
Por Fabiane Stefano e Eduardo Salgado
Revista Exame - 04/06/08
No final do século 18, nove anos depois da Revolução Francesa, o pensador inglês Thomas Malthus fez barulho na Europa com a publicação de um pequeno ensaio no qual dizia que o futuro, ao contrário do que argumentavam seus contemporâneos franceses, seria trágico. Nada de fraternidade e igualdade.
Malthus, um matemático formado em Cambridge, declarou que a população iria crescer em proporção geométrica, enquanto o volume de alimentos produzido aumentaria em proporção aritmética. Com base nessa projeção, ele olhava à frente e só conseguia enxergar o fantasma da fome. Nos 200 anos que se seguiram, a população mundial cresceu sete vezes, chegando a 6,7 bilhões de pessoas, e, ao contrário da famosa previsão, a qualidade de vida média deu um salto inédito. Dado esse retrospecto, qual é a explicação para o recente renascimento das idéias de Malthus?
Nos últimos dois anos, o preço de todas as commodities agrícolas subiu 60%, um número por si só assustador. Os produtos que puxaram essa média são justamente alguns dos mais consumidos. Desde 2006, o preço do arroz teve alta de 250%, o do milho e o da soja, 155%, e o do trigo, 122%. Protestos de rua contra o preço dos alimentos espalharam-se do Egito ao México e o alarme da inflação soou mundo afora. Se o passado recente é preocupante, as perspectivas de curto e médio prazo não são melhores. Decretou-se o início da era da comida cara.
A Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), o FMI e a maior parte dos analistas prevêem que os preços vão oscilar nos próximos meses e, depois, se manterão num patamar semelhante ao atual por vários anos. A FAO fala em uma década. O FMI, em cinco anos. Estoques baixos, provocados por quebras de safras, alto preço do petróleo, o que encarece os insumos e incentiva a produção de etanol à base de milho, e demanda crescente seriam os vilões por trás da inflação dos alimentos. É a velha e invencível regra da demanda e da oferta funcionando mais uma vez.
Previsões sobre o preço das commodities agrícolas são sempre complicadas. Envolvem muitos fatores do clima em várias partes do globo ao longo de anos à imposição de políticas protecionistas. No passado, quando havia um choque de demanda, o mercado demorava poucos anos para responder. Ao ver os preços em alta, os produtores plantavam mais, e em dois ou três anos os valores voltavam a cair. Desta vez, é provável que esse ciclo demore mais tempo, diz Valerie Mercer-Blackman, economista sênior do departamento de commodities do FMI. O fato novo é a gigantesca fome por commodities de vários países emergentes, principalmente a China. No mercado de petróleo, por exemplo, a demanda de chineses, indianos e árabes respondeu por 56% do crescimento do consumo entre 2001 e 2007.
Essa mudança provocou efeitos em cascata. Com o valor do barril nas alturas, ficou mais caro transportar alimentos e comprar fertilizantes o FMI estima que 25% do aumento do preço das principais commodities agrícolas nos últimos dois anos tenha sido causado pela alta dos combustíveis. Fora isso, o valor do petróleo fez com que o governo americano aumentasse os incentivos para a produção de etanol de milho. Resultado: nos últimos 12 meses, a saca do grão mais consumido no mundo subiu 43%. Se os efeitos dessa decisão ficassem restritos à cadeia do milho que é utilizado na indústria de alimentos do mundo todo e como ração animal , já seria um grave problema. Mas, induzidos pelos incentivos do governo à produção de um etanol pouco eficiente, produtores americanos estão deixando de se dedicar à soja.
As conseqüências são previsíveis: com a diminuição da produção, a tendência é que os preços da soja continuem subindo. No longo prazo, os combustíveis de origem vegetal serão o principal fator para o aumento dos preços das commodities agrícolas, diz o economista Ronald Trostle, coordenador das projeções internacionais do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos.
