo econômico nos sustentam mais, quem vai nos sustentar?
Que tipo de lição podemos tirar desta crise econômica?
A de que o dinheiro não é tão concreto quanto imaginávamos. Dinheiro é apenas um símbolo convencional, e tão fluido que quem tinha R$ 5 mil em ações supostamente declarados no extrato bancário, de repente, só tinha R$ 2.500 (risos). Como foi isso? Você não fez nada e mesmo assim perdeu dinheiro? É um dinheiro tão fantástico, que literalmente aquilo se volatiliza. A relação com o dinheiro agora é bem mais estonteante do que há três meses.
E o que fazemos com essa nova referência?
Isso é um convite para nos voltarmos para o concreto. Quando o estômago roncar, não adianta ler poemas ou ouvir uma bela música, ele quer alimento. Não que a arte não seja meritória, não tiro o mérito dela como uma criação da cultura, mas não podemos substituir as coisas, o simbólico é representativo e não substitutivo do real.
Outra lição da crise é que riqueza sem trabalho é algo perigoso. Na natureza, isso não é possível de ser verificado. Se não há o trabalho de um passarinho para a construção de seu ninho, ele não terá onde se abrigar; se um roedor não faz sua caça diária para manter suas crias, elas não sobrevivem.
Você acredita que essa mudança de percepção começa na esfera individual?
Não acredito que possamos falar de um indivíduo dissociado do meio onde está. Não poderíamos ter chegado a ser alguém sem a proteção da família, não seríamos ninguém emocionalmente, se não nos tivéssemos amigos que legitimam nossa presença no mundo... Estamos imbricados em uma única realidade de que nos alimentamos e que se alimenta de nós, ao mesmo tempo. Sozinhos, não encontramos força ou sequer razão para mudar. Mudamos porque queremos que nossos filhos desfrutem de um ambiente saudável, de uma natureza convidativa, inspiradora, de um futuro que seja realmente seguro e confiável. Se não se tem esse sentimento em relação a ninguém, qual a diferença de existir ou não essa rua anos mais tarde?
Sem amor não há estímulo para evoluirmos e transformarmos o meio onde vivemos?
Sem os afetos, os relacionamentos e os vínculos que criamos, não. Precisamos ter respeito pelo processo do qual somos depositários, mas não proprietários. Em condições normais, não posso determinar a minha morte. Eu habito a vida que vai além da minha compreensão e o mínimo que posso ter é respeito por ela.
Ainda dá tempo de fazermos as transformações necessárias em respeito à vida?
Ainda dá. Muita gente tem trabalhado de maneira extraordinária com o consumo consciente, a simplicidade voluntária e pela implementação de agendas ambientalistas nos processos de produção. Se reforçarmos esses grupos, transformarmos essas ações em políticas públicas e colocarmos esses conteúdos nas escolas, a coisa avança rápido.
Não conhecemos nada sobre a vida... O que sabemos sobre a profundeza dos mares? Não temos conhecimento de nem 10% dos seres vivos, dos insetos, das florestas... Não conseguimos mensurar o que nos guarda nosso cérebro! A neurociência tem descortinado uma vida autônoma que nem sabíamos que existia. Ainda estamos engatinhando e se pudermos acolher isso com humildade, vai ser muito bom. A vida nos surpreenderá.