No fim, alimento sempre se transforma em energia. E é disso que um mundo em crescimento mais precisa. Pode ser o etanol de milho que vai para o motor dos carros dos americanos. Ou as calorias necessárias para movimentar o corpo de milhões de chineses que saíram da miséria e descobriram o mercado e as delícias de uma dieta mais rica. O consumo anual de cereais na China saiu de 450 milhões de toneladas em 2001 para 513 milhões de toneladas no ano passado. Hoje, o país é o maior importador de algodão e soja do mundo.
À medida que as populações de países em desenvolvimento ganham mais poder de compra, a dieta alimentar muda radicalmente. Aumenta o consumo de diferentes carnes, frutos do mar, frutas e vegetais. Em 1990, de cada 100 casas na China, apenas 29 tinham geladeira. Hoje, mais de 80% das residências contam com o equipamento. Com isso, as vendas de laticínios, peixe e carne de frango alimentos que precisam ser refrigerados explodiram nas últimas duas décadas.
A importação de soja da China recebeu novo impulso com o salto registrado no consumo de carnes dependentes de rações feitas de cereais. Em média, para produzir 1 quilo de carne são necessários 8 quilos de grãos. Em 1990, 74% da população economicamente ativa da China vivia no campo. Hoje, estima-se que quase 50% dos chineses vivam nas cidades. Milhões de pessoas passaram a comprar sua comida em vez de plantá-la.
A fome dos chineses, a sedução dos produtores de milho americanos pelo etanol, a elevação do preço do petróleo são razões visíveis para a inflação mundial da comida. Tudo isso reunido obviamente despertaria a ambição do mercado financeiro. À medida que as commodities agrícolas foram se valorizando, um número crescente de investidores passou a aplicar nos mercados futuros o que levou muitos observadores a ver uma relação de causa e efeito entre a chegada deles e o aumento ainda maior dos preços.
Estima-se que só os gestores de fundos indexados a commodities tenham colocado 47 bilhões de dólares na bolsa de Chicago desde 2006. As novas aplicações somam 1 bilhão de dólares por semana. É natural que assim seja. Os especuladores só vão sossegar quando os preços caírem. E isso só vai acontecer quando houver novamente um equilíbrio entre oferta e demanda. O mundo precisa aumentar a produção agrícola, diz Dan Basse, presidente da AgResources, consultoria agrícola com sede em Chicago. Isso vale, em particular, para o Brasil.
Equilibrar oferta e demanda é algo especialmente complexo no setor agrícola. A produção do setor tem peculiaridades que tornam seu ciclo mais lento. Um fabricante de computadores ou de aparelhos de TV pode aumentar sua produção rapidamente com a aquisição de máquinas e a contratação de mão-de-obra. No caso de um empresário do campo, a expansão muitas vezes depende de mais terra, o que pode ser um limite físico. Em muitos países, há espaço para a expansão agrícola, mas faltam empreendedores. A pedido de EXAME, o Instituto de Estudos do Comércio e Negociações Internacionais (Icone), de São Paulo, avaliou a capacidade produtiva de 65 países agrícolas, responsáveis por 90% da área produtiva do mundo.
Em teoria, o panorama traçado no estudo é promissor. Hoje, somando todas as áreas agrícolas em uso, chega-se a 1,4 bilhão de hectares. Potencialmente há outro 1,1 bilhão de hectares que poderia ser destinado à agricultura, seja pela incorporação de terras novas, seja pela transformação de pastagens em plantações. Mas as barreiras para o aumento imediato da produção são grandes e diversificadas. A África, continente com maior estoque de terras, teria capacidade de triplicar a área de produção agrícola. Mas a instabilidade política da região e o baixo desenvolvimento econômico deverão ainda impor anos de atraso. Tome-se como exemplo Angola, país com 57 milhões de hectares agricultáveis, com menos de 10% da área atualmente dedicada à lavoura.
Apesar do potencial fantástico, o país atravessou quase três décadas de guerra civil que desmantelaram o setor produtivo, contaminaram os lençóis freáticos, eliminaram o rebanho de gado e jogaram por terra a tradição agrícola na população. No Zimbábue, disputas políticas levaram à expulsão da população branca que dominava a produção agrícola do país. Sem investimentos, a agricultura africana nunca será competitiva, diz o pesquisador Evaristo Eduardo de Miranda, da Embrapa Monitoramento por Satélite. Esse quadro poderá mudar se o governo chinês colocar em prática o plano de comprar vastas áreas agrícolas na África (a América do Sul também está no radar) para garantir a oferta de alimentos.
Na Índia, os entraves para a expansão da safra agrícola estão na estrutura fundiária. Cerca de 90% das propriedades rurais do país têm 1 ou 2 hectares. Comprar maquinário e investir em tecnologia é economicamente inviável para a maioria dos agricultores indianos. Em boa parte da Europa, as propriedades também são pequenas e seus donos vivem mais dos subsídios do que da competência produtiva. Para ampliar a produção competitivamente, é preciso ter escala. Os ganhos nas negociações de logística e de defensivos são brutais, diz Marcelo Aguiar, diretor no Brasil do AIG Capital, fundo de private equity que investe em terras.
Diante desse panorama no resto do mundo, o Brasil e a América do Sul surgem como lugares indispensáveis. A América do Sul é a região que está mais pronta para ser expandida rapidamente, diz André Nassar, diretor do Icone. O Brasil tem a maior fronteira agrícola do mundo isso sem avançar um centímetro na floresta Amazônica. São 133 milhões de hectares, dos quais 30% ainda não explorados e 70% que estão sendo usados pela pecuária.
Somadas, essas áreas equivalem a quatro vezes o território da Alemanha ou 12% das terras que ainda podem ser ocupadas com a agricultura em todo o mundo. Além do clima favorável e das terras abundantes, o Brasil conta com uma elite esclarecida de produtores rurais. São empresários conectados às inovações tecnológicas, que contratam executivos preparados para cuidar de suas fazendas e ligados nas cotações da bolsa de Chicago, o grande centro financeiro para quem lida com commodities.
Entre 1975 e 2007, o aumento da produtividade da agropecuária brasileira foi de 3,2% ao ano, bem acima da média internacional. Por essas razões, Paul Collier, professor de economia da Universidade Oxford e autor do livro The Bottom Billion (O 1 bilhão da base da pirâmide social, numa tradução livre), defende que o Brasil é a solução mesmo fora de seu território. A maneira mais realista de aumentar a oferta mundial de alimentos é replicar o modelo agrícola brasileiro, diz Collier. O país mostrou que somente grandes empresas conseguem fazer os investimentos necessários.
Apesar de todas as dificuldades para expandir a produção agrícola, os neomalthusianos ainda podem se provar errados. O futuro não necessariamente será sinônimo de mais fome. Projeções indicam que, em 2050, seremos 9 bilhões de seres humanos. E, se todos tiverem o padrão de consumo dos americanos, será necessário produzir cinco vezes mais alimentos. A chave para alcançar esse objetivo é a continuação da revolução verde iniciada a partir da década de 50 do século 20. Foi nessa época que começaram as pesquisas para o desenvolvimento de sementes melhoradas, técnicas de manejo e defensivos agrícolas mais efi cientes.
Uma segunda fase de progresso tecnológico aconteceu com a criação dos grãos transgênicos, de plantas geneticamente modificadas. Inicialmente, as pesquisas com transgênicos buscavam ganhos de produtividade e redução de custos no campo. Agora, olham para temas como aquecimento global e escassez de água. A multinacional Monsanto está desenvolvendo nos Estados Unidos uma variedade de milho para regiões onde há falta de recursos hídricos.
Em pouco tempo, a ciência poderá tornar a agricultura viável em áreas que estão fora dos mapas de potencial de produção. Esse é um processo conhecido no Brasil. Nos anos 60, a produção de café no país estava restrita às férteis terras roxas do Paraná e do oeste de São Paulo. Hoje, os melhores cafés brasileiros vêm de áreas de cerrado em Minas Gerais e na Bahia, que estão livres das ameaças de geada. Os rendimentos obtidos no cerrado brasileiro com a técnica de café adensado, que exigiu o desenvolvimento de variedades menores, superam em pelo menos 20 vezes a melhor produtividade alcançada nas terras roxas do Paraná há 40 anos, diz José Graziano da Silva, diretor da FAO para a América Latina e o Caribe.
Hoje, parte do problema é a defasagem entre o que se consegue nos laboratórios e o que realmente se faz no campo. Nesse sentido, mesmo um país com um setor rural avançado como o Brasil tem muito a melhorar. Se toda tecnologia já existente hoje fosse aplicada no Brasil, seria possível quase triplicar a produção de milho nacional sem expandir a área de plantio, diz José Garcia Gasquez, coordenador de planejamento estratégico do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. O mesmo raciocínio vale para as culturas de algodão e de arroz, que poderiam ter suas produções mais que duplicadas.
No caso da soja, os ganhos com a aplicação de tecnologia poderiam elevar a safra brasileira em 35%, passando dos atuais 60 milhões para 81 milhões de toneladas. Esse problema, obviamente, é comum à maioria dos países. Experimentos da FAO mostram que o rendimento no cultivo de batata no Peru, com toda a tecnologia já disponível, seria dez vezes maior do que se encontra na produção comercial.
Na maior parte da Europa, por exemplo, é proibido o plantio de sementes transgênicas. Além disso, há enormes benefícios potenciais de um choque de gestão e de infra-estrutura. No Brasil, cerca de 10% da safra de grãos se perde em estradas esburacadas. Na Índia, um terço das frutas e vegetais apodrece antes de chegar aos pontos-de-venda devido à falta de infra-estrutura. Com os preços nas alturas, certamente haverá mais incentivos para diminuir o desperdício. As previsões de Malthus não se tornaram realidade nos últimos 200 anos e, levando-se em conta os avanços da tecnologia e a quantidade de terras ainda disponíveis, podem continuar sendo apenas uma terrível ameaça.
Leia também:
O mapa da expansão da agricultura
Um salto para 2017
Por Fabiane Stefano e Eduardo Salgado
Revista Exame - 04/06/08
No final do século 18, nove anos depois da Revolução Francesa, o pensador inglês Thomas Malthus fez barulho na Europa com a publicação de um pequeno ensaio no qual dizia que o futuro, ao contrário do que argumentavam seus contemporâneos franceses, seria trágico. Nada de fraternidade e igualdade.
Malthus, um matemático formado em Cambridge, declarou que a população iria crescer em proporção geométrica, enquanto o volume de alimentos produzido aumentaria em proporção aritmética. Com base nessa projeção, ele olhava à frente e só conseguia enxergar o fantasma da fome. Nos 200 anos que se seguiram, a população mundial cresceu sete vezes, chegando a 6,7 bilhões de pessoas, e, ao contrário da famosa previsão, a qualidade de vida média deu um salto inédito. Dado esse retrospecto, qual é a explicação para o recente renascimento das idéias de Malthus?
Nos últimos dois anos, o preço de todas as commodities agrícolas subiu 60%, um número por si só assustador. Os produtos que puxaram essa média são justamente alguns dos mais consumidos. Desde 2006, o preço do arroz teve alta de 250%, o do milho e o da soja, 155%, e o do trigo, 122%. Protestos de rua contra o preço dos alimentos espalharam-se do Egito ao México e o alarme da inflação soou mundo afora. Se o passado recente é preocupante, as perspectivas de curto e médio prazo não são melhores. Decretou-se o início da era da comida cara.
A Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), o FMI e a maior parte dos analistas prevêem que os preços vão oscilar nos próximos meses e, depois, se manterão num patamar semelhante ao atual por vários anos. A FAO fala em uma década. O FMI, em cinco anos. Estoques baixos, provocados por quebras de safras, alto preço do petróleo, o que encarece os insumos e incentiva a produção de etanol à base de milho, e demanda crescente seriam os vilões por trás da inflação dos alimentos. É a velha e invencível regra da demanda e da oferta funcionando mais uma vez.
Previsões sobre o preço das commodities agrícolas são sempre complicadas. Envolvem muitos fatores do clima em várias partes do globo ao longo de anos à imposição de políticas protecionistas. No passado, quando havia um choque de demanda, o mercado demorava poucos anos para responder. Ao ver os preços em alta, os produtores plantavam mais, e em dois ou três anos os valores voltavam a cair. Desta vez, é provável que esse ciclo demore mais tempo, diz Valerie Mercer-Blackman, economista sênior do departamento de commodities do FMI. O fato novo é a gigantesca fome por commodities de vários países emergentes, principalmente a China. No mercado de petróleo, por exemplo, a demanda de chineses, indianos e árabes respondeu por 56% do crescimento do consumo entre 2001 e 2007.
Essa mudança provocou efeitos em cascata. Com o valor do barril nas alturas, ficou mais caro transportar alimentos e comprar fertilizantes o FMI estima que 25% do aumento do preço das principais commodities agrícolas nos últimos dois anos tenha sido causado pela alta dos combustíveis. Fora isso, o valor do petróleo fez com que o governo americano aumentasse os incentivos para a produção de etanol de milho. Resultado: nos últimos 12 meses, a saca do grão mais consumido no mundo subiu 43%. Se os efeitos dessa decisão ficassem restritos à cadeia do milho que é utilizado na indústria de alimentos do mundo todo e como ração animal , já seria um grave problema. Mas, induzidos pelos incentivos do governo à produção de um etanol pouco eficiente, produtores americanos estão deixando de se dedicar à soja.
As conseqüências são previsíveis: com a diminuição da produção, a tendência é que os preços da soja continuem subindo. No longo prazo, os combustíveis de origem vegetal serão o principal fator para o aumento dos preços das commodities agrícolas, diz o economista Ronald Trostle, coordenador das projeções internacionais do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos.
No fim, alimento sempre se transforma em energia. E é disso que um mundo em crescimento mais precisa. Pode ser o etanol de milho que vai para o motor dos carros dos americanos. Ou as calorias necessárias para movimentar o corpo de milhões de chineses que saíram da miséria e descobriram o mercado e as delícias de uma dieta mais rica. O consumo anual de cereais na China saiu de 450 milhões de toneladas em 2001 para 513 milhões de toneladas no ano passado. Hoje, o país é o maior importador de algodão e soja do mundo.
À medida que as populações de países em desenvolvimento ganham mais poder de compra, a dieta alimentar muda radicalmente. Aumenta o consumo de diferentes carnes, frutos do mar, frutas e vegetais. Em 1990, de cada 100 casas na China, apenas 29 tinham geladeira. Hoje, mais de 80% das residências contam com o equipamento. Com isso, as vendas de laticínios, peixe e carne de frango alimentos que precisam ser refrigerados explodiram nas últimas duas décadas.
A importação de soja da China recebeu novo impulso com o salto registrado no consumo de carnes dependentes de rações feitas de cereais. Em média, para produzir 1 quilo de carne são necessários 8 quilos de grãos. Em 1990, 74% da população economicamente ativa da China vivia no campo. Hoje, estima-se que quase 50% dos chineses vivam nas cidades. Milhões de pessoas passaram a comprar sua comida em vez de plantá-la.
A fome dos chineses, a sedução dos produtores de milho americanos pelo etanol, a elevação do preço do petróleo são razões visíveis para a inflação mundial da comida. Tudo isso reunido obviamente despertaria a ambição do mercado financeiro. À medida que as commodities agrícolas foram se valorizando, um número crescente de investidores passou a aplicar nos mercados futuros o que levou muitos observadores a ver uma relação de causa e efeito entre a chegada deles e o aumento ainda maior dos preços.
Estima-se que só os gestores de fundos indexados a commodities tenham colocado 47 bilhões de dólares na bolsa de Chicago desde 2006. As novas aplicações somam 1 bilhão de dólares por semana. É natural que assim seja. Os especuladores só vão sossegar quando os preços caírem. E isso só vai acontecer quando houver novamente um equilíbrio entre oferta e demanda. O mundo precisa aumentar a produção agrícola, diz Dan Basse, presidente da AgResources, consultoria agrícola com sede em Chicago. Isso vale, em particular, para o Brasil.
Equilibrar oferta e demanda é algo especialmente complexo no setor agrícola. A produção do setor tem peculiaridades que tornam seu ciclo mais lento. Um fabricante de computadores ou de aparelhos de TV pode aumentar sua produção rapidamente com a aquisição de máquinas e a contratação de mão-de-obra. No caso de um empresário do campo, a expansão muitas vezes depende de mais terra, o que pode ser um limite físico. Em muitos países, há espaço para a expansão agrícola, mas faltam empreendedores. A pedido de EXAME, o Instituto de Estudos do Comércio e Negociações Internacionais (Icone), de São Paulo, avaliou a capacidade produtiva de 65 países agrícolas, responsáveis por 90% da área produtiva do mundo.
Em teoria, o panorama traçado no estudo é promissor. Hoje, somando todas as áreas agrícolas em uso, chega-se a 1,4 bilhão de hectares. Potencialmente há outro 1,1 bilhão de hectares que poderia ser destinado à agricultura, seja pela incorporação de terras novas, seja pela transformação de pastagens em plantações. Mas as barreiras para o aumento imediato da produção são grandes e diversificadas. A África, continente com maior estoque de terras, teria capacidade de triplicar a área de produção agrícola. Mas a instabilidade política da região e o baixo desenvolvimento econômico deverão ainda impor anos de atraso. Tome-se como exemplo Angola, país com 57 milhões de hectares agricultáveis, com menos de 10% da área atualmente dedicada à lavoura.
Apesar do potencial fantástico, o país atravessou quase três décadas de guerra civil que desmantelaram o setor produtivo, contaminaram os lençóis freáticos, eliminaram o rebanho de gado e jogaram por terra a tradição agrícola na população. No Zimbábue, disputas políticas levaram à expulsão da população branca que dominava a produção agrícola do país. Sem investimentos, a agricultura africana nunca será competitiva, diz o pesquisador Evaristo Eduardo de Miranda, da Embrapa Monitoramento por Satélite. Esse quadro poderá mudar se o governo chinês colocar em prática o plano de comprar vastas áreas agrícolas na África (a América do Sul também está no radar) para garantir a oferta de alimentos.
Na Índia, os entraves para a expansão da safra agrícola estão na estrutura fundiária. Cerca de 90% das propriedades rurais do país têm 1 ou 2 hectares. Comprar maquinário e investir em tecnologia é economicamente inviável para a maioria dos agricultores indianos. Em boa parte da Europa, as propriedades também são pequenas e seus donos vivem mais dos subsídios do que da competência produtiva. Para ampliar a produção competitivamente, é preciso ter escala. Os ganhos nas negociações de logística e de defensivos são brutais, diz Marcelo Aguiar, diretor no Brasil do AIG Capital, fundo de private equity que investe em terras.
Diante desse panorama no resto do mundo, o Brasil e a América do Sul surgem como lugares indispensáveis. A América do Sul é a região que está mais pronta para ser expandida rapidamente, diz André Nassar, diretor do Icone. O Brasil tem a maior fronteira agrícola do mundo isso sem avançar um centímetro na floresta Amazônica. São 133 milhões de hectares, dos quais 30% ainda não explorados e 70% que estão sendo usados pela pecuária.
Somadas, essas áreas equivalem a quatro vezes o território da Alemanha ou 12% das terras que ainda podem ser ocupadas com a agricultura em todo o mundo. Além do clima favorável e das terras abundantes, o Brasil conta com uma elite esclarecida de produtores rurais. São empresários conectados às inovações tecnológicas, que contratam executivos preparados para cuidar de suas fazendas e ligados nas cotações da bolsa de Chicago, o grande centro financeiro para quem lida com commodities.
Entre 1975 e 2007, o aumento da produtividade da agropecuária brasileira foi de 3,2% ao ano, bem acima da média internacional. Por essas razões, Paul Collier, professor de economia da Universidade Oxford e autor do livro The Bottom Billion (O 1 bilhão da base da pirâmide social, numa tradução livre), defende que o Brasil é a solução mesmo fora de seu território. A maneira mais realista de aumentar a oferta mundial de alimentos é replicar o modelo agrícola brasileiro, diz Collier. O país mostrou que somente grandes empresas conseguem fazer os investimentos necessários.
Apesar de todas as dificuldades para expandir a produção agrícola, os neomalthusianos ainda podem se provar errados. O futuro não necessariamente será sinônimo de mais fome. Projeções indicam que, em 2050, seremos 9 bilhões de seres humanos. E, se todos tiverem o padrão de consumo dos americanos, será necessário produzir cinco vezes mais alimentos. A chave para alcançar esse objetivo é a continuação da revolução verde iniciada a partir da década de 50 do século 20. Foi nessa época que começaram as pesquisas para o desenvolvimento de sementes melhoradas, técnicas de manejo e defensivos agrícolas mais efi cientes.
Uma segunda fase de progresso tecnológico aconteceu com a criação dos grãos transgênicos, de plantas geneticamente modificadas. Inicialmente, as pesquisas com transgênicos buscavam ganhos de produtividade e redução de custos no campo. Agora, olham para temas como aquecimento global e escassez de água. A multinacional Monsanto está desenvolvendo nos Estados Unidos uma variedade de milho para regiões onde há falta de recursos hídricos.
Em pouco tempo, a ciência poderá tornar a agricultura viável em áreas que estão fora dos mapas de potencial de produção. Esse é um processo conhecido no Brasil. Nos anos 60, a produção de café no país estava restrita às férteis terras roxas do Paraná e do oeste de São Paulo. Hoje, os melhores cafés brasileiros vêm de áreas de cerrado em Minas Gerais e na Bahia, que estão livres das ameaças de geada. Os rendimentos obtidos no cerrado brasileiro com a técnica de café adensado, que exigiu o desenvolvimento de variedades menores, superam em pelo menos 20 vezes a melhor produtividade alcançada nas terras roxas do Paraná há 40 anos, diz José Graziano da Silva, diretor da FAO para a América Latina e o Caribe.
Hoje, parte do problema é a defasagem entre o que se consegue nos laboratórios e o que realmente se faz no campo. Nesse sentido, mesmo um país com um setor rural avançado como o Brasil tem muito a melhorar. Se toda tecnologia já existente hoje fosse aplicada no Brasil, seria possível quase triplicar a produção de milho nacional sem expandir a área de plantio, diz José Garcia Gasquez, coordenador de planejamento estratégico do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. O mesmo raciocínio vale para as culturas de algodão e de arroz, que poderiam ter suas produções mais que duplicadas.
No caso da soja, os ganhos com a aplicação de tecnologia poderiam elevar a safra brasileira em 35%, passando dos atuais 60 milhões para 81 milhões de toneladas. Esse problema, obviamente, é comum à maioria dos países. Experimentos da FAO mostram que o rendimento no cultivo de batata no Peru, com toda a tecnologia já disponível, seria dez vezes maior do que se encontra na produção comercial.
Na maior parte da Europa, por exemplo, é proibido o plantio de sementes transgênicas. Além disso, há enormes benefícios potenciais de um choque de gestão e de infra-estrutura. No Brasil, cerca de 10% da safra de grãos se perde em estradas esburacadas. Na Índia, um terço das frutas e vegetais apodrece antes de chegar aos pontos-de-venda devido à falta de infra-estrutura. Com os preços nas alturas, certamente haverá mais incentivos para diminuir o desperdício. As previsões de Malthus não se tornaram realidade nos últimos 200 anos e, levando-se em conta os avanços da tecnologia e a quantidade de terras ainda disponíveis, podem continuar sendo apenas uma terrível ameaça.
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